sexta-feira, 30 de abril de 2021

Estrada Cunha Paraty

A Caridade Que Não Salva

A cerimônia já se encaminhava para o final e, no grande ambiente da catedral em reformas, as pessoas se acotovelavam entre andaimes e escadas. Acostumados ao comparecimento semanal e rotineiro, cada um seguia os rituais repetindo as frases constantes do folheto orientador do culto daquele dia. 

Jerônimo e Adelino (Espíritos), atendendo às exortações do Dr. Bezerra, lá estavam para os estudos ligados à caridade. Haviam escolhido começar por um templo religioso de orientação católica, porquanto, certamente, no ambiente da fé encontrariam as referências à virtude em foco, para que a apreciassem em profundidade.

A um canto da nave, acercando-se de um casal que, despreocupado com a cerimônia, observavam um mural quadriculado colocado sobre um cavalete, encimado pelo título escrito em letras garrafais: Doadores do Piso da Igreja.

Falando aos sussurros, a mulher dizia ao esposo, ambos já na casa dos cinquenta:

- Meu bem, olha só, os Oliveira doaram dez mil. Que coisa pouca. São uns muquiranas, isso sim, imagine...

- É, querida, tirar dinheiro dessa gente não é fácil. Eles são muito financistas. Veja a família Barreto. Essa já é um caso de ostentação. Doaram trinta mil e estão em destaque no quadro.

- Como é que vamos fazer para não ficar atrás, querido? Não podemos deixar de figurar nesta tabela de benfeitores. Afinal, tudo bem que Jesus andava descalço, mas a sua igreja está se esmerando em colocar granito de primeira no piso. A gente está sempre sendo observado por aquilo que aparece. Nossa demonstração de fé não pode ser menor do que a deles, senão vão pensar que estamos mal das pernas. Além do mais, a gente sabe que quem dá aos pobres, empresta a Deus, não é mesmo?

- Olha, Mariana, já sei o que fazer para conseguirmos desbancar os Barreto lá do alto, assumindo o lugar deles. Vou conversar com Dom Barcelos depois da missa e ver se, fazendo uma doação de cinquenta mil dividida em cinco parcelas de dez, ele nos coloca lá no alto. O que você acha?

- Bem, meu querido, creio que só se o Bispo for muito exigente ou estiver querendo proteger os Barreto. Do contrário, acho que ninguém poderá nos negar a posição principal. Mas, como é que você vai fazer essa doação? Vai tirar das economias que estamos juntando para a nossa tão sonhada volta ao mundo no ano que vem?

- Ora, Mariana, pensa que eu nasci ontem? Claro que não. Jônatas, nosso amigo deputado, está organizando uma "boquinha" no governo para nossa empresa, porque ele controla uma verba que precisa ser gasta até o final do ano. Caso não o faça, terá que devolver o dinheiro aos cofres públicos. Então, vamos usar nossa empresa para validar essa transação, recebendo e dando-lhe uma parte do valor para a sua caixinha pessoal. O que ficar com a gente, colocamos no rol das despesas ou nas doações para a caridade, e assim, além de fazermos o bem, causamos inveja nesse povo metido que gosta de aparecer. Jonatas conta com a gente e a gente conta com ele. E, ao final, é Jesus quem acaba se beneficiando mesmo, com um granito dos melhores para o chão de sua igreja.

- Eita, Lucas, você sempre dando nó em fumaça, meu querido. Os Barreto vão ficar loucos da vida.

E a conversa seguia por outros comentários pouco elevados, enquanto a cerimônia chegava ao final, com a despedida dos presentes e o casal  Ribas dirigindo-se ao gabinete do Bispo Barcelos, para os entendimentos à organização do tão "generoso" ato de caridade. No dia seguinte, o nome da família Ribas estava no topo da lista, estimulando a corrida para a demonstração de grandezas e vaidades, orgulhos sociais e competições mesquinhas, sob o título de caridade. O próprio bispo conhecia as mazelas humanas e delas se valia estimulando  esse clima de disputa entre as vaidades para que, ao final, a catedral fosse a maior beneficiada. Da mesma forma, o bispo esperava que a indignação dos Barreto gerasse uma outra doação de mais alguns milhares de reais e, assim, conseguisse manter as luxuosas reformas da catedral, com o mármore e o granito em detrimento da fome dos infelizes. 

Jerônimo e Adelino entreolharam-se, compreendendo num relance que não estavam presenciando nada que se aproximasse do conceito real da Caridade preconizada por Jesus. 

(Espírito Lucius-Herdeiros do Novo Mundo-André L. Ruiz)


quarta-feira, 28 de abril de 2021

 A Renúncia


Comentava-se, certa vez, nos domínios da Espiritualidade, que um homem rico, cuja fortuna suscitava a cobiça e a inveja dos amigos e de seu círculo social, renunciou a tudo, até aos prazeres da vida, para iniciar nova etapa da existência.

O fato causou mais escândalo do que se houvesse ele se apossado, indevidamente, de bens alheios, pois isso não seria inédito no meio em que vivia. 

Ninguém compreendia o seu gesto de desprendimento, ou talvez, de loucura, como diziam. Estefânio Moura não era homem de atitudes largas ou de sentimentos altruístas.

Conhecido milionário, sagaz e ambicioso, era uma verdadeira águia nos negócios. A decisão de Estefânio explodira como um ato de autêntica insanidade. Incompreensível para aqueles que o conheciam tão bem e para quem já havia padecido em suas garras ávidas de lucros.

Nos dias em que os interesses prevalecem sobre todas as coisas, em que o dinheiro custa os olhos da cara, renunciar aos bens e aos ganhos, como se estivesse apenas a jogar na sarjeta algumas moedas, era uma atitude inacreditável, que merecia ser apreciada por uma junta de psiquiatras. Na cidade, ouviam-se muitas conversas a esse respeito.

“Pois o Estefânio agiu assim”, propalavam, incrédulos.

Vendeu as propriedades e títulos da Bolsa, alienou os bens adquiridos e os herdados, e lavrou um longo testamento doando tudo à igreja.

Ao que se sabe, conseguiu, a troco das doações, envergar um hábito e ingressar num convento, como irmão leigo, para aguardar, na humildade, entre rezas e penitências, o juízo final.

Tudo o que se dizia era verdade. Da autenticidade dos fatos nos davam referência alguns contadores de caso da Espiritualidade, que os coligiam, aliás, nas mais diversas Colônias Espirituais.

  • Estefânio Moura, quando aqui chegou, de volta do plano material, colheu os frutos de tanta magnificência? - indagou um dos que ouviam, interessado, a conversa.

E outro, curioso, demonstrando ainda pouco conhecimento:

  • Ao despertar, após a desencarnação, certamente foi levado para um local de paz e luz? Tanto desapego pelos bens terrenos deve ter resultado num prêmio para o seu Espírito.

Ante o silêncio do contador de casos, perguntou:

  • Pois não foi Jesus quem disse que aquele que quisesse se salvar deveria deixar para trás os bens da Terra?

  • Sim, foi o Mestre - explicou -  Mas assim pretendia incentivar os homens a se apegarem mais aos bens espirituais, olvidando os do mundo e enriquecendo o coração com as virtudes da caridade, do amor, da Humanidade, da abnegação e da renúncia.

Um ouvinte, também interessado na questão, interpelou:

  • O Estefânio, sendo muito rico e conseguido libertar-se das coisas do mundo, não teve o seu mérito reconhecido? Não foi para um plano elevado?

  • O nosso Estefânio até hoje anda por aí, na erraticidade, penando, sem compreender o que aconteceu. E o pior é que, revoltado, grita aos brados, nas esquinas do Umbral, que pregaram uma peça nele, um autêntico “conto do vigário”, Induziram-no à renúncia de tudo para usufruírem dos seus bens, amealhados com tanta garra, esquecendo-se, todavia, dos juros elevados que cobrava, dos seus negócios inescrupulosos, que lesaram até o erário público.

Prosseguindo ante a assistência atenta, esclareceu:

  • O pobre Estefânio foi mesmo iludido, mas por si mesmo, imaginando que, ao doar sua fortuna à igreja, iria assegurar uma cadeira cativa na Mansão do Pai. No entanto, sua fortuna acumulou-se ilicitamente. Ele não se apiedava dos pobres devedores que não conseguiam sequer pagar os juros dos empréstimos. Em seu tesouro acumulavam-se moedas adquiridas com as lágrimas dos semelhantes, por intermédio da corrupção de maus servidores públicos e também com a exploração de negócios escusos. Ao renunciar aos bens adquiridos, já no fim da vida, em vez de seguir a Jesus, despojando-se dos haveres supérfluos em favor dos necessitados, doou-os, por interesse próprio,a uma riquíssima instituição, a fim de garantir-se, reservando um lugar no reino dos Céus. 

Ainda dessa vez, Estefânio realizou, apenas, mais um dos seus negócios.

(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí…-Heitor Luz Filho)


terça-feira, 27 de abril de 2021

 Sonho Revelador


Joana dos Santos, jovem de 20 anos, olhava-se no espelho e a imagem refletida causava-lhe momentos de tristeza.

  • Como poderá alguém gostar de mim? - dizia - se mais pareço uma bruxa? E caía em compulsivo choro, até cansar-se.

Essas cenas sucediam-se, toda vez que tivesse que olhar-se no espelho, para pentear-se ou maquilar-se.

Realmente o seu corpo causava dó: rosto fino, nariz adunco, cabelos raros e de cor indefinível, além da magreza de causar pena. Para agravar o conjunto nada lisonjeiro, era coxa, defeito proveniente da paralisia que tivera quando criança.

Nem colegas conseguia arrumar, apesar dos esforços nesse sentido, a fim de ter com quem expor os seus problemas ou mesmo falar sobre futilidades próprias de sua idade. Diante desta triste situação, vivia só, taciturna, imprimindo no rosto o quadro angustiante que lhe ia na mente.

Em noites mal dormidas, indagava-se: - O que eu fiz para ter tão triste sina?

Como Deus não desampara nenhum de seus filhos, por mais imperfeitos que eles sejam, Joana também foi agraciada pela misericórdia divina, recebendo a visita de seu anjo guardião, durante o sono,no qual, como num passe de mágica, transformou-a em bela dama, ricamente vestida, que deslizava em amplo e rico salão de baile, juntamente com garboso cavalheiro.

Ela estava estupefata pelo quadro que presenciava e do qual era participante. Quando novos quadros revivia, nos quais desempenhava sempre o papel de cortesã, vendendo o corpo para desfrutar do luxo e do convívio da alta sociedade, da qual participava com figura decorativa e desejada, sentia-se como uma rainha, sem ser da nobreza.

Em torno de si, moços e quarentões prostravam-se, no intuito de conquistar tão bela criatura. E ele, leviana como era, escolhia aquele que mais pudesse oferecer-lhe.

As cenas sucediam-se, e Joana, no começo radiante, aos poucos foi enjoando-se dos espetáculos aviltantes, de que era figura principal, até que não suportando os mesmos, desesperada, gritou: - Chega!...

Como se fosse num filme, nova cena apresentou-se, agora no Plano Espiritual, pois uma entidade radiante dirigia-lhe a palavra, dizendo: - A escolha que fizeste, reencarnando em corpo defeituoso, feio e em família paupérrima teve a nossa aprovação e proteção. Vá, lute e persevere e terás a eliminação dos débitos do passado, harmonizando-se com a Lei e com os companheiros dessas existências delituosas.

No dia seguinte, Joana, ao acordar, lembrava-se, suficientemente, do estranho sonho que tivera, tendo a certeza de que ele era uma resposta de Deus às suas indagações, compreendendo, perfeitamente, que a sua condição atual, de moça desprezada, feia e miserável, nada mais era do que o resultado dos erros que cometera, exigindo reparação, sem contudo ferir o livre-arbítrio, pois tal condição fora produto de sua própria escolha.

Sorriu; agradeceu a Deus; pediu forças ao seu protetor espiritual; e prometeu a si mesma que iria encarar a vida com estoicismo e compreensão, certa de que o que lhe acontecia era o mais indicado para o seu próprio bem. 

As reparações poderão ser adiadas, mas, fatalmente, um dia terão que ser enfrentadas. 

Os problemas nunca erra de endereço.

Ninguém sofre inocentemente.

São lições milenares, mas sempre atuais, porque fazem parte do mecanismo da Justiça Divina. Assim sendo, enfrentemos os sofrimentos físicos ou morais, pacientemente, mesmo porque, assim fazendo, a cruz tornar-se-á mais leve.

(Antonio F. Rodrigues-Contando Histórias)


segunda-feira, 26 de abril de 2021

 Proteção

Com 102 perguntas, o capítulo IX da segunda parte de “O Livro dos Espíritos” é o mais extenso de nossa obra básica, contendo um décimo de suas questões. Seu título - “Da Intervenção dos Espíritos no Mundo Corporal” - nos permite compreender a razão dessa abordagem tão cuidadosa. É que ele continha informações inteiramente novas nos ambientes cristãos, condicionados, durante muitos séculos, a acreditar na existência de uma barreira quase intransponível entre os dois planos da vida, atravessada apenas por entidades angélicas ou demoníacas, em suas excursões à Terra, ou por individualidades santificadas. Pessoas comuns, ao morrer, estariam impossibilitadas de se aproximarem de seus entes queridos, e estes poderiam orar por elas, que não teriam, no entanto, condições de enviar qualquer resposta.

A verdade demonstrada pelo Espiritismo, é que ocorre exatamente o oposto, verificando-se o contato e a influência permanentes entre encarnados e desencarnados, embora os primeiros só raramente tenham consciência disso.

A antiga crença de que seres invisíveis ajudam a humanidade é o registro intuitivo, mas impreciso, de um fato autêntico, cujas características reais a Doutrina Espírita dá a conhecer. Assim, em lugar da velha suposição, segundo a qual somente elevados mensageiros poderiam nos auxiliar, agindo apenas em determinados momentos e de maneira espetaculosa - o milagre - para remover instantaneamente as dificuldades, o Espiritismo nos informa quanto à existência  de um sistema de proteção, dirigido na Terra por Jesus, mas integrado por entidades de vários níveis, algumas delas, inclusive, próximas a nós em termos de maturidade espiritual.

Esse dispositivo funciona em caráter permanente e de forma tão natural que quase sempre não o percebemos, pois atua proporcionando-nos forças e sugestões ou até criando circunstâncias para que nós mesmos resolvamos os problemas, adquirindo, dessa forma, mais amplos recursos em termos morais e intelectuais. 

Todos temos, com frequência, esses amigos bondosos e experientes ao nosso lado, prontos a nos dar apoio, mas respeitando sempre a nossa liberdade de aceitar, ou não, o que nos oferecem.

A mensagem espírita nos convida a enfrentar, com equilíbrio, os obstáculos ao invés de pedir a sua remoção pura e simples - superando-os com paciência, tempo e ação perseverante no bem, com a certeza de que estamos sendo valiosamente ajudados.

Devemos lembrar, por fim, que esse elaborado sistema de proteção e orientação constitui mais uma evidência do amor, com que Deus, nosso Pai, nos envolve, conduzindo-nos pelas trilhas da evolução à conquista da felicidade plena a que todos estamos destinados.

(Danilo C. Villela-Enfoques Doutrinários)


sexta-feira, 23 de abril de 2021

 O Jogo da Substituição


Tão compenetrada quanto lhe permitiam seus sete anos, a garotinha instalou-se nos joelhos paternos e indagou:

  • Papai, você gosta de viver?

  • Sim, filhinha, muito! Quem não apreciaria a vida tendo um tesouro como você?

  • Papai não quer morrer, meu anjo. Quem lhe disse isso?

  • Ninguém. Eu é que pensei… Na aula de evangelização a “tia” explicou que o uso do cigarro é uma espécie de suicídio. Provoca doença grave. Você fuma tanto!... Imaginei que desejava morrer.

  • Danadinha! Você tem razão. Pois bem, papai vai lutar contra esse veneno fumegante. Mas não será fácil. Muitos tentam e acabam derrotados pelo “enroladinho de fumaça”.

  • Sabe, paizinho, a “tia” ensinou que o cigarro pode ser vencido pelo jogo da substituição.

  • Substituição?!

  • Sim. Sempre que sentir vontade de fumar, inicie a brincadeira procurando um pobre e veja o que pode fazer em seu benefício. Assim fica fácil, porque há tantos passando fome, que você vai sentir vergonha de não usar o dinheiro do cigarro na compra de alimentos para eles. Não terá coragem de fumar enquanto existirem pobres. Não vai fumar nunca mais, porque pobreza é o que não falta no mundo.

  • É uma boa ideia, meu amor. Vamos começar já. Você vem comigo?

  • Claro! E teremos uma ajuda que não falha. A “tia” sempre diz que Jesus vai com a gente quando procuramos socorrer alguém…


Toda família se beneficia com a iniciação dos filhos no aprendizado da Vida Eterna. Iluminando seus Espíritos, não só ajudaremos a caminhar com segurança, como teremos neles precioso estímulo em favor de nossa própria renovação.

(Richard Simonetti-Atravessando a Rua)


quinta-feira, 22 de abril de 2021

 Comparações


Gerôncio Godói vivia de mau humor. Palavra seca. Fisionomia carregada. Pouca prosa. Com frequência, ficava emburrado longo tempo e por motivos banais. Sua fama de mal-humorado corria em toda a região. Além disso, parecia sempre doente. Sem vigor. Apático. Sem energia. Tal situação piorava mais ainda seu aspecto.

Contudo, apesar da carranca, era comerciante de relativo sucesso. Mercearia pequena, mas sortida. Administrava o estabelecimento com rigidez. Nunca sorria e, quando raramente conversava, era para zangar com os funcionários ou orientar algum cliente. Ficava na frente da loja, atrás de pequeno balcão, de onde fiscalizava todo o movimento.

Irineu, freguês antigo e espírita conhecido na cidade, falava-lhe sempre:

  • Abra o coração, homem. Mau humor é cólera concentrada. Siga o Evangelho e mude seu interior. É o melhor para os dias vindouros.

Gerôncio escutava calado, mas não escondia a contrariedade.

O tempo passou. Certa vez, quando Irineu foi à mercearia, o comerciante o acompanhou nas compras. Queria conversar. Saber das lições de Jesus e da renovação íntima. Estava preocupado com o futuro.

O espírita deu as explicações. Expôs com clareza o assunto. Foi sincero, às vezes até contundente.

Gerôncio gostou, mas não deu o braço a torcer. Pegou um abacaxi e disse:

  • Você se parece com ele. É agradável, mas ácido.

Irineu contestou rápido. Tomou um legume na mão e comentou, sorridente:

  • E você com seu mau humor é amargo como este  jiló.

Pela primeira vez, o comerciante sorriu.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)


terça-feira, 20 de abril de 2021

 O Desabafo

O confrade Simon, residente na região nordestina, anualmente saía de sua cidade natal a fim de passar suas férias junto ao clã familiar de sua esposa, numa pequena comunidade do interior mineiro. Nesse reduto, fez sólida amizade, granjeando grande admiração por parte dos confrades espiritistas. Simon era notável expositor dos postulados kardecistas. Possuía um rico conhecimento doutrinário e o seu timbre de voz encantava a todos. Sua explanação era cheia de nuanças singulares e isso enchia os olhos do público presente. Sua presença era o bastante para atrair os espiriteiros, livres pensadores e até mesmo pessoas de outras religiões. Não só no meio espírita, mas também na praça pública, junto ao homem comum, Simon, na sua singular expansividade, conquistava a amizade de todos. Enfim, onde se fazia presente habitualmente, um grupinho de pessoas se formava ao seu redor.

No Centro Espírita, Simon afeiçoou-se ao casal Marcondes e daí, quando retornava à cidade mineira, no fim de cada ano, antes de tudo, corria à residência desses amigos. Ficara muito bem impressionado com a vidência da confreira Marcondes e a maneira pela qual ela dialogava com os Espíritos, revelando para terceiros notícias incontestáveis.

Um dia, veio do Nordeste a triste notícia. Aos quarenta e poucos anos de idade, devido a ataque cardíaco fulminante, Simon falecera. Partia para a Pátria Espiritual o amigo de todos.

Mais ou menos cinco anos depois, Simon apareceu à Sra. Marcondes e lhe disse:

  • Cara amiga, estou de volta ao meio… Ficarei junto com vocês nas atividades do Centro. Fiz um curso de dois anos e agora o mentor espiritual, responsável por esta casa, acolheu-me na sua equipe.

Assim, em todas as reuniões do grupo, inclusive no Culto do Evangelho no Lar da família Marcondes, Simon marcava presença. Ele era muito querido pelos adolescentes desencarnados, pois, em algumas comunicações, esses Espíritos prazerosamente diziam serem seus alunos.

Recentemente, deixando transparecer uma leve tristeza fisionômica, Simon desabafou com a Sra. Marcondes:

  • Querida amiga, no Plano Espiritual, a gente trabalha demais e, mesmo assim, somos muito cobrados pelos superiores hierárquicos. Quando acreditamos que as nossas realizações são exuberantes, na hora da avaliação, os superiores amigos enxergam apenas um diminuto óbulo. Outra coisa, na Colônia onde estou filiado, existe um receptáculo especial, individualizado, com a finalidade de registrar as preces de agradecimento proferidas em nosso favor pelos amigos, parentes, simpatizantes, etc. Isso é tão importante que influencia positivamente na apuração do nosso bônus-hora. Pois bem, você acredita que nesse tempo todo de desencarnado, a minha caixinha registrou apenas meia dúzia de preces em meu benefício? Ninguém, nem amigos, nem filhos ou outros parentes se lembram de orar para esse seu criado… Na realidade, sou ainda um simples trabalhador residente no Mundo dos chamados mortos, mas cheio de saudades e carregando um pouquinho do nocivo germe da decepção na intimidade diante desse alheamento dos amigos. Sou ainda carente de afetividade dos velhos companheiros que na Terra deixei…

O lamento quase “santo” de Simon tocou-nos profundamente e confessamos que a carapuça vestiu-nos na medida certinha, já que raramente oramos para os desencarnados que julgamos estar em boas condições espirituais. 

Na questão 665 de “O Livro dos Espíritos”, Kardec, perguntando aos benfeitores espirituais se devemos ou não “rejeitar a prece em favor dos mortos”, esses responderam: “Aos homens, disse o Cristo: ‘Amai-vos uns aos outros’. Essa recomendação contém a advertência para o homem empregar todos os meios possíveis para testemunhar aos outros homens a afeição…”

Pois bem, é natural essa “afeição” que devemos manifestar aos desencarnados. É o justo reconhecimento de nossa parte, não importando que o Espírito esteja em boas condições espirituais. 

Não é que Simon esteja cobrando algo, mas é que esse reconhecimento de nossa parte o ajuda muito.

A grande verdade é que nós, os espíritas, habitualmente, se tomamos conhecimento que o amigo está bem na Espiritualidade, esquecemo-nos de orar por ele. E, até pelo contrário, passamos a pedir sua ajuda para os nossos problemas pessoais. 

Assim, que oremos sempre para os amigos e inimigos desencarnados sem a preocupação de conjecturar se eles estão ou não em condições luminosas.

(Jair R. Oliveira-Crer ou Não Crer)


segunda-feira, 19 de abril de 2021

 Conselhos Antigos Aos Jovens Modernos

Se fosse chamado a dizer alguma coisa aos jovens, eu repetiria o que Sêneca disse a Galion, na “Bem-aventurada Vida”, que resumiríamos assim: ‘Não siga o jovem aqueles que não ligam para nada, blasonam do próprio caráter leviano e irresponsável. Todo o tempo que vivemos vagando debaixo das cargas sugestivas destes tipos, seguindo-os e ajuntando-se a outros, debaixo de inspirações menos nobres, estamos sujeitos a praticar tantos erros na existência, que possivelmente a vida toda será pouca para que nos arrependamos”.

E é conselho valioso que tem mais de dois mil anos! Raramente, o moço exemplar, aplicado, honesto e fiel aos seus elevados ideais, insiste para que os colegas o sigam. Preocupado em crescer e trabalhar, ou estudar duro, para tanto, não tem horários vazios, para bancar madrinha de tropa. Cumpre o seu dever e não se imiscui na vida dos outros. Mas, já os bagunceiros, têm a necessidade de dar demonstrações de força e prestígio. Insistem muito e geralmente convencem os demais.

Quando garoto ainda, havia na cidadezinha em que me criei, um jovem deste tipo que se fazia sempre seguir por um bando. Às tantas saía na calada da noite, ele na frente e os outros atrás, armados de estilingues para a excitante aventura de quebrar todas as lâmpadas elétricas. Na noite seguinte, programava acossar animais nos pastos, judiando tanto destes que os mesmos se atiravam pelas barrocas e de cima de pontes, rebentando-se todos.

Já tendo alcançado a adolescência, conheci um rapazinho, em minha terra natal, que exercia a estranha liderança sobre os jovens. Com extraordinário poder, arrastava os comparsas para bordéis, levava-os a curras e até lhes dava aula prática de gigolô. Nesse tempo, eu vivia inteiramente voltado para os livros. Não me lembro de um jovem sequer, embora convivesse com eles, organizássemos serestas, que tivesse sido atraído por mim a exercícios literários ou para o lado sério da vida. O homem é mais facilmente contagiado pelo seu lado fraco. Daí que os nobres de alma tenham de trabalhar duro o solo para nele vicejar a virtude e a sabedoria.

Sêneca, na obra citada, fornece aos jovens diretrizes para que não fiquem no meio do caminho e se vejam decaídos e lastimados. Diz aquele notável filósofo, que foi preceptor de Nero: “O jovem deve se conscientizar ou deixar bem claro, na sua mente, o alvo que deseja atingir. E para fazê-lo, deve estudar o caminho a ser trilhado. E manter firmeza de propósito. Quando estamos seguindo uma estrada de terra, objetivando alcançar uma cidade, podemos nos dar ao capricho de sair da via larga convencional e seguir por um trilho, caso verifiquemos que esse trilho encurta a distância e se encontra bem batido. No entanto, quando se trata da nossa vida moral, se ansiamos para alcançar a felicidade, quase sempre o caminho mais cômodo é o que engana mais. Não deve o jovem fazer como as ovelhas que seguem as que vão adiante, sem cogitar de que caminham inconscientes para a tosquia ou para o matadouro. Nada nos leva a maiores males do que nos deixarmos guiar a opinião, tomando por bom aquilo que é aprovado e seguido por muitos. Seguir a maioria não significa escolher o melhor”.

De fato, a sabedoria antiga é sempre sabedoria, ontem como hoje. A mim me tem acontecido de receber pais aflitos, em minha atividade espírita, aos quais se encontram derruídos, pelo fato de os filhos terem sido presos pela Polícia e levados ao xilindró por práticas de atos reprováveis. No fundo, vão verificar que se tratam de más companhias e de modismos: “Todo mundo puxa fumo, vamos puxar também”. Assim, com a jovem que logo fica mal falada e desacreditada em virtude de ter a cabeça feita pelas amiguinhas que lhe sugerem  insistentemente: “Todo mundo hoje pratica o amor livre, vamos também praticá-lo”.

Por tudo isto, este eminente filósofo da antiguidade, Sêneca, insiste num ponto em que raramente insistimos: “Não nos apartemos nunca da razão, pois Deus nos deu cabeça para pensar e não para que nos sentemos em cima dela”. 

(Mário B. Tamassia-A Mãe que Desistiu do Céu)


sexta-feira, 16 de abril de 2021

 O Livro dos Espíritos


Na Terra os acontecimentos mais relevantes sob o ponto de vista espiritual não são percebidos pela grande maioria de seus contemporâneos, dominados pela rotina e por preocupações e interesses de ordem imediata.

Foi assim ao tempo de Jesus, cuja mensagem, destinada a renovar nossos padrões de convivência, permaneceu quase desconhecida por largo período, passando a ser notada somente quando o número maior de seus seguidores lhe deu visibilidade.

De maneira análoga, o aparecimento de “O Livro dos Espíritos” nas livrarias de Paris, a partir de 18 de abril de 1857, não chamou a atenção de forma especial, apesar da boa acolhida que teve por parte do público. No entanto, tratava-se de um marco importante na história da Humanidade, pois, a partir dele, alterava-se profundamente a conceituação acerca do Mundo Espiritual, anteriormente caracterizada pelo mistério e pela superstição, modificando-se, também, o relacionamento entre os dois planos da vida. Caíam as barreiras erguidas pela ignorância entre os “vivos” e os “mortos”, podendo agora estes transmitir àqueles notícias confiáveis sobre o que os aguardava após a morte. Além disso, em consonância com a mentalidade moderna, observava-se, pela primeira vez, a compatibilidade entre as afirmativas religiosas e os dados positivos da ciência, aproximando-se, assim, duas ordens de ideias consideradas, até então, distintas e mesmo antagônicas.

Submetendo o material obtido através da mediunidade a critérios de racionalidade e universalidade e acrescentando-lhe comentários seus, de profunda lucidez, Allan Kardec compôs essa obra, na qual se acham definidos os pontos essenciais da Doutrina Espírita, desdobrados, posteriormente, nos demais livros que constituem a Codificação. Surgia, assim, a Terceira Revelação em continuidade à tradição judaico-cristã, como o Consolador prometido por Jesus, doutrina que, por assentar suas bases nas próprias Leis Divinas, permanecerá conosco para sempre, consoante a afirmativa do Mestre (João, 14:16).

Muito jovem em termos históricos, pois está em seu segundo século de existência, o Espiritismo não desempenha ainda o papel social que o futuro lhe reserva - na condição de Cristianismo Redivivo - de operar a transformação da Humanidade, proporcionando aos indivíduos a consciência  de sua natureza espiritual e demonstrando-lhes a existência de Leis, estabelecidas pelo Criador, que lhes cumpre conhecer e respeitar na construção da felicidade própria e alheia. 

Os espíritas encarnados desfrutamos da oportunidade, rara, de participar do período inicial de uma nova revelação, cabendo-nos, sobretudo, manter fidelidade à Doutrina a fim de transmiti-la com integridade às gerações porvindouras na construção progressiva do futuro melhor, em que o bem esteja em toda a parte, expressando a presença do amor, ensinado e exemplificado por Jesus, em nossos corações.

(Danilo C. Villela-Enfoques Doutrinários)


quarta-feira, 14 de abril de 2021

 Tua Cooperação

O teu próximo necessita de tudo quanto a ti é valioso na vida.

Concede-lhe o tesouro da tua cooperação, irradiando, na sua direção, pensamentos de bondade e de simpatia.

Ninguém vive sem o milagre da cooperação.

Mesmo que o não percebas, tudo e todos cooperam para que vivas e cresças no rumo da meta para a qual renasceste.

O teu próximo, igualmente, não prescinde dos teus pensamentos positivos da tua cordialidade.

É certo que há pessoas portadoras de expressões que as tornam antipáticas à tua convivência. Não obstante, é necessário envolvê-las nas tuas vibrações de ternura.

Da mesma forma, não te enganes. Exteriorizas, sem que o percebas, manifestações psíquicas que te fazem animoso e antipático a outras pessoas.

Gostarias que o teu próximo dissimulasse as dificuldades e limitações que possuis, oferecendo-te receptividade agradável e cordial.

Age da mesma forma, em relação aos que te parecem desagradáveis.

Coopera com Deus, na edificação do bem irrepreensível, não te escusando à lavoura da gentileza, nem ao contributo da tua amizade.

Ninguém sobrevive sem o auxílio da afeição de outrem, quanto vida alguma se desenvolve sem o ar de que se nutre, salvadas, apenas, as bactérias anaeróbias de existência breve.

Um tijolo cooperando com outro levanta a construção.

Um grão se une a outro, no silêncio do solo, e eis nascente a seara luxuriante.

Uma molécula se agrega a outra e a galáxia se espraia pelo infinito.

Doa a tua cooperação, por menor te pareça.

Ao fazê-lo, evita o impositivo da tua paixão, a exigência da tua forma de ser, pois que isto representa uma cobrança do que supões ofertar.

Quando alguém oferece algo a outrem, a si próprio se enriquece.

O pólen, arrastado pelo vento, é responsável pela fecundação, sem qualquer imposição de sua parte.

A chuva tomba, generosa e espontânea, sustentando a vida e reverdecendo o solo.

Não te imponhas nunca.

Jesus, cooperando com o homem, não obstante a voz imperativa que lhe caracteriza toda a mensagem, foi claro ao dizer: “Aquele que quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me”, mediante a condicional da vontade de cada um.

No entanto, é o sublime Construtor da Terra e tudo que nela existe.

Coopera, portanto, com a vida, esparzindo bênçãos onde estejas, com quem te encontres, conforme surja a oportunidade.

Retribui com amor ao amor que a vida te oferta…

(Espírito Joanna de Ângelis-Alerta-Divaldo Franco)


terça-feira, 13 de abril de 2021

 Espíritos Madrugadores

“Não o poder de recordar, sim o poder de esquecer constitui uma das condições necessárias à nossa existência." São essas, leitor, as palavras iniciais de “O Nazareno”, do eminente escritor Sholen Asch.

Admirável essa intuição dos poetas, escritores, músicos, artistas em geral… Aqui vemos um autor, formado na melhor tradição judaica, definir de maneira tão elegante e precisa o esquecimento que desce sobre o nosso Espírito quando reencarnamos. Realmente, para o Espírito que precisa recompor a sua vida e retomar o seu caminho evolutivo, o esquecimento é condição necessária, indispensável mesmo.

E, por mais estranho que pareça, muita gente suicida-se na ilusória esperança de “esquecer” os problemas, as dificuldades, as tragédias, as dores, as dúvidas, as mágoas, a vida, enfim, quando é exatamente nascendo que as esquecemos, e não morrendo… Ao morrer, é que recuperamos a nossa memória integral e damos um balanço no que fizemos e choramos aquilo que deixamos de fazer. Como a vida do Espírito não começa com o nascimento e nem termina com a morte, vamos de uma existência a outra aprendendo e refazendo e errando cada vez menos.

Por isso, no intervalo entre uma vida e outra, paramos para meditar e estudar o plano de trabalho que desejamos realizar no futuro. Auxiliados por amigos dedicados e de profunda sabedoria, traçamos todo um programa, não apenas para a duração do período em que ficamos no Espaço, na condição de Espírito, como ainda em nova existência terrena, quando retornamos a um novo corpo carnal para nele prosseguir o aprendizado. Então renascemos esquecidos, como seres humanos, do passado de lutas e angústias. É bem provável que tenhamos ocupado posições eminentes aqui ou ali, nas Artes, na Religião ou na Política. É muito provável que tenhamos feito uma ou outra coisa mais acertada, mas é seguramente certo que erramos bastante e gravemente. O registro desse passado está inteirinho, sem faltar um iota, em nosso Espírito, mas, como homens e mulheres encarnados, convém que não nos lembremos nem de glórias, nem de dores, a fim de que não se perturbe a nossa disposição de acertar.

Ao renascermos, trazemos no Espírito todo o plano de trabalho elaborado no Espaço, mas como homens não sabemos ao certo em que consiste este programa. Cabe-nos descobri-lo, pela meditação, pela introspecção, ouvindo a voz profunda e serena da consciência. 

Custa-nos muito, às vezes, a despertar para essa realidade. Nos anos de formação que vão da infância até a juventude, deixamo-nos, com frequência, levar por impulsos que não atendem ao interesse da nossa condição espiritual. Seres que noutras vidas já viveram existências exemplares, de verdadeiros santos, consomem alguns anos numa busca inútil de rumo. Muitos se deixam fascinar por doutrinas inteiramente errôneas, ou se anestesiam na corrida louca de sensações mundanas e prazeres efêmeros. É que o Espírito, sentindo em si o chamado ilusório da matéria, nem sempre consegue desprezá-lo em favor do seu trabalho maior e mais nobre. Mal acordado para a consciência de ser humano encarnado, sente-se vibrante de vida e vigor. A juventude à sua volta se diverte e busca as emoções do mundo, por que não ele também?

Tenho para mim que assim como o ser recapitula, no campo puramente biológico, toda a sua experiência anterior, também o Espírito passa por todas as suas fases evolutivas. A embriologia conhece bem o fenômeno, e, segundo seus ensinamentos, o embrião vem desde um minúsculo ponto, quase como se fosse uma simples ameba, e vai, por etapas sucessivas na escala percorrida através dos milênios, da fase aquática até a terrestre. Também o Espírito parece percorrer, outra vez, no princípio de cada vida, a sua experiência psíquica.

De repente, um pequeno evento, um gesto, uma palavra, uma dor e eis que se desencadeia nele todo um processo de deslumbramento da realidade escondida. De repente, eis que Francesco di Bernardone se transforma em Francisco de Assis. Está cansado das estripulias com seus companheiros, de serestas e de banquetes. Não mais o atraem as belas roupas e as lindas moçoilas. O jovem mais rico e despreocupado da cidade, o seu “primeiro gozador”, como diz um dos seus biógrafos, para como que fulminado por um clarão imenso, que rasgou o véu de sombras que encobria a verdade.

Não é preciso ter poderes especiais para adivinhar todo o drama daquele Espírito. Não se tornava ele um santo naquele momento. Ele já era santo, no sentido mais amplo, mais divino da palavra e não apenas na sua expressão canônica. As belezas da sua alma apenas dormiam no fundo do ser. Ali estava um grande, um imenso Espírito, experimentado por muitas e antigas encarnações. Talvez até mesmo tivesse palmilhado, ao lado do Cristo, aquelas poeirentas e ensolaradas estradas da Palestina.

Somente aos 23 anos de idade, depois de misteriosa doença, abre-se-lhe a visão para a realidade última. Daí em diante, sua vida é todo um poema de amor, daquele outro Amor, maiúsculo, eterno, puro e alegre, que se multiplica em dar-se, que se enobrece na humildade, que tão facilmente transcende até a espécie humana e se estende a toda a criação, desde o irmão Sol até o mais humilde peixinho.

Seria crível que tudo aquilo, toda aquela torrente de luz pudesse escoar tão generosamente de um coração onde antes não havia luz? Ao contrário, ali estava um Espírito de elevadíssima hierarquia; só faltava um pequeno impulso para se abrirem de alto a baixo os diques que retinham aqueles tesouros de amor e caridade. Despertara Francesco para a sua própria realidade. Descobrira em si mesmo a centelha divina que trazia no fundo do ser. Alcançara o nível que lhe era próprio, resultado legítimo do longo aprendizado, abrigo seguro que construíra ao cabo de inúmeras lutas e rígidas renúncias.

Mesmo assim, com toda aquela imensidão dentro de si, Francesco precisou de 23 anos de vida física para despertar o espírito. Alguns só despertam mais tarde. Passam, antes, por desvarios e descrenças. Extraviam-se pelas veredas da negação, deixam-se capturar pelos artifícios da dúvida, perdem-se nas trevas dos erros mais graves, como se totalmente deslembrados da sua verdadeira condição espiritual. Outros, finalmente, nem chegam a despertar numa existência e retornam ao Mundo Espiritual sem terem conseguido sacudir, na carne, o torpor do Espírito.

Muitos desses levam a vida em aflições incompreensíveis que procuram, cada vez mais, afogar em sensações passageiras. Outros, que trouxeram programas e compromissos, vivem a receber advertências e chamamentos de toda sorte, de variada natureza e origem. Nesta categoria estão, com impressionante frequência, aqueles que se preparam no Mundo Espiritual para o exercício da mediunidade entre os homens. Aqui chegados e esquecidos da tarefa que se impuseram, eles próprios vivem numa angústia permanente, vitimados por dores estranhas que nenhuma radioscopia descobre e nenhum médico pode curar.

Há, finalmente, aqueles que madrugam. Mal começam a despertar a consciência na vida terrena, alumia-se-lhes todo o Espírito das claridades que trazem em si e cedo iniciam o trabalho programado. Se são médiuns, já na adolescência começam o seu exercício. Se trazem missões de caridade, desde o primeiro pão que ganham, começam a partilhar com aqueles que têm menos. Se decidiram cultivar o intelecto para divulgar ideias, já em criança os vemos como que hipnotizados aos livros. Se se destinam ao aprendizado da música, antes que as mãozinhas possam executá-la já sentem no espírito todas as harmonias do Espaço e começam a expressá-la. São muitos os madrugadores, mas nós, que custamos a despertar, redobremos no esforço para que as sombras da tarde não venham encontrar a nossa tarefa ainda pela metade. Vamos trabalhar, amigos, para recuperar o tempo que já perdemos. Quem sabe da próxima vez não vamos também madrugar, para começar a tarefa ainda com a fresca luminosa da manhã?

(Hermínio C. Miranda-Candeias Na Noite Escura)


quarta-feira, 7 de abril de 2021

 Salva Pelo Filho

Joseana estava gravemente enferma, problema nos rins. O mal vinha progredindo inexoravelmente. Os médicos davam-lhe poucos meses de vida. Espírita convicta, participava ativamente do Centro Espírita que frequentava, dedicando-se particularmente aos trabalhos de evangelização infantil. Sua vocação eram as crianças. Adorava cuidar delas.

A doença impusera-lhe o afastamento da tarefa. Sentia-se deprimida, desanimada, quase aceitando o fato de que em breve partiria para o Além, não obstante seu empenho em viver. Afinal, tinha três filhos para criar e um abençoado compromisso de orientação à alma infantil.

Então começaram os sonhos. Via-se em hospitais onde a submetiam a cuidadoso tratamento, com a utilização de aparelhagem desconhecida, que funcionava, aparentemente, em bases de magnetismo. Eram lembranças fragmentárias. Pouco registrava. Um detalhe, porém, fixou-se em sua memória: diziam-lhe que seria curada por seu filho Mauro.

Os resultados não demoraram. Joseana animou-se com aqueles sonhos. Efetivamente, começou a melhorar. A fraqueza diminuiu sensivelmente. Voltou o apetite, favorecendo nova disposição. Retomou a tarefa no Centro. Em alguns meses recuperou-se totalmente.

Ficaram apenas as recordações de uma experiência difícil, certamente vinculada a débitos cármicos, e da curiosa revelação onírica: o filho fora o agente da recuperação.

Por quê? Como? Mauro não era nenhum médico ou taumaturgo. Apenas um filho muito querido de seis anos, assim como Júnior, da mesma idade, e Magali, de cinco. Os meninos não eram gêmeos. Na verdade não chegavam a ter a mesma idade. Havia uma diferença de três meses entre ambos, prodígio facilmente explicável: Mauro fora adotado. Criança abandonada, viera ter em seu lar no sexto mês de uma gestação complicada, marcada por dores e constantes ameaças de aborto. Não obstante, tomara-se de amores pelo bebê. O marido, homem generoso e sensível, também se emocionou com o enjeitadinho. Assim, em poucos meses, o lar fora enriquecido com dois garotões. 

Desejando definir o que tinha o menino a ver com sua cura, Joseana aproveitou o ensejo de uma conversa com Juvêncio, mentor espiritual do grupo de trabalhos mediúnicos que frequentava, e perguntou-lhe a respeito do assunto. A entidade amiga ouviu-a atentamente e respondeu, carinhosa:

  • Realmente, minha filha, foi graças ao menino que você encontrou a recuperação. Fazia parte de seu quadro de provações um retorno mais cedo à Espiritualidade, com a frustração de seus sonhos e ideais relacionados com a jornada terrestre. Ocorre que, ao acolhê-lo, embora enfrentando gravidez difícil, e lhe dedicando imenso carinho, nossa irmã “queimou” parte de seu carma, beneficiando-se com a dilação de algumas décadas no seu programa reencarnatório. Terá, portanto, a ventura de ver seus filhos criados e encaminhados na Vida, além de muito serviço pela frente, no abençoado ideal da evangelização infantil.

Ante a emoção da jovem senhora, que chorava discretamente, Juvêncio concluiu, sorrindo:

  • Rejubile-se! Muita gente retorna ao Plano Espiritual antes do tempo, após comprometer irremediavelmente a vestimenta carnal com indisciplinas mentais e intemperanças físicas. Você é dessas criaturas cuja permanência na Terra situa-se por investimento promissor de Deus.

Então Joseana compreendeu que, amparando uma criança, na verdade ajudara a si mesma.

As experiências cármicas não obedecem a cego determinismo, nem é o sofrimento o único recurso de resgate de nossas dívidas do pretérito.

Podemos melhorar consideravelmente nossas chances de felicidade no Mundo, amenizando os rigores da Lei de Causa e Efeito com o exercício do Bem, até mesmo em favor de uma existência mais longa e produtiva.

Isso não é novidade. Simão Pedro, interpretando o pensamento de Jesus, proclama, na sua primeira epístola à comunidade cristã, que o Amor cobre a multidão dos pecados.

(Richard Simonetti-Endereço Certo) 


terça-feira, 6 de abril de 2021

 Embainha Tua Espada

A guerra foi sempre o terror das nações.

Furacão de inconsciência, abre a porta a todos os monstros da iniquidade por onde se manifesta. O que a civilização ergue, ao preço dos séculos laboriosos de suor, destrói com a fúria de poucos dias.

Diante dela, surgem o morticínio e o arrasamento, que compelem o povo à crueldade e à barbária, através das quais aparecem dias amargos de sofrimento e regeneração para as coletividades que lhe aceitaram os desvarios.

Ocorre o mesmo, dentro de nós, quando abrimos luta contra os semelhantes…

Sustentando a contenda com o próximo, destruidora tempestade de sentimentos nos desarvora o coração. Ideais superiores e aspirações sublimes longamente acariciados por nosso Espírito, construções do presente para o futuro e plantações de luz e amor, no terreno das almas, sofrem desabamento e desintegração, porque o desequilíbrio e a violência nos fazem tremer e cair nas vibrações do egoísmo absoluto que havíamos relegado à retaguarda da evolução. 

Depois disso, muitas vezes devemos atravessar aflitivas existências de expiação para corrigir as brechas que nos aviltam o barco do destino, em breves momentos de insânia… 

Em nosso aprendizado cristão, lembremo-nos da palavra do Senhor:

  • “Embainha tua espada…”

Alimentando a guerra com os outros, perdemo-nos nas trevas exteriores, esquecendo o bom combate que nos cabe manter em nós mesmos.

Façamos a paz com os que nos cercam, lutando contra as sombras que ainda nos perturbam a existência, para que se faça em nós o reinado da luz.

De lança em riste, jamais conquistaremos o bem que desejamos.

A cruz do Mestre tem a forma de uma espada com a lâmina voltada para baixo.

Recordemos, assim, que, em se sacrificando sobre uma espada simbólica, devidamente ensarilhada, é que Jesus conferiu ao homem a bênção  da paz, com felicidade e renovação. 

(Espírito Emmanuel-Fonte Viva-C. Xavier)