segunda-feira, 31 de maio de 2021

 O Céu


  • Sou pobre, mas vou para o céu. Os ricos que sofram no inferno. 

A raiva de Joaquim Feliciano não tinha limites. Experimentando necessidades materiais, aninhara a revolta no coração. Tornara-se amargo. Vingativo.

Desocupado, passava as horas espichado na rede, sonhando com o paraíso, além da morte. A esposa defendia o pão da casa. Costurava dia e noite. Preocupada, dizia a ele:

  • Não fale assim. A maior riqueza é o trabalho, e os tesouros da alma não convivem com o ódio.

Entretanto, o marido não lhe dava atenção às palavras e, entre um cochilo e outro, praguejava contra a vida. 

Certo dia, seu repouso foi interrompido por uma visita. Era um fazendeiro da região. Soubera de sua habilidade profissional. Precisava de seus serviços por longo tempo em fazenda distante. Providenciar-lhe-ia condução. Passaria os fins de semana em casa. Seria bem pago.

Joaquim ficou tonto com a proposta. O dinheiro seria bem vindo. Contudo, pensou no trabalho árduo. Irritou-se. E, para surpresa do visitante, respondeu, exaltado:

  • Olha, sou pobre e vim ao mundo para sofrer. Só estou esperando o céu. O senhor que se vire com suas propriedades. 

E, batendo com força a porta da casa, deitou-se de novo na rede.

(Espírito Hilário Silva-Outras Histórias-Antônio Baduy Filho)


sexta-feira, 28 de maio de 2021

 Natural Perturbação


Ariel acordou um pouco sobressaltado e, olhando para a mesinha de cabeceira, notou que o relógio marcava 13h15min.

  • Meu Deus, dormi demais! Ainda bem que hoje é domingo, pensou alto.

Meio tonto, foi à instalação sanitária existente na intimidade do quarto, fez a habitual higiene, trocou de roupa e saiu. Mas, quando ganhou a sala de jantar, deparou com a esposa e suas duas filhas chorando. Assustado, perguntou:

  • O que houve, gente? Algum problema? Por que estão chorando?

Esperou, esperou, e como ninguém se dignou a responder-lhe, dirigiu-se à sala de visitas, na qual notou que havia alguém. De fato, nesse compartimento, deparou o padre Vicente que, de braços abertos, veio ao seu encontro, abraçando-o.

  • Padre, falou Ariel, acho que não estou bem das minhas faculdades mentais, pois se não estou enganado, há vinte anos fui no seu enterro e, no entanto, estou vendo ou sonhando com o senhor, sei lá, como se realmente estivesse vivo…Olha padre, ontem fui a uma festinha e lá acabei ingerindo uma dose dupla de uísque. Não seria isso que me provocou essa perturbação? Acho que estou meio lelé da cuca e, por tudo isso, padre, vou tomar um banho. Quem sabe a minha confusão mental desaparece?

De fato, foi para o banheiro e, ilusoriamente, tomou um delicioso banho. Como sentiu muito sono, retornou ao leito e dormiu mais setenta e dois minutos. Após acordar, voltou à sala e lá padre Vicente continuava à sua espera.

  • Padre Vicente, estou melhor; entretanto, não entendo por que tudo mudou assim tão de repente, ou seja, estou enxergando as coisas de maneira diversa… Gostaria de ouvir sua opinião sobre esse meu problema, pois, sem nenhuma razão, vejo meus familiares chorando. Além disso, acho que fui ao seu enterro e, no entanto, vejo-o sorridente como se não houvesse falecido. 

  • Meu filho - falou padre Vicente - quando tomei conhecimento de que você estaria vivenciando este momento diferente, de natural perturbação, como seu velho amigo, vim aqui com a intenção  de ajudá-lo. Realmente, você se encontra ligeiramente confuso e, desejando sanar essa situação, preparei uma equipe médica no hospital onde sou um dos diretores a fim de atendê-lo. O amigo está disposto a ir comigo, ainda hoje, para uma avaliação?

Depois de meditar um pouco, acenando apenas com a cabeça, Ariel disse sim. Logo a seguir, os dois rumaram para um dos hospitais existentes na Dimensão Espiritual.


Para um Espírito comum, como nós, a fase da desencarnação ocorre mais ou menos assim.

Ariel, quando acordou naquele dia, às 13h15min, e deparou com os seus familiares chorando, fazia sete dias do seu falecimento. Filhas e esposa estavam chegando da missa que havia sido rezada em seu benefício.

Nos termos dos esclarecimentos de Allan Kardec (O Livro dos Espíritos, Q. 165), essa perturbação, que pode ser de horas, dias ou mais, é natural. Todavia, quanto maior evolução tem o ser, menor se torna o seu período de confusão mental.

De qualquer maneira, é muito bom termos amigos para nos recepcionar no regresso a essa outra dimensão, porém esses amigos não se fazem com conversas, mas sim com a constante ajuda ao semelhante que cruza o nosso caminho no dia-a-dia.

(Jair R. Oliveira-Crer ou Não Crer?)


quarta-feira, 26 de maio de 2021

 Aparências

Profligava o uso da carne.

Invectivava, severo, quanto à necessidade do regime vegetariano.

Expunha sobre as desvantagens decorrentes de alimentos animais.

Asseverava que tal regime brutaliza, abastarda.

O homem deve amar seus irmãos inferiores, respeitá-los, dar-lhes direito a viver.

Não é necessário que, para que uns sobrevivam, se proceda à matança ou a qualquer carnificina criminosa. A mesa rica de pão, frutos, legumes ou outros repastos, é a mesa do cristão - clamava.

Dizia-se frugal, exigia considerações: era vegetariano…

Usava, no entanto, inúteis artefatos de couro e era sexólatra atormentado e infeliz.


No cultivo da virtude seja prudente, realize a sua transformação moral de dentro para fora sem testemunhas, senão a própria consciência.

Mantenha o comedimento em tudo, em qualquer lugar, sempre.

A discrição como o equilíbrio são medidas salutares que atestam a excelência da sua convicção.

(Espírito Ignotus-Panoramas da Vida-Divaldo Franco)


segunda-feira, 24 de maio de 2021

 Semente do Bem 

O coronel Alberto possuíra , outrora, grande fortuna e poder. Fora cidadão influente na comunidade. Entretanto, acontecimentos infelizes levaram-no à quase penúria.

Vivia, agora, de pequena renda. Viúvo, morava só. Os filhos residiam fora e vinham visitá-lo apenas em ocasiões especiais.

Naquela tarde, alguém foi à sua casa. Deseja lhe falar. O coronel, sempre hospitaleiro, convidou-o a entrar. Após os cumprimentos, o jovem desconhecido explicou:

  • Coronel, o senhor não se lembra de mim, mas lhe devo grande favor. Há muitos anos, morei nesta cidade, filho de família bastante pobre. Um dia, com fome e sem dinheiro, apanhei algumas quitandas sem pagar. Foi uma confusão enorme. O senhor estava por perto e, certamente condoído de mim, pagou a dívida. Retirou-me do local e me deu um conselho que jamais esqueci. Após censurar meu ato impensado, o senhor disse: “menino, se quiser vencer na vida, seja honesto”. Sempre me lembrei de suas palavras e, por isso, agradeço-lhe de coração. Trabalhei, estudei e hoje exerço uma profissão. Tenho esposa, três filhos e vivo muito bem. Devo tudo ao senhor. Deus lhe pague!

Após o relato, o coronel estava em lágrimas.

Tivera fortuna, poder, posição social e tudo isto já não existia, mas a semente do bem, que plantara no coração daquele menino, esta não se acabara. Ali estava, transformada em planta vigorosa.

(Espírito Hilário Silva-Novas Histórias-Antônio Baduy Filho)


sexta-feira, 21 de maio de 2021

 O Juízo Final

Assim termina Jesus o Sermão Profético: “Quando vier o Filho do homem em glória e poder, acompanhado dos santos anjos, julgará todas as nações. Separará os justos dos iníquos, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À direita ficarão os escolhidos; à esquerda, os rejeitados. Aos primeiros, direi: Vinde a mim benditos de meu Pai, possuí como herança o reino que vos está destinado desde a fundação do mundo. Pois achei-me faminto, sedento, nu, peregrino, enfermo e encarcerado, e vós me assististes. Mas quando te vimos em tais condições e te prestamos apoio? objetarão eles. Retrucarei, então: Em verdade vos digo que todas as vezes que assististes os pequeninos da Terra, foi a mim mesmo que o fizestes.

“Voltando-me à sinistra, prosseguirei: Apartai-vos de mim, réprobos, para o fogo eterno, aparelhado para o diabo e seus anjos, porque me vi faminto, sedento, nu, peregrino, enfermo e encarcerado, e jamais me valestes. Nunca, senhor, te vimos sob tais condições e te abandonamos, dirão eles.

“Responderei abertamente: Em verdade vos asseguro que sempre que voltastes as costas aos pequeninos da Terra, foi a mim mesmo que o fizestes”. 

Ao Consolador, personificado na Doutrina Espírita, coube a glória de interpretar a sublime parábola acima transcrita, com o gravar em seu estandarte a sapientíssima legenda: “Fora da Caridade não há salvação”.

O planeta em que habitamos, como o corpo onde se acha enclausurado nosso Espírito, terá um fim. Os elementos de que se compõe se desagregarão um dia, como sói acontecer à nossa matéria, depois da morte. Eis, então, o momento da separação. Os que se acharem aptos, acudirão ao “vinde a mim”, seguindo o Mestre para novas terras onde habita a justiça, segundo o dizer de Pedro. Os reprovados, apartar-se-ão do Cristo, buscando mundos inferiores, compatíveis com suas tendências e paixões, onde os espera o fogo eterno das provações, aparelhado para vencer caracteres rebeldes e obstinados no mal, até que se habilitem, como filhos de Deus, à herança paterna que para todos está destinada desde o início dos tempos.

Como se vê, a grande dificuldade está em vencermos o nosso egoísmo. Ele é a causa da nossa perdição. Para vencê-lo, precisamos cultivar o amor. O amor, que é a caridade compreendida em sua íntima essência, representa a escada de Jacob que nos há de conduzir aos páramos celestiais. 

Jesus nada pede para si; não quer catedrais suntuosas, nem hosanas, nem homenagens, nem vanilóquios. Ele tem em si mesmo a glória e o poder. De nós, da Terra, nada precisa, nada deseja. Quer, apenas, que nos amemos uns aos outros, vivendo como irmãos, solidários com aqueles que ao nosso lado lutam e sofrem.

Tão pouco lhe importarão os pormenores de nossa fé, as particularidades de nosso credo: um quesito unicamente ele formulará, dependendo de sua resposta, negativa ou afirmativa, nossa ventura ou nossa desdita. Esse quesito é o quesito do amor. Como vivemos? Sob o império do egoísmo ou sob o influxo do amor? Se o egoísmo nos domina, nossas obras serão fatalmente más, porque ele é a origem de todos os males. Se reina o amor em nossos corações, nossas obras serão naturalmente boas, porque o amor é a fonte de todo o bem. Não há, pois, necessidade de referências particulares e minúcias. Não nos iludamos: “Fora da Caridade não há salvação” - tal é o lema do Consolador, encarregado de rememorar o que outrora ensinou o Filho de Deus.

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


quinta-feira, 20 de maio de 2021

 Diante da Vida

Milhões de vidas passaram antes de ti e consumiram-se na voragem do tempo. Passaram sem se encontrarem a si mesmas, porque passaram correndo atrás de outras vidas.

Não te iludas, buscando a vida fora de ti, no prazer, no dinheiro, na fama, na glória, porque o prazer, o dinheiro, a fama e a glória passarão no trânsito de todas as coisas e deixar-te-ão de mãos e coração vazios. Evita, pois, renovar o suplício constante de cada dia.

Jamais permitas que as convenções mundanas oponham embargos ao surto criativo da vida. Deixa que ela se exprima em ti, na plenitude e espontaneidade de suas forças se realmente queres libertar-te da ilusão e escravidão dos sentidos.

Não procures caminhos para um encontro com a vida. Quem procura um caminho para vê-la, arrisca-se a não encontrá-la jamais. Entre ti e a vida não há caminhos, simplesmente porque entre ti e ela não há espaço, nem distâncias. Tu a desconheces, porque te desconheces a ti mesmo.

O segredo de tua felicidade está em conheceres a identidade da vida que está em ti com a vida que está em teu semelhante. Não pode haver conflito entre duas ou mais formas de vida, quando elas descobrem a identidade de sua essência.

Não te aflijas com a perda de teus haveres. Lembra-te sempre de que não há pobreza para aquele que compreendeu o espírito da vida. 

Diante da vida, não tenhas medo ou coragem, porque medo ou coragem são atitudes incompatíveis com o espírito da vida. Tem simplesmente compreensão, porque compreensão é o que ela te pede, para franquear-te seus imensos tesouros.

Não pretendas fazer de tua vida uma cópia ou arremedo de outras vidas. Cada qual deve ser a expressão de seu próprio destino, naquilo que este tem de mais nobre e sublime. Sê, pois, tu mesmo, sem imitações, nem simulações.

Recorda-te, a cada instante, de que tua vida se acha entrosada na complexa e misteriosa urdidura do Universo. Nada, pois, do que existe te deve ser alheio ou indiferente.

Ama a tua vida, mas ama-a com aquele puro e desinteressado amor com que o artista ama a obra em que ele busca realizar-se. Dignifica-te nela, para que em ti se dignifique a própria humanidade.

A vida é feita de luta, mas, na luta pela vida, nunca assumas uma posição agressiva ou destrutiva, para que não agridas ou destruas a ti mesmo. Diante do mal, pratica o bem; diante da treva, faze a luz; diante do ódio, difunde o amor; diante da mentira, proclama a verdade.

Não penses que poderás evadir-te da vida, pela porta da morte, ou que, pela porta da morte, poderás ingressar na vida. Nunca estiveste ou estarás fora da vida, nem a vida esteve ou estará jamais fora de ti. Toma, pois, consciência da vida que jaz oculta na profundeza de ti mesmo, se queres tomar consciência da tua eternidade. 

(Rubens Romanelli-O Primado do Espírito)


quarta-feira, 19 de maio de 2021

 O Trabalhador Friorento

Mal repontavam na fímbria do horizonte as primeiras claridades do dia, quando o operário, trêmulo de frio, chegou ao local de trabalho, onde se erguia majestoso edifício.A poucos passos ardia pequena fogueira, de cujas chamas se irradiava delicioso calor. Instintivamente, aproximou-se do fogo e ali permaneceu longos minutos, inteiramente distraído de suas obrigações. Soada, porém, a hora de reencetar as atividades, afastou-se algo contrafeito, a fim de entregar-se à execução de sua tarefa.

Não havia ainda decorrido muito tempo e já começava a experimentar progressivo entorpecimento dos membros. Dificilmente resistia ao desejo de voltar ao calor do fogo, tão dolorosa lhe era a sensação de frio. Mas, à medida que se absorvia em suas ocupações, notava que o frio lentamente ia desaparecendo e todo o seu corpo entrava a irradiar calor. Sua primeira impressão era a de que se amenizara sensivelmente a temperatura. Refletindo, todavia, compreendeu que tudo não passava de ilusão, porquanto o frio continuava, como de início, a castigar-lhe o corpo. É que entregue a intensa atividade muscular, ele acabara por acender na trama íntima dos tecidos autênticos fogueira. Lograva assim descobrir que trazia dentro de si mesmo a fonte de calor que antes procurara fora. Exultante, concluiu que nunca mais haveria de sentir frio.

Tal é o comportamento do homem, frente à construção imensa de seu destino. Enquanto, na manhã caliginosa e fria de sua existência, ele permanece distraído de suas infinitas possibilidades, não pode prescindir do calor de outras almas.

Quando, porém, desperto pela dor, se dispõe a mobilizar as próprias forças, no abençoado labor da evolução, começa a perceber que, por detrás das brumas de sua fraqueza e ignorância, ergue-se triunfante aquele sol interior, com o qual vai ele sucessivamente se identificando. Finalmente, ele acaba por adquirir a consciência de seu maravilhoso poder, ao mesmo tempo em que experimenta a alegria de sua emancipação espiritual.

(Rubens Romanelli-O Primado do Espírito)


terça-feira, 18 de maio de 2021

 Momento de Transição

Embora a humanidade, desde os seus primórdios, conviva com a morte, foi somente há relativamente pouco tempo que ela se tornou melhor conhecida em seus aspectos fisiológico e psicológico, pois enquanto a vida, desde o seu surgimento na concepção, merecia cuidadoso estudo, seu término não recebeu durante largo período atenção equivalente, limitando-se os médicos a tornar menos penosa a situação dos doentes terminais. Fatores diversos contribuíram para essa atitude figurando entre elas, certamente, a imagem negativa da morte observada mesmo entre pessoas religiosas, que admitem a continuidade da vida após a disjunção celular.

As perguntas se apresentam espontâneas: “O que acontece, realmente, naquela hora? Sofre-se? Nossa consciência estará desperta, ou não? E o que virá depois, o prosseguimento de nossa individualidade ou o mergulho no nada absoluto como querem os materialistas?

Utilizando os recursos da mediunidade submetidos a controle racional, o Espiritismo afirma a continuidade da vida, mostrando que a morte não é o fim. Ela apenas encerra um ciclo de experiência e aprendizagem no mundo físico, prosseguindo a existência sob outras condições vibratórias.

Respondendo a Allan Kardec em “O Livro dos Espíritos”, esclareceram os orientadores espirituais que o momento da morte, para quem levou vida moral sadia, nada tem de dolorosos, assinalando-se, pelo contrário, por uma profunda sensação de paz. Quanto ao que ocorria quando a alma se dava conta de já estar no Mundo dos Espíritos, assim se expressaram aqueles benfeitores: “Depende. Se praticaste o mal, impelido pelo desejo de o praticar, no primeiro momento te sentirás envergonhado de o haveres praticado. Com a alma do justo as coisas se passam de modo bem diferente. Ela se sente como que aliviada de grande peso, pois que não teme nenhum olhar perscrutador”. Acrescentaram, ainda, que, neste caso, amigos e parentes já desencarnados vinham dar-lhe as boas-vindas auxiliando-o igualmente no desligamento completo da matéria.

O progresso da medicina nas últimas décadas permitiu que as pessoas que sofreram parada cardíaca e respiratória - mortas, portanto, pelos padrões antigos - tivessem revertida aquela situação e voltassem a viver normalmente, narrando, então, muitas delas, experiências vivenciadas naqueles instantes que confirmam as informações trazidas pela Doutrina Espírita há mais de 164 anos. É de notar-se, a propósito, que os primeiros relatos de situações de quase-morte foram feitos por indivíduos que não se achavam influenciados por narrativas análogas às suas, que só posteriormente começaram a aparecer na imprensa e no cinema, o que confere grande autenticidade aos seus depoimentos.

Vale lembrar, por fim, outro fator que contribui para a visão negativa da morte: Tendo-se em conta as informações acima quanto à possibilidade de paz e companhia de amigos naquele momento ou, pelo contrário, angústia e presenças hostis, e considerando-se a situação moral deficitária de expressiva parcela da humanidade, é compreensível que muitos - senão a maioria - tragam arquivados no subconsciente os registros de mortes dolorosas, o que, sem dúvida, ajuda a criar e manter o imaginário sombrio e a rejeição que a envolvem.

Na expressão do Espírito Manoel Philomeno de Mirando “morrer é prosseguir vivendo, apesar da diferença vibratória na qual se expressará a realidade”.

Aproveitando as informações e diretrizes oferecidas pelo Espiritismo, que possamos viver de forma a encontrar além da morte a continuidade, feliz, de nossa participação no trabalho do bem. (Danilo C. Villela-Enfoques Doutrinários)


sábado, 15 de maio de 2021

 O Engano


O rico homem de negócios parou o automóvel no acostamento da estrada e observou o pescador solitário, lá embaixo.

Relembrou, então, as próprias preocupações.

A vida atribulada dos negócios.

A empresa em processo de expansão, exigindo amparo contínuo.

As contas bancárias em movimentação intensa.

A Bolsa de Valores a pregar-lhe sustos periódicos.

As novas terras adquiridas recentemente e necessitadas de reorganização.

Os diversos escritórios reclamando sua presença constante.

Por fim, com um suspiro de desabafo, exclamou para si mesmo:

  • Isso é que é vida. Enquanto me mato, esse aí só quer sombra e água fresca!

E, descendo o aterro da estrada para um bate-papo amigo, descobriu com grande surpresa que o pescador era pobre homem, doente e faminto, que ali se encontrava há várias horas à procura de alimento.


Não julguemos a distância, nem invejemos as posições alheias.

Muitas vezes, a pessoa que imaginamos realizada e feliz é alguém em aflitivas provações, com problemas muito maiores que os nossos.

(Espírito Valérium-Histórias da Vida-Antônio Baduy Filho)


sexta-feira, 14 de maio de 2021

 A Cura


Lourenço Dias adoeceu. Moléstia pertinaz. Desconforto. Repouso forçado.

Há muito vinha se excedendo na atividade. Construíra grandes empreendimentos. Fizera fortuna. O mundo dos negócios, porém, afastara-o do convívio mais frequente da esposa e filhos, gerando conflitos intermináveis.

Agora, a paralisia o reteve em casa. O carinho da família e a presença das amizades não lhe amenizavam as horas duras. Dizia, revoltado:

  • Não aguento mais esta cama.

E o amigo Sinfrônio, espírita convicto, respondia calmamente:

  • É tempo de meditação. A doença é oportunidade de renovação. Mudança de hábitos. Caminho novo.

E, após cada visita, o amigo lhe deixava um livro reconfortante e esclarecedor. 

Lourenço começou a ler e a meditar. Após muitos meses de luta íntima, era um homem diferente. Ainda se prendia ao leito, mas adquiriu equilíbrio. Estava resignado. Compreendia os objetivos superiores da vida.

Ao expor a nova realidade ao companheiro, Sinfrônio se levantou de alegria e falou, comovido:

  • Glorifiquemos a Deus pela bendita transformação. Seu corpo está doente, mas sua alma está curada.

(Espírito Hilário Silva-Outras Histórias-Antônio Baduy Filho)


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Saudade e Solução

Não se conformava.

Solidão é penitenciária, dizia.

Desde que o esposo desencarnara, trancara-se nas paredes da revolta.

O segundo ano de viuvez infelicitava-lhe a existência.

Orava entre desesperada e rebelde.

Desejava rever o companheiro, abraçá-lo outra vez.

E como não conseguisse, expulsara do coração, egoisticamente ferido, o anjo da caridade…


Uma pobre tuberculosa que lhe traz um recém-nascido para cuidar, recebe reprimenda e xingamentos…

Deseja morrer, isto sim! Morrer para reencontrar o amor.

Fixada na saudade injustificável, lentamente deixou-se enlear nas malhas de pertinaz obsessão suicida.

Numa noite de loucura, abraçada ao retrato do companheiro querido, ingeriu tóxico violento, deixando-se arrastar pelo caminho sem fim da morte…

Mas não morreu!

Adicionando às próprias angústias as novas dores, deambulou tresloucada, anos a fio até ser vencida pelo cansaço e o infortúnio.

Orou, então, como nunca o fizera antes.

Diáfana figura em forma de mulher socorreu-a.

Esclarecida quanto à própria desdita, indagou pelo esposo idolatrado.

  • Retornou à Terra - respondeu a interpelada - para atender-lhe a saudade, no corpo do pequenino que fora repudiado, quando a mãe infeliz lhe buscara o socorro providencial…


O verdadeiro amor vence a morte e se desdobra infatigável, confiante e resignado.

Saudade insubmissa é grade de presídio e corredor de loucura.

(Espírito Ignotus-Panoramas da Vida-Divaldo Franco)


sexta-feira, 7 de maio de 2021

 A Mãe Que Desistiu Do Céu

Se soubéssemos respeitar o sentimento materno, não erraríamos tanto durante a nossa existência, pois que todo e qualquer insucesso e desventura que nos ferem, ferem, em maior grau, nossa mãe.

Têm sido as mães dos presidiários as figuras mais comoventes deste triste desvão da vida, a que damos o nome de cárcere. Nas audiências do Conselho Carcerário de Campinas, onde servimos muitos anos, as mães dos encarcerados sempre nos impressionaram sobremaneira.

Desde o momento em que o filho é detido e indiciado, a mãe começa a sofrer, como se lhe tivessem lancetando o coração. Quando então o Juiz da Vara Criminal exara nos autos o despacho condenatório, ela começa a morrer. Entra em agonia.

O pano de boca do palco judiciário esconde, atrás da ribalta, e longe dos olhos do público, um drama familiar que vai se prolongar por largos anos, e, às vezes, para sempre, no qual os figurantes são criaturas inocentes que não infringiram lei alguma: a esposa, os filhos menores e a mãe do delinquente. Nos quadros da “via crucis” poderão faltar todos, mas nunca a mãe.

Com que tenacidade, suportando toda sorte de humilhações, ela, tão frágil, pleiteia, justifica, explica, perambula pelos corredores do Palácio da Justiça, ou batendo à porta da cadeia, enfrenta leonicamente guardas, carcereiros, delegados, escrivães, a fim de conseguir um benefício para o seu filho, ou um amparo. Nenhum advogado melhor, mais eficiente, a tal ponto que mães simplórias, e até analfabetas, com o perpassar do tempo, acabam entendendo de prisão albergue, domiciliar, livramento condicional, reunificação de processos, anistia ou perempção. Algumas sabem de cor inúmeros artigos do Código Penal.

Uma velhinha surrada e moída, a quem perguntei se morava longe, respondeu-me: “Não. Moro pertinho da cadeia, apenas vinte quilômetros daqui”. E de que forma a senhora vai e vem? “Vou a pé. Somos pobres”.

Olhei bem para ela. Era mãe de um presidiário e a imagem da desolação. Pálida, anêmica e encarquilhada, vinha todos os dias, mesmo que fosse para ficar sentada na escadaria externa da cadeia. 

Quando, nesse emaranhado processual, os protagonistas vacilam, na fase preparatória, a mãe nunca o faz: “O meu filho é bom, muito bom mesmo…”

No olhar destas mães há tanta grandeza, quanto naquele de Jesus, virando-se para Dimas, o bom ladrão. “Não há dor igual à minha dor”, teria exclamado Maria diante do filho supliciado. E acredito piamente que teria sofrido muito menos se fosse ela a condenada ao madeiro infamante.

Ah! nossas mães, simples ou doutas, ricas ou pobres, vestindo andrajos ou arminhos! Mesmo depois que os seus olhos carnais se fecham com a morte, continuam no Além a velar por nós. Nas notícias que chegam à Terra, através das mensagens recebidas por Chico Xavier, os mortos contam que uma santa lhes apareceu no portal da vida para recebê-los com muito amor, e era simplesmente a sua mãe que partira antes.

Registra J. Doillet, na obra “Que é um santo?”, o fato que, desde o tempo do Império Romano, nas catacumbas, os vivos se dirigiam às mães, no epitáfio, pedindo para que elas, no Além, os protegessem na Terra. Assim, alinha tais evocações, entre as quais esta: “Mãe Ercília, que te foste, intercede por nós…”

Uma passagem é bem conhecida, acerca de certa mãe que, tendo morrido em santidade, foi conduzida ao Céu e recebida carinhosamente pela comunidade espiritual. Pelo tanto que lutara na vida, com nobreza e abnegação, colocaram-na em lugar aprazível, florido, cheio de encanto, musicalidade e conforto, cercada de almas angélicas, solícitas em servi-la. Ela, no entanto, se revelou inquieta e logo mostrou a razão, perguntando ansiosa:

- “Onde se encontra o meu filho Ditinho, que morreu bem antes do que eu?”

O Guia espiritual, esclareceu-a:

- “Ele está nas zonas inferiores purgatoriais”.

- Então - disse a mãe - me perdoem. Não posso ficar aqui no Céu e meu filho no inferno. Vou-me embora para ajudá-lo. Coitado do Ditinho, ele deve estar precisando de mim”. 

(Mário B. Tamasia-A Mãe Que Desistiu do Céu)


quinta-feira, 6 de maio de 2021

 Ternura Maternal

Comentando sobre a ternura maternal, vamos recolher fragmentos da história “A Moça de Catanduva”, contada por Divaldo Franco, constante do livro “O Semeador de Estrelas”, de Suely Schubert:

“(...) Quando cheguei à plataforma com Dona Lola e os demais companheiros, chamou-me a atenção uma senhora camponesa, despedindo-se da filha. A jovem era daquelas meninas bonitinhas, bem modesta, do interior, vestida com simplicidade, o cabelo liso, partido ao meio e muito mimosa. A mãe abraçava-a e se despedia, beijava-a e a abraçava de novo. A cena comovía-me. Fiquei olhando a ternura da mãe com a filha de dezoito ou dezenove anos. O trem deu sinal de partida. Despedi-me dos amigos Dona Lola, Senhor Bendito, Aparecida e entrei calmamente. A mocinha entrou também apressadamente. O vagão não estava muito cheio. Eu me sentei à janela, do lado da plataforma, para dar adeus aos amigos, enquanto ela sentou do outro lado, sozinha. Quando a composição começou a mover-se, eu vi que da mãe saía um fluido leitoso, como se fosse uma nuvem alongada - a ideia era de um arminho muito grosso de meio metro de circunferência, que brotava do centro cardíaco, entrava no trem e se implantava na moça. À medida que o veículo se movia, aquele fluido foi-se afinando, quase desaparecendo(...)”

Como habitualmente se diz, mãe é mãe. A sua ternura, o seu carinho maternal propicia laços fluídicos de amor que envolvem e protege os seus filhos.

Quantas e quantas vezes presenciamos mães soprarem sobre um machucado de uma criança e a dor ceder de imediato? Aí, diz o materialista, com o sopro, a mãe psicologicamente influenciou a criança, e ela, ilusoriamente, sentiu-se aliviada.

Não foi o alívio ilusório ou psicológico. Tal qual ocorreu com a moça de Catanduva, é esse fluido leitoso emanado das mães que minora a dor de seus filhos.

Benditas sejam as mães. Louvado seja Deus que colocou essas criaturas angelicais em nosso destino, aliviando-nos tanto o corpo físico como a alma. Dissemos alma porque, em muitas ocasiões, quando angustiados e amargurados, é do coração de nossa mãe que esparge o sopro divino a fim de lenir as nossas mazelas morais.

Não importa quem é quem. Mães pobres, mães ricas, iluminadas, criminosas, beatas, vulgares, segundo o conceito popular, todas oferecem o seu quinhão luminoso que envolve salutarmente os seus rebentos queridos.

(Jair R. Oliveira-Crer ou Não Crer)


quarta-feira, 5 de maio de 2021

 A Psicose da Época

Que é a verdade? Tal foi a pergunta que Pilatos fez a Jesus, e à qual o Senhor não deu resposta.

Quanta sabedoria nesse silêncio! Realmente, que se deve responder a quem formula semelhante pergunta? O indivíduo que a faz, lavra a sentença de sua falência mental. De fato, não pode haver maior atestado de insânia do que perder a noção da verdade.

Os psiquiatras empregam vários meios práticos para diagnosticar os casos de alienação. Não sei se eles se servem deste também. Se eu fosse profissional da especialidade, seria aquele o processo que de preferência usaria para aquilatar do estado mental dos meus clientes.

Não obstante, o estado atual deste século é precisamente aquele em que outrora se encontrava Pilatos. Os homens perderam a noção da verdade. Tantas vezes a menosprezaram, tantas vezes abafaram seu surto na esfera da razão, que acabaram por ignorar o que ela seja. Já não sabem discernir entre a luz e as trevas, o bem e o mal, a verdade e a impostura.

A razão humana acha-se obliterada como consequência  natural do esforço que o homem vem empregando em fazê-la funcionar às avessas. As faculdades psíquicas, como os órgãos físicos, são suscetíveis de enfermar. A razão do século está seriamente enferma. Os motivos que determinaram esse estado patológico são os mesmos que ocasionaram a perturbação de Pilatos, quando indagou de Jesus: Que é a verdade?  Por que este homem se sentiu incapaz de perceber a verdade? Exatamente porque se habituou a sobrepor à verdade os seus interesses, as conveniências da posição que ocupava. Viveu sempre constrangendo a razão, abafando a voz da consciência e a luz que estas faculdades, no exercício de suas funções normais, procuravam fazer em seu Espírito.

Sucede com a razão o mesmo que acontece com qualquer órgão do nosso corpo cuja função natural fosse contrariada sistematicamente. Tal órgão acabará, certamente, degenerando-se. Assim têm feito os homens. Na expansão desbragada do egoísmo, a cujo império se acham submetidos, acabaram desnaturando a razão. Com isso, perderam a noção da verdade. Perdendo a noção da verdade, perderam, consequentemente, a noção da justiça, a noção do dever, a noção da liberdade. A vida do século não tem mais senso. Tudo está invertido. Todas as coisas são feitas ao contrário do que deveriam ser. Não há naturalidade, não há realidade na vida social: o mundo está mergulhado nas trevas e no caos!

Como sair de tão precária situação? Como vencer semelhante anomalia? Como sarar tão grave psicose? Escutando e meditando a palavra do Redentor, do Filho de Deus, do grande Mestre, do Médico que sara as chagas do corpo e da alma: “Só a verdade vos libertará. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos”.

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


terça-feira, 4 de maio de 2021

 O Espelho

Valter Benevides era apaixonado por astronomia. Mal chegava a noite, lá estava ele grudado ao telescópio. Adorava ver os astros. Espírita, tinha consciência dos vários mundos habitados.

Moço inteligente. Bom preparo. Trabalhador correto. Contudo, era instável seu modo de ser. Ora estava alegre e comunicativo, ora carregava a fisionomia e não cumprimentava até mesmo os mais próximos.

Certo dia, quando cortava o cabelo com o amigo Euclides, o assunto veio à baila. Era visível seu mau humor. Começou a falar, sempre com a atenção do cabeleireiro, também adepto do Espiritismo. E o diálogo aconteceu.

  • Estou desgostoso.

  • Qual o problema?

  • Não suporto viver neste mundo.

  • A Terra é planeta de provas e expiações, onde pagamos nossas dívidas do passado e construímos com Jesus um futuro melhor.

  • Gostaria de resgatar meus débitos em mundo mais feliz. Quero paz, compreensão, harmonia.

  • Acho que não dará certo.

  • Por que não?

  • Olhe-se bem no espelho.

Valter ficou irritado. Após um instante de silêncio, comentou com rispidez:

  • E daí?

Euclides, sempre amável, explicou, sorridente:

  • Com essa carranca, logo estará de volta.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)


segunda-feira, 3 de maio de 2021

 Imprevistos

Vou lhes contar a história de Maria da Penha. Moça simples e pobre, nascida nos secos do Nordeste. Ainda muito jovem, arranjou um companheiro. Aos dezessete anos, já tinha o Claudecir, com dois anos, e estava grávida de Maridalva, quando o companheiro demandou para as bandas do Sul. Ele queria arranjar a vida e buscar a família. Foi e não voltou. Não se sabe que destino levou. Nenhuma carta, nenhuma notícia…

Cansada de esperar o marido, na penúria do Agreste, resolveu vir para o Rio de Janeiro. Seu irmão mais velho, operário da construção civil, recebeu-a em casa dele. Penha logo arranjou umas faxinas e, como a casa fosse muito apertada, quis ter um lugar para morar com os filhos. Ganhando pouco, sem marido, teve que se contentar com um barraco pendurado no morro. Mesmo assim, sentia-se feliz com a vida. As patroas lhe davam roupas, sapatos, e estavam decentemente vestidos. Não faltava o que comer nem beber.

Claudecir, a quem chamava Deci, foi para a pré-escola, pois já contava com seis anos. Maridalva, a Dalva, ficava na creche. Pouco se viam - um tantinho à noite e outro de manhã - mas muito se amavam.

Penha estava de folga naquela segunda-feira. Seus serviços foram dispensados porque a patroa fora viajar. Aproveitou o tempo livre, pegou as crianças e foi para a cidade. Na semana seguinte Dalva faria quatro anos e queria dar-lhe uma boneca de presente. Estava contente por poder fazer o agrado à filhinha, ela que só tivera sabugos como brinquedo de infância. Se Deus lhe desse força e saúde, daria aos filhos uma vida cheia de agrados…

Na verdade, Penha se assemelhava às crianças. Mal saída da adolescência, acalentava sonhos e fantasias. Apesar de ter amargado no Agreste, era nesses sonhos que encontrava forças para superar as adversidades e alimentar a esperança. Tinha fé humana na realização de uma vida mais amena, tinha fé divina a sustentá-la durante o caminho espinhoso dos dias difíceis. 

Andaram encantados pelas lojas de brinquedos. Perderam a noção do tempo, naquele mundo mágico de beleza e faz-de-conta. Porém, as crianças começaram a reclamar, estavam famintas. Foi quando Penha retornou à realidade. Olhou para o céu e viu as pesadas nuvens, que prenunciavam um forte temporal. Sentiu urgência em voltar para casa. Deixara o varal cheio de roupas, que não podiam molhar. Comprou sanduíches para os filhos e foram apressados para o ponto de ônibus.

Distraída, Penha distribuiu as balas que vieram de troco. De repente, Dalva começou a gritar, espernear, balançando a cabeça. A mãe não sabia o que estava acontecendo e, muito menos, o que fazer. Deci foi quem descobriu o motivo do desespero da irmãzinha, dizendo:

  • Mãe, ela enfiou a bala no nariz.

Penha tentou tudo para tirar a bala de lá. Nada. Quanto mais tentava, mais a menina se contorcia e a bala parecia penetrar mais e mais. 

Uma senhora, que presenciava a cena, sugeriu com voz de experiência:

  • Leva a menina para o Pronto Socorro… Desse jeito, só vai piorar, vai ferir essa narina tão pequenininha…

O serviço de urgência do Pronto Socorro estava atribulado. Houvera um acidente envolvendo um ônibus e três automóveis, e as vítimas iam chegando, chegando… Passaram duas horas e a menina não fora atendida. Dalva já tinha chorado o que podia. Estava exausta e ofegante. Maior foi a aflição que Penha experimentava, quando a chuva veio torrencial.

Meia hora depois, a criança sorveu grande quantidade de ar e espirrou. A bala foi arrojada com força, despedaçando-se no chão.

Assim que a chuva amainou, não havendo motivo para permanecer ali, a família foi para casa. Chegaram ao entardecer e Penha ficou estarrecida diante do que viu: um deslizamento de terra sepultara a sua casinha num monte de lama. Ali, sob o barro, estavam todos os seus pertences, adquiridos com tanta dificuldade. Mas a tragédia maior não era a sua. Outras casas estavam soterradas e os bombeiros se movimentavam procurando vítimas.

Penha perguntou a que horas acontecera o incidente e lhe informaram que há uma hora atrás. Então a moça sentiu um choque: se não fosse o incidente da bala, estariam debaixo daquela massa de pedra e lama! Olhou o céu cinzento e deu graças a Deus.

Os desabrigados foram recolhidos num colégio em reformas. Apesar de morar precariamente, Penha deu seguimento à sua vida, alimentada pela fé e movida pela coragem. 

Dona Eneida, a patroa da faxina de quinta-feira, muito sensibilizada com a situação da moça, conversou com conhecidos e amigos, procurando uma solução para tão angustiante problema. Procurou e achou: uma vizinha estava precisando de uma pessoa que fosse trabalhar para um primo seu. Sua tia morrera recentemente e o moço, solteirão passado dos cinquenta, precisava de alguém para cuidar dos serviços domésticos e permanecer na casa em sua ausência. 

Poucos dias depois, Penha se mudava com os filhos. Foram morar nos fundos da residência do novo patrão. Era uma edícula espaçosa e mobiliada. Tinham agora o que sonharam antes: sofá, geladeira e até televisor em cores!

Inicialmente, o patrão impôs condições. Quis que as crianças ficassem longe da casa, que não fizessem barulho, que não o importunassem de jeito nenhum. Hábitos adquiridos na solidão. Mas, com o tempo, foi se afeiçoando aos pequenos. Dava-lhes presentinhos e ria das pequenas travessuras. Não permitia que nada lhes faltasse.

Hoje, Penha sonha com os filhos já formados, encaminhados na vida. Sonha também quando descasca uma bala de hortelã: lembra do incidente que tirou tudo o que possuíam, para lhes dar muito mais depois…

(Isabel Scoqui-A Cada Conto um Ponto)