Loteria Esportiva
Juventino fora abnegado ferroviário. Durante mais de 40 anos trabalhara junto das caldeiras de velhas locomotivas para sustentar a prole constituída de mulher e quatro filhos.
Pouco depois de casada a filha mais nova, a esposa desencarnou e ele preferiu ficar sozinho, na antiga residência, onde sempre morara com os entes queridos em clima de paz e alguma saúde na sua velhice de aposentado pacato. Porque nada dispusesse em termos de bens materiais, não era procurado pelos filhos. De longe em longe recebia a visita de um neto, de um genro, de uma nora, embora ele mesmo sempre procurasse visitar seus consanguíneos, para saber como é que eles iam.
E o tempo foi passando sem maiores alterações. No final de 1978 Juventino resolveu arriscar a sorte. Atendendo à insistência de alguns vizinhos, jogou na Loteria Esportiva. Nada entendia de futebol, mas lhe disseram ser isso irrelevante. Por isso mesmo, ele teria tudo para acertar!
Nunca havia apostado. Preencheu um volante. Jogou. E acertou. Ganhou, não uma grande soma, mas a parte que lhe tocou era razoável. Bem que daria para adquirir uns seis automóveis populares, ou dois apartamentos na cidade. Ou ainda, se procurasse com cuidado, talvez até um pequeno sítio com alguma plantação.
Correu-lhe a filharada em alvoroço, com netos, genros, noras de quebra. Todos o cercaram de carinhos, de mimos, de zelos… Cobriam-no de agrados e de presentes. Todavia, o coração de Juventino não resistiu à alegria da sorte inesperada! Como já viesse sofrendo das coronárias, acabou sendo vítima de um ataque mais violento e desencarnou a breve tempo.
Na semana imediata ao sepultamento, o filho mais velho cuidou de abrir o inventário. E tendo procurado um despachante das redondezas, dele recebeu a informação documentada de que tudo quanto o defunto havia recebido da Loteria Esportiva, de modo nenhum poderia ser repartido entre os herdeiros.
Ao saberem da estranha notícia, filhos, genros, noras e netos se indignaram. Não queriam acreditar no que o contabilista lhes dizia. Mas este, secundado por um advogado de confiança da família, exibiu farto material através do qual Juventino deixava todo aquele dinheiro para uma instituição de caridade de atendimento à infância desvalida local!
(Celso Martins-Pelos Caminhos da Vida)