quarta-feira, 30 de setembro de 2020

 O Criminoso e o Crime


No conceito que geralmente se faz do mal, sob seus vários aspectos, confunde-se o mal, propriamente dito, com aquele que o pratica. Dessa lamentável confusão advém não pequenos erros de apreciação, quanto à maneira eficiente de combater-se o mal.

Para bem agirmos em prol do saneamento moral, precisamos partir deste princípio: o crime não é o criminoso, o vício não é o viciado, o pecado não é o pecador, do mesmo modo e pelo mesmo critério que o doente não é a doença. Assim como se combatem as enfermidades e não os enfermos, assim também se devem combater o crime, o vício e o pecado, e não o criminoso, o viciado e o pecador.

O mal não é intrínseco no indivíduo, não faz parte da natureza íntima do Espírito; é, antes uma anomalia, como o são as enfermidades. O bem, tal como a saúde, é o estado natural, é a condição visceralmente inerente ao Espírito. Um corpo doente constitui um caso de desequilíbrio, precisamente como um Espírito transviado, rebelde, viciado, ou criminoso.

Há tantas variedades de distúrbios psíquicos quantos de distúrbios físicos, aos quais a medicina rubrica com variadíssimas denominações. A origem do mal, quer no corpo, quer no Espírito, é a mesma: infração das leis da higiene.

O homem frauda essa lei por ignorância, por fraqueza e, finalmente, pelo impulso de certas paixões que o dominam. Não devemos votá-lo ao desprezo por isso, nem, muito menos, malsiná-lo como réprobo, pois, em tal caso, se justificaria tratar-se de igual modo os enfermos. 

Aliás, em épocas felizmente remotas, se procedeu assim com relação aos enfermos de moléstias infecciosas. Esses infelizes eram tidos como vítimas da cólera divina e, por isso, perseguidos desapiedadamente pela sociedade.

A ignorância torna os homens capazes de todas as insânias. Pois é essa mesma ignorância, com referência aos transviados da senda nobre da vida, que gera a repulsa e mesmo o ódio contra os delinquentes. Os velhos códigos humanos, assim civis e religiosos, foram vazados nos moldes dessa confusão entre o ato delituoso e o seu agente. 

Quando Jesus preconizou o - amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos fazem mal - não proclamou somente um preceito de alta humanidade; proferiu uma sentença profundamente pedagógica e sábia. A benevolência, contrastando com a agressão, é o único processo educativo capaz de corrigir e regenerar o pecador. 

Cumpre notar, e o declaramos com toda a ênfase, que nada tem esta doutrina de comum com o sentimentalismo piegas, estéril e, às vezes, prejudicial. Trata-se de repor as coisas nos seus lugares.

Para varrer-se o mal da face da Terra é preciso que se apliquem métodos naturais, conducentes a esse objetivo. O método natural é a educação do Espírito. Com o velho sistema de castigar, ou eliminar as vítimas do crime e do vício, nada se logrará de positivo, conforme os fatos atestam eloquentemente.

A medicina jamais pensou na eliminação dos enfermos; toda a sua preocupação está em curar as doenças. Pois o processo deve ser o mesmo, em se tratando dos distúrbios que afetam o moral dos indivíduos.

Felizmente, os primeiros pródromos de uma reforma radical neste sentido já se observam nos meios mais avançados. O único castigo capaz de produzir efeito na regeneração dos culpados é o que se traduz pela natural consequência dolorosa do erro  ou mal cometido, consequência que recai fatalmente sobre o culpado. É necessário fazer que o delinquente reconheça esse fato, e isto se consegue por meio da instrução moral.

Toda a punição imposta de fora, como revide social, é contraproducente, conforme os fatos, em sua irretorquível expressão, têm comprovado mil vezes.

É muito fácil encarcerar ou eletrocutar um criminoso. Educá-lo é mais difícil, mais trabalhoso, demanda esforço, tempo, saber e caridade. Por isso o Estado manda os criminosos à forca e as religiões remetem os pecadores, “que não são da sua grei”, para o inferno.

Mas, se aquele é o único processo eficaz, procuremos empregá-lo, e não este, anticientífico, imoral e cruel.

A educação vence e previne o mal. O homem educado conhece o senso da vida, age conscienciosamente com critério, com discernimento: é um valor social. É pela educação que se hão de vencer os vícios repugnantes (haverá algum que o não seja?), que se hão de domar as paixões tumultuárias que obliteram a inteligência e a razão. E, de tal modo, sanear-se-á a sociedade.

Retirem os delinquentes do convívio social, como se faz com o pestoso que ameaça a insalubridade pública; mas, como a este, preste-se àquele a assistência que lhe é devida: educação. 

E não se suponha, outrossim, que só os criminosos devem ser educados. A obra da educação é obra de salvação, é obra religiosa em sua alta finalidade, é obra científica e social em  sua expressão verdadeira. Eduquem-se a todos, cada um na sua esfera, até que a educação se transforme, em cada indivíduo, numa auto-educação contínua, ininterrupta.

Na educação do Espírito está o senso da vida, está a solução de todos os seus problemas.

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


terça-feira, 29 de setembro de 2020

 Enéias e Anquises


Quando Enéias reencontra o seu pai, Anquises, nas regiões avernais, estranha o herói que, às margens do rio Letes, se debrucem tantas sombras, bebendo, sequiosamente, a linfa cristalina. “Que rio é este, meu pai, em que tão copiosa gente se atropela às margens?”

Anquises, em tom grave, responde-lhe: “É o formoso Letes, onde as almas buscam o esquecimento para de novo voltarem às prisões corpóreas”. Enéias enche-se de admiração e exclama: “Pois é crível, meu pai, que almas excelsas, como as vejo, desejem voltar aos tardos corpos carnais? Oh! desejo de vida insano e triste”! Novamente Anquises, com muita paciência, esclarece: “Cada um sofre em seus manes. Poucas almas alcançam as doces veigas do amplo Elísio. Só a mão do tempo, depois da morte, depura a flama e afina a aura. Na sua maioria, ainda são Espíritos pastosos e grosseiros, sentindo as sensações materialmente e em terríveis angústias, daí a sofreguidão com que desejam esquecer, sorvendo as águas do plácido Letes.” E o velho pai arrematou: “Se quiserdes saber, muitas destas excelsas sombras serão, em vosso futuro reino, aqueles que hão de vir, enchendo ali de glória o dárdano tronco, tornando-se geradores de reis, os que, em suma, elevarão a ínclita Roma até o fulgir de Augusto.”


Os discípulos juntam-se ao redor de Jesus e crivam-no de perguntas: “Mestre amado - os nossos adversários dizem que vós não sois o Messias, pois que as escrituras rezam que antes de vir o Messias deveria, à frente, vir Elias. E, afinal, Elias ainda não veio!”  A isto, Jesus obtempera: “Se quiserdes saber, verdadeiramente, Elias já veio e ninguém o reconheceu. João Batista é o Elias noutra roupagem.”


Eis, pois, como na Eneida, do imortal Virgílio ou nas singelas palavras do Evangelho, sempre o mesmo ensino: A revelação concernente à vida sucessiva que, por fim, Allan Kardec, como professor de almas, sintetizou nesta expressão: “Nascer, morrer, renascer de novo e progredir sempre.”

Quando teria nascido a sua alma? Em que momento evolutivo teria podido ela gritar “Eu”? De que forma enovelamo-nos em torno de um eixo tornando, o Espírito, que se derrama em todas as coisas, um ser com o nosso nome, a nossa paixão, o nosso egoísmo, os nossos anseios?

Agora, ao repositório antigo, teríamos de adicionar aqueles que com a ciência, pesquisa comparativa, métodos de regressão, buscam compreender o homem, como o neurofisiologista Ian Stevenson ou Banerjee. Quem nesta idade da astronáutica, do salto à Lua, conseguirá colocar-nos na máquina do tempo retrospectiva e permitir que nos identifiquemos em roupagens exóticas de homens que já viveram alhures?

(Mário B. Tamassía-Os Mortos Acordam os Vivos)


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

 Entre Vivos e Mortos


Neste meu estágio de vida, já dobrando a curva da existência, por força das circunstâncias, pelo fato de ser Espírita, tenho convivido, de perto, com o fenômeno da “morte”. Quantos parentes e amigos já desencarnaram em meus braços, quantas lágrimas já tentei estancar nestas horas tristes.

Se encararmos a “morte” no seu aspecto puramente físico, material, em si mesma, nenhum atrativo pode ela apresentar. Desde o momento em que o Espírito se liberta do corpo somático, este começa a perder o seu encanto. A matéria orgânica passa à inorgânica. Desaparece o vigor da vida. Vem a rigidez cadavérica e o corpo que era animado pelo fluxo da corrente vital, por força da lei natural, cai na vala comum da decomposição. Os vermes tomam conta do resto. Que coisa horrível é um cadáver em decomposição. Assim, sob o ângulo material, a “morte” é fúnebre e muito triste.

Mas acontece, meus amigos, que não devemos pensar na “morte” em termos de “morte”, mas em termos de vida. Sim, “vida e vida em abundância” como nos garantiu o nosso Mestre Jesus. Devemos enxergar na “morte” a libertação do Espírito. Não devemos nos preocupar com o casulo que fica e que serviu, apenas, para agasalhar, temporariamente, a gentil libélula. Esta sim é que vale. O casulo fica para trás, cumprida a sua finalidade, mas a libélula voa sempre em demanda de outras paragens.

Lembremos dos nossos parentes e amigos que já partiram, em termos de vida, quando, ainda, animados pelo Espírito. Desde o instante que mudaram de nível, do mais denso para o menos denso, devemos fixá-los como seres vivos, bem mais vivos do que nós que ainda sentimos as limitações dos arneses.

Depositemos os despojos dos nossos entes queridos nos campos santos, certos de que ali nada mais resta - “memento homo quia pulvis es”. Por que haveremos de lembrar esqueletos em pó? Isso só nos traz tristezas e amarguras. Fixemos as fisionomias dos nossos parentes e amigos que já se foram apenas em termos de vida. Recordemos os momentos de alegria, os sorrisos estampados em seus semblantes cheios de vida, as melodias que cantavam, as poesias que declamavam, os violões que dedilhavam e as flores que nos ofertavam…

Tenhamos a plena certeza de que os Espíritos que nos são caros, por certo, estão sempre ao nosso lado, ajudando-nos, orientando-nos, muito embora as limitações da nossa organização somática não nos deixam percebê-los. 

Vivemos, como sustenta o nosso saudoso Professor Herculano Pires, o “Século do Espírito”. A projeção da vida para além das campas solitárias já tem comprovação científica. Aparelhos sofisticados, eletrônicos, tão bem explicados pelo nosso Professor Dr. Hernani Guimarães, trazem-nos as vozes e as imagens dos nossos supostos “mortos”, bem mais vivos, com todas as faculdades morais e intelectuais. 

Assim sendo, temos elementos que nos avalizam a assertiva: vivemos, não entre vivos e mortos, mas entre vivos do lado de cá e os mais vivos do lado de lá. Duas humanidades, em dimensões diferentes, que se cruzam e que se perpetuam na Avenida Infinita da Imortalidade. 

(Domério de Oliveira-Nos Rastros do Eterno)


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

 Crer e Crer


Há crer e crer. Os demônios criam: criam, mas não praticavam; criam, mas não se convertiam. O templo cristão é uma escola. Aquele que se limita a admirar-lhe a fachada, contornando-a, ou permanecendo no vestíbulo, não sabe o que é essa escola, ignora e ignorará tudo o que ali é ensinado.

O Cristianismo é uma doutrina que precisa ser aprendida e sentida. Estuda-se a ética mais com o coração do que com a inteligência. Aquele que não sente em si mesmo a influência da moral cristã, desconhece o que ela é, embora tenha perfeito conhecimento teórico de todos os seus preceitos e postulados. O coração regista emoções; nossos atos e nossa conduta geram as emoções. O Cristianismo é a verdadeira doutrina positiva, visto como é a doutrina da prova e da experiência pessoal. 

Ninguém saberá o que significa - amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos fazem mal - enquanto não escoimar o seu interior de toda a odiosidade, de todo o sentimento de rancor. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” - Quem pode saber o valor desta beatitude, senão aquele cujas lágrimas de arrependimento, ou de dor, o conduziram aos pés da Cruz? “Vinde a mim, vós todos que vos sentis aflitos e sobrecarregados; eu vos aliviarei.” Estas palavras não têm sentido para os epicuristas, para os felizes do século, para os ricos e para os poderosos da Terra. Mas, os pobres, os pequeninos, os sofredores sabem perfeitamente, por experiência, o quanto elas valem e o que significam. “Aquele que não abre mão de tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo.” Semelhante expressão é loucura para o onzenário, para o banqueiro, para o homem de negócio, para todos os argentários do mundo. Porém, é um programa, para quem já descobriu outra espécie de riqueza: a que o ladrão não rouba e a traça não rói.

“Recebei  o Espírito Santo”. Que juízo poderão fazer esta dádiva os que ainda não a receberam? Definirão o caso de mil formas, porém, jamais conhecerão do fenômeno, enquanto não o experimentarem em si mesmos. Teólogos eminentes, ilustrados e eruditos têm escrito coisas sem nexo, quando se reportam ao assunto. Por quê? Porque conhecem o caso pela mente, mas o ignoram de coração. Daí o dizer de Paulo: Só o homem espiritual entende o que é espiritual.

Jesus não foi teólogo, nem sacerdote. A teologia, tal como a ensinam as religiões, tem confundido muitos crentes, tem dividido e subdividido o rebanho do Cristo, sem jamais levar consolo a um só coração.

Na fé em Jesus Cristo não há confusão. Sua doutrina é integral; e só podemos conhecê-la seguindo as pegadas do Senhor, que é a sua personificação. Jesus é um mestre cuja escola é ele mesmo. Por isso, deixou de escrever, não legou livro algum à Humanidade que veio remir. O Cristianismo não se reduz a teorias: é luz, é verdade, é vida.

O homem é conversível. Jesus veio promover sua conversão, anunciando o Evangelho, antes que existisse qualquer livro ou manuscrito com essa designação. O Evangelho é uma mensagem, convidando os homens para o reino de Deus. Para alcançá-lo, porém, é mister uma condição: converter-se. Converter significa mudar de vida, deixar o caminho velho, tomar rota nova, pois o homem tem vivido no reino da carne, da mentira e do egoísmo; e o reino de Deus é precisamente o oposto, isto é, o reino do Espírito, da Verdade e do Amor.

Cristãos verdadeiros, portanto, são somente aqueles que se reformam continuadamente. Este é o cunho que os distingue dos falsos crentes, dos cristãos de fancaria e de rotulagem.

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 Educação Liberal


O doutor João Peixoto conversava com amigos na sala de visitas de sua residência.

Era advogado de talento. Cultura aprimorada. Defendia ideias bastante liberais a respeito da educação de filhos.

  • Sou contra a educação religiosa de crianças. Isto é imposição de ideias. Penso ser melhor escolherem quando adultos.

  • Educação  de filhos é séria responsabilidade, doutor Peixoto. Sabemos que são Espíritos que nos buscam a orientação e o amor, na fase da infância. É importante que conheçam a conduta correta e o amor ao próximo, como ensina Jesus.

Quem interpelava era José Inácio, que ali se encontrava com os companheiros em busca de auxílio para a construção de um prédio destinado a aulas de moral cristã.

  • Não concordo. Meus filhos receberam plena liberdade. São donos de si. Penso que desta maneira aprenderão por conta própria.

Entretanto, no decorrer da conversa, toca o telefone. O advogado levanta-se e atende. Ouve atentamente. Torna-se trêmulo. Responde por monossílabos. E, depois de algum tempo, desliga afobado.

Interpelado pela esposa impaciente, só tem tempo para dizer:

  • Nosso filho está no Pronto Socorro do bairro. Foi acidentado. Apostava corrida com os amigos e capotou o carro. Está gravemente ferido. Atropelou várias pessoas.

Ainda não acabara de falar, quando tomou a esposa pelo braço e rumou para a porta de saída, enquanto era seguido pelo amigo em prece silenciosa. 

(Espírito Hilário Silva-Histórias da Vida-Antônio Baduy Filho)


terça-feira, 22 de setembro de 2020

 O Bonezinho


Em Londres vivia um velho e honrado lixeiro chamado Mollygruber, muito benquisto no quarteirão que lhe cabia limpar. Um dia, a sua atenção foi despertada por um menino que se debatia nas águas do lago e se aproximou que pode, verificando que o garotinho estava se afogando. Várias outras pessoas que passeavam no parque municipal se reuniram, ali, curiosos; no entanto, ninguém se movia para fazer alguma coisa. O velho lixeiro, embora fisicamente derruído, com as suas dores reumáticas, atirou-se na água gelada e, com muita dificuldade, salvou o menino trazendo-o à margem. Foi, naquele momento, muito aplaudido e considerado o herói do dia, figurando a sua foto na primeira página de um matutino.

No entanto, pobre e velho, esforçou-se muito além do que lhe teria sido dado fazê-lo, e desfaleceu, tendo sido levado a um hospital. Enquanto isto se passava, a mãe do menino salvo, ao tempo que o cobria de beijos e lágrimas de satisfação, notou que o mesma estava sem o bonezinho que lhe havia comprado dias atrás. Irritou-se com isto. “Roubaram o bonezinho do meu filho… Não quero saber de nada… ele estava aqui, à beira do lago com o bonezinho… Faço questão do bonezinho… Esse velho caduco, por certo, encenou tudo isto apenas para roubar-lhe o bonezinho…

A mulher não se contentou com isto. Foi atrás da ambulância, adentrou o hospital, dirigiu-se à sala de Pronto Socorro e começou a infernizar todos os médicos e enfermeiros. Queria, a qualquer custo, o bonezinho do garoto e ameaçava todo o mundo. Fizeram-na ver que o velho não tinha condições de falar, prestar declarações alusivas a tal bonezinho. Por fim, o diretor do hospital lhe deu um ultimato: “Ou a senhora deixa o velho herói em paz ou chamo a Polícia e mando prendê-la”. Só assim, intimidada, aquela mãe ingrata abandonou a causa, mas o velho, no dia seguinte, morreu, e os moradores do quarteirão encheram as ruas de flores e dísticos alusivos à gratidão devida a quem tantos anos trabalhara ali, com tanta dedicação e, por fim, dera a própria vida em troca da de uma criança.

Esta passagem, contada com outras palavras por Lobsang Rampa, em sua obra “3 Vidas”, serve para identificar estas almas que trazem, nas suas personalidades, insculpida em traços profundos a tendência para a ingratidão. Basta-lhes desapareça um parafuso numa obra, para que se enfureçam. Não sabem ao certo se se perdeu, no meio de tanta bugiganga, mas possuem essa vocação para justiceiros desalmados.

Qualquer pessoa que permaneça algumas horas numa Delegacia de Polícia ficará deprimida diante de tantos delatores e queixosos, que desempenham essa função gratuitamente ou por razões de somenos importância.

Certa ocasião, o dono de uma pequena fábrica de artefatos de couro, cidadão benquisto e honesto, sofreu rigorosa fiscalização por parte da Receita Federal. Tendo o estabelecimento crescido à custa de meio século de trabalho pessoal ingente e porfiado, ele não ligava muito para a escrituração de seus livros. E a Fiscalização foi direta neste ponto fraco, e anulou-lhe a escrita, e submeteu-o ao sistema de arbitramento dos lucros por muitos anos. O quantum apurado assim, acrescido de pesada multa, se elevou à cifra que, para a sua capacidade contributiva, era astronômica. Com isto, tornou-se insolvável e a sua propriedade foi a leilão. Uma tragédia para a família, e esta foi gerada por uma simples denúncia de um vizinho que não lhe tolerava os cachorros que latiam muito à noite!

(Mário B. Tamassía-A Mãe que Desistiu do Céu)


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 O Valor do que Falta

Todos os dias a pobre mãe, apesar dos parcos recursos que detinha, oferecia, com o mais extremado carinho, a alimentação ao filho.

Nessas ocasiões, sentava-se à mesa e conversava com ele, relacionando os acontecimentos do dia e lhe perguntando como tinha sido o seu…

A tudo isso o jovem correspondia com enfado, em monossílabos, insatisfeito. No entanto, a mãe continuava com os seus comentários em torno das dificuldades enfrentadas, mas realçando a esperança que tinha no Deus de misericórdia que, com certeza, lhe traria dias melhores.

O filho, não suportando mais, terminava o alimento sem uma palavra sequer de conforto, dirigindo-se logo para o seu quarto, ou ligando a televisão para ouvir o noticiário, e não dar mais atenção à genitora, fazendo-a notar o seu completo desinteresse pelos assuntos do dia. 

A infeliz velhinha, percebendo o cansaço do rapaz, punha-se a afagar-lhe a espessa cabeleira e, em pensamento, orava por sua felicidade, para logo após recolher-se ao sono físico. 

Aconteceu que aquela nobre senhora adoecera rapidamente, desencarnando em poucas horas, sem tempo de despedir-se do filho que estava entregue aos afazeres cotidianos. 

Ao chegar em casa, o jovem surpreendeu-se… Sua mãezinha havia partido para o mundo invisível…

Sem crença alguma, apesar dos princípios da fé materna, no velório e no enterro portou-se quase indiferente. Ouviu os comentários dos religiosos, mas não se deixou comover. Achava a vida assim mesmo, ingrata, cujo final era a morte. 

Chegando em sua residência, sentou-se à mesa e já não viu mais aquele prato quente de comida, olhou a cadeira à sua frente e não mais avistou nem percebeu a mãe, nem lhe ouviu a voz meiga comentando as ocorrências, nem obteve mais de seus lábios as perguntas em torno do seu dia, de sua rotina. 

E sem que notasse, sentiu que lágrimas grossas desciam de seus olhos… Chorou, chorou muito, pensando no tempo que perdeu em não retribuir à sua mãe o mesmo carinho e dedicação de que era objeto…

Apesar disso, dessas reflexões amargas, ao seu lado estava, como dante, silenciosa, sem ser vista, sua mãe afagando-lhe os cabelos e orando por sua paz…

Em muitas situações somos ingratos, ignorando as oferendas do Pai Celeste às nossas existências. E, somente quando perdemos esses recursos é que sabemos perfeitamente o valor do que falta…

(Espírito Valérium-Contos do Invisível-Nilton Souza)


sexta-feira, 18 de setembro de 2020

 Antes Que Venha O Arrastão


Jesus ensinou que “o Reino de Deus é semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanha toda a espécie de peixes. Quando está cheia, os pescadores a retiram e, sentados na praia, escolhem os bons para os cestos, e o que não presta deitam fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes”.


No aspecto individual o Reino é uma condição íntima. Instala-se num momento de iluminação em que nos integramos plenamente na Vida, cidadãos do Universo.

No aspecto coletivo, exprime-se numa sociedade formada por Espíritos iluminados.

Com o crescimento espiritual da Humanidade amplia-se o contingente dos que realizaram o Reino em seus corações. 

Hoje, uma minoria. Amanhã - dentro de decênios, séculos ou milênios, depende de nós, - a maioria.

Acontecerá, então, o arrastão.

Colhidos pelas malhas da Justiça, aqueles que não se enquadrarem na nova ordem serão jogados na “fornalha ardente”...

Naturalmente, trata-se de um simbolismo, uma imagem forte, que a teologia medieval levou ao pé da letra, concebendo a ideia do inferno de fogo, onde as almas comprometidas queimam sem se consumir, em perenes sofrimentos.

O Espiritismo oferece ideia diferente. Não estarão irremissivelmente condenados. Serão simplesmente degredados em planetas inferiores, onde enfrentarão dificuldades e dissabores sob orientação da mestra Dor, lá bem mais severa.

Isso, somado às saudades da Terra e dos afeiçoados que aqui ficarão, quebrará a rebeldia, favorecendo sua renovação.

Redimidos, ainda que isso exija o concurso dos milênios, retornarão ao nosso mundo, porquanto compõem a grande família humana, sob os cuidados de Jesus.

Segundo Emmanuel, no livro “A Caminho da Luz”, há dez mil anos havia no Sistema Capela, estrela da Constelação do Cocheiro, um planeta habilitado à promoção. Deixaria de ser um Mundo de Expiação e Provas, como é a Terra, cujos habitantes são orientados pelo egoísmo, e passaria a Mundo de Regeneração, com uma população disposta a assumir a cidadania do Reino de Deus. Ocorre que uma parcela da população não estava sintonizada com os novos rumos. Então, houve o arrastão, envolvendo milhões de recalcitrantes. A Direção Espiritual do planeta os transferiu para um mundo em evolução primária.

Você pode imaginar qual foi, amigo leitor?

Se pensou na Terra, acertou.

Os capelinos encarnaram no seio das raças humanas, promovendo desde logo grandes transformações, já que mentalmente eram muito mais evoluídos, embora moralmente em estágio semelhante aos terrestres. 

Os antropólogos espantam-se com a civilização neolítica. Em algumas centenas de anos grandes conquistas foram obtidas - a domesticação dos animais, a descoberta da agricultura, a formação da escrita, a utilização de metais, a vida urbana…

O homem, que estava praticamente na idade da pedra, repentinamente viu-se em meio a significativas conquistas.

Foram iniciativas dos capelinos, que deram origem às grandes civilizações, como a egípcia, a chinesa, a hindu, a indo-europeia e a israelita. 

Detalhe importante. Não estão bem definidos para os antropólogos os fatores que determinaram sua extinção.

À luz do Espiritismo, é simples explicar:

À medida que os degredados, renovados e redimidos, retornaram ao planeta de origem, as civilizações que edificaram entraram em decadência.

As civilizações morreram porque o homem terrestre não tinha competência para preservá-las. 


Algo semelhante ocorrerá conosco, no grande arrastão.

Seitas pentecostais o anunciam para breve, ainda neste século. Proclamam seus arautos:

  • Arrependam-se! Está chegando a hora!


O Espiritismo confirma que isso acontecerá, não como uma condenação eterna, mas como um degredo transitório para aqueles que não aderirem, de coração, ao Reino.

(Richard Simonetti-Histórias Que Trazem Felicidade)


Nota: No livro “Herdeiros do Novo Mundo”, ditado pelo Espírito Lucius, psicografado pelo médium André L. Ruiz, o Dr. Bezerra de Menezes e sua equipe demonstram que o arrastão já está em pleno andamento há vários anos, já tendo retirado da Terra vários milhões de Espíritos devotados ao Mal, para renascerem em planetas em estágio primário de evolução.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020


As Crianças


Havia muito, João Custódio se dedicava à benemerência. Era bem de vida. Fazendeiro realizado. Cidadão de prestígio. Tivera sucesso nos negócios e acumulara apreciável patrimônio. Contudo, nunca esquecera o compromisso com o próximo. Ajudara na construção e bancava o sustento de várias entidades assistenciais. 

Com os cabelos já grisalhos e depois de momento difícil na vida, conhecera o Espiritismo. Desde então, passara a frequentar a assistência fraterna e os estudos semanais. Tomou conhecimento mais amplo do Evangelho e ficou impressionado com a referência de Jesus às crianças.

Certa noite, após as tarefas, anunciou sua decisão. Resolvera dar maior tempo ao trabalho de assistência à infância. Comentou, eufórico:

  • Vou estar perto do temperamento infantil. Jesus disse que aquele que não receber o reino de Deus como as crianças não entrará nele. Quero aprender com elas.

Os companheiros ouviram com surpresa a notícia. Moacir, o mais experiente nos estudos, argumentou:

  • Jesus realmente tomou a infância como modelo de pureza. Aproveitou a presença daquelas crianças para realçar a simplicidade e a humildade como condições imprescindíveis à entrada no reino dos Céus. Entretanto, é a transformação moral que leva a conquista dessas qualidades.

João Custódio, porém, estava decidido. Fundou uma instituição de amparo à infância e, diariamente, em horário certo, oferecia farta e nutritiva refeição às crianças. 

Participava ele mesmo das atividades. No início, era todo entusiasmo. Com o tempo, no entanto, foi percebendo a dificuldade de manter a disciplina e a harmonia entre os pequenos. Passou a ser alvo de chacotas. Palavras desrespeitosas. Agressões verbais. Por fim, desistiu. A assistência prosseguia, mas João Custódio ficava distante.

Quando Moacir foi visitá-lo na instituição, indagou, preocupado:

  • O que aconteceu?

O benfeitor respondeu, abatido:

  • Não deu certo. Aquelas crianças do Evangelho eram diferentes e serviam de modelo para ganhar o reino de Deus.

Dirigiu o olhar triste para o amigo e desabafou:

  • Essas daqui não levam ninguém para o Céu.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)


Nota: Jesus toma a criança como símbolo de pureza e simplicidade, pois a mesma está, temporariamente vestida da túnica da inocência. Ela é mais maleável e mais acessível para transformar-se, para modificar-se. Ele não disse, de modo absoluto, que o reino dos Céus é para elas, mas para os que se lhes assemelhem. (Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VIII, 1-4)

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

 Boa Vida e Vida Boa

Curioso como certos ditados, quando analisados fora do contexto em que foram enunciados, induzem a interpretações equivocadas.

É o que ocorre com uma frase de Juvenal (55-127), famoso poeta satírico romano: "Mens sana in corpore sano"- mente sã em corpo são.

Tornou-se emblema dos adeptos da cultura física, que exaltam os exercícios aeróbicos e a musculação, em favor da saúde perfeita.

O corpo enrijece, os pulmões se fortalecem; o sangue circula vigoroso, oxigena melhor o cérebro, favorece a memória, alivia as tensões, sustenta, o bem-estar, a euforia de viver...

"É preciso malhar o corpo para fortalecer a alma".

Por outro lado, há os manuais de auto-ajuda e nas terapias psicológicas recomendações básicas:

Valorizar a reflexão e a serenidade; aprender a lidar com os contratempos do dia-a-dia, sem pensamentos negativos ou atitudes desairosas.

Serão evitados, assim males físicos variados que surgem a partir da somatização de emoções desajustadas.

"É preciso malhar a alma para fortalecer o corpo!"

Consagra-se, por elementar, a conjugação de esforços no sentido de cuidar simultaneamente da alma e do corpo, observando rigorosamente aquelas prescrições para que vivamos saudáveis e felizes.

Ocorre que, ao cultivar o "mens sana in corpore sano", as pessoas estão mais preocupadas em ter uma "boa vida", do que cultivar uma "vida boa".

"Boa vida" é aquele que "não quer nada com a dureza".

Pode até se dispor à "malhação" em favor de seu bem-estar, mas não está disposto a desafios ou preocupações que transcendam os próprio umbigo.

Em seu dicionário existencial não há lugar para expressões relacionadas com as questões sociais, as carências alheias, as dores do próximo.

Fecha-se, tanto quanto possível, num oásis particular.

"Vida boa" é alguém que procura valorizar a experiência humana, cultivando o dom de servir.

Nesse empenho, preserva a estabilidade física e espiritual com abençoados exercícios de solidariedade. 

É neste aspecto que devemos entender a observação de Juvenal, a partir do próprio texto em que está inserida. O poeta recomenda que rezemos para ter uma mente sã em corpo são, mas...

"...com o espírito corajoso, sem medo da morte, disposto a carregar os fardos mais pesados com serenidade, que não conheça o ódio e nada deseje, e prefira duros labores às paixões, excessos e comodidades".

Um comportamento assim, de alguém que, nada desejando para si, tudo pode fazer pelos outros, talvez pareça doidice para o "boa vida".

Lembra um pouco o espírito de renúncia, preconizado por Jesus. Referindo-se ao assunto, o apóstolo Paulo (10-67), na Primeira Epístola aos Coríntios, diz que a palavra da cruz é loucura para os que se perdem  nos vícios e paixões da Terra.

Porém é essa "insanidade" que edificará a civilização cristianizada do Terceiro Milênio, quando os homens aprenderem o elementar:

O mais saudável de todos os exercícios em favor do corpo e da alma é caminhar ao encontro dos carentes de todos os matizes, com a disposição de ajudá-los.

Nesse propósito não podemos olvidar a iniciativa fundamental:

"O sacrifício de nossos interesses pessoais em favor do bem comum".

(Richard Simonetti-Luzes no Caminho)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

 A Vaidosa

Simpatia e beleza, irmanavam-se no corpo jovem de Luciana. E ela sabia explorar esses atributos, para sentir o prazer de ver todos os rapazes mendigar-lhe algumas palavras ou mesmo um sorriso.

Quando passava pelas ruas da cidade interiorana em que residia, num gingar de corpo, como se estivesse a bailar, todos voltavam-se para contemplar tão bela criatura. E as exclamações surgiam:

- Quem me dera possuir tão bela garota! Diziam alguns.

- Essa aí põe no chinelo qualquer "miss" Brasil" Exclamavam outros.

Com o passar do tempo, embora suas amigas a advertissem, ela procurava ressaltar ainda mais os seus dotes físicos, seja aumentando o decote da blusa ou reduzindo a saia, a fim de expor ainda mais o seu corpo escultural e exuberante.

Volúvel como era, nunca se interessou por alguém, preocupada apenas em obter exclamações admirativas.

Muitos afirmavam:

- Essa garota qualquer dia vai sofrer as consequências de sua vaidade desmedida!

Seus pais e parentes preocupavam-se com esse comportamento frívolo, mas não conseguiam alterar-lhe a conduta, apesar dos conselhos e advertências, que tinham sempre a mesma resposta:

- Ora, deixe-me viver como eu gosto! Quero ver essa mocidade arrojar-se aos meus pés, não só para vê-los sofrer, mas também para causar inveja às minhas amigas. Isto me faz muito feliz!

Certo dia, a rádio local, em edição especial, divulga a seguinte notícia:

- A polícia desta cidade acaba de ser avisada que num terreno baldio da periferia foi encontrado um corpo de uma moça, com diversas perfurações a faca. O assassino deve ser um "tarado", pois o corpo da jovem, além de estar nu, apresenta evidentes sinais de que foi violentada. Seu estado é lastimável!

Os comentários sucediam-se, alguns condoendo-se pelo triste fim que Luciana havia tido; outros dizendo que ela recebera o que procurara, devido à sua atitude leviana.

Depois de algum tempo no Plano Espiritual, Luciana recuperou-se da perturbação causada pelo desencarne violento e passou a se preparar para regressar ao mundo dos encarnados, graças à interferência de bondoso Espírito que a recolhera em um hospital de repouso onde, além das atenções recebidas, quanto ao corpo físico, recebera também orientação evangélica, preparando-a para a nova experiência terrena.

Depois de alguns anos, Luciana foi informada de que seu dia para imersão no corpo de carne estava próximo e ela, se quisesse, diante do aproveitamento que tivera nas aulas recebidas, poderia escolher a tarefa que desejasse. Emocionada, disse:

- Quanto à tarefa, deixo a escolha a cargo de meu protetor, mas quanto às condições físicas, se me for concedida a oportunidade de escolha, gostaria que meu corpo fosse bem feio, a fim de não reincidir nos mesmos erros que tantos sofrimentos me causaram. Somente as mulheres que enfrentaram um bárbaro assassino como o que me destruiu o corpo carnal, poderão avaliar o pavor e os sofrimentos que passei. Foram momentos terríveis, mas necessários, para que eu me curasse da triste mania de brincar com os corações alheios.

Era uma madrugada chuvosa, fria, com relâmpagos riscando o céu em todas as direções. Um ribombar fazia-se ouvir a cada instante, dando impressão que a natureza estava protestando contra alguma coisa inexplicável para os homens.

Velho casebre albergava um casal que ultrapassava os trinta anos. Tratava-se de modesto servente de pedreiro e sua esposa. Ela estava sendo atendida por uma parteira, que aguardava o nascimento de uma criança. 

Os minutos passavam, como se fossem horas, tal a ansiedade da atendente e os sofrimentos da futura mãe.

Vez por outra, a mãe dizia:

- Eu acho que meu filho não quer nascer! Há tanto tempo que espero um filho e agora que estou grávida, essa demora me causa apreensão! É sempre assim, Etelvina?

- Não se perturbe, Mariazinha! É que a cegonha está com medo dos trovões! Quando a chuva passar ela chegará! Fique calma! Vai dar tudo certo!

O marido, então, não parava de andar de um lado para o outro, como todo o pai em expectativa. Não se sabia quem sofria mais, se a mãe ou o pai.

A chuva foi cessando, até que as últimas gotas caíram na terra encharcada da cidade. O choro da criança fez com que o pai estacasse em sua andança da sala para a cozinha e vice-versa. Ficou meio abobalhado, sem saber o que fazer, até que falou com seus botões:

- Mas o que é que estou fazendo aqui parado! Vá logo ver o filho, bobão!

Com um sorriso enorme, adentrou o quarto e foi logo dizendo:

- Cadê o meu filho?

- Calma, Chicão, respondeu a parteira. Pra começo de conversa, não é filho e sim filha!

E foi apresentando aquela coisinha pequenina que representava toda a riqueza da Terra para o ansioso pai, e que para outros, talvez, fosse uma criatura muito feia, feíssima mesmo!

A mãe ao lado quis justificar a pergunta do marido:

- O Chicão esperava um filho para ajudá-lo mais tarde!...

- É! disse Etelvina, todos querem mesmo é um filho, mas se não houvesse mulheres, não existiria ninguém na face da Terra, não é mesmo Mariazinha?

- Claro, Etelvina! Mas limpa a menininha logo e agasalha ela, senão ela morre de frio!

Vendo que a tarefa de Etelvina estava terminada, Chicão aproximou-se mais da preciosa carga e constatou que a primogênita não era nada do que esperava. De fato, era bem feia, feíssima, não adiantava tapar o sol com a peneira. Por isso, para desviar o pensamento de tal preocupação, num surto inspirativo, afirmou:

- É! Você disse - dirigindo-se à Etelvina - que a cegonha chegaria quando parasse a chuva! Nisso você acertou. Só que esqueceu de acrescentar, que ela representará para nós a separação das trevas da ansiedade (há muitos anos esperando um filho) do raiar de um novo dia de muitas felicidades.

A profecia concretizou-se. A filha de Mariazinha somente alegrias transmitiu aos seus pais, dedicando-se inteiramente aos mesmos, pois, devido à feiura, não conseguiu encontrar alguém que a pedisse em casamento. Amparou seus pais até a morte, dedicando-lhes muito amor e carinho.

A garota bela de antanho, que era feia de Espírito, transformou-se em belo Espírito de corpo feio; só que o corpo é transitório e desfez-se em pó, enquanto que o Espírito é imperecível e brilhará cada vez mais em seu jornadear eterno.

(Antonio F. Rodrigues-Contando Histórias)

domingo, 13 de setembro de 2020

 A Moratória

Vicente Curi, o empreiteiro de obras, amanheceu exasperado. Enfermo, abatido. O corpo bambeara e a cabeça parecia-lhe um vaso em fogo. Justamente naquele dia.

De noite, marcara o relógio. Horário certo de levantar. Quatro operários esperavam-no para a necessária demolição do velho prédio que adquirira em bairro distante.

Precisa satisfazer o serviço urgente em reconstruções diversas. Via-se, porém, cansado, febril. Além disso, vomitava substância amarga. 

Tentara erguer-se, inutilmente. A esposa dissera ser "melhor chamar o médico".

Vicente reagiu, obstinado. Carro de clínico à porta, alarme certo.

Piorava a olhos vistos.

A ideia do serviço marcado castigava-lhe o pensamento. Contrariava-se. Apesar do problema orgânico, preferia ter viajado, a demorar-se na cama.

D. Mercedes, a esposa, pede-lhe calma. É indispensável confiar na Divina Bondade.

Às nove horas, Cesário, um dos cooperadores, vem pedir providências. Atacando o serviço, ele e os companheiros assistiram ao inesperado. A casa velha, caindo aos pedaços, não aguentou o ataque das picaretas e ruíra, de vez.

Valmiro, o operário mais jovem, tivera os pés gravemente feridos, ficando impossibilitado para o trabalho.

O empreiteiro, agora, não apenas gemia.

- Onde a Providência Divina que não me ajuda? - gritava, frenético.

Badalavam dez horas. 

Entulhado de comprimidos, Vicente pede à esposa a injeção antitóxica guardada no armário. Era a última de pequena série que deixara incompleta. Tanto tempo passara que D. Mercedes julgou prudente comprar uma nova caixa em farmácia vizinha.

- Não temos - falara o moço de vendas. E acrescentou: - agora é remédio raro.

O enfermo, no entanto, não se conformava.

Queria a injeção. Velha assim mesmo. Entretanto, buscando ajustá-la à agulha, D. Mercedes viu-a cair no piso, perdendo-se o conteúdo.

Vicente se enraiveceu, enquanto a mulher lhe falava na Providência Maior.

Alguém lembrou o telefone para recurso a outra farmácia. O doente, amuado, recusou; não queria mais a medicação.

Mais tarde, porque sentisse dores nas costas, D. Crescência, antiga enfermeira da vizinhança, falou em aplicação de ventosas.

Vicente lembrou-se da avó, sob ventosas acima dos rins. E aceitou-as.

Copos de vidro, algodão e fósforos foram trazidos ao quarto. Quando faziam a aplicação das ventosas, um algodão inflamado escapa das mãos da bondosa amiga. 

Comunica-se o fogo aos lençóis finos. Vicente é retirado pelas senhoras. Ultrapassa os limites do silêncio correto. Protesta, indignado. Fala asneiras. Do colchão incendiado, porém, sai correndo enorme escorpião, mostrando dardo em riste.

D. Mercedes entra em luta perseguindo o lacrau que lhe foge ao chinelo, e fala, mais uma vez, sobre o Amparo Divino.

O marido lamenta-se, desesperado. Sente-se perseguido. E reclama:

- Parece que urubus pousaram em mim.

Quase noite, embora melhor, mostra-se Vicente mais inquieto. Relaciona amarguras e prejuízos.

D. Mercedes pede o concurso de Souto, amigo da casa, para conduzi-lo ao templo espírita. Vicente precisava de socorro moral. Convencera-o a valer-se do passe de reconforto.

Souto, ao telefone, promete colaborar, e, na hora certa, surge sorrindo. Está pronto.

O enfermo toma-lhe o braço, mas, talvez porque se movimentasse com lentidão, o ônibus esperado não espera por eles. Para um segundo, e zarpa adiante.

- Era o que faltava! - diz Vicente, enervado.

Não quer mais o passe. O amigo, entretanto, insiste. D. Mercedes insiste.

Tomam um táxi. Chegam ao templo indicado, alcançando o recinto no momento em que iam cerrar a porta. São os últimos.

Antes deles, porém, um moço pálido entra à pressa e roga ao diretor da reunião, em voz alta, uma oração pelas vítimas de um desastre, ocorrido momentos antes.

O ônibus, que Vicente perdera, capotara em local próximo. Fora feito o balanço. Quatro mortos e dez feridos...

Iniciava-se a prece de abertura.

Por não poder conversar, pensa D. Mercedes, mais uma vez, no Infinito Amor de Deus. E, com efeito, no momento do passe, o Irmão Luís, orientador espiritual das tarefas em curso, incorpora-se em D. Cristina, a médium habitual, e diz a Vicente, alarmado:

- Meu amigo, não reclame. Por quatro vezes, hoje, rebelou-se você contra a Providência Divina, ao passo que a Divina Providência o arrebatou às garras da morte por quatro vezes. Sua ficha de Espírito devedor marcava, para hoje, a desencarnação rude e violenta. Você esteve à bica de ser esmagado pelo prédio que veio a cair; de ser envenenado pela ampola que trazia líquido alterado; de ser picado pelo escorpião que o seguira no próprio leito, e de ser estrangulado na engrenagem do coletivo menos feliz... Entretanto, Vicente, em atenção aos seus gestos de caridade, amigos espirituais do caminho advogaram-lhe a causa. Você mereceu amparo, na Lei, como alguém que consegue moratória no banco. Volte para casa e descanse a cabeça teimosa. O socorro de Deus nem sempre tem a forma da flor ou a rutilância da luz. Volte e agradeça os contratempos e dissabores do dia. Serenidade é remédio em cada remédio.

Vicente enxugou os olhos úmidos...

Terminada a sessão, regressou a casa, tranquilo.

Reconciliara-se consigo mesmo, e, tornando ao leito, que recebia agora por bênção doce e reconfortante, planeou, satisfeito, a renovação de sua vida...

(Espírito Hilário Silva-A Vida Escreve-Waldo Vieira)


sábado, 12 de setembro de 2020

 A Ficha

João Mateus, distinto pregador do Evangelho na seara espírita, na noite em que atingiu meio século de idade no corpo físico, depois de orar enternecidamente com os amigos, foi deitar-se. Sonhou que alcançava as portas da Vida Espiritual e, deslumbrado com a leveza de que se via possuído, intentava alçar-se para melhor desfrutar a excelsitude do Paraíso, quando um funcionário da Passagem Celeste se aproximou, a lembrar-lhe, solícito:

- João, para evitar qualquer surpresa desagradável no avanço, convém uma vista d'olhos em sua ficha...

E o viajante recebeu primoroso documento, em cuja face leu, espantadiço:

- João Mateus. Renascimento na Terra em 1904. Berço manso. Pais carinhosos e amigos. Inteligência preciosa. Cérebro claro. Instrução digna. Bons livros. Juventude folgada. Boa saúde. Invejável noção de conforto. Sono calmo. Excelente apetite. Seguro abrigo doméstico. Constante proteção espiritual. Nunca sofreu acidentes de importância. Aos 20 anos de idade empregou-se no comércio. Casou-se aos 25, em regime de escravização da mulher. Católico romano até os 26. Presenciou, sem maior atenção, 672 missas. Aos 27 de idade, transferiu-se para as fileiras espíritas. Compareceu a 2.195 sessões de Espiritismo, sob a invocação de Jesus. Realizou 1.602 palestras e pregações doutrinárias. Escreve cartas e páginas comoventes. Notável narrador. Polemista cauteloso. Quatro filhos. Boa mesa em casa. Não encontra tempo para auxiliar os filhos na procura do Cristo. Efetuou 106 viagens de repouso e distração. Grande intolerância para com os vizinhos. Refratário a qualquer mudança de hábitos para a prestação de serviço aos outros. Nunca percebe se ofende o próximo, através da sua conduta, mas revela extrema suscetibilidade ante a conduta alheia. Relaciona-se tão-somente com amigos do mesmo nível. Sofre horror às complicações da vida social, embora destaque incessantemente o imperativo da fraternidade entre os homens. Sabe defender-se com esmero em qualquer problema difícil. Além dos recursos naturais que lhe renderam respeitável posição e expressivo reconforto doméstico, sob constante amparo de Jesus, através de múltiplos mensageiros, conserva bens imóveis no valor de 600.000 mil e guarda em conta de lucro particular a importância de 302.000. Para Jesus, que o procurou na pessoa de mendigos, , de necessitados e doentes, deu durante toda a vida 90 centavos. Para cooperar no apostolado do Cristo, já ofereceu 12 cruzeiros em obras de assistência social. Débito...

Quando ia ler o item referente às próprias dívidas, fortemente impressionado, João acordou.

Era manhãzinha...

À noite, bem humorado, reuniu-se aos companheiros, relatando-lhes a ocorrência.

Estava transformado, dizia. O sonho modificara-lhe o modo o modo de pensar. Consagrar-se-ia doravante a trabalho mais vivo no movimento espírita. Pretendia renovar-se por dentro, reuniria agora apalavra e ação.

Para isso, achava-se disposto a colaborar substancialmente na construção de um lar destinado à recuperação de crianças desabrigadas que, desde muito, desejava socorrer.

A experiência daquela noite inesquecível era, decerto, um aviso precioso. E, sorridente, despediu-se dos irmãos de ideal, solicitando-lhes novo reencontro para o dia seguinte. Esperava assentar as bases da obra que se propunha levar a efeito.

Contudo, na noite imediata, quando os amigos lhe bateram à porta, vitimado por um acidente das coronárias, João Mateus estava morto.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Apólogos-C. Xavier)

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

 SUICÍDIO

Não somente no mês de setembro devemos nos empenhar em amparar os que querem fugir da vida antes da hora. A Doutrina Espírita trata disso todos os dias, numa campanha permanente, para evitar todo o sofrimento decorrente deste ato infeliz no Mundo Espiritual, além de suas consequências na próxima reencarnação, com limitações físicas e mentais de acordo com os danos causados ao corpo físico, que atingem o perispírito ou corpo espiritual, uma espécie de envoltório semi-material, que liga o Espírito ao corpo durante todas as suas encarnações.

A Doutrina Espírita tem a visão mais profunda e esclarecedora sobre o suicídio e, se fosse conhecida, tal ato não aconteceria, pois, as pessoas saberiam muito claramente o que são, o que é a vida e o que fazem aqui na Terra, bem como quais são as consequências para quem comete este ato tresloucado.
Existem inúmeros estudos que analisam as causas do suicídio, mas somente a Doutrina Espírita mostra as consequências para quem o cometeu, haja vista que são os próprios Espíritos infelizes que relatam suas decepções e sofrimentos após tal cometimento, além, logicamente, de todo o histórico do Espírito que vem tomando atitudes equivocadas há milhares de anos.

Allan Kardec, em "O Livro dos Espíritos", questão 943, pergunta aos Espíritos Superiores:
"De onde vem o desgosto pela vida que se apodera de alguns indivíduos sem motivos plausíveis?"
- Efeito da OCIOSIDADE, da FALTA DE FÉ e geralmente da SACIEDADE. Para aqueles que exercem as suas faculdades com um fim útil e segundo as suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente; suportam as suas vicissitudes com tanto mais paciência e resignação quanto mais agem tendo em vista a felicidade mais sólida e mais durável que os espera."
Aquele que não se ocupa certamente terá pensamentos negativos e atrairá Espíritos inferiores que contribuirão enormemente para obsessões e tragédias, e o suicídio é uma delas.
'A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem se vençam os obstáculos, assim nas pequenas como nas grandes coisas. A fé sincera e verdadeira é sempre calma; faculta a paciência que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de apoio na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de chegar ao objetivo visado",  ensina Kardec.
Quando valorizamos somente as conquistas materiais, ficamos saciados quando obtemos tudo o que queremos. 
Na questão 944, Kardec pergunta se o homem tem direito de dispor da própria vida, obtendo dos Espíritos a seguinte resposta: 
- Não, só Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão dessa lei. 
E, a seguir, na questão 945, indaga o Codificador: 
- Que pensar do suicídio que tem por causa o desgosto da vida? 
E a resposta é contundente: 
- Insensatos! Por que não trabalhavam. A existência não lhes seria uma carga!

Hermínio C. Miranda, em seu livro “Candeias na Noite Escura”, indaga se “vale a pena suicidar-se?”, explanando: - “Deixemos de lado as causas imediatas, como problemas financeiros, amorosos ou de consciência. Isso é apenas a gota d'água que fez transbordar o cálice, toque final que acabou por romper o precário equilíbrio emocional do ser, desatando seu impulso destrutivo numa ânsia de libertação. São secundárias essas causas, embora tenham sido o fato precipitador da tragédia. Secundárias e relativas, porque um motivo, que poderia ser extremamente fútil para um, assume proporções alarmantes para outrem. Além disso, vemos o mesmo indivíduo suportar, às vezes, golpes muito mais graves e sucumbir, depois, diante de questões que um pouco mais de tolerância teriam colocado em sua verdadeira perspectiva. Muito depende pois  do seu estado emocional no momento em que lhe surge o problema pela frente. Quando penso nisso, lembro-me sempre de uma advertência que encontrei no guichê de uma loja em N. York; dizia assim: “Que diferença fará isso daqui a 99 anos?”
Aquilo que agora nos parece uma calamidade insuportável, reduz-se às proporções de mero incidente daqui a poucas horas, alguns dias ou uns escassos meses. É fácil demonstrar a veracidade da afirmação: quais foram as mágoas que nos atingiram tão fundo no ano passado? Ou há três anos? Mesmo que nos lembremos de algumas delas – as que nos parecem mais graves -, já não nos ferem como então. Com o decorrer de um pouco mais de tempo, lembrar-nos-emos delas até mesmo com certo sorriso indulgente e pensaremos: “Veja só! Isso me deu tanto aborrecimento e, afinal, nem valeu a pena...”
De outras vezes, aquilo que nos atormentou, nem sequer teve existência real; foi produto de uma imaginação exaltada, momentaneamente obscurecida pelo cansaço, pelas paixões ou pelo simples desconhecimento dos fatos. Logo a seguir, o que nos parecia tão alarmante, verificamos ser simples suspeita com aparência de realidade.
Por isso, não é necessário pesquisar as causas imediatas, que desencadeiam a tragédia do suicídio; examinemos as origens profundas do fenômeno.
Por que se mata a criatura humana? Mata-se o pobre, o aleijado, o doente, como também se mata o rico, o belo, o saudável. Por quê? Na verdade, o suicídio é, basicamente, uma fuga. O suicida quer fugir de situações embaraçosas, de desgostos, de pessoas que detesta, de mágoas que não se sente com forças para suportar, deseja, afinal de contas, fugir de si mesmo. É aí que está a gênese do seu fatal desengano; não podemos, de maneira alguma, fugir de nós próprios. Para que isto ocorresse, seria necessário que tudo acabasse com a morte; seria preciso que, ao cortar o fio da existência, tudo o que somos se dissolvesse, num instante, em nada. E não é assim que acontece; absolutamente não. Vemos, então, que o fundamento da ilusão suicida está na total ignorância do homem diante de sua própria natureza espiritual.
Há de chegar o dia em que todos compreenderão que somos Espíritos encarnados e não simples conglomerados de células materiais; que o corpo físico é um mero instrumento de trabalho e aperfeiçoamento do Espírito; acessório e não principal, na estrutura da personalidade humana.
Nesse dia não haverá mais suicidas. Suicidar-se para quê? Se apenas o organismo físico se destrói, ao passo que o princípio espiritual sobrevive?
A consciência está no Espírito que parte.  Por conseguinte, quando deixamos o corpo material, levamos nossas lembranças, sentimentos, paixões, alegrias, tristezas, esperanças, temores, angústias e sofrimentos, tal como os experimentávamos aqui na carne. O corpo não é mais do que uma vestimenta perecível do Espírito imortal. E se sofríamos aqui, sofreremos muito mais do lado  de lá da vida, se praticarmos a violência do suicídio. Não só porque nossas mágoas terrenas persistem, mas porque descobrimos, surpresos, envergonhados e terrivelmente arrependidos, que continuamos vivos, com as mesmas ideias que tínhamos, e ainda sofrendo dores muito mais agudas, porque só então nos assalta, num tremendo impacto, a amarga compreensão da loucura que praticamos.
Temos inúmeros depoimentos de Espíritos que provocaram a destruição de seu corpo físico, na trágica ilusão de que dessa forma se libertariam para sempre de seus problemas. E vêm confessar, amargurados, que o portão da morte não se abre para a escuridão vazia do nada; que a vida continua, com o corpo físico ou sem ele.
E então aquele que destruiu voluntariamente seu envoltório material chega à dolorosa conclusão de que apenas conseguiu agravar enormemente seus problemas íntimos, sem libertar-se de nenhuma de suas dificuldades. E descobre, ainda mais, que terá de voltar à carne em outras condições, talvez ainda mais penosas e precárias, tantas vezes quantas forem necessárias, para corrigir, refazer e pacificar.
Assistimos, então, ao funcionamento inapelável da lei cármica de causa e efeito, ajudando o pobre ser derrotado e doente a tomar o amargo remédio da recuperação. 
E aquele que arrebentou seus próprios ouvidos com um tiro assassino, renasce com o mecanismo de audição destruído; não podendo ouvir, não aprende a falar. E daí atravessar uma existência inteira, isolado na solidão forçada, a fim de que seu Espírito compreenda, no silêncio, o verdadeiro sentido da vida e o valor inestimável dos dons que recebemos ao nascer. O que tomou venenos corrosivos, volta à carne com as vísceras deficientes, sujeitas a misteriosas e incuráveis mazelas.
Tudo isso porque não podemos ir adiante sem pagar o que devemos, e, sendo a justiça de Deus tão perfeita, não pagamos senão o que devemos, segundo diz a Lei.  Logo, o suicídio é o maior, o mais trágico e lamentável equívoco que o ser humano pode cometer. Para não suportar uma dor que deveria durar alguns instantes, buscamos, precipitadamente, outra que pode durar tanto quanto uma nova existência de aflições. 
Certamente Deus nos dá os recursos necessários à recuperação, mas o esforço da subida tem que ser nosso, para que dele decorra o mérito da ação.
Isso de dores, mágoas, sofrimentos e aflições é tudo condição transitória de seres em reajuste moral. No fundo de si mesmo, o Espírito esclarecido sabe, intuitivamente, a Razão da sua dor e se rejubila com ela, porque somente pagando o que deve poderá prosseguir para o Alto. E sabe mais: certo da perfeição da Lei, na qual não há injustiças, compreende que, se sofre, é porque deve; a Justiça Divina não cobra multas a quem não cometeu infrações; ela é infinitamente mais perfeita que a dos homens.
Dessa forma, interferindo violentamente no mecanismo das leis supremas, o suicídio agrava os problemas, em vez de resolvê-los.
A ordem é esperar com paciência, resignação e confiança, aguardando serenamente a libertação. Acima de toda mágoa, o Espírito pode pairar serenamente e até mesmo embalado por secreta alegria, pois tem a certeza de que está resgatando, com a única moeda válida – a do sofrimento -, compromissos que ainda o prendem a um passado faltoso.” 
Diante de tudo isso, que tal ajudarmos na divulgação do Espiritismo para todos os recantos do nosso Estado e do Brasil, para evitarmos este trágico equívoco, tornando-nos colaboradores de Deus na instalação do Mundo de Regeneração, contribuindo para a paz e a felicidade de milhões de pessoas?