sexta-feira, 29 de outubro de 2021

 Amiga Inveja. Amiga Preguiça


  • Já que o senhor está aqui, seu Cornélio, vou contar mais uma história. O senhor espere que vou colocar uma água pro café no fogo, enquanto a gente conversa, ela ferve! O senhor, que é Espírito, não carece do café, mas eu ainda preciso.

  • Fique à vontade, irmão Simplício.

  • Eu estou, meu filho, só não fica à vontade quem tem peso na consciência, não é mesmo? Bem, meu filho, preste atenção que vou contar:

O Sinfonia, meu galo de estimação, ainda estava no segundo canto daquela manhã, quando um tropel de cavalo parou na porta de casa e Pai Juca veio logo me falar:

  • Simplício, meu filho, chegou aí uma mulher montada numa charrete, carregando junto duas almas penadas.

Antes de Pai Juca acabar de me contar, ela bateu palma com tanta força que parecia o trovejar de uma garrucha!

  • Vô Simplício! Ó de casa!

  • Bom dia, comadre, a senhora levantou cedo hoje! E seu marido, o compadre Isidoro, está bom?

  • Ele está bom, Vô Simplício! O senhor me desculpe pela hora, mas quem precisa começa cedo, o senhor não acha?

  • Até quem não precisa deve começar, como eu hoje. Mas o que a comadre está precisando, em que posso ajudar?

  • Antes de pedir o favor, quero que aceite meus agrados. É coisa pouca, mas de grande valia. Está tudo guardado dentro desse embornal, que o senhor pode guardar pro senhor também!

  • Vamos apear, então, minha filha, dar um descanso para o animal que está com muita carga.

  • Não é preciso apear, não, Vô Simplício. Estou é carecendo de um favor pequeno! Preciso de uma oração boa pra melhorar as coisas lá em casa. Estamos passando muito aperto nas finanças, os trocados que meu Isidoro ganha mal dão pra comida! O senhor preste atenção: na casa da comadre Aparecida, compraram cinco vacas leiteiras no mês que passou. Comadre Esperança comprou três novilhas prenhes, no mês passado. E lá em casa não compramos nem uma galinha! De tanta raiva e pra não ficar escutando as histórias das comadres, não tenho ido mais nas novenas do padre Venâncio. Estou precisando que o senhor dê um jeito no meu Isidoro pra ele ganhar mais dinheiro.Estou cansada de ser pobre e humilhada. O senhor vai me ensinar a simpatia e a oração, Vô Simplício?

Nessa hora, o Espírito Pai Juca, que já estava perto, me ensinou tudo o que eu devia falar:

  • Vou sim, minha filha! Guarde aí na cabeça o que vai fazer. Vocês têm um pedaço de terra vermelha nos fundos da casa fazendo divisa com o Córrego das Pacas, não é mesmo? Pois é. A filha, mas só a filha, sem a ajuda de ninguém, vai fazer ali uma roça de mandioca com as mudas bentas que vou arranjar e, enquanto as mudas crescem, vai fazer uma promessa pra N. Senhora da Providência rezar seis terços por dia até o dia de colher as mandiocas.

  • Mas e a simpatia pra melhorar o ganho do meu Isidoro?

  • Seu Isidoro é homem que nasceu pra ser o que é, e vocês já criaram cinco filhos com ele trabalhando igual hoje. É melhor deixar ele sossegado. Agora vamos é cuidar da comadre! Você pode ir agora dona “Rípedes” e comece fazendo as orações antes de chegar em casa.

  • Está bem, Vô Simplício, vou fazer conforme o senhor me ensinou, fique com Deus!

  • Estou sempre com Ele, minha filha, mas aí na sua charrete não cabe mais ninguém, não é mesmo?

  • O povo comenta que às vezes o senhor fica meio caduco, pelas coisas que fala, Vô Simplício! Veja só, o senhor errou o meu nome e minha charrete está vazia…

Ela não esperou a resposta e foi embora levando as duas almas penadas sentadas do lado dela! Pai Juca me falou que o nome delas era inveja e preguiça. São os amigos de quem quer subir na vida à custa dos outros!

  • Mas há duas coisas que me deixaram intrigado, irmão Simplício…

  • O que foi, seu Cornélio?

  • Em primeiro lugar o nome estranho que o senhor deu a essa senhora; em segundo, posso até entender o motivo das orações, mas não compreendo o porquê da plantação da mandioca!

  • Bem, seu Cornélio, quem quer colher que plante, não é mesmo? A mulher já criou os filhos, mas dona inveja montou nela e está brigando com dona preguiça, que já tem moradia ali há muitos anos. Se dona preguiça deixar ela plantar as mandiocas, quando ela colher, vai ter dinheiro para comprar as vacas e as novilhas que quer! Sobre o nome dela, o senhor também está certo. Não é “Rípedes”, eu tirei um pedaço dele! O padre a batizou com o nome de Florípedes, mas de flor ela não tem nada não! Outro dia, seu Cornélio, conto a história de quando ela voltou aqui seis meses depois.

  • Vou querer ouvir sim, meu amigo.

  • E o ensinamento da história, o senhor entendeu?

  • Claro, meu irmão. O homem é insaciável em seus sonhos e ambições, não sabe contentar-se. O necessário não lhe basta. Reclama pelo supérfluo!  Antes de queixar-se da vida, deveria observar que colhe o que plantou, como está hoje plantando o que colherá no amanhã, pois “digno é o trabalhador de seu salário”.

(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu Costa Filho)


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 A Terra


A Terra é um magneto enorme, gigantesco aparelho cósmico em que fazemos, a pleno céu, nossa viagem evolutiva.

Comboio imenso, a deslocar-se sobre si mesmo e girando em torno do Sol, podemos comparar as classes sociais que o habitam a grandes vagões de categorias diversas.

De quando em quando, permutamos lugar com os nossos vizinhos e companheiros.

Quem viaja em instalações de luxo volta a conhecer os bancos humildes em carros de condição inferior.

Quem segue nas acomodações singelas, ergue-se, depois, a situações invejáveis, alterando as experiências que lhe dizem respeito.

Temos aí o símbolo das reencarnações.

De corpo em corpo, como quem se utiliza de variadas vestiduras, peregrina o Espírito de existência em existência, buscando aquisições novas para o tesouro de amor e sabedoria que lhe constituirá divina garantia no campo da eternidade.

Podemos, ainda, filosoficamente, classificar o Planeta, com mais propriedade, tomando-o por nossa escola multimilenária.

Há muitos aprendizes que lhe ocupam as instalações, na expectativa inoperante, mas o tempo lhes cobra caro a ociosidade, separando-os, por fim, de paisagens e criaturas amadas ou relegando-os à paralisia ou à cristalização, em largos despenhadeiros de sombra.

Outros alunos indagam, dia e noite… e, com as perquirições viciosas, perdem os valores do tempo.

Imaginemos um educandário, em cuja intimidade comparecessem discípulos de primária iniciação, exigindo retribuições e homenagens, antes de se confiarem ao estudo das primeiras lições.

O menino bisonho não poderia reclamar esclarecimentos, quanto à congregação que dirige a casa de ensino onde está recebendo as primeiras letras.

E, ante a grandeza infinita da vida que nos cerca, não passamos de crianças no conhecimento superior.

Vacilamos, tateamos e experimentamos, a fim de aprender e amealhar os recursos do Espírito.

Compete-nos, assim, tão-somente, um direito: - o direito de trabalhar e servir, obedecendo às disciplinas edificantes que a Sabedoria Perfeita nos oferece, através das variadas circunstâncias em que a nossa vida se movimenta.

Ninguém se engane, julgando mistificar a Natureza.

O trabalho é divina lei.

Pesquisar indefinidamente, na maioria das vezes, é disfarçar a preguiça intelectual.

A vida, porém, é ciosa dos seus segredos e somente responde com segurança aos que lhe batem à porta com o esforço incessante do trabalhador que deseja para si a coroa resplendente do apostolado no serviço.

(Espírito Emmanuel-Roteiro-C. Xavier)


quarta-feira, 27 de outubro de 2021

 A Conclusão


Jesuíno Pimenta não tolerava a menor contrariedade. Ficava enfezado. Fisionomia carrancuda. Conversa ríspida. Contudo, era estimado na pequena cidade. Todos haviam se acostumado ao seu jeito de ser.

Comerciante hábil, tinha freguesia garantida. E, apesar do temperamento forte, sempre se reunia com os amigos em encontros de lazer, quando seu mau humor era motivo de comentários jocosos.

Na manhã ensolarada de domingo, o assunto era a reencarnação de Jesuíno. Com tamanho emburramento, o que teria sido ele em vidas passadas? As opiniões corriam soltas entre os amigos.

  • Acho que foi um nobre muito bajulado - disse um deles.

  • Acredito que tenha sido um tirano - afirmou outro.

  • Ou, então, viveu como príncipe mimado - acrescentou um terceiro.

As especulações já iam longe, quando Josias interferiu no assunto. Professor e espírita estudioso, era o mais velho da turma. Reservado. Sensato. Objetivo. Acomodou-se na cadeira e falou, com firmeza:

  • Vocês falam em vidas anteriores para justificar o temperamento do Jesuíno. Estão perdendo tempo. O problema dele não é o passado, é o presente.

O grupo se calou à espera da conclusão. O professor levantou-se e sentenciou, solene:

  • Ele é simplesmente mal-educado e fim de conversa.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

 Escuridão


  • Este mundo é muito triste. Lágrimas. Enfermidades. Sofrimento.

O desabafo era de Venâncio Seixas. Homem correto. Temperamento sensível. Bom companheiro nas tarefas assistenciais. Tinha, porém, uma dificuldade: medo da escuridão.

Benevides, o amigo de muitos anos, comentou, em resposta:

  • O mundo é de provas e expiações. Aqui, todos trazemos mazelas a serem curadas. E um dos remédios é a dor. Nosso planeta não é colônia de férias, mas reformatório em que as provações dolorosas nos conduzem ao caminho do bem.

A conversa acontecia durante a assistência domiciliar, quando os companheiros visitavam os irmãos mais infelizes. Bairro carente. Ruas esburacadas. Casario pobre.

De repente, todas as luzes se apagaram por alguns minutos. O grupo parou de caminhar, e Venâncio começou a sentir-se mal. Falta de ar. Suores abundantes. Tremores.

Quando a energia voltou, o trabalho prosseguiu. Mais adiante, alguém explicou que fora defeito na usina de força. Benevides aproveitou a oportunidade para completar o raciocínio:

  • Venâncio, assim como a escuridão nos ensina a valorizar a luz, também a Terra é estágio sombrio em nossa trajetória evolutiva, onde ganhamos experiência e aprendemos a buscar a transformação moral, para habitar, no futuro, os mundos superiores e iluminados.

Venâncio assentiu com a cabeça, mas observou com a voz trêmula:

  • Tomara que nesses mundos superiores as usinas de força não tenham defeitos.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

 A Vela


Eustáquio Cascadura tinha a natureza forte. Por pouca coisa, a explosão acontecia. Mecânico respeitado. Competência reconhecida. Profissional correto.

Apesar do gênio explosivo, formara enorme clientela na oficina. Empregava vários auxiliares. Era bom chefe. Dava orientações. Ensinava. Apoiava os funcionários até em seus problemas pessoais. 

Cultivava princípios nobres e conquistara a admiração de seus pares. Homem de palavra. Pai de família modelar. Cidadão honesto. Contudo, tinha duas dificuldades: os ataques de cólera e a falta de fé. Era estourado.

Aristeu, sócio de muitos anos e espírita praticante, aconselhava:

  •  Eduque os nervos. Crise de raiva é orgulho ferido. O Evangelho nos ensina que devemos incinerar a arrogância nas chamas da humildade. E a fé é a centelha divina que alimenta as labaredas da renovação íntima.

A conversa se dava enquanto ambos examinavam um motor a explosão. Eustáquio retirou uma peça e disse:

  • É a vela de ignição. Está suja. Não dá faísca que preste para queimar o combustível. O motor falha e dá estouros. 

Aristeu tomou a peça entre os dedos e comentou:

  • Seu caso é parecido com a situação desta vela. Trate de melhorar a fé. 

O mecânico ficou confuso. Calou-se e esperou a explicação. O sócio continuou:

  • Sua fé não dá faísca suficiente para queimar o orgulho.

Eustáquio incomodou-se. Alterou a voz e falou, já irritado:

  • E daí?

Aristeu, que conhecia as reações exageradas do amigo, deu alguns passos para trás e completou, sorridente:

  • Aí, você dá o estouro.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)


sábado, 16 de outubro de 2021

 O Tesouro


  • Oi, compadre Cornélio! Boa tarde pro senhor!

  • Boa tarde, irmão Simplício.

  • Parece que ontem o senhor não gostou de ouvir o canto dos meus passarinhos, não comentou nada e hoje veio no fim do dia!

  • Peço-lhe desculpas pelo meu erro. As manifestações da natureza sempre nos trazem ensinamentos e o canto alegre dos pássaros nos faz ver como somos ainda imperfeitos e limitados para compreender os mistérios que envolvem a criação divina.

  • De minha parte está desculpado, mas veja se aproveita o canto triste dos sabiás-laranjeira agora de tarde. Escute só!

Meu irmão levou a mão ao ouvido e imitei-lhe o gesto, o que trouxe um sorriso feliz ao seu rosto, seguido do comentário:

  • Está ouvindo, seu Cornélio? Deus fala com a gente pela sua criação.

  • É sim, meu amigo, “ouça quem tem ouvidos de ouvir”!

  • Hoje o tempo é maior do que o de ontem, seu Cornélio?

  • Não é não, meu amigo!

  • Se for do mesmo tamanho, está bom. Tenho dois casos, mas primeiro vou contar o menor. Assente aí, seu Cornélio, antes que o Espírito do Pai Juca ocupe o lugar!


Faz uns quinze dias, eu estava sentado ali debaixo da jaqueira, quando vi a poeira levantando lá embaixo no pé da serra. Pelo trote e pelo tamanho da poeira, vi logo que era cavalho velho. E era sim, era nhô Tino da Chica que chegava:

  • Bom dia, Vô Simplício!

  • Bom dia, meu filho, o que traz você por essas bandas?

  • Estou atrás de oração. As coisas não estão boas pro meu lado não! O senhor acredita que lá em casa está faltando até o que comer?

  • Não fale isso, meu filho! Com aquelas terras boas que você tem lá embaixo?

  • Pois é, meu Vô, vim aqui só com a promessa do agrado, pois está me faltando recurso para trazer. Vim pedir pro senhor fazer uma oração pra eu conseguir vender aquelas terras.

Nisso, Pai Juca chegou e falou pra que eu repetisse tudo o que ele falava, e assim eu fiz:

  • Pai Juca, uma alma boa, está aqui do meu lado mandando falar pra você não vender não! Diz ele que tem tesouro enterrado naquelas terras.

  • Não fale isso, meu Vô! E eu passando necessidade!

  • Pois é, meu filho, ele manda falar pra você pegar uma enxada boa e cavar aquela terra, sem passar de um palmo de fundura e revirá-la, que o tesouro está lá.

  • Mas onde, meu Vô? A baixada é grande.

  • Ele não sabe, só sabe que você  só tem sete dias para fazer isso, pois o tempo das águas está pra chegar!

  • Já que é assim, vou embora pra começar hoje ainda! Minha enxada está até enferrujada.

  • Não se preocupe não, meu filho, leve esta aqui, está novinha e é de folha larga, cada cavoucada vale por duas. Vá com Deus!

  • Já estou indo, meu velho. Assim que achar o tesouro volto pra trazer um agrado pro senhor!


Depois de sete dias, Nhô Tino voltou. Estava bravo que nem uma onça pintada. Quando o vi subindo a serra, chamei Pai Juca e falei:

  • Lá vem o homem, Pai Juca. Não sei por que o senhor não falou pra mim desse tesouro, que eu ia cavar sozinho!

  • Você já está velho pra isso, Simplício, e depois você nem está doente!

  • Bom dia, Vô Simplício. Aquele Espírito enganou nós dois! Olhe minhas mãos! Cavei e revirei as terras daquela baixada toda e não encontrei nada. Pergunte o que ele tem pra falar sobre isso?

Então, peguei um litro de caroço de feijão, um litro de caroço de milho e entreguei pro compadre, com o recado do Pai Juca:

  • Você, nhô Tino, leve este milho e este feijão, aproveite a terra revirada e plante tudo. Você vai ver o tesouro que achou na porta de sua cozinha! É só esperar a colheita. Não tem olho gordo em cima de você não, o amigo está é com o bicho preguiça agarrado nas suas costas.

Irmão Simplício calou-se à espera de meu comentário:

  • O maior tesouro legado pelo Pai ao homem é o trabalho, que o conduz sempre à boa colheita. É preciso aprender a valorizar o pão que temos à mesa, pois é a conquista de cada um. Lágrimas, preces, lamentos, promessas, reclamações não nos isentam dos benefícios do suor, na ação de resgate de nossos débitos e aquisição de novos valores para o amanhã.

(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu Costa Filho)


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 A Bengala


Altivo Brandão era arrogante ao extremo. Corpo empertigado. Cabeça erguida. Olhar de desdém.

Guarda-livros de profissão, fazia a escrita de pequenas lojas na cidade. Vestia-se com apuro. Não dispensava o paletó e a gravata borboleta. Carregava sempre uma bengala de cabo trabalhado, não por necessidade, mas para compor o figurino elegante de tempos antigos.

Tornara-se espírita havia longa data. Frequentava os estudos e a assistência fraterna. Contudo, embora a convivência demorada com as lições evangélicas e doutrinárias, não se libertava do orgulho. Ao contrário, piorava com o passar dos anos. Achava-se superior aos outros. Criticava, em público, os colegas. Desdenhava os necessitados. A situação tornou-se insustentável quando, numa tarde de sábado, durante a distribuição da sopa, humilhou um dos assistidos. Os companheiros se revoltaram.

Ercílio, amigo mais chegado, foi conversar. Dizia, com preocupação:

  • Não entendo. Você conhece o Evangelho e age dessa maneira. É preciso seguir os ensinamentos de Jesus, atentar no conhecimento do Espiritismo. O orgulho não passa de mero engano. Hoje, estamos em posição vantajosa. Amanhã, a reencarnação poderá exigir de nós situação mais penosa. Tenha caridade para com o próximo, tenha indulgência…

Palavras em vão. O guarda-livros sempre retrucava, com empáfia:

  • Não tenho culpa de ser melhor do que eles.


O tempo foi passando. Certa vez, tarde da noite, quando voltava para casa, Altivo tropeçou na própria bengala e caiu. Baque surdo. Dor intensa. Dificuldade para se mover. Àquela hora, a rua estava deserta. Foi socorrido por vigia noturno das proximidades, que tomou todas as providências. Ao final, Altivo se surpreendeu ao reconhecer no benfeitor o assistido que humilhara. Envergonhou-se. Tomou-lhe as mãos e agradeceu com emoção. Prometeu encontrá-lo depois. E, no silêncio de sua intimidade, resolveu que era hora de mudar.

O acidente chegou ao conhecimento do grupo assistencial. Ao receber a visita de Ercílio, contou-lhe toda a história. O amigo carregou o semblante e falou, sério:

  • Estou humilhado. Fui vencido por ela.

O guarda-livros não entendeu. O companheiro prosseguiu:

  • Não consegui convencê-lo a mudar. Ela, sim.

Altivo não compreendia nada e, exasperado, perguntou, quase aos gritos:

  • Ela, quem?

E Ercílio, soltando longa gargalhada, completou:

  • A bengala. 

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

 Investimento Nobre


Aplicas dinheiro na bolsa de valores, em mercado de capitais, em ações, atormentando-te com resultados sempre incertos, variáveis…

Investes em títulos e moedas estrangeiras, em seguros de variada modalidade, pensando nas “surpresas da sorte”...

Acumulas cédulas, compras metais e pedras preciosas, resguardando-te em posição previdente…

Adquires imóveis e semoventes, contabilizas poupanças, capitalizas juros ante a inflação assustadora que comanda os recursos financeiros da atualidade…

Pensas e selecionas os meios, ouvindo banqueiros e expertos nos assuntos econômicos, quais aquelas mais rentáveis aplicações do mercado, no momento…

Discutes com emoção, apaixonadamente, a respeito da situação e armazenas recursos, acautelando-te…

Todavia, por maior prudência e por mais cuidadosa previdência, os rumos do futuro são imprevisíveis.

As bolsas e ações, os mercados de capitais, os títulos e moedas, os imóveis e os animais, as jóias e os seguros não oferecem paz a ninguém…

Sofrem abalos, mudam de câmbios e preços, perdem-se, desmoronam…

Muitos investidores, tomados de pânico, nos jogos e oscilações de preços, enlouquecem, suicidam-se, matam…

E mesmo que tudo transcorra em ritmo de êxitos, com resultados felizes para ti e os bens de que te fazes mordomo temporário, a morte chega e tudo fica, mudando de mãos.


Investe no amor.

Transforma moedas em pães, títulos financeiros em educação, juros em medicamentos, capitais em amparo às vidas que desfalecem, ou que se agitam sob os açoites da violência e da agressividade.

Aplica hoje os tesouros que não poderás usar amanhã, removendo a miséria do teu caminho. 

Constrói dignidade naqueles que se fazem vítimas da criminalidade e do vício.

Usa os teus recursos na recuperação das criaturas e terás tesouros indesgastáveis, que se multiplicarão no suceder do tempo.

Cada vida que ampares, desdobrará bênçãos pelos caminhos do futuro.

Nunca te esqueças das criaturas humanas, nos teus tormentosos programas de investimento. 


Bom investidor é todo aquele que, logrando saldos positivos no campo terrestre, semeia e aplica nas almas, pensando no inefável amor de Deus, de que Jesus se fez exemplo perfeito. 

(Espírito Joanna de Ângelis-Alerta-Divaldo Franco)


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

 No Fundo do Poço


Num momento de distração da babá, o garotinho de cinco anos ganhou o quintal, pulou o muro e perambulava em amplo terreno baldio… Aproximou-se, distraído, de buraco fundo e estreito, escavação abandonada de poço artesiano. Não deu outra: em momentos ei-lo precipitando-se no inesperado abismo.

A serviçal já o procurava, preocupada, quando ouviu o choro lamentoso que nascia nas entranhas da terra. Horrorizada, constatou o desastre. Seus gritos atraíram os vizinhos… Em breve chegavam os pais da criança, outros familiares, a polícia, bombeiros e toda uma multidão.

Consternação geral. Mobilizaram-se recursos de socorro. Primeiro tentaram içá-lo. Não deu certo. A solução seria um poço paralelo. Logo apareceu a escavadeira e gente habilidade, ansiosa por ajudar. Era uma corrida contra o tempo. 

O menino não resistiria muito tempo na precária situação. Talvez estivesse machucado. Seu choro era lamentoso e débil…

Os pais falavam-lhe o tempo todo, animando-o. A custo dominavam o desespero… A multidão sofria junto. Todos queriam ajudar de algum modo, ainda que em simples oração, o que muitos faziam, contritos…

As horas se escoaram, a noite passou; a azáfama dos operários da escavadeira continuava. Ao fim da tarde estava aberto o novo poço. A profundidade não era suficiente, ainda. O trabalho reiniciou-se com homens usando pás. Depois, cuidadosamente, para evitar desmoronamento, iniciaram a ligação entre os dois buracos. A torcida era grande.

Finalmente, ao final de mais uma noite, os trabalhadores atingiram o menino, que foi retirado, surgindo à superfície muito pálido, abatido, assustado, mas vivo!

Os pais receberam-no felizes, dominados por funda emoção, que se estendia à multidão. Muitas lágrimas, muita gente rendendo graças a Deus, muitos vivas para os salvadores…


Raras pessoas deixariam de sensibilizar-se. Episódios assim despertam generosos impulsos de solidariedade, a demonstrar que nos refolhos da personalidade humana há, potencialmente, valores morais que identificam nossa condição de filhos de Deus.

Não obstante, é imperioso recordar que perto de nós, bem perto mesmo, em bairros pobres, há muitas crianças despencando em sombrios abismos de miséria. Atormentados pela fome e pelo frio, carentes de afeto e orientação, não raro atingem o fundo do poço das amarguras, que sufoca suas remotas possibilidades de uma existência compatível com as necessidades humanas.

Para ajudá-las é preciso algo mais do que a fugaz comiseração inspiradora de iniciativas indômitas, em situações extremas. É essencial a coragem de lutar dia a dia, hora a hora, contra a crônica indiferença que caracteriza o Homem, insipiente nos domínios da Fraternidade, a perpetuar na Terra o quadro contristador sustentado por aqueles que vivem tranquilos na superfície, surdos aos irmãos atormentados que clamam por socorro, no fundo do poço.

(Richard Simonetti-Atravessando a Rua)


terça-feira, 12 de outubro de 2021

 Nova Oportunidade


  • Ora, nascer de novo!... Isso é fantasia. O Espiritismo promete o impossível.

Agnelo Fernandes exaltava-se com o assunto. Era médico conceituado. Generoso com os pacientes. Clínico de experiência. Contudo, atrelado às ideias religiosas tradicionais, não aceitava a preexistência da alma.

Honório, colega de plantão naquela noite, respondia com lógica:

  • As vidas sucessivas explicam a desigualdade no mundo. Resgate de erros pretéritos, novos aprendizados, aperfeiçoando íntimo, tudo levando, pouco a pouco, à perfeição possível, dentro do plano divino de evolução espiritual. Isso é a justiça, é a misericórdia de Deus.


O médico, porém, retrucava, rápido:

  • Nada de vida anterior. Cada corpo com sua alma e ponto final.

Nesse momento, a conversa foi interrompida pela recepcionista da Clínica. Atendimento de urgência. Caso grave. Cliente conhecido. Ambos se apressaram.

Após os exames e os procedimentos de alívio, Agnelo dirigiu-se com bondade ao paciente:

  • Você não devia ter abandonado o tratamento. Agora, tem nova oportunidade. Aproveite.

Logo que saíram, Honório mal pode esperar para dizer com seriedade:

  • Muito engraçado!... Deu nova oportunidade ao cliente, mas não admite para a alma outras vidas. Você se acha melhor do que Deus?

E estugou o passo, deixando para trás o colega surpreso e calado.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)


sábado, 9 de outubro de 2021

 A Dúvida


Júlio Moreira falava muito em reencarnação. Era moço ainda. Porte altivo. Maneiras refinadas. Dicção impecável. 

Entretanto, não era satisfeito com o corpo físico. Rugas precoces e lábios exagerados davam-lhe aparência desagradável, em contraste com a postura nobre.

  • Conheço minhas vidas passadas, já pertenci à realeza - dizia ele com uma ponta de orgulho.

Naquele dia, durante as atividades assistenciais, o jovem tocava em seu assunto predileto. Volta e meia, fazia relatos de suas supostas vidas anteriores.

Hortêncio, companheiro mais velho do grupo, ponderava:

  • A reencarnação é bênção divina. Todos já vivemos experiências diversas no passado. Acertamos e erramos. Aprendemos e contraímos dívidas. Agora, com o Espiritismo, podemos entender que a reencarnação é oportunidade de resgatar débitos e adquirir novo aprendizado.

Júlio, porém, parecia não escutar a lição e voltava à carga:

  • Já fui rei.

  • É provável que tenha sido, mas o que importa é o que somos agora e o que estamos realizando - retrucou o amigo.

Contudo, Júlio prosseguia insistindo no relato de suas encarnações pretéritas, até que um companheiro, já impaciente, interferiu na conversa, afirmando com ênfase:

  • Duvido. É impossível que você tenha pertencido à realeza.

Júlio calou-se por um momento e perguntou, contrafeito:

  • Qual é a dúvida?

E o companheiro, já não suportando mais o assunto e desejando colocar nele um ponto final, examinou atentamente o corpo do interlocutor e arrematou, com certa maldade:

  • Para quem já foi rei, você está muito acabado.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 1-Antônio Baduy Filho)