terça-feira, 15 de fevereiro de 2022


“O Livro dos Espíritos”, um livro de 165 anos

Neste mês de abril de 2022, estamos a comemorar os 165 anos do lançamento, em Paris, de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, inaugurando no mundo a Era Espírita ou Era do Espírito. Nele se cumpria a promessa evangélica do Consolador, do Paracleto ou Espírito da Verdade. Sua primeira edição data de 18 de abril de 1857.

Segundo o Professor J. Herculano Pires, equivale a afirmar que “O Livro dos Espíritos” é o código de uma nova fase da evolução humana. E é exatamente essa a sua posição na história do pensamento. Este não é um livro comum, que se pode ler de um dia para o outro e depois esquecer num canto da estante. Nosso dever é estudá-lo e meditá-lo, lendo-o e relendo-o constantemente. Sobre este livro se ergue todo um edifício: o da Doutrina Espírita. Ele é a pedra fundamental do Espiritismo, o seu marco inicial. O Espiritismo surgiu com ele e com ele se propagou. Com ele se impôs e consolidou no mundo. Antes deste livro não havia Espiritismo, e nem mesmo esta palavra existia. Falava-se em Espiritualismo e Neo-espiritualismo, de maneira geral, vaga e nebulosa. Os fatos Espíritas, que sempre existiram, eram interpretados das mais diversas maneiras. Mas, depois que Kardec o lançou à publicidade, contendo os princípios da Doutrina Espírita, uma nova luz brilhou nos horizontes mentais do mundo.
Há uma sequência histórica que não podemos esquecer, ao tomarmos este livro nas mãos. Quando o mundo se preparava para sair do caos das civilizações primitivas, apareceu Moisés, como condutor de um povo destinado a traçar as linhas de um novo mundo. Ele não escreveu a Bíblia, mas foi ele o motivo central dessa primeira codificação do novo ciclo de revelações: o cristão. Mais tarde, quando a influência bíblica já havia modelado um povo, e quando esse povo já se dispersava por todo o mundo gentio, espalhando a nova lei, aparece Jesus; e das suas palavras, recolhidas pelos discípulos, surgiu o Evangelho.
A Bíblia é a codificação da Primeira Revelação Cristã, o código hebraico em que se fundiram os princípios sagrados e as grandes lendas religiosas dos povos antigos – a grande síntese dos esforços da antiguidade em direção ao espírito. Não é de se admirar que se apresente, muitas vezes, assustadora e contraditória para o homem moderno.
O Evangelho é a codificação da Segunda Revelação Cristã, a que brilha no centro da tríade dessas revelações, tendo na figura do Cristo o sol que ilumina as duas outras, que lança a sua luz sobre o passado e o futuro, estabelecendo entre ambos a conexão necessária.
Mas, assim como na Bíblia, já se anunciava o Evangelho, também aparecia a predição de um novo código, o do Espírito da Verdade, como se vê em João, XIV. E o novo código surgiu pelas mãos de Allan Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade, no momento exato em que o mundo se preparava para entrar numa fase superior de desenvolvimento.
Hegel, em suas lições de estética, mostra-nos as criações monstruosas da arte oriental, figuras gigantescas, de duas cabeças e muitos braços e pernas, e outras formas diversas, como a primeira tentativa do Belo para dominar a matéria e conseguir exprimir-se através dela. A matéria grosseira resiste à força do ideal, desfigurando-o nas suas interpretações. Mas, acaba sendo dominada, e, então, aparecem no mundo as formas equilibradas e harmoniosas da arte clássica. Atingido, porém, o máximo de equilíbrio possível, o Belo mesmo rompe esse equilíbrio, nas formas românticas modernas da arte, procurando superar o seu instrumento material, para melhor e mais livremente se exprimir. Essa grandiosa teoria hegeliana é perfeitamente aplicável ao processo das revelações cristãs: das formas incongruentes e aterradoras da Bíblia, passamos ao equilíbrio clássico do Evangelho, e deste à libertação espiritual de “O Livro dos Espíritos”.
Cada fase da evolução humana se encerra com uma síntese conceptual de todas as suas realizações. A Bíblia é a síntese da antiguidade, como o Evangelho é a síntese do mundo greco-romano-judaico, e O Livro dos Espíritos a do mundo moderno. Mas cada síntese não traz em si tão somente os resultados da evolução realizada, porque encerra também os germens do futuro. E na síntese evangélica temos de considerar, sobretudo, a presença do Messias, como uma intervenção direta do Alto para a reorientação do pensamento terreno. É graças a essa intervenção que os princípios evangélicos passam diretamente, sem necessidade de readaptações ou modificações, em sua pureza primitiva, para as páginas deste livro, como as vigas mestras da edificação da Nova Era.
O Livro dos Espíritos não é, porém, apenas a pedra fundamental ou o marco inicial da nova codificação. Porque é o seu próprio delineamento, o seu núcleo central e ao mesmo tempo o arcabouço geral da Doutrina. Examinando-o, em relação às demais obras de Kardec, que completam a codificação, verificamos que todas essas obras partem do seu conteúdo.
O Livro dos Espíritos contém, como declarou Allan Kardec, "Os princípios da Doutrina Espírita", sendo, portanto, o seu tratado filosófico. Mesmo que não tenha sido elaborado em linguagem técnica e não observe os rigores da minuciosa exposição filosófica, é todo um complexo e amplo sistema de filosofia que nele se expõe.
A natureza religiosa do Livro dos Espíritos ressalta desde as suas primeiras páginas. Kardec o inicia pela definição de Deus. Mas, o Deus Espírita não é antropomórfico. A definição Espírita é incisiva: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”.
Enganam-se aqueles que confundem a Inteligência Infinita com o homem finito, e a Religião Espírita com os formalismos religiosos.
Kardec emprega a linguagem que podemos empregar para tratar de Deus. Não O humaniza. Apenas O coloca ao alcance da compreensão humana. Kardec pergunta aos Espíritos Superiores  se existem dois elementos gerais, o Espírito e a matéria, e os Espíritos respondem:
“Sim e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Deus, Espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade Universal.”
Tudo avança para Deus, do átomo ao arcanjo.
Ensina o Professor Raul Teixeira que O Livro dos Espíritos é chamado assim porque ele é um trabalho fundamentalmente dos Espíritos, sim, das almas que viveram na Terra, ou não. De seres que, em determinado momento da História da sociedade humana, entenderam que precisava a Humanidade receber instruções para continuar seus passos adiante.
E, foi por isso que surgiu em Paris, no ano 1857, O Livro dos Espíritos, seu autor ou seus autores.
Allan Kardec era o pseudônimo do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, notabilíssimo mestre-escola em Paris, laureado pela Academia de Arras, uma cidade ao norte de Paris, numa época em que essa premiação correspondia, praticamente a um Prêmio Nobel, por seus trabalhos realizados,  na área da educação.
E o professor Rivail adotou o pseudônimo de Allan Kardec.
“O Livro dos Espíritos” nos traz verdadeiras maravilhas. Mas, lamentavelmente, no bojo da nossa sociedade contemporânea, em virtude de muitos malefícios que religiões institucionalizadas criaram na mente humana, malefícios que representam preconceitos, medos, pavores quando, ao invés de louvarem a Deus, ensinaram as pessoas a temer Satanás, O Livro dos Espíritos muitas vezes é malvisto. Há pessoas que têm verdadeiro horror do nome espíritos.
Mas, quando lemos a Bíblia, logo no seu primeiro versículo, lemos que: O Espírito de Deus flutuava sobre a face do abismo.   
Logo, o termo espírito não deveria oferecer amedrontamento às pessoas. Por causa disso, muita gente se impede de ler O Livro dos Espíritos. Como se ao tocá-lo, ao lê-lo, ao se situar em torno de suas páginas, fossem ficar marcadas, assinaladas por alguma negatividade. E perdem um excelente ensejo de desfazer muita ignorância em torno das questões espirituais, de encontrar roteiro para muitas de suas dúvidas e de ser feliz.
O Livro dos Espíritos é um dos trabalhos mais eloquentes, no mundo do Espiritualismo. Allan Kardec o abre, intitulando-o de Filosofia Espiritualista, no seu geral, porque atende a todas as questões do Espiritualismo Universal e no seu particular é a Doutrina Espírita.
Espírita que deu Espiritismo, exatamente porque é a doutrina, o ismo dos Espíritos. Como temos o materialismo, que é a doutrina, ismo, da matéria. Como temos o Budismo, é a doutrina, ismo, do Buda. Então, temos o Espiritismo querendo dizer que todo esse contexto e os textos de O Livro dos Espíritos vieram fundamentalmente do trabalho dos Imortais. Quem são esses Imortais?
Vultos da História passada, recente,  da Humanidade. Vultos que deram nome a muitos santos, que vibram nos altares da crença romana. Vultos que participaram das lutas da Europa, da filosofia e pessoas desconhecidas da grande massa humana.
Todos esses seres, vinculados profundamente à proposta que Jesus Cristo veio trazer a Terra. Fundamentalmente, O Livro dos Espíritos vem trazer-nos respostas a múltiplas questões relativas à: 
Quem somos? De onde viemos? O que nos cabe realizar aqui na Terra e para onde iremos?
O gênio pedagógico do professor Rivail, do nosso Allan Kardec, permitiu que ele dividisse, distribuísse esses temas em quatro partes.
O primeiro deles: Das causas primárias. Nessas causas primárias, O Livro dos Espíritos aborda a gênese, as origens, desde Deus ao bem, ao mal, à matéria, seu surgimento, sua realidade ou não sobre o mundo.
A segunda parte de O Livro dos Espíritos é Do mundo espírita ou dos Espíritos, que nós chamamos comodamente de mundo espiritual.
Ali, Allan Kardec estudará todas as nossas relações com os seres espirituais, com os chamados mortos, ao mesmo tempo que a maneira ou as formas como os mortos se relacionam conosco.
Encontraremos na terceira parte de O Livro dos Espíritos, Das Leis Morais, em dez Leis, começando pela Lei de adoração: relação do homem com o seu Criador, até a Lei de amor, justiça e caridade, perpassando por Lei de liberdade, Lei do progresso, Lei de destruição, Lei de sociedade e outras várias,  a fim de permitir que tenhamos uma elucidação sobre as coisas mais representativas da nossa vida na Terra.
E a quarta e última parte de O Livro dos Espíritos trata das consequências dos nossos atos, enquanto estamos na Terra. Trata de falar, de enfocar, como é que a Divindade analisa e reage diante de tudo que nós fazemos: Das esperanças e consolações é o título da quarta parte de O Livro dos Espíritos.
É importantíssimo pensar que essa obra, com seus esclarecimentos, com suas elucidações, vem atravessando os períodos mais densos da Humanidade, nesses cento e sessenta e cinco anos.
Não podemos esquecer que O Livro dos Espíritos nasce em 1857, século XIX. O século XIX foi chamado século das luzes, o século em que muitos ícones foram derrubados e outros pensamentos notáveis se ergueram.
O século XIX permitiu-nos conhecer saídas da filosofia natural, várias ciências, como a física, como a química, que saiu da alquimia, como a astronomia, que saiu da astrologia empírica e várias outras ciências que se conformaram no bojo do século XIX.
Audaciosamente, o Espiritismo nasce nesse século que estava demolindo  pensamentos, construindo outros. Percebemos que o Espiritismo tem o aval da Ciência e do pensamento do século XIX. O Espiritismo tem o aval dos pensamentos filosóficos de então.
Por isso vem resistindo até hoje, apesar daqueles que têm medo de tocá-lo, supondo que ao tocarmos O Livro dos Espíritos, teremos que nos tornar Espíritas, quando ninguém que toque um livro de matemática se torna matemático, ninguém que leia um livro de História se torna historiador, obrigatoriamente.
Mas, com toda certeza, ao estudarmos ou lermos O Livro dos Espíritos, cento e sessenta e cinco anos depois da sua publicação, diminuiremos fundamentalmente a nossa ignorância relativamente aos Seres Espirituais, que somos nós e à nossa realidade no mundo.  


segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

 Miragens


Eram encargos normais, saudáveis: cuidar dos filhos, dirigir o lar, instruir a doméstica, efetuar compras… Mas Zilda aborrecia-se. Sentia-se frustrada. Ninguém parecia reconhecer seu esforço. Além do mais, sonhava trabalhar fora, ter seu próprio dinheiro, frequentar uma faculdade, alargar horizontes…

Irritava-se com frases pomposas, tipo “rainha do lar” ou “doadora de Vida”, que lhe pareciam engodos masculinos para estimular a submissão das mulheres. 

Resolveu consultar um psicólogo, desses modernos, ideias arejadas, “pra-frente”... Expôs-lhe suas angústias.

  • Minha cara Zilda - orientou o profissional, enfático. - Seu problema fundamental é aprender a gostar um pouco de si mesma. Solte-se! Conquiste seu espaço!

  • O senhor tem razão! Anseio por voos mais altos, além da rotina… No entanto, estou amarrada. Os encargos domésticos são numerosos. A família precisa de mim. Alguém deve ficar na retaguarda…

  • Esqueça! No momento é preciso cuidar de seu bem-estar. Ninguém deve ser mais importante do que você mesma. Liberte-se! Seja autêntica! Exercite suas próprias asas…

Sob orientação do psicólogo Zilda começou a mudar. Encontrou tempo para o massagista, o tratamento de beleza, a ginástica. Importante afinar a silhueta, rejuvenescer… Em breve matriculou-se em curso de nível superior, conseguiu emprego de meio expediente, entrosou-se com novas amigas, igualmente “avançadas”...

Sem tempo para o lar, este começou a apresentar problemas. O desleixo tomou conta, os filhos foram descuidados. O esposo, perplexo, indagou-lhe o porquê de tantas mudanças…

  • É preciso cuidar de mim mesma. Tenho sido uma escrava. Chegou o tempo de minha libertação. Vocês “se virem”!...

Empolgada pela própria audácia, Zilda distanciou-se progressivamente da família até que, concluindo que precisava de mais espaço, partiu para cidade distante, integrada em serviço promissor. Aparecia apenas nos fins de semana, visita em sua própria casa. Era preciso cuidar de si mesma!

Todavia, não chegou a parte alguma, alienada das realidades mais simples, perdida em caminhos tortuosos. Embora livre para movimentar-se, jamais se libertou da angústia e da insatisfação, nem da impertinente sensação de que talvez fosse mais feliz como humilde “rainha do lar”...


No dicionário da Vida, felicidade é sinônimo de doação. Por mais sofisticadas e brilhantes sejam as ideias, não resolveremos o problema de nossa estabilidade íntima, nem nos realizaremos como filhos de Deus, enquanto pensarmos muito em nós mesmos. Quem se fecha em si, sufoca-se em estreitos limites, ainda que se julgue na amplidão.

Os movimentos feministas são respeitáveis quando reivindicam os direitos da mulher como ser humano, com aspirações inerentes à sua condição. Cometem, entretanto grave engano quando, pretextando sua libertação, a induzem a aborrecer-se com os encargos domésticos, negligenciando as sagradas tarefas da maternidade, em que a mais nobre, a mais sublime de todas as missões lhe é confiada: preparar os filhos para a Vida, tarefa que lhe confere o supremo encargo de colaboradora de Deus.

(Richard Simonetti-Endereço Certo)


domingo, 30 de janeiro de 2022

 A Assombração


  • Mas, vamos entrar seu Cornélio, há umas mandiocas cozinhando lá no fogão e é preciso ficar vigiando, pois estou com lenha boa e elas podem derreter! Como o senhor disse que não existe limite de tempo gasto para aprender, aproveito sua necessidade e gasto mais do seu tempo contando outra história.

Segui meu querido amigo até o interior da casa, mais precisamente até a cozinha e, enquanto alimentava seu gato e o cachorro, que amigavelmente dividiam o mesmo prato, ele falou:

  • Sabe seu Cornélio, há três dias, já na boca da noite, vi um cavaleiro subindo a serra e pelo bufar do animal reparei logo que a carga era pesada e Pai Juca foi logo falando:

  • Pelo tropel do animal só pode ser padre Venâncio! E se for, é problema…

  • Boa noite, Vô Simplício!

  • Boa noite, seu padre! O senhor perdeu o caminho da igreja? A noite está sem lua, é só o senhor soltar as rédeas do animal que ele leva o senhor de volta!

  • Ainda não, Vô Simplício! Primeiro quero ter uma conversa com o senhor. Sou padre desta paróquia há trinta anos e nunca fui tão desrespeitado como agora!

  • Mas o que houve, seu padre? E como este velho pode ajudar o senhor?

  • Olha aqui, Vô Simplício, não vou aturar mais que o senhor coloque aqueles despachos lá no coreto. Pode procurar outro lugar, pois daqui para a frente vai ter gente vigiando! Já não chega os meus fiéis estarem trazendo para cá as prendas da igreja? Fique sabendo que não tenho medo de suas mandingas e nem de assombrações. Vim aqui rezar um credo e uma salve rainha e o senhor não vai me impedir.

  • Mas, seu padre, este velho aqui não mexe com essas coisas não! O senhor não pode me acusar sem provar!

  • Não preciso provar nada! Eu sei em qual moita tem coelho!

O homem estava bufando mais do que o animal que o trouxe serra acima e o velho aqui não podia fazer nada, o padre não queria explicações. O Espírito do Pai Juca na hora sumiu e o velho aqui ficou sozinho.

  • O senhor está vendo aquela moita de cana ali, seu Cornélio?

  • Estou sim, irmão Simplício.

  • Pois é. Enquanto padre Venâncio rezava o credo e a salve rainha em voz alta, meu Bondade, aquele boi preto que é de estimação, estava ali comendo. O senhor está vendo um pé de araçá perto das canas?

  • Estou sim, meu amigo.

  • Pois é. Ali tem uma caixa de marimbondo que estou deixando para depois colher mel. Pois é, não é que meu Bondade esbarrou nela e levou ferroada? O berro do Bondade foi tão forte que até estev velho aqui se assustou. Padre Venâncio montou no cavalo mais depressa do que apeou e, quando meu Bondade saiu correndo daquela moita e passou que nem faísca perto de nós, seu padre cutucou a mula com as esporas e nem acabou de rezar, partiu serra abaixo que nem estrela caindo do céu! E depois fala que não tem medo de assombração! O senhor acredita que na pressa ele deixou outro terço aqui? Agora são dois! Será que é um aviso de Deus para eu rezar mais seu Cornélio?

  • Não sei não, irmão Simplício, cada um é que sabe de seus pecados, não é mesmo? “Atire a primeira pedra aquele que não for pecador”. Suposições nunca são fatos consumados e, mesmo que fossem, são de responsabilidade daqueles que lhe deram forma e vida. Criticar, julgar ou condenar nosso próximo quando supomos saber o que na realidade ignoramos, é compromisso de reparação para nosso amanhã.

  • (Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício)

sábado, 29 de janeiro de 2022

 Efeitos da Prece


Em Catanduva, SP, um pai tinha o hábito de chicotear o filho desde pequeno, então com 15 anos de idade. O chicote estava reduzido à metade. O filho vivia martirizado; imagine-se o martírio da mãe ante os sofrimentos do rapazinho.

O senhor X era um bom homem, trabalhador, e não havia explicação para a sua brutalidade.

Ao entardecer de certo dia, ele entra em casa possesso, gritando:

  • Onde está F?

  • Ainda não chegou…- disse a mãe aterrorizada ante as feições descompostas do esposo.

  • Hoje eu mato aquele bandido a pancadas! Imagine! Esteve jogando bilhar depois que saiu do serviço! Arrebento-lhe na cabeça a argola do chicote! E saiu como uma fera à procura do filho, deixando a esposa com os olhos rasos de água. Mal saiu o pai, o filho chegou cheio de alegria.

  • Mãe… estou com uma fome!

  • Meu filhinho…- soluçou a mãe. Você terminou o serviço e foi jogar bilhar… Seu pai vai bater tanto em você…

O menino entristeceu-se, não quis jantar, e foi deitar-se para esperar as pancadas. Imaginem a tortura deste rapaz na expectativa do brutal castigo.

Dali a pouco entrava o pai rubro de cólera.

  • Ele já chegou?

  • Já, mas o perdoe por esta vez…

  • Perdoar? Perdoar? Ele vai ver o que é perdão…E você já sabe, hein! Não se meta… Ele vai apanhar com a argola e na cabeça!

Dirigiu-se à cozinha, apanhou o chicote e rumou para o quarto do filho.

A mãe correu para o quarto e caiu de joelhos, pedindo:

  • Jesus! Tem piedade de meu filhinho!

Nesse momento produziu a prece o seu efeito maravilhoso!

Ouviu-se, no quarto do menino, o grito do pai se lamentando:

  • Estou desgraçado, meu Deus! Estou perdido! Como será a minha vida?

A esposa correu, em socorro, ao quarto do filho e viu seu esposo, com o braço erguido, empunhando o chicote, choramingando:

  • Estou paralítico! Estou desgraçado para o resto da vida! Não posso baixar o braço…

E a mãe, envolvida em fluidos de amor e gratidão, foi logo dizendo:

  • Esposo! Esta é a piedade de Deus e a misericórdia de Jesus Cristo! A caridade de Jesus é tão grande, que eu vou transmitir-te um passe e você vai baixar o braço, não mais para bater em meu filhinho, mas para acariciá-lo e protegê-lo!

Assim se deu. Dias depois, conseguimos apanhar o obsessor do pai do menino e doutriná-lo.

E a paz, graças a Deus, reinará naquele lar se o senhor X souber se defender.

(Cornélio Pires-Coisas do Outro Mundo)


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

 Carência de Estudo


O senhor Florentino Silveira era espírita há muitos anos. Dedicado amigo dos sofredores. Sincero. Grande disposição ao serviço do bem. Entretanto, nutria verdadeiro pavor pelas reuniões de estudos doutrinários. Não as frequentava sob pretexto algum.

Após os trabalhos práticos de quinta-feira, o amigo Borges ponderava a situação:

  • Silveira, compareça às reuniões de estudo. É preciso estudar para compreender a religião que abraçamos.

  • Deus me livre de letrados - respondia o outro - Nada de letras e livros. Fico cá com minhas ignorâncias!

  • Entretanto, Silveira - insistia o Borges - o Espiritismo é a Doutrina da fé raciocinada e convida-nos ao estudo e ao entendimento. Urge entendê-lo para não traí-lo nas atitudes. Pense bem.

Nesse momento, aproxima-se humilde senhora trazendo um vidro de remédio na mão. Fala aos dois. Estivera no ambulatório do Centro, pela manhã, e pegara o remédio. Contudo, ao tomá-lo, sentira-se muito mal. Pedia explicações. Ambos se prontificaram a ajudá-la e descobriram que se tratava de loção para usar na pele e a pobre senhora, por não entender, havia ingerido o líquido.

Borges, lampejado por súbita inspiração, aproveitou a hora e arrematou:

  • Aí está, Silveira, o que pode a ignorância. Quanta gente boa, por não estudar a Doutrina Espírita, tem-na colocado justamente onde não devia estar.

(Espírito Hilário Silva-Histórias da Vida-Antônio Baduy Filho)


quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

 Tesouro Enterrado


A família do Conde Galetére fixara residência na Itália e diversos locatários abandonaram a casa de sua mãe, a Condessa Galetére, em Savoia, França, alegando barulhos no celeiro. Pesadas portas que se abriam e fechavam com estrondo, barris que pareciam rolar de um para outro lugar, etc.

A mesma Condessa testemunhara esses distúrbios e, certa vez, corajosamente foi ao local para investigar, porém, nada conseguiu descobrir. Decorridos alguns anos, e após a morte de uma filha, ela se interessou no Espiritismo e visitou vários médiuns. Madame Signetti tinha o dom da bilocação, quando em transe, e certa vez descreveu minuciosamente a sua “caminhada” pela casa “assombrada”, passando pelos Alpes. Lá ela viu um velho soldado, com uma perna de pau, de pé em frente da casa. A médium fez perguntas ao antigo militar e repetiu à Condessa as respostas que obteve. O soldado declarou que, durante as guerras napoleônicas, conseguiu ajuntar pequena fortuna, saqueando os soldados tombados nos campos de batalha. Porém, decorridos muitos anos, ele se sentia perturbado pelos delitos praticados e pedia que o dinheiro fosse desenterrado e distribuído aos pobres.

A intrépida Condessa foi à antiga residência, cavou o solo no lugar indicado e encontrou um pote de barro cheio de moedas antigas. Vendeu-as e distribuiu o dinheiro aos pobres. Daí em diante, nada mais houve na casa e dependências. 

(Cornélio Pires-Coisas do Outro Mundo)


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

 O Sumo Bem


Distribuir o pão do Espírito é, incontestavelmente, a caridade por excelência, o bem excelso que nos é dado fazer à Humanidade.

Não existe outro meio de atendermos às grandes necessidades do homem. Não há fortuna bastante vultosa para acudir aos reclamos materiais de todos os indigentes, de todos os sofredores e miseráveis. Demais, o pão do corpo tem que ser distribuído todos os dias, continuamente, aos mesmos indivíduos. Só o pão do Espírito, uma vez ingerido, sacia para sempre. Sá a água viva aplaca a sede por completo e se transforma em fonte interior, manando para a eternidade.

As necessidades do corpo são insaciáveis e complexas. São insaciáveis porque,cotidianamente, se apresentam sob os mesmos aspectos. São complexas, porque são várias e múltiplas. O pão para a boca é de todos os dias. O vestuário e o calçado se rompem e consomem, reclamando reformas constantes.O teto, que serve de abrigo ao corpo, está sujeito à ação das intempéries, exigindo reparos de certo em certo tempo. As enfermidades são multiformes: surgem do interior e vêm também do exterior. A cura de uma, quando possível, não evita o aparecimento de outra. Se este está farto, aquele está nu. Esta criança goza saúde, aquela não tem ninho onde se refugie, nem afetos, nem conchegos. Esta mulher tem roupa e pão, mas é enfermiça e fraca. E, assim, ora o pão, ora o fato, ora o lar, ora o médico e o remédio - os reclamos do corpo jamais cessam e nunca se resolvem.

O pão do Espírito soluciona todos os problemas. Quanto mais o espalhamos, mais se aumenta em nosso celeiro. Esse pão não está sujeito às contingências do número: não tem peso, nem tem medida. Atira-se às multidões a mancheias; todos o apanham e dele se servem, segundo suas necessidades pessoais. É, ao mesmo tempo, alimento, vestuário, calçado, teto, lar, saúde, conforto, consolação, coragem, fortaleza. É tudo, porque é luz. Só a luz revela as causas dos nossos males. “Sublata causa, tolitur effectus”. Tudo preenche, porque é amor; só o amor encerra em si mesmo a plenitude das plenitudes.

O pão do Espírito é maravilhoso. Nunca se acaba nas mãos de quem o recebe; multiplica-se nas mãos de quem o espalha. Com cinco desses pães Jesus saciou mais de cinco mil famintos. E não precisava de tantos: bastava-lhe um somente. Tanto é assim, que restaram ainda doze alcofas de sobejos. Este prodígio é a alegoria do pão do céu, que Ele trouxe ao mundo, para sanar todos os seus males e flagelos. Da distribuição de semelhante pão é que incumbiu a seus discípulos. Quando estes consideraram os milhares de estômagos vazios, assediando o Mestre no deserto, disseram-lhe: Despede-os, Senhor; já vai o dia em declínio, e onde acharemos pães para tanta gente? Alimentai-os, retrucou o Cristo de Deus. Eles, porém, não perceberam de que espécie de pão Jesus falara.

Por isso, está o mundo até hoje cheio de famintos, de nus, de enfermos, de órfãos, de viúvas, de indigentes e de miseráveis. Ainda não se deu conta do meio único de atender e assistir a todos esses carecentes. Não há mais hospitais, nem médicos, nem remédios para tantos enfermos. Não há asilos para tanta orfandade e para tantos desamparados. Não há pão para tantos famélicos, nem há tetos para tantos desabrigados, nem há fatos para tanta nudez, nem há consolação para tantos aflitos, precisamente porque escasseiam os distribuidores do pão espiritual, precisamente porque os despenseiros do Cristo ainda não compreenderam a ordem do Mestre e julgam que o emprego de outros processos possam conjurar os males do século.

Só o pão do Espírito soluciona efetivamente os problemas da vida, neste e noutro plano. Só o pão do Espírito pode acabar com as misérias do mundo, por isso os males que afetam a matéria têm origem na alma.

Espalhando, portanto, o pão da Terra, não esqueçamos o pão do Céu. Este sintetiza o bem dos bens, o bem por excelência, o sumo bem que nos é dado fazer a outrem.

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

 O Lugar do Paraíso


Para além do mais além, espraia-se o Universo infinito, em todas as direções.

O homem terrestre já mentaliza Vênus e Marte, Júpiter e Saturno, lares pendentes do colo maternal do Sol que nos anima, por territórios atingíveis.

Não nos referiremos em página tão simples à estatística dos milhões de quilômetros que separam os grandes mundos entre si. Recordemos tão-só que a galáxia em que respiramos agora, dentro da qual a nossa Terra pode ser comparada a uma laranja no oceano Pacífico, dista da galáxia mais próxima centenas de anos-luz. E, compreendendo-se que um ano-luz representa mais de nove trilhões de quilômetros, já que a luz se projeta com a velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, é fácil imaginar a grandeza da Criação.

Temos, desse modo, a enxamearem, nas vastidões do cosmo, sóis e planetas incontáveis, todos eles vinculados às pluriformes esferas espirituais em que se continuam. Aí, aglutinam-se, funcionam, desintegram-se e refazem-se mundos de todas as condições, no incessante quimismo dos elementos.

Mundos - santuários…

Mundos - escolas…

Mundos - sementeiras…

Mundos - searas…

Mundos - desertos…

Mundos - jardins…

Mundos - hospitais…

Mundos - penitenciárias…

Mundos - oficinas…

Mundos - museus…

Alma que te purificas na Terra, diante de tamanha magnificência, não menoscabes, porém, a tua glória celeste.

No círculo da dor e da experiência, guardas contigo o gérmen da Divindade. Criatura consciente, mais que todas as soberbas formações dos planos da matéria transitória, encerras o eterno pensamento do Criador!

Lutemos e soframos, por aperfeiçoar e aformosear a nós mesmos, nascendo sob o teto da carne e renascendo nos reinos do Espírito, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, até que, um dia, aliando a sabedoria e o amor, por nossas próprias asas, possamos remontar ao Coração da Vida, carregando o paraíso no coração. 

(Espírito Emmanuel-Justiça Divina-C. Xavier)


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

 Na Saúde, Na Doença


Em toda circunstância, trate a própria saúde, prevenindo-se da doença com os recursos encontrados em você mesmo.

Cada dia é novo ensejo para adquirirmos enfermidade ou curar nossos males.

O melhor remédio, antes de qualquer outro, é a vontade sadia, porque a vontade débil enfraquece a imaginação e a imaginação doentia debilita o corpo.

Doença do corpo pode criar doença da alma e doença da alma pode acarretar doença do corpo.

Vida atribulada nem sempre significa vida bem vivida.

Conquanto a existência em torno possa mostrar-se febricitante e turbilhonária, resguarde-se contra as intempéries emocionais no clima íntimo do próprio ser, ajudando e servindo com alegria aos menos felizes, na certeza de que o enfermeiro diligente conserva a integridade mental, muito embora convivendo, dia a dia, com dezenas de enfermos  em grandes desequilíbrios.

Somos parte integrante da farmácia do nosso próximo.

Observe as reações que a sua presença provoca no semelhante e pacifique aqueles com quem convive, não só pela palavra, mas até mesmo pela aparência e pelas atitudes, pois com a simples aproximação funcionamos como tranquilizadores ou excitantes de quem nos cerca, aliviando ou agravando os seus padecimentos físicos e morais…

Muitas doenças nascem da suspeita injustificável.

Seja sincero com você e com os outros na apreciação de sintomas que se reportem a desajustamentos orgânicos, tratando de assuntos dessa natureza, sem alarde e sem exagero. 

O maior restaurador de forças é a consciência reta que asserena as emoções.

Se o leito de dor é agasalho imposto ao seu corpo enfermo, lembre-se de que a meditação é santuário invisível para o abrigo do Espírito em dificuldade e que a prece refunde e sublima as energias da alma.

Doença é contingência natural, inevitável às criaturas em processo de evolução; por isso, esforce-se por abolir inquietações quanto a problemas de saúde física, atendendo ao equilíbrio orgânico e confiando na Vontade Superior.

(Espírito André Luiz-O Espírito da Verdade-C. Xavier)


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

 Sinceridade

Certa feita, atendendo a pessoas que buscavam a interpretação espírita e a ajuda dos bons Espíritos para seus problemas, conversei com uma senhora que, constantemente, se desentendia com o marido.

  • Sempre que iniciamos uma conversa franca, findamos brigando. Aí, é preciso ir se aproximando devagar um do outro, até que fiquemos amigos novamente.

  • E o que fazem enquanto são inimigos?

  • Ficamos ressentidos um com o outro. Nós nos evitamos, mas acabamos voltando à paz doméstica.

  • E como administram o desgaste por conta de tais afastamentos?

  • Não pensei nisso. Tenho procurado conter o meu ciúme… Acho que nossas brigas são motivadas pela minha sinceridade. Sabe, eu sou muito sincera e digo logo na cara o que estou pensando.

A mulher, em nome da sinceridade, estava lançando sobre o marido a carga tóxica do ciúme, da agressividade, esquecida que ser sincera é ser franca, leal, verdadeira.

Alguém pode dizer o que pensa, sem acusações. Pode citar defeitos sem humilhar ou querer demonstrar uma superioridade que não possui. Pode-se traçar um perfil, um diagnóstico, sem utilizar o azedume neurótico da condenação.

A “sinceridade” que agride é grosseria.

Na conversa com o marido, a mulher não agia; reagia. E o marido fazia o mesmo, ofendido com as insinuações da esposa.

Aquela conversa me fez pensar na sinceridade. Muitas pessoas são agressivas e se dizem sinceras. A verdadeira sinceridade dispensa a agressão e alia-se à compreensão, formando um dueto que se deixa conduzir pela caridade. Ser sincero é ser generoso. A sinceridade aclara os caminhos e ajuda a conduzir os desnorteados para fora de suas ilusões. Se mostra o erro, aponta a saída. Se constata a ignorância, esclarece com a verdade. Se rejeitada, segue em frente em sua missão libertadora.

Quando alguém diz ofensas a um irmão, não é sincero, mas, agressivo, vingativo, cruel.

Não há encaixe entre a sinceridade e a agressividade, pois a primeira pertence à família da beneficência e a segunda à do orgulho.

Deus não esconde suas leis nem oculta o paraíso de ninguém. Há sinceridade em sua obra e amor em suas intenções. 

O homem, quando procura amoldar a lei divina a seus propósitos mesquinhos, aliena-se, inverte as prioridades, embrutece…

E em sua ótica distorcida, confunde sinceridade com animosidade, troca a paz pela guerra, a brisa pelo tufão, até que o sofrimento, senso de orientação dos iludidos, dissipe a neblina que obscurece a razão.

Então ele vê…

O tempo perdido, o tempo de agora, o tempo depois.

É o encontro da verdade.

Está livre.

(Luiz G. Pinheiro-Histórias Deste e do Outro Mundo)