sexta-feira, 16 de julho de 2021

 Firmeza e Constância


Muita gente acredita que abraçar a fé será confiar-se no êxtase improdutivo. A pretexto de garantir a iluminação da alma, muitos corações fogem à luta, trancando-se entre as quatro paredes do santuário doméstico, entre vigílias de adoração e pensamentos profundos acerca dos mistérios divinos, esquecendo-se de que todo o conjunto da vida é Criação Universal de Deus.

Fé representa visão.

Visão é conhecimento e capacidade de auxiliar.

Quem penetrou a “terra espiritual da verdade”, encontrou o trabalho por graça maior.

O Senhor e os discípulos não viveram apenas na contemplação.

Oravam, sim, porque ninguém pode sustentar-se sem o banho interior do silêncio, restaurando as próprias forças nas correntes superiores de energia sublime que fluem dos Mananciais Celestes.

A prece e a reflexão constituem o lubrificante sutil em nossa máquina de experiências cotidianas.

Importa reconhecer, porém, que o Mestre e os aprendizes lutaram, serviram e sofreram na lavoura ativa do bem e que o Evangelho estabelece incessante trabalho para quantos lhe esposam os princípios salvadores.

Aceitar o Cristianismo é renovar-se para as Alturas e só o clima do serviço consegue reestruturar o Espírito e santificar-lhe o destino.

Paulo de Tarso, invariavelmente peremptório nas advertências e avisos, escrevendo aos coríntios, encareceu a necessidade de nossa firmeza e constância nas tarefas de elevação, para que sejamos abundantes em ações nobres com o Senhor.

Agir ajudando, criar alegria, concórdia e esperanças, abrir novos horizontes ao conhecimento superior e melhorar a vida, onde estivermos, é o apostolado de quantos se devotaram à Boa Nova.

Procuremos as águas vivas da prece para lenir o coração, mas não nos esqueçamos de acionar os nossos sentimentos, raciocínios e braços, no progresso e aperfeiçoamento de nós mesmos, de todos e de tudo, compreendendo que Jesus reclama obreiros diligentes para a edificação de seu Reino em toda a Terra.

(Espírito Emmanuel-Fonte Viva-C. Xavier)


quinta-feira, 15 de julho de 2021

 O Inverno


É inverno, o céu se apresenta nebuloso, o sol mal consegue romper a cortina de névoa que acoberta as cidades e os campos, enquanto a folhagem queda, amortecida pelo frio.

Irmãos que vagueiam ao desabrigo encolhem-se, rentes às paredes, sob as copas das árvores, deitando-se às portas das casas e das lojas, envoltos em retalhos de sacos, ou em folhas de jornais.

O estômago vazio, contorce-se em dores. O corpo inteiro, abrigado apenas por farrapos, sente a corrente de frio amortecendo as carnes flácidas e magras.

Alguns não resistem, permitindo que a vida se escoe.

Alguns Espíritos, agarrados ao corpo físico, suportam, ainda, na ilusão da vida, as tremuras do ar gelado que, agora, envolve apenas o corpo inerte. 

São irmãos que, no resgate dos seus débitos, atravessaram a jornada terrestre em padecimento e miséria. Em vidas passadas, ricos e poderosos, o Espírito amortalhado no egoísmo, na vaidade e no orgulho, desperdiçaram valiosas oportunidades de elevação espiritual, assumindo pesados encargos que agora cumpriam resgatar.

Embora no resguardo da fortuna, no calor da fartura, interiormente eram apenas Espíritos forrados pela frigidez dos sentimentos. E esse é o pior dos invernos: o que cobre os corações com o gelo da ganância e da ambição; o que envolve, com a neve do egoísmo, os Espíritos egoístas, fazendo-os esquecerem-se do amor que devem ao próximo, por mandamento maior de Jesus; o que os torna cegos à luz da caridade; aqueles que compensam, apenas a si mesmos, com o fruto do seu ganho.

É na chegada ao Mundo dos Espíritos, em crises de agonia, que irão sentir - em vez do calor da lareira do Mundo Maior - o frio rigoroso do inverno que envolverá todos aqueles que ignoraram as Leis do Amor.

(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí…-Heitor Luz Filho)


quarta-feira, 14 de julho de 2021

 Empréstimo Oportuno


  • Empréstimo sem retribuição? E os juros? Vou ter prejuízo.

Bonifácio Resende espumava de raiva à simples menção do assunto. Pequena quantia. Pagamento a longo prazo. Facilidades.

O amigo Lourival, que intermediava a ajuda, dizia-lhe:

  • É caridade. A pobre senhora está em dificuldades. Precisa de amparo imediato.

Bonifácio respondia, veemente:

  • De jeito nenhum. Meu dinheiro é suado e não vou arriscá-lo sem garantia remunerada.

A conversa parou aí. Um, irredutível. O outro, sem graça pela recusa seca.

Contudo, a amizade entre ambos era sólida. Bonifácio não queria desagradar o amigo. Daí a alguns minutos sorriu e falou:

  • Está bem, é caridade. Vá lá ajudar a viúva.

Os anos rolaram. O usurário adoeceu. Enfermidade grave. Única solução, transplante de rim. Por muito tempo esperou um doador. Nada. A doença se agravava, reclamando solução urgente.

Finalmente, Lourival lhe trouxe um jovem disposto a submeter-se aos testes. Feitos os exames, realizou-se com êxito o transplante.

Bonifácio recuperou a saúde e quis saber a respeito de seu benfeitor. Indagou do amigo, que lhe contou a história:

  • Lembra-se da viúva a quem você emprestou sem juros? Aquele dinheiro salvou a vida do filho. Quando o rapaz soube de seu problema, se dispôs a “emprestar-lhe” um rim. Sem juros e sem garantia de devolução.

Terminado o relato, Bonifácio chorava. Começou a repensar a própria vida.

(Espírito Hilário Silva-Outras Histórias-Antônio Baduy Filho)