ANO NOVO
Exalta-se a felicidade nos cumprimentos tradicionais, no final do ano. As pessoas desejam, umas às outras, um ano novo muito feliz. Raramente isso acontece. Culpa do destino?
Culpa das pessoas. O problema é que condicionamos a felicidade à satisfação de nossos desejos diante da vida, quando ela está muito mais subordinada ao desejo de entendermos o que a vida espera de nós.
O que é necessário para esse entendimento?
Um pouco de reflexão. Lembro a história do rapaz contratado por uma ferrovia. No primeiro dia de trabalho, observando antigo servidor a bater nas rodas do trem que chegara à estação, perguntou-lhe: “Por que faz isso?” O ferroviário o repreendeu: “Que curiosidade é essa, meu filho? Há quinze anos cumpro esta tarefa sem conhecer-lhe a finalidade… Você mal chegou já quer saber tudo!” Muitos semelham-se ao ferroviário indiferente. Nem sabem por que vivem.
“Batem” na roda da Vida, dominados pela rotina…
Exatamente. Comem, dormem, trabalham, procriam, divertem-se, descansam, sem nenhuma preocupação em saber de onde vieram, para onde vão, por que estão na Terra. Quem não sabe por onde anda tem poucas chances de encontrar os caminhos da felicidade.
A situação atual não está complicada demais, principalmente no Brasil, com problemas de subsistência que nos roubam a serenidade necessária ao cultivo da reflexão?
Sim, mas apenas porque nos envolvemos demais com eles. Diógenes, famoso filósofo grego, proclamava que para sermos felizes devemos nos livrar do supérfluo, dos modismos, buscando o essencial. Andava descalço, vestia uma única túnica que possuía, dormia num tonel. Certa feita, viu um menino tomando água num riacho, usando o côncavo das mãos. Admirou-se. “Esse menino acaba de ensinar-me que ainda tenho objetos desnecessários!” Jogou fora a caneca que usava e passou a imitá-lo.
Não seria meio complicado imitar Diógenes?
Sem dúvida, mesmo porque estamos longe do desprendimento integral. Mas Diógenes não é um modelo que deva ser observado ao pé da letra. Ele situa-se como precioso exemplo de como podemos simplificar a existência, usando melhor nosso tempo.
Nem sempre a infelicidade sustenta-se de problemas e dificuldades relacionados com a vida material. Piores são as angústias suscitadas pelo comportamento daqueles que nos rodeiam, particularmente familiares e amigos. A reflexão ajudaria?
Muito, desde que orientada para a compreensão que sustenta a capacidade de perdoar. Sem esse empenho a mágoa é qual espinho cravado em nosso peito. Envenena e faz dorida a existência. Perdoar, portanto, não é favorável ao ofensor. Seu exercício é tão fundamental em favor da harmonia interior quanto a oração. Ressalte-se que um coração magoado tem muita dificuldade para a comunhão autêntica com as Fontes da Vida. Por isso Jesus recomendava que nos reconciliemos com nossos adversários antes de orar.
Desapego, reflexão, perdão… Que outro tema deveríamos fixar como meta para o Ano Novo?
O mais importante é o Amor. Estamos distanciados dessa realização sublime. Tão distantes que nos deslumbramos quando deparamos com alguém que exercita plenamente a capacidade de amar, como um Francisco de Assis ou um Eurípedes Barsanulfo. Entretanto, lembro um amigo que dizia: “princípio de angu é mingau”. O empenho de servir, ainda que modestamente, é o caldo ralo que podemos engrossar com valores de perseverança e boa vontade, até que possamos oferecer ao próximo esse Maná do Céu que se chama Amor.
(Richard Simonetti-A Força das Ideias)