quinta-feira, 28 de maio de 2020

Realidade Ignorada

Sobre inúmeras coisas discordam os seres humanos, mas creio possível distinguir-se no troar de tão ruidosas manifestações de desentendimentos o estribilho de um consenso a nos assegurar que vivemos uma época de perplexidade e, por conseguinte, de transição. Dependerá de nós, criaturas deste século que se extingue, se o milênio que se avizinha trará no seu bojo a tão sonhada e adiada felicidade coletiva ou se continuaremos a tatear na escuridão dos descaminhos.
A esperança de um encontro com nosso verdadeiro destino parece autorizada precisamente porque o momento é de inquietação e desorientação. Explica-se o aparente paradoxo. Se estamos insatisfeitos com os modelos civilizadores até agora experimentados, é porque ansiamos por propostas e, obviamente, soluções mais inteligentes, menos traumáticas e tão definitivas quanto o permite a mutabilidade da própria vida.
Um exame retrospectivo, mesmo superficial, mas honesto, informa que ainda estamos tentando corrigir disfunções do processo civilizador trabalhando mais com as instituições do que com o ser humano que nelas se integra. Insistem pensadores, filósofos, sociólogos, governantes e líderes de toda espécie em traçar programas estruturais destinados, teoricamente, a melhorar a condição humana, mas - novo paradoxo! - ignorando o principal componente da equação da vida, ou seja, o ser humano, por mais que a demagogia ou a incúria estejam a trombetear que é tudo imaginação em proveito da sociedade. Não é. Nossos desacertos são gerados, antes de qualquer outra consideração, por problemas humanos. Mas como equacioná-los corretamente e gerir com um mínimo de competência os esquemas propostos, se ainda não acrescentamos às fórmulas ditas salvadoras o indispensável ingrediente da realidade espiritual?
As leis, os decretos, os códigos jurídicos, os programas sociais, os planos econômicos, as disciplinas científicas, os sistemas políticos não estão ainda informados de que somos todos Espíritos imortais, sobreviventes e reencarnantes, responsáveis perante a Lei Maior que regula o Cosmos e as criaturas que o povoam.
Os aflitivos atritos entre árabes e judeus, por exemplo, se deslocariam prontamente para outra perspectiva se uns e outros se tornassem conscientes de que o árabe de hoje pode ter sido o judeu de ontem, em vidas anteriores, ou a vir a ser o de amanhã, em vidas subsequentes. 
Aquele que busca o enriquecimento a qualquer custo social ou ético precisa saber que estará sujeito a severo ajuste perante as Leis Divinas, quando retornar ao mundo em existência de privações e carências. A crescente preocupação com as condições ecológicas, especialmente entre os mais jovens, constitui evidência do desconforto que estão experimentando as novas gerações de encontrarem aviltado, a caminho de total destruição, aquele mundo em que viveram há poucas gerações, limpo e harmonioso no funcionamento de seus mecanismos de equilíbrio ambiental. Ainda trazem aqueles, na memória inconsciente, lembrança de um mundo no qual se podia beber a água  cristalina dos rios, ouvir o canto dos pássaros, saborear a fruta e o legume sem tóxicos, respirar o ar incontaminado, contemplar o céu despoluído, caminhar sobre as paisagens sem as feias cicatrizes das minerações mutiladoras.

'Après moi, le déluge" ("Depois de mim, o dilúvio"), teria dito um soberano francês, num impulso arrogante de que-me-importismo egoísta. É difícil imaginar onde e como estaria hoje este pobre Espírito, mas não resta dúvida de que armou contra si mesmo o mecanismo infalível da correção, dado que todos os nossos atos e até pensamentos constituem atitudes responsáveis, pelas quais temos de responder de alguma forma, algum dia, em algum ponto do Universo.
Não há, pois, fórmulas mágicas nem modelos competentes para equacionamento e solução das assustadoras crises sociais, políticas, econômicas e religiosas que marcaram, com a sua presença, a tônica deste final de século. Os desajustes são profundos, antigos e resistentes. Não se resolvem no âmbito acanhado das leis humanas, nem com lideranças desinformadas da realidade espiritual.
Enquanto esse componente básico e vital não for incorporado às estruturas do pensamento, seremos todos reféns da insatisfação em vez de hóspedes da felicidade. Curioso, contudo, que, por mais dramáticas que sejam as consequências e amplitudes desse conceito revolucionário, ele começa com a singela e tão ignorada verdade de que o ser humano é, antes e acima de tudo, um Espírito Imortal.
(Hermínio C. Miranda-As Duas Faces da Vida)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Enganar a Si Próprio

- Certa feita - prosseguia Gerônimo - ao visitar alguns amigos na zona rural e que viviam ainda presos às lendas e ao folclore de seus antepassados, ouvi:
- Mas, padre - falava senhor Ovídio - o bicho existe mesmo, eu já vi três vezes. Ele é preto igual ao carvão com uma touca vermelha na cabeça e solta fogo pelos olhos!
- Eu posso benzer suas terras - disse o padre - mas, tirar daqui o Saci que não existe não tem jeito. Isto é crendice, meu filho. Superstição!
- Mas, padre, pelo menos duas vezes na semana ele aparece bem ali na boca da mata gritando qual comida quer comer, um dia é galinha, outro é broa com queijo e toda vez temos que deixar fumo para ele.
- Olha, meu filho, você reúne sua família e faz uma novena com jejum de três dias, enquanto isso vou conversar com o bispo para ver como proceder.
- Está bem, seu padre, Deus lhe pague. 
- Ó Zé Bento, atrele o Faísca na charrete e leve seu padre de volta para a cidade.
- Como está engordando este menino! - afirmou o padre, fazendo ares de assustado ao ver Zé Bento.
- É, seu padre, achamos até que era lombriga, mas já demos "lombrigueiro" e não funcionou. De uns meses para cá é isso o que o senhor está vendo. Quanto mais tosse, mais engorda. Parece que "engole vento".
- Você fez uma boa obra, meu filho, recolhendo este menino em sua casa. Deus, tenho certeza, está muito agradecido.
- Vamos, seu padre, a charrete está pronta.
Zé Bento, que tinha uma fome do tamanho dos seus 15 anos, não gostou nada daquela história de jejum de três dias e pensava baixinho: "Se não acenderem o fogão nestes dias, o Saci vai sair da mata e vai assombrar aqui perto de casa".
De manhãzinha, como de costume, Zé Bento sentou-se na varanda para esperar o café e ouviu de seu Ovídio:
- Levante daí, moleque, pode ir para a labuta, que estamos todos de jejum! Hoje nem gritando o Saci vai ter comida. São ordens do seu padre.
Quem estivesse a vigiar, veria o moleque sair às escondidas com uma trouxa na mão rumo à matinha dos fundos, resmungando:
- Hoje o Saci não vai gritar não, ele vai aparecer ali no quintal, na frente da casa e escolher a melhor galinha para o almoço. Quero ver quem vai negar!
Touca vermelha na cabeça cobrindo bem a testa para não ser reconhecido, Zé Bento passava pó de carvão no corpo para ficar mais preto, enquanto pensava em como fazer para ficar parecendo ter só uma perna. Depois de muito esforço, conseguiu enfiar as duas pernas numa só perna da calça e lá se foi, trotando rumo à fazenda e pensando no susto que iam ter o seu Ovídio e esposa. Já no quintal, começou a saltar, ao mesmo tempo que gritava e apontava a galinha escolhida diante do casal que olhava pelas frestas da porta e das janelas.
- Eu quero aquela ali, ensope a carijó que eu volto na hora do almoço. 
E lá se foi saltando pelo mato aquela figura estranha que, dando risadas, dizia:
- Escolhi a mais gorda, vai dar um bom prato.
De repente, o moleque parou e começou a ficar branco:
- Nossa mãe, é uma "pintada"! E parece que está com fome, do jeito que me olha. Sebo nas canelas, Zé Bento, senão ela te come!
Mas se esqueceu ele de que Saci não corre, pula, pois só tem uma perna. E era uma vez um Saci. Virou comida de onça e nem a toca sobrou. Seu Ovídio, já cansado de esperar o Saci, falou com a esposa:
- É mulher, o Saci não veio buscar a galinha, é melhor a gente mesmo comer a bichinha e fazer jejum noutro dia...
- E comeram a galinha? - perguntou o irmão Simplício.
- Isso é apenas um caso, meu irmão! - respondeu Gerônimo.
- Então não é verdade?! Eu conheci um homem que já viu Saci e com a licença de vocês, vou contar uma história do apelido dele. - atalhou Vô Simplício. Mas, antes, o que o senhor achou do caso, seu Cornélio, e qual o ensinamento dele?
- Que ninguém consegue enganar a todos, todo o tempo, que devemos ser transparentes em nossas atitudes e que o nosso dizer seja sempre "sim sim, não não". Se somos os únicos com direito à colheita das sementes que lançamos à terra, é preciso cuidarmos para que sejam elas de boa qualidade! Quem planta solidariedade colhe fraternidade, quem planta amor colhe o perdão e, cultivando a fé, colheremos a esperança. Aos olhos da justiça divina, nada fica encoberto e o amanhã é sempre o credor de nosso hoje. No mais, ninguém engana a seu próximo sem enganar a si mesmo.
(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu C. Filho)

terça-feira, 26 de maio de 2020

O Mal Gera o Mal

O ser humano, no decorrer dos anos, foi conquistando todos os recursos que a terra, o ar e a água podem lhe proporcionar. 
Desenvolveu a tecnologia, construindo os mais variados objetos que lhe facilitem o trabalho e lhe proporcionem prazer.
Manipulando os produtos químicos, venceu as doenças e superou os sofrimentos físicos. Enfim, o homem foi derrotando os inimigos do seu bem-estar, conquistando aquilo que lhe dê melhores condições de vida. No entanto, o mais importante ainda não conseguiu vencer: seus vícios e prazeres inconfessáveis, causadores das piores amarguras.
Como o ser humano não se preocupa com as consequências dos erros que comete, em sua ânsia de satisfações materiais e ambições desmedidas, colherá os espinhos que semeou em sua vida dissoluta.
Outra causa das dores, que os remédios não curam, são os crimes praticados.
Quase sempre a cobrança ocorre quando o devedor se encontra com os credores na outra dimensão da vida. As vítimas que não perdoam ficam jungidas aos seus algozes, em luta permanente, durante um tempo indeterminável. 
Se os verdugos soubessem dos sofrimentos que terão quando deixarem o corpo na sepultura, jamais praticariam qualquer vileza.
Assim sendo, quando as pessoas entenderem que todos os malfeitores serão punidos, jamais prejudicarão alguém, porque, se escaparem da justiça dos homens, não escaparão da Justiça de Deus

domingo, 24 de maio de 2020

Mandar Para Os Quintos

Um amigo dizia:
- Os grandes males de nosso mundo têm sua origem nas minorias articuladas, inteligentes, ambiciosas e perversas, que se instalam nos governos, nas corporações, nas forças militares, nos órgãos de classes, nas milícias terroristas, nas organizações criminosas, a semear discórdia, vícios e violência.
E suspirava:
-  Ah! Se fosse possível reunir essa cambada num foguete espacial e mandar para os quintos... Viveríamos num paraíso!
Embora desconhecendo a Doutrina Espírita, nosso impetuoso amigo chegou perto do que nos reserva o futuro.
Esse expurgo deverá ocorrer, quando for decidido pelo Governo Espiritual de nosso planeta.
No espaço de uma geração, na medida em que retornem ao Além, os Espíritos recalcitrantes no mal encarnarão em planetas inferiores, enfrentando limitações e dores superlativas que funcionarão como solventes das sombras incrustadas em sua personalidade, até que resplandeça a luz que identifica sua filiação divina.

Algo semelhante ocorreu com os capelinos.
No livro "A Caminho da Luz", psicografia de C. Xavier, o Espírito Emmanuel reporta-se a Espíritos degredados na Terra. Vieram do sistema de Capela, na Constelação do Cocheiro, situado a quarenta e dois anos-luz de nosso planeta.
"Há muitos milênios, um dos orbes da Capela, que guarda muitas afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um de seus extraordinários ciclos evolutivos. As lutas finais de um longo aperfeiçoamento estavam delineadas, como ora acontece convosco, relativamente às transições esperadas no século XX, neste crepúsculo de civilização. Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e virtudes, mas uma ação de saneamento geral os alijaria daquela humanidade, que fizera jus à concórdia perpétua, para a edificação dos seus elevado trabalhos. As grandes comunidades espirituais diretoras do Cosmos, deliberaram, então, localizar aquelas entidades, que se tornaram pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua, onde aprenderiam a realizar, na dor e nos trabalhos penosos do seu ambiente, as grandes conquistas do coração e, impulsionando, simultaneamente, o progresso dos seus irmãos inferiores".

Muito adiante do homem terrestre em inteligência e cultura, os exilados de Capela promoveram notável  surto de progresso em nosso planeta. Deles originaram-se o grupo dos Árias, a civilização do Egito, o povo de Israel e as castas da Índia, denominados genericamente de "raças adâmicas" por Emmanuel.
Durante os milênios em que estiveram na Terra, guardavam, como era natural, imensa saudade do planeta de origem. Lá, os seres amados, o conforto, a segurança... Aqui, a soledade, as limitações e perigos de uma existência embrutecida, próxima das cavernas... Algo como o europeu rico e culto condenado a viver na pele de um aborígene australiano.
As nostálgicas lembranças que povoavam seus sonhos exerceram poderosa influência em suas concepções religiosas, com a certeza de que haviam sido expulsos de um paraíso.
Ao longo dos milênios purgaram suas culpas e, redimidos, retornaram ao planeta de origem. Poucos permanecem entre nós.
Imaturo, na infância do entendimento, o homem terrestre não conseguiu administrar adequadamente a herança dos capelinos. Desagregaram-se as grandes civilizações que eles instalaram. Perdeu-se o seu acervo cultural... Restou apenas a ideia do paraíso perdido, que deu origem à alegoria do Velho Testamento.
(Richard Simonetti-A Presença de Deus)

terça-feira, 19 de maio de 2020

Treino para a Morte

Preocupado com a sobrevivência além do túmulo, você pergunta, espantado, como deveria ser levado a efeito o treinamento de um homem para as surpresas da morte.
A indagação é curiosa e realmente dá que pensar.
Creia, contudo, que, por enquanto, não é muito fácil preparar tecnicamente um companheiro à frente da peregrinação infalível.
Os turistas que procedem da Ásia ou da Europa habilitam futuros viajantes com eficiência, por lhes não faltarem os termos analógicos necessários. Mas nós, os desencarnados, esbarramos com obstáculos quase intransponíveis. 
A rigor, a Religião deve orientar as realizações do Espírito, assim como a Ciência dirige todos os assuntos pertinentes à vida material. Entretanto, a Religião, até certo ponto, permanece jungida ao superficialismo do sacerdócio, sem tocar a profundez da alma.
Importa considerar também que a sua consulta, ao invés de ser encaminhada a grandes teólogos da Terra, hoje domiciliados na Espiritualidade, foi endereçada justamente a mim, pobre noticiarista sem méritos para tratar de semelhante inquirição.
Pode acreditar que não obstante achar-me aqui de novo, há quase vinte anos de contado, sinto-me ainda no assombro de um xavante, repentinamente trazido da selva matogrossense para alguma de nossas universidades, com a obrigação de filiar-se, de inopino, aos mais elevados estudos e às mais complicadas disciplinas.
Em razão disso, não posso reportar-me senão ao meu próprio ponto de vista, com as deficiências do selvagem surpreendido junto à coroa da Civilização.
Preliminarmente, admito deva referir-me aos nossos antigos maus hábitos. A cristalização deles aqui, é uma praga tiranizante.
Comece com a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia. Diminua gradativamente a volúpia de comer a carne dos animais. O cemitério na barriga é um tormento depois da grande transição. O lombo de porco ou o bife de vitela, temperados com sal e pimenta, não nos situam muito longe dos nossos antepassados, os tamoios e os ciapós, que se devoravam uns aos outros.
Os excitantes largamente ingeridos constituem outra perigosa obsessão. Tenho visto muitas almas de origem aparentemente primorosa, dispostas a trocar o próprio Céu pelo uísque aristocrático ou pela nossa cachaça brasileira.
Tanto quanto lhe seja possível, evite os abusos do fumo. Infunde pena a angústia dos desencarnados amantes da nicotina.
Não se renda à tentação dos narcóticos. Por mais aflitivas lhe pareçam as crises do estágio do corpo, aguente firme os golpes da luta. As vítimas da cocaína, da morfina e dos barbitúricos demoram-se largo tempo na cela escura da sede e da inércia.
E o sexo? Guarde muito cuidado na preservação do seu equilíbrio emotivo. Temos aqui muita gente boa carregando consigo o inferno rotulado de "amor".
Se você possui algum dinheiro ou detém alguma posse terrestre, não adie doações, caso esteja realmente inclinado a fazê-las. Grandes homens, que admirávamos no mundo pela habilidade e poder com que concretizavam importantes negócios, aparecem, junto de nós, em muitas ocasiões, à maneira de crianças desesperadas por não mais conseguirem manobrar os talões de cheques. 
Em família, observe cautela com testamentos. As doenças fulminatórias chegam de assalto, e, se a sua papelada não estiver em ordem, você padecerá muitas humilhações, através de tribunais e cartórios. 
Sobretudo, não se apegue demasiado aos laços consanguíneos. Ame sua esposa, seus filhos e seus parentes com moderação, na certeza de que, um dia, você estará ausente deles e de que, por isso mesmo, agirão quase sempre em desacordo com a sua vontade, embora lhe respeitem a memória. Não se esqueça de que, no estado presente da educação terrestre, se alguns afeiçoados lhe registrarem a presença extraterrena, depois dos funerais, na certa intimá-lo-ão a descer aos infernos, receando-lhe a volta inoportuna.
Se você já possui o tesouro de uma fé religiosa, viva de acordo com os preceitos que abraça. É horrível a responsabilidade moral de quem já conhece o caminho, sem equilibrar-se dentro dele.
Faça o bem que puder, sem a preocupação de satisfazer a todos. Convença-se de que se você não experimenta simpatia por determinadas criaturas, há muita gente que suporta você com muito esforço.
Por essa razão, em qualquer circunstância, conserve o seu nobre sorriso.
Trabalhe sempre, trabalhe sem cessar.
O serviço é o melhor dissolvente de nossas mágoas.
Ajude-se, através do leal cumprimento de seus deveres.
Quanto ao mais, não se canse nem indague em excesso, porque, com mais tempo ou menos tempo, a morte lhe oferecerá o seu cartão de visita, impondo-lhe ao conhecimento tudo aquilo que, por agora, não lhe posso dizer. 
(Espírito Humberto de Campos-Cartas e Crônicas-C. Xavier)

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Remédio Mais Eficaz

Juvelina vivia aflita com queimação no estômago.
Todos os dias utilizava antiácidos que lhe davam breve alívio. No entanto, o coração da moça era revoltado pela mágoa que carregava.
Juventino, o namorado, a abandonara, trocando-a por outra. Por isso, sua vida se transformara. Sonhos desfeitos, esperanças de felicidade sepultadas. Juvelina se fechara na própria dor e, desde então, passara a dedicar-se aos antiácidos, como solução para os seus males do estômago.
Depois de vários anos sofrendo, atendendo a conselhos de amigos, procurou o médico do bairro para tratar dos males da barriga.
Atencioso e experiente, o doutor consultado explicou que os males físicos não podiam ser tratados em seus efeitos, apenas. Precisava-se procurar a causa que os originara, porquanto a constante ingestão de remédios para o estômago poderia produzir outros problemas.
- Come muita pimenta?
- Não, doutor.
- Toma muito café?
- Também não...
- E o tempero... usa muito vinagre, sal ou outras coisas?
- Nada disso, doutor...
- Tem raiva de alguém?
- Como é que é? - perguntou a mulher, assustada...
- Sim, dona Juvelina, tem raiva de alguma pessoa?
- Bem... raiva não é bem o termo... o senhor sabe como é... a gente passa por alguns problemas na vida...
Entendendo que Juvelina titubeava para se abrir, o médico afirmou:
- O sentimento ruim destrói o corpo, minha filha. Conte o caso para mim...
- Foi meu namorado, doutor. Depois de vários anos de convivência, me trocou por outra e me deixou como estou até hoje, sozinha.
- Você sofreu muito com isso, não é?
Retorcendo as mãos e segurando as lágrimas, Juvelina suspirou fundo e retrucou azeda:
- O senhor nem imagina quanto... minha vida se acabou...
Olhando para o corpo arquejado e o olhar abatido, o médico perguntou:
- Há quanto tempo a senhora vem sofrendo por essa causa?
- Trinta e dois anos, doutor... 
Espantado com a revelação, o médico, compreensivo, escreveu a receita e entregou-a para a paciente que, agora, não continha mais o pranto.
Ao sair do consultório, Juvelina foi à farmácia para comprar o remédio, mas o atendente do balcão lhe devolveu a receita, dizendo que aquela medicação  eles não possuíam no estabelecimento.
Foi então que a mulher atentou para o remédio pescrito.
Na receita grafada em letras bem legíveis, vinha a medicação:

490 gotas de perdão.......................................... 24 horas por dia.
Usar por 32 anos.

E, para ser mais claro, o médico acrescentou no rodapé:
Esta medicação foi indicada, originalmente, para ser usada na forma de 70 vezes 7. Para facilitar o uso, adaptei-a aos dias de hoje. Maiores esclarecimentos, procurar o Dr. Jesus de Nazaré em seu consultório localizado na Rua da Misericórdia.
Atenção: chegue cedo porque a consulta é de graça... mas a fila é grande!
(Espírito Bezerra de Menezes-Saúde do Espírito-André L. Ruiz)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Diálogo Sobre A Morte

- Mestre - perguntou o discípulo - qual a maior certeza da vida?
- A morte. Ninguém fica para semente...
- Terrível pensar que um dia a Vida se extinguirá em nós!...
- A Vida é eterna. A Morte é apenas a outra face de uma mesma moeda.
- Deve ser muito triste partir...
- Considere a felicidade de regressar. Na Espiritualidade não há limitações físicas.
- Tenho medo.
- Naturalmente. Há o instinto de conservação e raros conseguem desapegar-se das situações humanas...
- Principalmente da família. Apavora-me a perspectiva de deixar os entes queridos...
- A morte não desfaz as ligações afetivas.
- Mas nos separa...
- Transitoriamente. Nossos amados também morrerão.
- Tornarei a vê-los?
- Fatalmente. O Amor é a força de gravidade das Almas. Os que se amam legitimamente permanecem ligados para sempre.
- Não me conformo com a perspectiva de perder tudo.
- A Virtude e a Sabedoria são patrimônios inalienáveis. Sustentam nossa felicidade onde estivermos.
- Existe uma fórmula para definir quando chegará a nossa hora?
- A Morte assemelha-se a um ladrão. Ninguém sabe quando virá.
- Como preparar-me?
- Vivendo cada dia como se fosse o último.
- Qual a orientação fundamental? Evitar o mal?
- Muito mais do que isso: praticar o Bem!
- Alguma prioridade? A família?...
- ...Universal. Somos todos irmãos...

A existência humana é apenas um momento na Vida Eterna.
O grande problema é que os homens pretendem fazer desse momento uma eternidade, apegando-se às paixões e interesses do Mundo, distraídos das finalidades de aprendizado e renovação da jornada terrestre.
Por isso desajustam-se diante da Morte.
(Richard Simonetti-Endereço Certo)

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Apelo da Migalha

Eu sou a migalha!
Neste mundo de paradoxos e desperdícios eu vivo desprezada.
Desdenham-me e abandonam-me, sem cogitarem do quanto me poderiam utilizar, a benefício dos que nada têm.
O excesso das mesas fartas, se fosse recolhido, atenderia a uma larga faixa da escassez.
Há, no mundo, vidas humanas que se alimentam de tão insignificante quota de pão, que um outro animal de pequeno porte morreria de inanição.
Com as migalhas atiradas ao lixo poderia ser modificada a tormentosa paisagem de inumeráveis criaturas.
Moedas de pequeno valor, tecidos de dimensão reduzida, calçados não utilizáveis, agasalhos que não se usam, representando as migalhas da abundância indiferente, seriam suficientes para socorrer milhões de homens necessitados...
O celeiro abarrotado é consequência dos grãos reunidos.
O oceano imensurável resulta da gota dágua insignificante.
O jardim formoso, exuberante, surge do pólen invisível.
A galáxia inabordável se origina da molécula infinitesimal.
Todas as coisas imponentes têm sua gênese na aglutinação das insignificantes.
Não espero resolver os problemas do mundo.
Anelo, apenas, por atender ao homem.
Não creio ser possível, de um momento, modificar a vida terrena.
Desejo, somente, contribuir de alguma forma, para que, um dia, a existência planetária seja diferente, portanto, mais feliz.
Enquanto muitos adiam o momento de ajudar, porque não podem produzir em demasia ou não conseguem transformar a realidade atual de dor, tornando-a amena e ditosa, candidato-me a iniciar, agora, o ministério da solidariedade, oferecendo-me para servir. 
Não te detenhas em justificativas passadistas, escusando-te o amor ao próximo, o serviço do bem. 
Vem comigo; dá-me tua quota, a tua migalha desconsiderada.
Unindo-nos, lograremos a felicidade para todos, porque "fora da caridade não há salvação".
Eu sou a migalha!
Ajuda-me a tornar-me utilidade, realização.
(Espírito Scheilla-Terapêutica de Emergência-Divaldo Franco)

terça-feira, 5 de maio de 2020

Suicídio por Amor

Há sete ou oito meses, Luís G..., sapateiro, namorava a jovem Vitorina R..., pespontadeira de botinas, com a qual deveria casar-se brevemente, pois os proclamas estavam sendo publicados. Estando as coisas nesse ponto, os jovens se consideravam quase definitivamente unidos e, como medida de economia, o sapateiro vinha fazer as refeições em casa da noiva.

Tendo vindo, quarta-feira última, como de costume, cear em casa da pespontadeira, sobreveio uma discussão a propósito de uma futilidade. Obstinaram-se, de uma e de outra parte, e as coisas chegaram ao ponto em que Luís deixou a mesa e se foi, jurando não mais voltar.

Entretanto, no dia seguinte, o sapateiro, muito confuso, veio pedir perdão. Diz-se que a noite é boa conselheira, mas a operária, talvez prevendo, depois da cena de véspera, o que poderia acontecer quando não mais houvesse tempo para voltar atrás, recusou reconciliar-se e nem os protestos, nem as lágrimas, nem o desespero puderam vencê-la. Entretanto, como já se houvessem passado vários dias desde aquele arrufo, esperando que a sua amada estivesse mais tratável, anteontem à noite Luís quis tentar uma última explicação: chegou-se, bateu à porta de modo a se dar a conhecer, mas ela se recusou a abrir. Novas súplicas do pobre abandonado, novos protestos através da porta, mas nada demoveu a implacável eleita.

“Então adeus, ó malvada!” exclamou enfim o pobre rapaz, “Adeus para sempre! Procure um marido que a queira tanto quanto eu!”

Ao mesmo tempo a moça escutou uma espécie de gemido abafado, depois como que o ruído de um corpo que caísse escorregando ao longo da porta, e tudo entrou em silêncio. Ela pensou que Luís se houvesse sentado à soleira para esperar sua primeira saída, mas prometeu a si mesma não pôr o pé na rua enquanto ele lá estivesse.

Decorrido apenas um quarto de hora, um dos inquilinos que passava no pátio com uma luz gritou pedindo socorro. Logo chegaram os vizinhos e a senhorita Vitorina, tendo aberto também a sua porta, soltou um grito de horror, ao perceber no chão o corpo de seu noivo, pálido e inanimado. Todos se apressaram em prestar-lhe auxílio e procurar um médico, mas logo verificaram que tudo era inútil, pois ele já deixara de existir. O infeliz moço havia enterrado no peito a faca de sapateiro e o ferro ficara na ferida.

O fato que encontramos no Le Siècle de 7 de abril último despertou-nos a ideia de dirigir a um Espírito superior algumas perguntas sobre as suas consequências morais. Ei-las aqui, com as respectivas respostas, dadas pelo Espírito de São Luís na sessão da Sociedade do dia l0 de agosto de 1858.


1. ─ A moça, causa involuntária da morte do namorado, tem responsabilidade? ─ Sim, porque não o amava.

2. ─ Para evitar essa desgraça, deveria ela desposá-lo, embora não o amasse? ─ Ela buscava uma ocasião para se separar dele; fez no começo de sua ligação o que teria feito mais tarde.

3. ─ Assim a culpabilidade consiste em ter nele alimentado sentimentos de que não partilhava e que foram a causa da morte do rapaz? ─ Sim. É isto mesmo.

4. ─ Neste caso, sua responsabilidade deve ser proporcional à falta, que não deve ser tão grande quanto se ela tivesse, de caso pensado, provocado a morte. ─ Isto salta aos olhos.

5. ─ O suicídio de Luís encontra justificativa no desvario em que o mergulhou a obstinação de Vitorina? ─ Sim, porque seu suicídio, provocado pelo amor, é menos criminoso aos olhos de Deus do que o do homem que quer livrar-se da vida por covardia.

OBSERVAÇÃO: Dizendo que esse suicídio é menos criminoso aos olhos de Deus, evidentemente significa que há criminalidade, posto que menor. A falta consiste na fraqueza que ele não soube vencer. É sem dúvida uma prova a que sucumbiu. Ora, os Espíritos nos ensinam que o mérito está em lutar vitoriosamente contra as provas de todo gênero, que são a essência da vida terrena.


Evocado num outro dia, foram feitas ao Espírito de Luís C... as seguintes perguntas, a que respondeu:

1. ─ Que pensais da ação que praticastes? ─ Vitorina é uma ingrata. Errei em matar-me por ela, pois ela não o merecia.

2. ─ Então ela não vos amava? ─ Não. A princípio pensou que sim, mas estava iludida. A cena que fiz abriulhe os olhos. Depois, sentiu-se feliz com esse pretexto para desembaraçar-se de mim.

3. ─ E vós a amáveis sinceramente? ─ Eu tinha paixão por ela. Acredito que era apenas isso. Se eu a amasse com puro amor, não teria querido magoá-la.

4. ─ Se ela soubesse que realmente queríeis matar-vos, ela teria persistido na recusa? ─ Não sei. Não creio, pois ela não era má. Entretanto, teria sido infeliz. Para ela foi melhor assim.

5. ─ Ao chegar à sua porta tínheis intenção de vos matar, caso fosse recusado? ─ Não. Nem pensava nisso. Não a supunha tão obstinada. Somente quando vi sua teimosia é que fui tomado por uma vertigem.

6. ─ Parece que não lamentais o suicídio senão porque Vitorina não o merecia. É vosso único sentimento? ─ Neste momento, sim. Ainda me acho perturbado. Parece-me estar à sua porta. Sinto, porém, algo que não posso definir.

7. ─ Compreendereis mais tarde? ─ Sim, quando estiver desembaraçado... O que fiz foi ruim. Deveria tê-la deixado tranquila... Fui fraco e sofro as consequências... Como vedes, a paixão leva o homem à cegueira e a cometer erros absurdos. Ele só 85quando é tarde demais.

8. ─ Dissestes que sofreis as consequências. Qual a pena que sofreis? ─ Errei abreviando a vida. Não deveria tê-lo feito. Deveria resistir em vez de acabar com tudo prematuramente. Por isso sou infeliz. Sofro. É sempre ela que me faz sofrer. Parece-me estar ainda à sua porta. Que ingrata! Não me faleis mais nisto. Não quero mais pensar, pois isto me faz muito mal. Adeus.
(Allan Kardec-Revista Espírita, Setembro de 1858)
MAMÃE, AQUI ESTOU!
A Sra... havia perdido, meses antes, a filha única, de catorze anos, objeto de toda a sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade. Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia incessantemente que em breve iria reunir-se à filha. Informada da possibilidade de se comunicar com os seres de Além-Túmulo, a Sra... resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium, mas pouco afeitas uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos apenas três: a mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão.

A mãe: Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.

Júlia: Mamãe, aqui estou!

A mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?

Júlia: Lili.

(Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem a médium o sabia, nem eu, pois há muitos anos só a chamam Júlia. Com este sinal, a identidade era evidente. Não podendo dominar sua emoção, a mãe rompeu em soluços).

Júlia: Mãe, por que te afliges? Sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.

A mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?

Júlia: Aqui ao teu lado, com a minha mão sobre a Sra. X (a médium) para que escreva o que te digo. Vê a minha letra (a letra era realmente a da moça).

A mãe: Dizes: minha mão. Então tens corpo?

Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer, mas tenho a sua aparência. Não estás contente por que não sofro mais e por que posso conversar contigo?

A mãe: Se eu te visse, te reconheceria, então?

Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.

A mãe: Com efeito, eu te revi nos meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação, uma lembrança.

Júlia: Não. Sou eu mesma que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a ideia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. Z... Ele não é sincero.

(Esse senhor, conhecido apenas da mãe, citado assim, espontaneamente, era uma nova prova de identidade do Espírito que se manifestava).

A mãe: Que pode fazer contra mim o Sr. Z?

Júlia: Não te posso dizer. Isto me é vedado. Posso apenas te advertir que desconfies dele.

A mãe: Estás entre os anjos?

Júlia: Oh! ainda não. Não sou bastante perfeita.

A mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito. Eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?

Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas agora vejo o que me falta para ser perfeita.

A mãe: Como adquirirás essas qualidades que te faltam?

Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.

A mãe: É na Terra que terás novas existências?

Júlia: Nada sei a respeito.

A mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, por que sofreste tanto?

Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!

Ante fatos como este, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre elas não há mais separação; suas almas se confundem e se expandem na intimidade espiritual, pela troca de seus pensamentos.

Apesar da discrição em que envolvemos este relato, não o teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam todos quantos perderam suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento!

Acrescentaremos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntaremos como poderiam provar que o Espírito desta jovem era um demônio malfazejo!
(Allan Kardec-Revista Espírita, Jan. 1858)



domingo, 3 de maio de 2020

Grandeza e Miséria do Homem

Que extraordinário poder tem o homem! Que revolução profunda operou à face da Terra e que prodigiosa transformação imprimiu à fisionomia das coisas!
Ele abriu caminhos ao progresso, na terra, nos mares e nos ares. Modificou o curso dos rios, arrasou montes, conquistou territórios ao mar, drenou pântanos, fecundou o solo, criou novos espécimes vegetais e animais, apropriou-se da energia atômica, edificou suntuosas cidades, arrancou as riquezas ocultas nas entranhas da terra e dominou o raio nas altitudes do céu.
Por toda a parte, deparam-se-nos os vestígios de seu construtivo e perseverante labor. Da mísera choupana passou ao majestoso arranha-céu; do frágil e minúsculo veleiro passou ao luxuoso e gigantesco transatlântico; do lento carro de boi passou ao célere avião; das estreitas e tortuosas picadas passou às estradas amplas e pavimentadas; das pequenas indústrias manuais passou às grandes indústrias mecânicas.
Observe-se, todavia, que esse mesmo homem que operou tamanhas maravilhas detém-se impotente diante de si mesmo! A tudo ele tem podido transformar. Só ainda não pode transformar aquilo que é o agente de todas as transformações: o seu próprio ser!
Sua fisionomia moral é ainda a mesma de seus antepassados da caverna.
Que belo não será o mundo quando o homem, introvertendo-se, se dispuser a transformar-se a si mesmo!
(Rubens Romanelli-Primado do Espírito)

sábado, 2 de maio de 2020

Dor e Lenitivo

Encontrava-se Manoel Vianna de Carvalho servindo o Exército, na cidade de Aracaju, quando lhe adveio superlativa provação. Atônito e ainda embriagado pelo licor da juventude, recorreu a gentil casal espírita, rogando esclarecimento e ajuda para o dilema em que se encontrava. Enquanto expunha o drama cruel, seu genitor, então desencarnado, incorporou-se à esposa do amigo, falando-lhe, emocionado
- Vianninha, meu filho, uma grande aflição exige tratamento de longo curso. Através dessa dor que lhe parece insuportável, Jesus convida o seu Espírito valoroso a estudar Sua doutrina de amor e redenção. Conheça o Galileu Incomparável, mergulhando a sua mente e os seus sentimentos na água lustral do Evangelho, e, logo de imediato, penetre-o através da visão clara e exuberante de Allan Kardec. Jesus espera por você, meu filho. Não recalcitre...
O verbo amoroso atendeu demoradamente a alma lanhada do futuro apóstolo da pregação espírita no Brasil. Quando terminou, nascia no homem alquebrado pela dor e pela incerteza o trabalhador infatigável do Espiritismo, escrevendo e falando, debatendo e explicando, abrindo Casas Espíritas e Educandários por todo o território brasileiro, num testemunho superior de abnegação e renúncia, esquecido de si mesmo para servir, e rasgando rotas de segurança para os pés andarilhos da fé claudicante, no matagal das dificuldades humanas.
Se a dor te visita não te amesquinhes. Levanta-te do impasse e serve mais. O Serviço ao próximo é o melhor lenitivo para o próprio sofrimento. O Espiritismo é vínculo entre o homem e a vida sob a inspiração de Jesus, o Herói da Sepultura Vazia.
(Espírito Ignotus-Panoramas da Vida-Divaldo Franco)