sexta-feira, 27 de novembro de 2020

 A Linha Divisória do Razoável

Eu tenho um cachorrinho de poucos meses de idade, cujo pedigree registra o nome Peter, mas que eu apelidei Guaru, nome indígena que se dá a um peixinho de riacho, muito comum em nosso Estado de São Paulo. O guaru caracteriza-se por ter barriga proporcionalmente enorme, e também Peter, o cãozinho, parecia não tê-la menor. Peter come sua comida, em seguida devora a de seu pai Show-Time e come mais as folhagens da dona Geni, minha esposa. Depois de tanta comilança, não consegue andar. Dias atrás, colocamo-lo solto no quintal, na companhia de um coelho (chamado Malazarte por ser traquinas e endiabrado). Foi aquela humilhação para o coitado do Peter, que levou um baile de Malazarte, pois, sendo glutão e gordo, não poderia correr tanto quanto o coelho, nem saltar, nem virar-se.

Este “flash” serve de ilustração para aquilo que desejo exprimir. Sim, não é o peixe que morre pela boca, mas até mesmo os animais. Não uma, mas várias vezes, foi-me dado chegar perto de uma sucuri, talvez a maior cobra do mundo, que exageradamente dizem ser capaz de engolir um boi.

Quando me informaram que havia uma, enroscada perto de um covo, junto às raízes de uma figueira, à margem do Rio Grande, fui vê-la. De fato, a sucuri estava imóvel e, então, cercada de curiosos que blasonavam desse ofídio gigantesco. A situação deste espécime, que impõe medo aos pescadores do Pantanal, era a de um animal inerme, sem defesa, quase que morto. “Ela engoliu uma capivara” - disseram-me. “Agora vai ficar assim, sem se mexer, absolutamente inofensiva. Até as crianças podem fazer dela o que bem entenderem.” Entretanto, meus amigos pescadores não brincaram em serviço e mataram-na, sem qualquer heroísmo.

A natureza coloca um limite no uso que possamos fazer das coisas. Onde fica a linha divisória do razoável ou não, daquilo que está na medida ou fora dela, do equilíbrio ou do desequilíbrio, do gozo ou da extravagância, do amor ou da paixão, da posse ou da avareza, depende da sensibilidade pessoal e do bom senso. Quando um cidadão enriquece de repente, ganhando o primeiro prêmio da loteria, poderá isto constituir-se num grande mal. Também na maternidade, sempre reverenciável, há problema quando as mães são excessivamente dedicadas. Se fazem a lição dos filhos, tiram-lhes da frente todos os obstáculos, limpam o chão onde pisam, não admitem que briguem um pouco com os colegas ou se expressem como lhes manda o impulso, colocam-nos a salvo da acrimônia de certos mestres, exprobam aqueles que lhes chamam a atenção, propiciam-lhes montanhas de brinquedos prontos e acabados, estão tirando os rebentos fora da vida. A vida é desafio. Toynbee chega a dizer que a civilização se processa diante do desafio constante.

A alternância entre o calor e o frio acelera a circulação e torna mais rígidos os músculos do corpo. Todos os dias, nosso corpo está sendo desafiado e sobrevive. O próprio chamado equilíbrio ecológico provém dessa regra. Se o mar parasse, ficasse feito um lago tranquilo no qual pudéssemos viajar sem sobressaltos, sem o fluxo e o refluxo da maré, das ondas gigantes, ou sem a presença indesejável  dos ventos tempestuosos, revolvendo-o e levando-o a se arrebentar nos costões de granito, ele estagnaria, acabaria morrendo e todos nós morreríamos, inapelável e lentamente. 

Numa interpretação, digamos assim, teológica kardecista, a Terra é uma escola. Eu diria que é uma Escola Pestalozziana, em que as lições têm que ser aprendidas e vividas. Para que se preste exatamente à sua missão transcendente no Cosmos, a luta pela vida não nos dá sossego, desde o primeiro vagido na maternidade, até o desencarne. O positivo eo negativo revezam-se e destroem-se aparentemente, pois seria uma falha inaceitável de Deus, o Absoluto e Onisciente, permitisse que o feito, realizado, evolucionado, acabasse zerado. Quando o homem morre, seu corpo é logo atacado e começa a ser destruído, antes mesmo de baixar ao túmulo, mas essa antítese destruidora existe apenas para provocar uma síntese, o renascimento em estágio superior vivencial. O Espírito do Homem sai daquele caos virulento, em expressão mais sutil, alguns até mesmo brilhando como Jesus na ressurreição.

Essa é uma das leis naturais que governam o mundo que, automaticamente, desde as galáxias até os seres mais rudimentares, reequilibram-se ou têm suas energias todas aproveitadas para um estágio melhor, mais avançado e mais elevado. Pode o sistema doer-nos muito e custar-nos muitas lágrimas, mas estamos, dessa forma, voltando ao Pai, que é Luz e Vida. 

(Mário B. Tamassía-A Flauta do Grande Espírito) 


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 Magnífica Lição de Tolerância


“Como se aproximasse o tempo em que havia de ser arrebatado do mundo, ele, de semblante resoluto, pôs-se a caminho de Jerusalém. Enviou adiante alguns mensageiros que, de passagem, entraram numa aldeia de samaritanos a fim de lhe prepararem pousada. Estes, porém, não o quiseram receber, por dar ele mostras de que ia para Jerusalém. Vendo isso, seus discípulos Tiago e João disseram: Senhor, queres tu que digamos desça fogo do céu e os consuma? Jesus, voltando-se para eles, repreendeu-os, dizendo: Não sabeis de que espírito sois? O filho do homem não veio para perder e sim para salvar os homens. E foram para outra povoação.” (Lucas, 9:51-56)


Sabem os versados em assuntos bíblicos que Samaria era uma das quatro divisões da Palestina e que, após o cisma das dez tribos de Israel, os samaritanos formaram um reino dissidente.

Para não precisarem ir a Jerusalém por ocasião das festas religiosas em que os judeus comemoravam a saída do Egito, os samaritanos construíram um templo em sua província, onde celebravam, em particular, as mesmas cerimônias.

Malgrado a origem comum, os dois povos passaram a hostilizar-se reciprocamente, sendo que os judeus, tidos como os ortodoxos do moisaísmo, tachavam os samaritanos de heréticos, devotando-lhes o maior desprezo.

Essa a razão, até certo ponto compreensível, de os samaritanos se haverem recusado a oferecer hospedagem a Jesus, tão logo o identificaram como um judeu em trânsito para a Capital.

A reação dos discípulos que o acompanhavam não se fez esperar. Queriam nada menos que fulminá-los, atraindo sobre eles fogo do céu!

Jesus, entretanto, longe de autorizar tal violência, repreendeu-os severamente, dizendo-lhes que viera ao mundo para salvar os homens e não para exterminá-los, e que, como membros de seu colégio apostólico, também eles deveriam usar de caridade para com todos, retribuindo o ódio com o amor e as ofensas com o perdão, consoante o espírito da doutrina que pregavam.

Dirigindo-se em seguida a outra aldeia, em busca de pousada, deixando em paz os que se recusaram a recebê-lo, deu Jesus mais um de seus magníficos exemplos de mansuetude e tolerância, comprovando, assim, a perfeição de seu caráter.

Vezes sem conta tem Jesus batido à nossa porta, sem entretanto, encontrar guarida, porque à semelhança dos samaritanos, nossos corações igualmente estão cheios de animosidade.

Ele então se vai porque não é de seu feitio violentar o livre-arbítrio de quem quer que seja.

Quando, afinal, acolheremos o celeste amigo, para que ele, com sua inefável presença, nos inunde a casa de alegria e felicidade?

(Rodolfo Calligaris-Páginas de Espiritismo Cristão)


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

 Segundo a Vontade de Deus


Geraldo sofrera enfarte devastador. O coração, irremediavelmente comprometido, funcionava precariamente, sobrecarregando os demais órgãos vitais. 

Após estagiar algumas semanas no hospital, os médicos atenderam seu insistente apelo, permitindo que retornasse ao aconchego do lar. Que morresse em paz junto à família, porquanto não restava nada a fazer. O problema era irreversível. O desenlace ocorreria a qualquer momento.

Geraldo pensava diferente. Quase agonizante, apegava-se irracionalmente à existência física, incapaz de perceber a gravidade de seu estado e sua condição terminal. Tinha medo. Recusava aceitar a proximidade da grande transição. Afinal, tinha apenas cinquenta anos, com muito tempo pela frente…

Por outro lado, os membros do agrupamento doméstico, particularmente Genolina, sua mãe, e a esposa Rute, contrapunham a fé ao sombrio prognóstico médico e se revezavam em longas vigílias junto ao doente, a repetir intermináveis orações em favor de sonhada recuperação.

Não obstante os esforços da heróica brigada da Vida, a Morte rondava, ameaçadora. Geraldo definhava inexoravelmente. Parecia milagre o coração destrambelhado a sustentar a circulação sanguínea. Esperava-se exatamente isso: um milagre!

Rute recordou de Mário, um vizinho espírita conhecido como eficiente médium de curas. Os passes magnéticos que aplicava operavam prodígios. Imediatamente a aflita esposa providenciou para que o chamassem. O dedicado servidor do Bem atendeu prontamente. Foi recebido com renovadas esperanças. Genolina interpretou o sentimento geral:

  • Agradecemos a Deus por sua presença. Confiamos em seus poderes espirituais. Temos certeza de que Geraldo será beneficiado...

O visitante observou atentamente o doente, percebendo sua precária situação física. Benfeitores espirituais que o assistiam em suas tarefas transmitiram-lhe orientação precisa pelos canais da intuição. Voltando-se para a anciã que esperava, ansiosa, respondeu, humilde:

  • Tenhamos confiança em Deus. Tudo será feito segundo a Sua Vontade. Peço agora que me deixem a sós com o paciente por alguns minutos...

Esvaziou-se o quarto. A porta foi fechada. Márcio orou, contrito, exorando a proteção do Céu. Amparado por médicos do Além, efetuou a transfusão magnética, após o que falou ao moribundo:

  • Geraldo, meu irmão, você está no final da jornada humana. Espíritos amigos aguardam, há dias, que supere suas vacilações para um desencarne tranquilo. Considere sua posição de Espírito imortal de retorno à pátria comum, onde somos mais livres, mais conscientes, mais felizes, sem as limitações da matéria. Ore muito e confie em Jesus, lembrando o salmista: “O Senhor é meu Pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas muito tranquilas, refrigera minha alma, guia-me nas veredas da justiça por amor do Seu nome. Ainda que andasse pelo vale das sombras da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo…”

O cérebro físico em colapso não fixa ao nível da consciência humana a exortação, mas o Espírito vacilante e assustado, saído do torpor e revigorado pelo passe, ouve o apelo e se encoraja…

  • Então, o que achou? Vai sarar? - pergunta, esperançosa, Rute, tão logo Márcio deixa o quarto.

  • Nosso Geraldo está muito bem amparado - responde, humilde, o médium. - Quanto à sua recuperação é assunto de Deus. Insisto que confiemos no Senhor. 

Assumindo postura determinante, completa:

  • Agora é preciso suspender a vigília. Quero que todos durmam em paz, particularmente nossas irmãs, que estão exaustas. O enfermeiro ficará de plantão.

Márcio despede-se das duas mulheres que, aliviadas, dispõem-se ao repouso. 

Nessa mesma noite, amparado pela Espiritualidade, Geraldo desencarnou, segundo a vontade de Deus. 


Agonias e sofrimentos exacerbados no momento da morte decorrem particularmente do apego do desencarnante à vida física, somado à inconformação de familiares que se recusam a admitir a separação.

Quando há confiança em Deus, fica mais fácil, porquanto os desígnios do Senhor são sábios e justos, mesmo quando contrariam nossos desejos.

(Richard Simonetti-Endereço Certo)


terça-feira, 24 de novembro de 2020

 O Grande Pecado


“Declarou, então, Jesus aos sacerdotes: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos precederão no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não lhe destes crédito, mas os publicanos e as meretrizes lho deram…”


Como vemos, o intérprete da Soberana Justiça classifica a falta dos sacerdotes mais grave que as das meretrizes e dos publicanos, sendo que estes, no exercício do fisco, furtavam os contribuintes exigindo maior imposto que o estabelecido em lei.

Mas, afinal, que espécie de delito praticavam os sacerdotes cuja gravidade o sábio Mestre reputa maior que o pecado das decaídas e dos publicanos?

A culpabilidade das meretrizes procede das fraquezas da carne. A ladroíce dos publicanos não deixa de ser, a seu turno, fruto da frouxidão de caráter, modalidade de fraqueza também; ao passo que o crime dos maus sacerdotes se funda na má fé com que procedem, iludindo o povo cujos sentimentos religiosos exploram. Trata-se de um programa doloso concebido, planejado e posto em prática com sagacidade e perfídia. Eles mesmos, os sacerdotes, não acreditam no que dizem, agindo em desacordo com a própria consciência. As consequências do mal praticado pela casta sacerdotal assumem proporções muito mais extensas que aquelas derivadas da vida dissoluta das messalinas e da desonestidade dos publicanos. As infelizes decaídas suportam, desde logo, os efeitos dos excessos e desmandos a que se entregam, sendo, elas mesmas, as maiores vítimas; enquanto que a mentira religiosa espalhada e mantida pelos maus sacerdotes responde pela corrupção moral do povo, pela impostura e pelo regime de mistificações que se generaliza em todas as camadas sociais. O pecado, portanto, dos sacerdotes, a cuja responsabilidade  se furtam no momento, é de efeitos mais prejudiciais e danosos que o dos publicanos e o das meretrizes. Estas exploram seu corpo; os publicanos exploram o cargo que ocupam, lesando materialmente os contribuintes, ao passo que os sacerdotes exploram o que há de mais sagrado e santo no homem: o sentimento religioso, nas relações entre a criatura e o Criador. 

Tal é o delito contra o Santo Espírito, ou seja, contra a consciência, o campo aberto à sementeira das eternas verdades reveladas do Céu através dos divinos mensageiros de Deus. 

A insinceridade, o dolo no que respeita às questões espirituais - numa palavra - a hipocrisia - eis o Grande Pecado. 

(Vinícius-Na Seara do Mestre)


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

 Caridade e o Sonho de um Quarto


A simplicidade de muitos moradores de favela transforma seus vizinhos em comadres e compadres, que nos infortúnios se auxiliam, e nas vitórias bebem e comemoram juntos. Virtudes essas que muitos de nós não  percebemos ao olharmos aqueles moradores com mãos calejadas, roupas sujas, e olhos tristes, sofridos…

Dona Dair era mãe de quatro filhos. Seu barraco, deixado pelo marido falecido, não era dos piores, sendo feito de tijolos sem reboco e cobertos por telhas de amianto. Eram dois cômodos, uma cozinha que servia de sala e um quarto de dormir. Ela vivia pedindo:

  • Seu Ivan, me arruma material para fazer mais um cômodo; os meninos estão grandes, fica difícil amontoar tudo num quarto só.

  • Dona Dair, este bairro tem mais de oitocentos barracos e mais da metade encontra-se em situação pior do que a sua. Nós não temos condições de atender todo mundo, tenha paciência!

No mês seguinte, o pedido era o mesmo. E, assim, se passaram vários meses. 

Certo dia, passando por lá, encontramos na casa outra senhora com mais quatro filhos menores de doze anos e, ao ver Dona Dair, lhe perguntamos:

  • O que aconteceu?

  • Minha comadre Néia brigou com o marido e estava dormindo debaixo da ponte com as crianças. Então, chamei-a com os filhos para virem morar aqui.

  • Mas Dona Dair, a casa da senhora não dava nem para cinco pessoas, e agora com dez?

  • Ah!, seu Ivan, não podia deixar minha comadre dormindo na rua…

  • Tudo bem Dona Dair, a senhora vai ganhar um quartinho para ajudar sua comadre!

Em reunião com voluntários do Núcleo Espírita Irmã Scheilla, de Londrina, elaboramos uma lista de doadores e explicamos a cada um essa situação. Como todos se prontificaram a colaborar, conseguimos o dinheiro necessário para o material. Dona Dair organizou então um mutirão para a construção do seu novo quartinho.

Passados quatro meses, um dia visitando aquela família, observamos que a casa não estava mais tão cheia de crianças e indagamos:

  • Onde está sua comadre, Dona Dair?

  • Ela se acertou com o marido e agora está vivendo bem. Voltou para a casa dele.

Três anos depois… 

Pensávamos que D. Dair não voltaria mais, pois havia arrumado novo companheiro. Ficaram juntos menos de dois anos, época em que ela deixou de buscar a cesta básica.

Depois, ela recomeçou a frequentar o Núcleo Espírita com mais um filhinho, de vez em quando precisando de algo.

No fim de julho, fomos agraciados com o seguinte bilhete:

“Aos Voluntários. Estou escrevendo este bilhete para agradecer os senhores e todos os que me ajudaram quando eu mais precisei. Os senhores fizeram como sempre eu gosto de fazer: fazer o bem e não olhar a quem. Deus abençoe todos vocês! Meus parabéns pelo dia dos pais. Quando a gente não pode ajudar o próximo, vale também uma palavra amiga que ajuda muito o espírito da gente. Deus abençoe todos vocês de coração!”

Pelo seu desprendimento e solidariedade, Dona Dair, sem esperar nenhuma recompensa, foi premiada com o quarto que tanto sonhara.

Os voluntários do Núcleo Espírita Irmã Scheilla, de Londrina, em reunião, concluímos que nenhum de nós teria coragem de levar uma família para a nossa casa, principalmente se a casa não comportar mais ninguém. C

Como disse Kardec, ao comentar a passagem do óbulo da viúva: “Todo aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, ocasiões encontrará  de realizar o seu desejo”.

A oportunidade de uma palavra amiga a alguém triste ou sem ânimo, oportunidade de uma prece silenciosa para um chefe grosseiro ou para um colega magoado com outra pessoa, uma compreensão  a mais para um parente difícil, e outras oportunidades passam por nós e não as aproveitamos, depois lamentamos falta de dinheiro ou de tempo para fazer o bem. 

No caso de Dona Dair, ela além de repartir o pouco que tinha, praticou também a caridade moral, eis que acolheu, com amor, no seio do seu lar, uma família com todos os seus problemas e dificuldades.

(Ivan Dutra-Sementes Para Um Mundo Melhor)


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

 A Companhia Agradável

Severina era muito medrosa, principalmente quando se tratava de assuntos espirituais, e não escondia isso de ninguém, sempre que alguma pessoa lhe falava sobre algum desencarne ou sabia de algum velório, ela se esquivava, dava sempre uma desculpa ou alegava falta de tempo para não comparecer, tal o medo e constrangimento de que se sentia portadora nessas ocasiões.

Quando saia à noite gostava de estar sempre acompanhada, principalmente quando tinha que passar por lugares sombrios. Não podia nem ouvir falar em cemitério, pois, segundo ela, escondia fantasmas dos chamados mortos, que deveriam ficar em suas sepulturas a fim de não prejudicar os que por aqui viviam.

Os anos foram passando e o medo de Severina só fazia aumentar, deixando parentes e amigos preocupados com o pavor que ela sentia pelos desencarnados.

Por ironia do destino residia próxima ao cemitério da localidade, muito bonito, arborizado, com canteiros simetricamente organizados, e repletos de flores encantadoras. Local tranquilo e sossegado, servindo até de ponto turístico como também de ponto de referência, tal a beleza daquele lugar.

Severina sempre dizia que só passaria por ali acompanhada, de preferência por alguém de mais idade, mais experiente, que pudesse lhe dar proteção!...

Certa noite, ela voltava do trabalho. O seu turno havia sido trocado sem aviso, e agora teria que passar pelo cemitério. Como tinha que percorrer uns duzentos metros a pé, até chegar em casa, parou antes da porta do cemitério aguardando alguém que pudesse servir-lhe de companhia.

Decorridos alguns minutos, um velhinho simpático se aproximou, e de imediato ela perguntou se poderia caminhar com ele por alguns metros, no que foi aceito pelo ancião.

Ao chegarem em frente da sua casa, os dois pararam, e ela agradeceu ao velhinho pela companhia tão agradável:

  • Obrigada, tenho medo dos mortos e de cemitério!

  • Eu também, disse o velhinho, quando “estava encarnado”, tinha pavor dos mortos e horror de cemitérios!


Companheiros e companheiras de jornada, o medo, é, sem dúvida alguma, um corrosivo para nossas almas. Ele atrofia as nossas íntimas potencialidades de evolução e interage em nossa capacidade de discernir, dificultando nosso raciocínio, fragilizando-nos.

Temos que lutar com tenacidade contra o medo que se instala nos mecanismos secretos do nosso ser. 

(Djalma Santos-Histórias da Vida Eterna)


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 Vida Abundante

Quando criança conta o escritor Ardis Whitman, vivia numa aldeia da Nova Escócia, no Canadá. Certa feita, uma senhora, mãe de família, morreu. O marido, alcoólatra irresponsável, cuidava pessimamente dos filhos. Passavam até fome. 

Compadecida daquela situação, piedosa mulher resolveu ajudar. Com autorização paterna, levou o menino mais débil e doente para sua casa.

Mirradinho e sofrido, a vida parecia apagar-se nele. Sombrias perspectivas… 

A mãe adotiva era viúva, pobre e inculta, mistura precária para a heróica empreitada de salvar a sofrida criança. Não obstante, possuía o mais importante - amor e energia suficientes para superar qualquer limitação.

Em pouco tempo ocorreu o milagre: o menino, literalmente, começou a desabrochar, corpo e espírito sustentados pelo carinho daquele meigo coração de mulher.

Mas havia uma dificuldade. Algo atrapalhava seu crescimento como ser humano. Algo o perturbava. É que, estranho e muito tímido, as crianças da redondeza pouca atenção lhe davam. Pior - zombavam dele! 

Um dia, sua mãe adotiva encontrou a garotada brincando, enquanto o filho, discriminado, choramingando num canto. 

Recomendou-lhe que fosse para casa. Em seguida, falou com as crianças:

  • Neste exato momento está sendo decidido se meu menino será alguém ou não. Estou fazendo tudo por ele. Mas, cada vez que consigo empurrá-lo um bocadinho para frente, vocês o mandam de volta! Não querem que ele viva?! Que cresça, que seja forte e feliz?!

A criançada a olhava, aturdida. Jamais alguém lhes falara assim!

Um dos garotos perguntou-lhe o que queria que fizessem.

  • Conversem com ele! Brinquem! Não o deixem de lado! Por favor, ajudem-me!

Comenta Whitman que nunca esqueceu o episódio. Foi seu primeiro contato com algo espantoso: Todos possuímos o poder de edificar ou destruir as pessoas de nossa convivência. Influenciamos uns aos outros como o Sol  e a geada sobre um campo verde. Isto ocorre o tempo todo, permanentemente. 

Há pessoas com o talento infeliz de sugerir uma existência sem finalidade nem esperança. São severas e frias. Matam o sonho, paralisam a esperança e mutilam a alegria. 

Mas há também pessoas maravilhosas e inesquecíveis que doam vida. Com elas crescemos e nos renovamos. Transmitem poderosa energia. Estimulam-nos a aperfeiçoar o que somos e o que podemos ser.

E como inundar de vida nosso Espírito?

A resposta está no capítulo décimo das anotações do evangelista João:

“Vim para que tenhais vida e vida em abundância”, Jesus.

Supremo doador de bênçãos, Jesus nos oferece, com a poesia de suas lições e a sublimidade de seus exemplos, os recursos para que a vida brote em nós e se derrame sobre aqueles que nos rodeiam.

Curiosamente, não obstante as indicações claras, os exemplos objetivos de Jesus, raros conquistam a “vida abundante”.

Por quê?

Talvez seja um problema de bússola…

Sim, é preciso verificar qual estamos usando para encontrar os mananciais desejados.

Geralmente usamos aquela cujo ponteiro está voltado para nós mesmos.

É a bússola do egoísmo.

Acostumados a orientar nossas ações pela ótica dos interesses pessoais, quase sempre preocupamo-nos com o que possamos receber em favor de nosso bem-estar. Pensamos muito nos deveres do próximo em relação a nós. Raramente cogitamos de nossas obrigações diante dele. 

Quando cristalizamos essa tendência “a vida murcha onde pisamos”.

É preciso usar a bússola certa. Aquela que aponta em outra direção: o próximo.

O cristão autêntico é aquele que faz do empenho de servir o seu ideal, a sua meta, a sua alegria. 

Doando-se, distribui vida, reanima os combalidos, incentiva os lutadores, consola os aflitos, ampara os fracos, cuida dos enfermos, faz sempre o melhor.

E quanto mais vida distribui, mais ela brota em seu Espírito, estuante e gloriosa!

Vida em abundância!

(Richard Simonetti-O Destino em Suas Mãos)


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

 A Doutrina Secreta de Cristo


O que Jesus nos ensinou não é um culto faustoso, não é uma religião sacerdotal, opulenta de riquezas e cerimônias e práticas exteriores que sufocam o pensamento. Não, meus amigos, não é nada disso. O que o Mestre quer, sem dúvida, é um culto simples e puro, todo de sentimento, sem pompas e imagens, consistindo na relação direta, sem intermediário, da consciência humana com Deus.

Esses princípios doutrinários que o Mestre nos transmitiu, certamente, dão sentido à verdadeira Religião, porque unem as criaturas entre si mesmas e estas ao seu Criador. Religião, em última análise, significa ligar. E as pessoas ligam-se quando irmanadas pelos mesmos princípios e pelos mesmos ideais. O ele legítimo e indestrutível dessa ligação é o Amor, na sua acepção mais elevada, mais sublime.

Nestas circunstâncias, podemos afirmar: a verdadeira Doutrina do Cristo se resume nessas palavras de eloquente concisão:

“Amai o vosso próximo como a vós mesmos e sede perfeitos como vosso Pai é perfeito. Nisso se encerram toda a   bbd

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]fgF;kio8; ;jg;8~~99bg,. Rabi, tão pura, tão simples, tão lógica, tão racional, infelizmente, por interesses mesquinhos do nosso homem, veio a ser conspurcada: “Homem ruim semeou o joio no meio do trigal”.

Os dogmas, os cultos exteriores, as pompas, os aparatos suntuosos, as imagens, a mercantilização das coisas do Espírito e mais uma série de patifarias poluíram a linfa cristalina da legítima Doutrina do Cristo. Sabendo, anteriormente, do que o homem seria capaz de fazer com a sua Doutrina, o Mestre nos afiançou que nos enviaria o Consolador Prometido, através do Espírito de Verdade, para restabelecer as Verdades Eternas e nos ensinar outras coisas. 

Sim, meus amigos, cumpriu-se a promessa do Mestre com o advento do Espiritismo. Sua missão é restabelecer a Doutrina do Cristo na sua pureza de origem e nos mostrar, ainda mais, que sob o véu da Doutrina do Mestre estavam as Grandes Verdades, as Eternas Verdades que brilham nas leiras de luz do Espiritismo Legítimo. Do diálogo entre Cristo e Nicodemos, por certo, brotou a luz da Reencarnação, indispensável ao nosso progresso moral. Quando o Mestre disse que “na casa do meu Pai há muitas moradas”, o Espiritismo comprova a pluralidade dos mundos habitados. Hoje a ciência também admite a pluralidade dos mundos habitados. Quando o Cristo se transfigurou no Thabor, conversando com os Espíritos de Elias e Moisés, induvidosamente, Ele deixou a porta aberta para que o Espiritismo penetrasse fundo nas pesquisas mediúnicas, emergindo, com resultados positivos, provando que o homem encarnado pode se comunicar com o homem desencarnado, ou seja, com o seu Espírito, através de processos sumamente idôneos.

Enfim, múltiplos são os elos de ligação entre a Doutrina do Cristo e a nossa Doutrina (O Espiritismo codificado por Kardec), ambas vinculadas pelo mesmo denominador comum - o Amor Cristão - a única saída para a nossa sofrida sociedade, ainda tão atolada no pântano das misérias humanas.

(Domério de Oliveira-Nos Rastros do Eterno)


terça-feira, 17 de novembro de 2020

 Einstein e a Religião


Dizia Bacon: Pouca ciência conduz ao ateísmo; muita ciência conduz a Deus.

Os grandes benfeitores da Humanidade, os homens que se têm distinguido pela inteligência, produzindo algo de bom e de útil para a Humanidade, foram indivíduos possuídos de espírito religioso.

Não devemos entender, porém, que esses indivíduos se achassem filiados aos dogmas desta ou daquela facção religiosa. A consciência, o espírito ou instinto religioso existe muitas vezes, em alto grau, em profunda vibração, fora dos limites estreitos do sectarismo ou da ortodoxia.

Ainda agora acabamos de ler uma notícia interessante acerca da teoria religiosa de Einstein, o célebre e famoso físico e matemático. Segundo sua opinião, a religião se manifesta sob três aspectos distintos, a saber:

  • A religião do temor;

  • A religião da moral social; 

  • A religião do senso cósmico.

A primeira e a segunda formas são passageiras. O controle da ciência destrói a primeira e substitui a segunda. Quanto, porém, à terceira, essa permanecerá para sempre, porque, como concluíram os grandes gênios, dentre eles Lang - “o fundo do Universo é luminoso”.

A presente notícia que ora comentamos nos traz à memória as consoladoras e doces palavras de Jesus: Crede em Deus, crede também em mim. Na casa do Pai há muitas moradas.

O Mestre não delimitou a fé, nem a circunscreveu dentro dos âmbitos pequeninos das tricas e das sofistarias clericais. Ele fez um apelo à razão do homem, induzindo-o a lobrigar o Autor da Vida, o Arquiteto do Universo.

Nesse foco luminoso que resplende no âmago da Criação, e no Expoente de suas maravilhas - é que Jesus convida o homem a crer.

E que crença pede Ele? A fé cega, imposta por autoridade? Não. A fé raciocinada, aquela que nasce dos fatos, que parte do que se vê para induzir ou deduzir o que não se vê. Por isso, o Mestre acrescenta: Na casa do Pai há muitas moradas.

Sim - creia no Deus cuja existência  e cuja obra se acham manifestas no panorama celeste, nos turbilhões de sóis, de mundos e estrelas que rolam na imensidade atestando a munificência da obra, a onipotência e onisciência do seu Autor.

Partindo desse fato concreto, quanta dedução a inteligência do homem pode tirar! Transportando-nos nas asas do pensamento a essas regiões refulgentes, a essas terras do céu onde habita a justiça, como não admirar a imensidade do poder e a excelência do amor divino? Para quem foram criadas essas moradas, senão para os filhos daquele Pai, em quem o Filho dileto nos aconselha a crer?

Eis aí a razão da fé raciocinada que, no dizer de Kardec - encara a razão face a face em todas as épocas da Humanidade.

Tal é a religião dos gênios. Tal é a fé proclamada pela Terceira Revelação. 

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 Amor Mentiroso


Era sábado. O famoso pastor norte-americano, aquele que arrancava lágrimas na plateia com seu  discurso, preparava o sermão sobre a beleza do Amor para a manhã do domingo imediato.

Estava só em casa naquele momento e, mergulhado na sua vasta biblioteca, pesquisava, pesquisava…

De repente, a campainha tilintou agressivamente. A princípio, não foi atender a ela mas, dada à incomodativa insistência, resolveu verificar quem era. Tratava-se de um mendigo, pedindo-lhe comida. 

  • Meu amigo - disse o pastor - estou sozinho em casa e nem sei se há sobra de comida.

Como o pedinte voltou a insistir com veemência, alegando que estava faminto, nervoso, o consagrado religioso retrucou:

  • Meu caro, eu já lhe disse que não sei se há sobra de alimentos e, como estou ocupadíssimo, por favor, queira retirar-se. Bateu a porta na cara do mendigo e retornou à sua biblioteca.

No domingo seguinte, um lindo dia de céu azul, suave brisa, a igreja estava repleta de fiéis numa radiante expectativa. De maneira empolgante, o pastor dissertou uma hora e cinco minutos sobre a beleza do Amor. 

Ao término desse sermão, grande parte dos presentes chorava de emoção e, exatamente nesse momento, uma voz ecoou lá da última fila de cadeiras, gritando:

  • Gente, não acredite neste homem. Ele é um enganador. Estive em sua residência pedindo comida e ele, com esse amor mentiroso, além de não me socorrer, bateu a porta na minha cara sem nenhum sentimento de caridade.

Como podemos concluir, é por demais perigoso receitar para os outros aquilo que nós mesmos  não conseguimos colocar em prática. Neste caso, o amor não iluminou e nem aqueceu. Apresentou-se frio e sem vida na essência.

(Jair Oliveira- Crer ou Não Crer?)

domingo, 15 de novembro de 2020

 Remorso

Era um homem de meia idade, olhar sombrio e triste semblante, que me disse:

  • Padre, estamos sós?

  • Sim. Que quereis?

  • Quero confessar-me.

  • E por que me procurais e não a Deus?

  • Deus está bem longe e eu necessito de uma voz mais próxima.

  • E a vossa consciência não vos fala?

  • Precisamente por lhe ouvir é que vos venho procurar… Padre, ouvi-me, pois é obra de caridade dar conselho a quem pede.

  • Falai, então, e que Deus nos inspire.

  • Prestai-me toda atenção. Faz alguns meses, junto aos muros do cemitério de D…, foi encontrado o cadáver de um homem com o crânio espedaçado. Pesquisas fizeram-se em vão, para encontrar o assassino; ultimamente, porém, apresentou-se ao Tribunal de Justiça um homem que se confessou autor do crime. O juiz da causa sou eu e a lei o condena à pena última, atento à sua confissão. Não posso, contudo, condená-lo...

  • Por quê?

  • Porque sei que é inocente.

  • Como, pois se ele se confessa culpado?

  • Posso jurar e juro, não foi ele o assassino.

  • Como o sabeis?

  • Simplesmente porque o assassino… sou eu.

  • Vós?

  • Sim, Padre. É uma história longa e triste. Direi, apenas, que me vinguei por minhas mãos, dependendo do meu segredo a honra dos meus filhos; mas a consciência não pode, agora, transigir com a sentença capital de um homem por ela reconhecido inocente. 

  • Acaso sofrerá o desgraçado de alienação mental?

  • Não, ele tem um cérebro perfeito. Apelei mesmo para recurso escapatório da loucura, mas a ciência médica desmentiu-me.

  • Não tenhais, portanto, remorso em condená-lo, pois os remorsos de outro crime o inspiram nessa resolução. Ninguém oferece cabeça à justiça sem que tenha sido um assassino… Conversarei com esse homem inditoso, dir-lhe-ei, para tranquilidade vossa.

Fui ouvir o infeliz; meus pressentimentos não me enganavam e, quando, na suprema hora lhe disse: “Fala que Deus te ouve”, ele, banhado em lágrimas, exclamou:

  • Padre, como é triste a existência do criminoso! Dez anos há que matei uma pobre moça e há tantos sua sombra me persegue! Ainda agora, aqui está ela entre nós dois! Casei-me, na persuasão de que, vivendo acompanhado, perderia o pavor que me definhava lentamente mas, quando acariciava minha esposa, eis que a outra se interpunha entre nós, a ocultar com o semblante lívido o semblante da minha companheira!...

  • Mas por que não confessaste o crime anterior?

  • Porque sobre ele não há provas convincentes. Tão habilmente pude ocultá-lo, que não ficou o mínimo vestígio. Ela aqui está parecendo olhar-me com menos rigor. Vede-a vós, Padre? Não? Ah! Que desejo tenho de morrer para não mais vê-la…

Ao subir ao patíbulo, acrescentou:

  • Lá está ela no lugar do carrasco… Padre, rogai a Deus para que não mais a veja após a morte, se é que os mortos veem na eternidade… Mas eu, meu Padre, quando e como descansarei?...

Um ano depois, o juiz entrava para um manicômio do qual não mais sairia, e eu… depositário de tantos segredos, testemunha moral de tantos crimes, confidente acabrunhado de tamanhas iniquidades - vivo opresso ao peso dos pecados humanos.

(Espírito Padre Germano-Memórias do Padre Germano-Amalia Domingo Soler)