sábado, 29 de agosto de 2020

 Excesso de Atividades

Antônio vivia assoberbado com as atividades profissionais. Engenheiro que era, preocupava-se excessivamente com os avanços tecnológicos das máquinas sob sua responsabilidade, em particular as que ficavam na sala de mecanização.

Muito centrado nas coisas materiais, justificava que não dispunha de tempo para frequentar o templo religioso. Acreditava que estaria protegido se alguém da família orasse por ele.

Assim, esquecia-se completamente da vida espiritual. 

Sua mãe, embora fosse também ligada à matéria, era dotada de bons princípios. Depois que desencarnou, sem qualquer resistência, começou a frequentar as aulas no Plano Espiritual e preparou-se para ajudar o filho. 

Por meio de suas preces constantes e sinceras, dirigidas ao Criador, obteve a permissão de aproximar-se dele a fim de ajudá-lo a trabalhar pela sua transformação moral. Devido à sua dedicação, conseguiu autorização para conduzi-lo aos estudos.

Após várias aulas, envolvido pelo clima acolhedor e fraterno do ambiente espiritual, aceitou fazer uma reflexão sobre a sua postura diante das coisas materiais e da família. E exclamou para si mesmo:

- Quantas coisas acumuladas que perecem com o tempo! Quantos tesouros perdidos!

Referia-se ao amor da esposa, dos filhos e dos amigos.

Compreendeu que o verdadeiro sentido da vida consiste em desenvolver e cultivar o amor. 

Arrependido e emocionado, pediu a Deus e a Jesus a oportunidade de recomeçar a renovação íntima e dos próprios valores. 

Nessa situação encontram-se muitos homens, que passam a maior parte da vida lutando com todas as forças para conseguir a realização pessoal em diversos campos, como o profissional, social, intelectual e afetivo. Para atingir tais objetivos, assumem excesso de compromissos e atividades. Destes, parte expressiva deseja mais: conquistar status, poder e ostentar valores materiais.

No esforço para obter êxito, seguem os padrões humanos, muitas vezes, sem observar os seus princípios éticos; menos ainda os padrões morais do Evangelho de Jesus.

Chegam ao final da existência sem tomar consciência da necessidade de observar os valores espirituais, sem reservar tempo e energia para cuidar das coisas do Espírito.

Dessa forma, chegam ao Mundo Espiritual de mãos vazias. O que acumularam durante a vida física fica na Terra, porque não pode ser levado na bagagem do Espírito.

A situação é pior quando o motivo do envolvimento com atividades excessivas não é apenas o de ter condições de suprir as necessidades básicas, mas também ambição e apego às coisas materiais. Essas condições mantêm-no preso à Terra, em verdadeiro regime de escravidão.

Sem dúvida, podem contabilizar muita conquista material, mas quase nada no que diz respeito às realizações espirituais. Na Terra, podem ser considerados ricos, todavia, são pobres, quando não paupérrimos, no Mundo dos Espíritos.

Segundo Lucas, quando Jesus se hospedou na casa de Marta, enquanto Maria, sua irmã, aproveitou a oportunidade para aprender com o Mestre, ela "agitava-se de um lado para outro, ocupada com muitos serviços". (Lucas, 10:40)

Marta simboliza a pessoa muito envolvida com as coisas materiais, que deixa escapar preciosos ensejos de estudar e dedicar-se às questões espirituais.

Nunca é tarde para despertar e lutar pela conquista dos valores transcendentais, assim como evitar a chegada ao Mundo Maior em condições de grande pobreza de bens do Espírito. 

Deus instituiu a encarnação como meio de dar oportunidade a todos de trabalharem pela sua evolução espiritual. Os que não a aproveitam adequadamente demonstram sempre grande desapontamento quando chegam à Pátria Espiritual.

Revelam sabedoria os que utilizam bem o tempo para procurar o Reino de Deus e sua Justiça, enquanto encarnados na Terra; também os que não se deixam envolver totalmente pelas preocupações e coisas materiais. 

(Umberto Ferreira-Contos do Além)


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

 Religiões Irmanadas

Comentávamos a conveniência de se irmanarem as religiões, em favor da concórdia no mundo, quando meu amigo Tertuliano da Cunha, desencarnado no Pará, falou entre brejeiro e sentencioso:

- Gente, é necessário pensar nisso com precaução. Ideia religiosa é degrau da verdade e o discernimento varia de cabeça para cabeça. Exaltam vocês a excelência de larga iniciativa, em que os múltiplos templos sejam convocados à integração num plano único de atividade; entretanto, não será muito cedo para semelhante cometimento?

Porque a pergunta vagueasse no ar, o experiente sertanista piscou os olhos, sorriu malicioso e aduziu:

- Isso me faz lembrar curiosa fábula que me foi relatada por velho índio, numa de minhas excursões no Xingu.

E contou:

- Reza uma lenda amazônica que, certa feita, a onça, muito bem posta, surgiu na selva, imensamente transformada. Ela, que estimava a astúcia e a violência, nas correrias contra animais indefesos, escondia as garras tintas de sangue e dizia acalentar o propósito de reunir todos os bichos no caminho da paz. Declarava haver entendido, enfim, que Deus é o Pai de todas as criaturas e que seria aconselhável que todas se adorassem num só verbo de amor. Confessava os próprios erros. Reconhecia haver abusado da inteligência e da força. Despertara o terror e a desconfiança de todos os companheiros, quando era seu justo desejo granjear-lhes a simpatia e a veneração. Convertera-se, porém, a princípios mais elevados. Queria reverenciar o Supremo Senhor, que acendera o Sol, distribuíra a água e criara o arvoredo, animada de intenções diferentes. Para isso, convidava os irmãos à unidade. Poderiam, agora, viver todos em perpétua harmonia, porquanto, arrependida dos crimes que cometera, aspirava somente a prestigiar a fé única. Renunciaria ao programa de guerra e dominação. Não mais perseguiria ou injuriaria a quem quer que fosse. Pretendia simplesmente estabelecer na floresta uma nova ordem, que a todos levasse a se prosternarem perante Deus, honrando a fraternidade. Solenizando o acontecimento, congraçar-se-ia a família do labirinto verde em grande furna, para manifestações de louvor à Providência Divina. Macacos e cervos, lebres e pacas, tucanos e garças, patos e rãs, que oravam em liberdade, a seu modo, escutaram o nobre apelo, mas duvidaram da sinceridade de tão alto discurso. Todavia, apareceram serpentes e raposas, aranhas e abutres, amigos incondicionais do ardiloso felídeo, aderindo-lhe ao brilhante projeto. E tamanhos foram os argumentos, que a bicharada mais humilde se comoveu, assentando, por fim, que era justo aceitar-se a proposta feita em nome do Pai Altíssimo. Marcado o dia para a importante assembleia, todos se dirigiram para a loca escolhida, repentinamente transfigurada em santuário de flores. Quando a cerimônia ia a meio caminho, com as raposas servindo de locutoras para entreter os ouvintes, as serpentes deitaram silvos estranhos sobre os crentes pacatos, as aranhas teceram escura teia nos orifícios do antro, embaçando o ambiente, os abutres entupiram a porta de saída, e a onça, cruel, avançou sobre as presas desprevenidas, transformando a reunião em pavoroso repasto... E os bichos que sobraram foram escravizados na sombra, para banquete oportuno...

Nosso amigo fez longa pausa e ajuntou:

- A união de todos os credos é meta divina para o divino futuro, mas, por enquanto, a Terra ainda está fascinada pelo critério da maioria. Como vemos, é possível trabalhar pela conciliação dos religiosos de todas as procedências; no entanto, segundo anotamos, será preciso enfrentar a onça e os amigos da onça... Onde o melhor caminho para a melhor solução?...

Sorrimos todos, desapontados, mas não houve quem quisesse continuar o exame do assunto, após a palavra do engraçado e judicioso comentarista.

(Espírito Humberto Campos-Contos Desta e Doutra Vida-C. Xavier)

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

 Vermelhinho

O orgulho de Joana Pacheco não tinha limite. Mulher de mais idade. Bem de vida. Aparência cuidada. Viúva abastada, vivia sozinha.

Suas atitudes eram comentadas. Andava pela cidade e mal cumprimentava os conhecidos. Vez por outra, falava com alguém mais íntimo, mas sem descuidar da postura empertigada. Em qualquer circunstância, exibia inacreditável arrogância. Queixo erguido. Olhar altivo. Gestos de desdém. Chegava ao extremo de tapar o nariz diante dos necessitados que a abordavam em busca de auxílio. Os raros amigos advertiam:

- Sua atitude é antipática. Trate de mudar.

A viúva, porém, respondia com soberba:

- Sou diferente. Tão diferente, que meu sangue é do tipo mais raro.

Joana continuou a viver assim, até que sintomas incômodos a levaram ao médico. Diagnóstico preciso. Moléstia séria. Cirurgia urgente.

Quando convalescia, ainda no hospital, soube que necessitara de sangue e o doador fora pessoa muito pobre. Ficou nervosa. Quis conversar com o cirurgião. E o diálogo aconteceu:

- Transfusão, doutor?

- Sim, foi indispensável.

- Meu sangue é especial.

- Tivemos o doador certo.

A paciente fechou o semblante e perguntou com empáfia:

- Como é o sangue dele?

O médico, que já conhecia a fama da viúva, levantou-se da poltrona e falou, encerrando o assunto:

- É vermelhinho, como o seu.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 O Endereço de Deus

Imaginemos que um gênio das "Mil e Uma Noites" lhe concedesse a satisfação de três desejos.

O que você pediria?

Certamente o conhecimento da Doutrina Espírita, luz abençoada de Deus em nosso caminho, que inspirar-lhe-ia nobre roteiro de realizações.

Mas o homem comum, de visão limitada pela ignorância dos valores espirituais, coração sintonizado com o imediatismo terrestre, certamente optaria por "riqueza", "saúde", "fama", "poder", "prazer", "bem-estar"...

Geralmente as pessoas almejam uma existência sem sobressaltos, nem problemas, com tanta "sombra e água fresca" quanto possível, pois, afinal, "ninguém é de ferro"...

No entanto, se nos concedessem a mesma possibilidade de escolha nos tempos em que vagávamos pelo Continente Espiritual, às vésperas da presente existência, certamente seria diferente.

Em "Ação e Reação", do Espírito André Luiz, psicografia de Chico Xavier, deparamos com ilustrativa experiência envolvendo Druso, dedicado orientador de uma instituição socorrista do Mundo Espiritual.

Prestes a reencarnar, dirige-se a Jesus, em comovente oração, destacando, em dado momento:

"E agora, Senhor, que a esfera dos homens me descerrará as portas, acompanha-me, por acréscimo de misericórdia, com a graça da tua bênção. Não permitas que o reconforto do mundo me faça esquecer-te e constrange-me ao convívio da humildade para que o orgulho me não sufoque. Dá-me a luta edificante por mestra do meu resgate e não retires o teu olhar de sobre os meus passos, ainda que, para isso, deva ser o sofrimento constante a marca de meus dias."

Não raro, mesmo beneficiado pelo conhecimento espírita, enfrentamos um problema "ótico" na apreciação da jornada humana.

Imaginamos que as situações problemáticas e angustiantes são cobranças cármicas, relacionadas com os débitos do pretérito.

Não percebemos que se situam muito mais por abençoados estímulos, a fim de que não nos acomodemos, nem nos transviemos.

Fácil observar que as nossas preces mais sentidas, nossos anseios mais nobres, sustentam-se nos convincentes apelos da mestra Dor.

Lutas e dificuldades do cotidiano inibem nossas tendências viciosas.

Conversei, certa feita, com um companheiro espírita, desses que chegam cheios de boas intenções e logo se afastam, dispensando explicações.

- Então, meu caro, por onde andas? Algum problema em nossa casa ou com você e a esposa? Ambos sumiram sem aviso...

- Não, Richard, não houve nada de grave. Estamos muito bem. Talvez seja esse o problema... Como sabe, quando nos casamos, a vida era difícil. Eu ainda estudava. Ganhava o sustento em emprego precário, ajudado pela esposa que vendia roupas. Logo vieram dois filhos, o primeiro com problemas de saúde. Orçamento apertado, tudo controlado. Nada de gastos supérfluos, passeios, festas ou badalações.

- Lembro bem... Economizavam até o passe do ônibus! Era uma boa caminhada até o Centro...

- Isso mesmo! Não obstante as dificuldades ou até por causa delas, encontrávamos tempo e inspiração para o cultivo dos valores espirituais. Orávamos em família, participávamos dos serviços assistenciais no fim de semana, comparecíamos às reuniões doutrinárias. Nossa vida tinha um sentido, um ideal a ser concretizado... Isso tudo nos dava força e abençoada tranquilidade.

Suspirou fundo e concluiu, melancólico:

- Depois as coisas melhoraram. Comecei a ganhar dinheiro num promissor empreendimento comercial; meu filho superou os problemas de saúde, mudamos para um bairro de classe abastada. Multiplicaram-se compromissos profissionais e sociais. Atividade intensa, sem espaço para as orações em família, o culto, a atividade espiritual... Prosperamos materialmente, mas, tanto eu quanto a minha esposa sentimos que algo precioso, de valor inestimável, ficou perdido...

- Talvez um sentido para a existência, um objetivo...

- Exatamente! Ficou um vazio... Lembro uma expressão popular que define o assunto: "Éramos felizes e não sabíamos!"

Lamentavelmente, não obstante o desabafo, meu amigo ainda não encontrou tempo para retomar os ideais negligenciados. 

Quando o caminho é fácil, esquecemos a bússola do discernimento.

Acabamos nos desviando dos roteiros celestes que, bem sabemos, estão perfeitamente delineados nas lições de Jesus, reverenciado por Kardec no comentário à questão número 625 de "O Livro dos Espíritos":

"Para o homem, Jesus constitui o tipo de perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da Lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava".

Raros se disporiam a repetir a súplica de Druso, esquecidos de Jesus e do significado de sua missão.

Mas estejamos certos de que Jesus não se esquece de nós, permitindo que venham dores, lutas e dificuldades em nosso caminho.

Abençoado propósito inspira o Mestre Supremo:

Evitar que esqueçamos o endereço de Deus.

(Richard Simonetti-O Destino Em Suas Mãos)

terça-feira, 18 de agosto de 2020

 A Experimentação


Eurico Grandini era realmente um sábio. Inteligência privilegiada. Cultura vastíssima. Homem prudente. Dedicava-se às pesquisas em determinado ramo do conhecimento, mas sabia de tudo. Era referência obrigatória a professores e alunos de famosa universidade, onde lecionava.

Apesar de cientista renomado, morava em bairro discreto, onde tinha a estima dos vizinhos e fazia amigos com facilidade. Contudo, o orgulho acadêmico  era o defeito sério de Eurico. Não aceitava qualquer conhecimento que não passasse por experimentações científicas.

Essa era uma das poucas controvérsias com um engenheiro da vizinhança e, nas redondezas, seu amigo mais próximo. Joel, espírita por convicção, argumentava com o vizinho e dizia com firmeza:

- O conhecimento espiritual não passa por seu laboratório. E é real.

Eurico rebatia, enfático:

- O único conhecimento autêntico é o experimental.

E Joel ainda insistia:

- Você não admira e reconhece a grandeza de Deus em tudo o que sabe?

O cientista era irredutível e falava, irritado:

- Só o que se vê e apalpa é a realidade. 

Eurico não mudava de opinião. O tempo passou e trágico acidente levou o engenheiro para a dimensão espiritual.

Certa noite, quando o cientista trabalhava até mais tarde no laboratório, sentiu forte saudade de Joel. De súbito, viu diante de si o amigo, falando, sorridente:

- A vida espiritual é real. Você não me vê? Pode apalpar.

Eurico arregalou os olhos e, em vez de confirmar a realidade, como sempre dizia a respeito das experiências, saiu em disparada, gritando por socorro.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)

domingo, 16 de agosto de 2020

 A maioria das pessoas é imune ao vírus da Covid, diz Karl Friston


O renomado cientista britânico afirma que a “população suscetível efetiva nunca foi 100%". Os modelos da epidemia teriam errado ao assumir que a maioria das pessoas não tem alguma imunidade ao novo coronavírus. No Reino Unido, cerca de 80% da população não seria suscetível ao SARS-CoV-2, diz Friston.
Há apenas um mês, a ideia de que a maioria das pessoas não é suscetível ao Covid-19 seria considerada negacionismo.

No início de maio, o Professor de Stanford e Prêmio Nobel Michael Levitt afirmou à Freddie Sayers, em entrevista ao LockdownTV/UnHerd, que as curvas de crescimento da doença nunca foram realmente exponenciais, sugerindo algum tipo de "imunidade anterior".

Hoje, porém, evidências de algum nível de resistência e imunidade anteriores à Covid-19 estão presentes em artigos publicados revisados por pares. Por exemplo, o estudo Targets of T Cell Responses to SARS-CoV-2 Coronavirus in Humans with COVID-19 Disease and Unexposed Individuals, publicado em meados de maio na revista científica Cell, da Elsevier, sugere que 40% a 60% das pessoas não expostas têm resistência de outros coronavírus.
"É importante ressaltar que detectamos células T CD4+ reativas ao SARS-CoV-2 em 40% a 60% dos indivíduos não expostos, sugerindo o reconhecimento de células T reativas cruzadas entre coronavírus circulantes de resfriado comum e SARS-CoV-2", diz o artigo.
Agora, de um membro proeminente do SAGE, o grupo criado para desafiar os pareceres científicos do governo britânico, vem a afirmação de que a parcela das pessoas que não são suscetíveis ao Covid-19 pode chegar a 80%.

O professor Karl Friston, como Michael Levitt, não é um virologista; sua experiência é compreender processos biológicos complexos e dinâmicos, representando-os em modelos matemáticos. No campo da neurociência, ele foi classificado pela revista Science como o mais influente do mundo. É regularmente citado como um cientista que provavelmente será agraciado com um Nobel.

Friston inventou uma técnica chamada de “mapeamento paramétrico estatístico” para entender a imagem cerebral e, nos últimos meses, ele vem aplicando seu método particular de análise bayesiana, que ele chama de “modelagem causal dinâmica”, aos dados disponíveis da Covid-19.

"Até o momento, nossas previsões foram precisas dentro de um ou dois dias; portanto, há uma validade preditiva em nossos modelos que os convencionais não possuem", explicou Friston ao The Guardian.

Seus modelos sugerem que a grande diferença entre os resultados no Reino Unido e na Alemanha, por exemplo, não é primariamente um efeito de diferentes ações governamentais, mas é melhor explicada pelas diferenças entre as populações, que fazem a "população suscetível” da Alemanha muito menor do que no Reino Unido.

"O fato é que o alemão médio tem menos probabilidade de ser infectado e morrer do que o britânico médio. Por quê? Existem várias explicações possíveis, mas uma que parece cada vez mais provável é que a Alemanha tenha mais “matéria escura” imunológica – pessoas que são impermeáveis à infecção, talvez porque estejam geograficamente isoladas ou tenham algum tipo de resistência natural. É como a matéria escura no universo: não podemos vê-la, mas sabemos que deve estar lá", especulou.

A matéria escura específica mencionada acima compreende um subconjunto da população que participa da epidemia de uma maneira que os torna menos suscetíveis à infecção – ou menos propensos a transmitir o vírus. Esse tipo de matéria escura representa um desvio das abordagens epidemiológicas básicas de doenças infecciosas que assumem 100% de suscetibilidade da população.

"Tecnicamente, a evidência para essa matéria escura é esmagadora; no sentido de que a evidência (também conhecida como probabilidade marginal) de modelos com essa subpopulação é muito maior do que a evidência de modelos equivalentes sem ela", escreve Friston.

O cientista destaca que uma vez que se incorpora no modelo comportamentos que as pessoas adotam de qualquer maneira, como ficar na cama quando estão doentes, o efeito do lockdown "literalmente desaparece".

Sua explicação para os resultados de mortalidade notavelmente semelhantes na Suécia (sem lockdown) e no Reino Unido (lockdown total) é que "eles não eram realmente diferentes. Porque no final das contas, os processos reais que entram na dinâmica epidemiológica – os comportamentos reais, o distanciamento, foram especificados evolutivamente pela maneira como nos comportamos quando temos uma infecção”.

Isso significaria que a principal suposição subjacente por trás dos lockdowns, tipificada pelas famosas previsões do Imperial College – sem controle a doença contaminaria toda a população de todos os países e mataria cerca de 1% dos infectados, levando a incontáveis milhões de mortes em todo o mundo – estava errada, por um grande fator.

Contudo, Friston disse que as premissas dos modelos de Neil Ferguson estavam todas corretas, "sob a qualificação de que a população de quem eles estavam falando é muito menor do que você imagina". Em outras palavras, Ferguson estava certo de que cerca de 80% das pessoas suscetíveis seriam rapidamente infectadas, e estava certo de que entre 0,5% e 1% morreria, mas não percebeu que a população suscetível era apenas uma pequena parcela de pessoas no Reino Unido e uma parcela ainda menor em países como a Alemanha e outros países.

O que muda tudo.

Em circunstâncias normais, a maioria das pessoas nunca irá contrair a doença.

Naturalmente, cenários com uma carga viral muito alta, como médicos que tratam pacientes com Covid-19 em hospitais, podem vencer essas defesas.

A maior ação governamental coordenada da história, fechando à força a maioria das sociedades do mundo com consequências que podem durar gerações, teria sido baseada em ciência falha.

Os efeitos colaterais na América já podem ser mais mortais do que a pandemia.

Scott Atlas, da Hoover Institution, estima que as conseqüências do desemprego, da falta de consultas médicas e de outros fatores durante os dois meses de lockdown levarão a tantas mortes extras que os americanos perderão 1,5 milhão de anos acumulados de vida, o dobro do total perdido até o momento com a Covid-19.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 Fé

Um certo homem saiu em uma viagem de avião. Era um homem que acreditava em Deus e sabia que Ele o protegeria. Durante a viagem, quando sobrevoavam o mar, um dos motores falhou e o piloto teve que descer no oceano. Quase todos morreram, mas o homem sobreviveu agarrando-se a alguma coisa que o conservou em cima da água. Ficou boiando e foi levado a uma ilha não habitada.

Ali, o homem agradeceu a Deus por ter se livrado da morte. Conseguiu fazer uma casinha com galhos de árvores e folhas, para se proteger do mau tempo e dos animais. À noite, outra vez agradeceu a Deus porque se sentia protegido. 

Todas as manhãs, saía para pescar e sempre voltava agradecido, porque a pesca era farta e com isso podia alimentar-se e sobreviver, enquanto aguardava que alguém aparecesse para lhe socorrer. 

Certo dia, porém, ao retornar da pesca, teve grande decepção. Sua casinha estava toda queimada. Caiu em desespero e, chorando, disse:

- Deus! Como é que o Senhor podia deixar isso acontecer comigo? O Senhor sabe que eu precisava muito dessa casa para me abrigar, e o Senhor deixou que ela se queimasse todinha! Deus, o Senhor não tem compaixão de mim?

Nesse momento, alguém lhe tocou no ombro e ele ouviu uma voz dizendo:

- Vamos embora, rapaz!

Ele se virou e, surpreso, viu ali um marinheiro.

- Mas como é possível? Como souberam que eu estava aqui?

- Ora, amigo - disse o marinheiro - vimos os sinais de fumaça pedindo socorro, e o capitão mandou parar o navio e ordenou que eu viesse com um barco para buscá-lo.

Esta história dá bem uma ideia de como costuma ser a nossa fé, a nossa confiança em Deus. Quando tudo nos é favorável e acontece o que esperamos, somos reconhecidos à bondade de Deus e reiteramos a nossa fé em louvores e agradecimentos.

Basta, porém, que um acontecimento contrarie a nossa vontade para que nos revoltemos e nos sintamos abandonados. E aquela confiança que aparentava ser forte, agora duvida da justiça e do amor divinos. Nessa hora, parecemos crianças que gritam, choram e esperneiam porque os pais não atendem aos seus desejos de brincar na rua ou de comprar qualquer brinquedo.

Mas será que Deus é como um pai humano, que pode errar ou mudar de atitude em relação a nós a qualquer momento? Que tem preferências por alguns filhos, livrando uns da morte em acidentes, e outros não; que dá saúde a alguns e doença e sofrimento para outros; que ajuda um time de futebol a ganhar e torce contra o adversário?

Ora, em verdade, somos nós que não compreendemos a ação de Deus. Ele é imutável e comanda o Universo por leis também imutáveis, as quais ninguém pode violar. Tudo está certo, porque Deus, inteligência suprema e perfeita, não iria permitir que alguma coisa ou alguém quebrasse a harmonia de sua obra. O que parece o mal, é apenas uma fase do aprendizado do ser humano, para que possa desenvolver a sua inteligência e os seus sentimentos, e isso foi previsto por Ele.

Analisemos as nossas próprias vidas e veremos como é verdade. 

Um conhecido nosso foi surpreendido pelo câncer.

Revoltou-se e ficou desesperado. Por que logo comigo? - perguntava-se ele. Foi submetido  a cirurgia e internado para tratamento. No hospital, teve oportunidade de conviver com outros doentes em piores condições. Admitiu, depois, para mim, que aquela experiência dolorosa fez com que percebesse o quanto era orgulhoso, que todos somos iguais, e que ele estava distante das pessoas e de Deus.

Deus sabe o que faz. Não devemos nunca blasfemar quando a nossa casa "queimar", porque a fumaça produzida pode ser o sinal de socorro para alguém nos livrar da ilha de sofrimento em que nos encontramos. Não nos esqueçamos, porém, que se Deus faz a parte d'Ele, nós devemos fazer a nossa, confiando sempre e sempre trabalhando no bem.

(Donizete Pinheiro-Contos Modernos em Tempo de Paz)

terça-feira, 11 de agosto de 2020

 A Morte da Gata

As duas meninas, sete e nove anos, brincavam na calçada. 

Nas proximidades, a gata rueira, impossível de ser contida nos limites da casa, como todos os felinos. 

A bichana resolveu atravessar a rua. Um automóvel aproximava-se, veloz. Ela esgueirou-se, rápido. Escapou por um triz, como sempre, valendo-se das "sete vidas" com que o imaginário popular brinda a agilidade dos felinos. 

Certamente gastou a última, porquanto outro carro vinha em sentido contrário e a pobre foi colhida por rodas implacáveis. Em segundos expirava, velada pelas meninas que choravam em desolação, traumatizadas com a violência presenciada, inconformadas com a perda de sua Juju.

- Papai, a Juju cumpriu um carma?

- Não, filhinha. Animais não têm dívidas a pagar. São conduzidos pelas forças da Natureza, sob orientação do instinto.

- Mamãe dizia que era uma criminosa, destruidora de cortinas e estofados!

- Não fazia por mal... Apenas afiava as garras, como todo o felino.

- Podemos orar por ela?

- Certamente! Será como se lhe fizessem um carinho a distância.

- Quando morrermos, vamos encontrá-la?

- Talvez... As almas dos animais não costumam demorar-se no Além.

- Animal também reencarna?

- Sim. Faz parte de sua evolução.

- Gato pode reencarnar como cachorro?

- Sem dúvida, e também em outras espécies, em constante desenvolvimento, ao longo dos milênios.

- Que bom papai! A Juju poderá voltar como filha da nossa Baby!

Algum tempo depois, Baby, a cadelinha, despeja no mundo quatro filhotes.

As meninas encantam-se, particularmente com a menor.

- Veja, papai! Tem a mesma cor de nossa Juju e até os olhos puxadinhos. Deve ser ela!

- Pode ser, filhinha - sorriu o pai, condescendente.

Não seria caridoso contestar a animadora fantasia.

Afinal, não era impossível... Como devassar os meandros da evolução, a progressão das experiências, as espécies a que se liga o princípio espiritual, na longa jornada rumo à consciência?...

- Podemos ficar com ela?

- Se quiserem...

- Vai chamar-se Juju.

- Tudo bem.

Observando o entusiasmo das meninas, conjecturava o pai, com seus botões:

"Ah! Vida abençoada! Sempre a brotar, irresistível, plena de esperanças, sobrepondo-se à desolação da morte!"

(Richard Simonetti-Para Rir e Refletir)

sábado, 8 de agosto de 2020

 A Carta


Uma carta malcriada, dessas de "acabar com o distinto", terminando com um peremptório "esqueça que sou seu filho!"

A indignação de Lenildo era procedente, embora injustificável a malcriação sob a ótica cristã. O pai envolvera-se com outra mulher e abandonara a família, mudando-se para cidade distante.

O rapaz, com apenas 17 anos, vira-se precariamente promovido a chefe da casa, com responsabilidade de ajudar a mãe a sustentar três irmãos menores. Esfalfava-se numa empresa de defensivos agrícolas, às voltas com reações alérgicas provocadas pelo contato com agrotóxicos, o que exacerbava a revolta contra o desertor.

A carta fora uma explosão, um transbordamento de mágoa. Raivoso, levou-a ao correio, desejando que o pai se danasse. Ao retirar-se, viu num canto do balcão folhetos para distribuição, ali deixados por algum funcionário que estimava ideias nobres. Eram mensagens espíritas. Sua atenção foi despertada por uma que falava sobre o perdão. Impressionou-o particularmente o final:

"Tua mágoa tem a extensão de tua incompreensão. Quem compreende, perdoa. Quem não perdoa é escravo da angústia. Liberta-te!"

Foi água fria na fervura! Arrependeu-se de ter remetido a carta. Talvez a situação não fosse exatamente como imaginava. Fora muito radical... Tentou recolhê-la, mas o funcionário mostrou-se irredutível, afirmando:

- Sinto muito! Correspondência postada é propriedade do destinatário!...

Lenildo perturbou-se, dominado pelo sentimento de culpa. Pensava no impacto que a carta provocaria. À noite não conseguiu dormir. Resoluto, levantou bem cedo, dirigiu-se à rodoviária e tomou o primeiro ônibus.

Após sete horas de viagem chegava ao local onde residia o genitor. Surpresa: era humilde pensão, só para homens. Informou-se do local onde o velho trabalhava. Nova surpresa: era modesto ajudante numa construção, ele que sempre fora empreiteiro.

Encontrou-o envelhecido, possivelmente enfermo, a exibir indisfarçável tristeza. Abraçaram-se emocionados. Pouco depois saíam para o almoço. Conversaram longamente. O pai desligara-se da mulher que o seduzira, mas não tinha coragem de tornar ao lar. Sentia o peso de sua deserção...

Lenildo confortou-o, sensibilizado. Regressariam juntos. Começariam vida nova. A mãe o esperava desde a separação. Orava por ele todos os dias...

Na pensão continuavam a conversação, traçando planos, quando chegou o carteiro. Lenildo adiantou-se e tomou para si a carta endereçada ao pai. Este, curioso, queria tomar conhecimento do conteúdo.

- Não há necessidade, pai. Já lhe disse pessoalmente tudo que escrevi...

Suspirando, aliviado, rasgou-a em muitos pedaços que jogou no lixo, sentindo que com ela ia a sua angústia, derrotada por um impulso feliz de aproximação.

A ira é péssima conselheira, sugerindo ações das quais fatalmente nos arrependeremos, já que nem sempre é possível anulá-las como quem rasga uma carta malcriada, impedindo que o destinatário tome conhecimento.

Imperioso, por isso, conter nossos impulsos, contando até dez, cem, milhares se necessário, até esfriar a cabeça, habilitando-nos a agir com discernimento, a cultivar o dom de compreender.

(Richard Simonetti-Endereço Certo)

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Colírio Diet

Joaquim Venceslau trazia no corpo as marcas da dolorosa artrite. Anos a fio lutava contra tal enfermidade que lhe cobrava pesado tributo. No entanto, Joaquim não se ajudava. Sofria amargamente com a felicidade dos outros. Nenhum sucesso alheio lhe caía bem, porquanto a inveja era o seu pior algoz.
Naturalmente que o mencionado indivíduo não se considerava invejoso. Mantinha-se nos padrões sociais comuns e, se algumas vezes era convidado a opinar sobre as aquisições materiais de algum amigo, com muito sacrifício era capaz de dizer algum elogio do tipo... "bonito", "parabéns pela aquisição", exclamações banhadas por vibrações de amargura próprias do invejoso que sofre para elogiar o que não lhe pertence. Crise sobre crise, a artrite avançava fazendo sofrer a carne do corpo de Joaquim.
Infelicitado, soube de tratamento espiritual que se realizava em certo Centro Espírita e que poderia ajudar na transformação de sua doença. Alistou-se entre os candidatos e, no dia marcado, estava diante do grupo espírita que, comandado pelo Espírito do Dr. Frederico, levava o consolo aos aflitos, sem delongas nem rodeios.
Foi assim que Joaquim viu chegar a sua vez no atendimento pessoal.
Incorporado ao médium, o Espírito Dr. Frederico respondeu, depois de escutar suas queixas:
- Bem, meu filho, pode ser que suas juntas estejam doendo. No entanto, analisando seu caso em profundidade, observo que o problema principal que o atinge não está nos nervos, tendões ou cartilagens. Vamos receitar o remédio adequado para tratar do mais grave, primeiro.
Voltando-se para o assistente encarnado que anotava suas indicações em pequeno bloco, receitou, com o bom humor que o caracterizava:
- Para nosso irmão Joaquim Venceslau, recomendo o uso do COLÍRIO DIET.
Sem entender o que o Espírito estava dizendo diante do inusitado da receita, o cooperador encarnado repetiu, perguntando:
- Como é, doutor, COLÍRIO DIET?
- Sim, meu filho, temos de tratar do que é mais grave primeiro... Nosso irmão se queixa das juntas, mas, indiscutivelmente, seu problema mais grave é o OLHO GORDO... é isso que o está matando...
(Espírito Bezerra de Menezes-Saúde do Espírito-André L. Ruiz)

domingo, 2 de agosto de 2020

Obra do Acaso

Celso Belmonte tinha inteligência privilegiada. Menino precoce. Adulto brilhante. Professor laureado. Lecionava na Universidade e trabalhava em projetos científicos, cujas conclusões eram publicadas no mundo inteiro.
Contudo, era tão orgulhoso quanto inteligente. Durante as aulas e conferências, exibia enorme arrogância. Ridicularizava as crenças na vida futura e não admitia a existência do Criador, induzindo os ouvintes ao ateísmo. 
Essa postura era contestada pela maioria dos professores e alunos, mas o prestígio de Celso impedia qualquer atitude. Até o dia em que foi aparteado por um aluno, durante a aula magistral que abria os cursos do ano letivo.
Tiago, jovem espiritualista, ousou discordar do mestre. Após a escaramuça inicial com respeito às crenças religiosas e à vida além da morte, a discussão acabou com rápido diálogo, provocado pelo aluno:
- O senhor nega Deus, mas toda obra tem um autor. Como se explica o Universo?
- É obra do acaso.
- E a Natureza tão diversificada, a vida, os sentimentos, a própria inteligência?
- É o acaso.
- Por que devo acreditar no que diz?
- Porque tenho pesquisas que provam.
O silêncio era total. Tiago deu um suspiro e disparou, sério:
- Não tem nada. 
E para espanto de todos e sob intenso aplauso, concluiu depressa:
- É tudo obra do acaso.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)