segunda-feira, 22 de junho de 2020

Transparece

Fácil estar bem, quando tudo está bem.
Quando não sopra o vento, as águas do mar, sem esforço algum, conseguem manter a calmaria...
O coração bate tranquilo, quando todos os órgãos funcionam em harmonia...
No entanto, ninguém se conhece melhor sem saber como reage no enfrentamento das dificuldades.
Do que somos verdadeiramente capazes, tanto no bem quanto no mal, nem nós mesmos formamos uma ideia exata.
Nossas reações imprevisíveis é que revelam a nossa intimidade profunda.
Semelhantes reflexões nos vieram à mente quando, na Vida Maior, nos deparamos com o seguinte dístico, à porta de uma de nossas instituições, destinada a acolher os companheiros recém-desencarnados:
"É diante da crise que aquilo que somos transparece".
(Espírito Ramiro Gama-Lindos Casos de Além-Túmulo-Carlos A. Baccelli)
PANDEMIA: ERROS E PREJUÍZOS
Prof. Dr. Carlos Antonio Mascia Gottschall Médico – CREMERS 2862 Membro titular das Academias Sul-Rio-Grandense e Nacional de Medicina
Conduta individual extremada prejudica apenas o autor. Serve de fonte para repensar à luz de múltiplas evidências. Quando se injeta opinião única no comportamento mundial a catástrofe está formada. A atual pandemia do coronavírus em parte é real, mas em grande parte foi construída pela sua maior propagadora, a mídia totalitária que não admite o contraditório. Loas a Galbraith quando disse que a opinião convencional serve para proteger do doloroso trabalho de pensar.
Aliás, os maiores crimes da humanidade têm sido cometidos por não considerar que o outro existe. Sócrates teve que beber cicuta por criticar os falsos deuses atenienses; Cristo foi crucificado por pregar tolerância e amor; São Tomás de Aquino foi considerado herético por tentar conciliar fé com razão; Giordano Bruno foi queimado porque contrariou a ortodoxia; Galileu foi calado porque confirmou o movimento da Terra em torno do Sol; Lavoisier foi decapitado por despertar a inveja do criminoso Marat; Tiradentes foi enforcado porque quis independizar o Brasil; Hitler foi eleito o homem do ano em 1938, ocupando a capa da Time, sim, da Time!
Esses exemplos, num oceano de outros semelhantes, apoiaram-se praticamente na unanimidade da (in)consciência coletiva na respectiva época. Toda unanimidade é burra.
É o que está acontecendo com a dita pandemia do coronavirus: existe uma verdade única, quem a contesta é criminoso, insensível, desconsidera a vida humana, só há o caminho do isolamento social total e absoluto, ninguém pode sair de casa, todos têm que usar máscara, fora disso não existe outra realidade.
Quem pensa em alternativas despreza a vida dos contaminados. Também não se pode lembrar que a maioria dos infectados é assintomática, que poucos desenvolvem sintomas, apenas uma minoria do grupo de risco requer tratamento intensivo e vai a óbito. Entretanto, esse grupo é detectável, pode ser monitorado e submetido a tratamento diferenciado.
Um paciente com noventa anos e/ou cardiopata, diabético, obeso, enfisemantoso, canceroso, fumante, morre de qualquer comorbidade e também de coronavirus.
Sim, mas e os mais jovens? Também morrem, mas é muito raro, menos que de H1N1, dengue, malária, tuberculose, infarto, suicídio, atropelamento, assalto, assassinato, drogas e mais.
A verdade é que esse bombardeio total, constante e suspeito dos meios de comunicação baseia-se em premissas erradas: não há grupo controle, não há comparação com outras doenças, não há determinação de comorbidades, só empurram números absolutos em cima dos incautos.
Qualquer doença, se focada exclusivamente em números absolutos surpreenderá pela mortalidade causada. Dados recentes mostram que o número de suicídios é quase três vezes maior que o de mortes por coronavirus, que parece ser a única causa mortis existente.
As cento e cinquenta mil mortes que ocorrem por dia no mundo englobam milhares de causas.
A criminosa campanha de terror, principalmente pela rede Globo, com o fim covarde de derrubar o governo, desnorteia a população e causa maiores desgraças que as causadas pelo vírus: desespero, miséria, depressão, fome, suicídio, todas conhecidas condições alavancadoras de óbitos, mas isso não é quantificado.
Não interessa, pois mudaria o rumo da comunicação.
Vejam bem: ninguém nega a importância da pandemia, nem que deva ser energicamente enfrentada com medidas racionais, porém não pela mídia, por políticos ou juízes que nada entendem e não escondem outros interesses, mas parece terem mais poder que médicos competentes. A própria OMS, ligada à China, é suspeita porque acobertou o início da epidemia. O que se nega é a histeria, o terror, a desinformação e alguns métodos usados, ditos para combatê-la, agredindo direitos fundamentais.
O que acontece na realidade forma um conjunto de dois quadros indissociáveis:
1) de um lado a própria doença com seu quadro clínico geralmente benigno ou assintomático, ou com gravidade numa minoria mais suscetível, e
2) por outro lado as consequências malignas decorrentes de inapeláveis medidas coletivas: quebra de empresas, desemprego, miséria, depressão, neurose, suicídio, desnutrição, abandono. Estas segundas consequências, se somadas, são muito mais letais, são esquecidas pelos piedosos defensores da vida humana.
Indicações da mídia, ditadas por jornalistas, juízes ou políticos com interesses específicos e alguns médicos obedientes, causam arrepios em quem pensa:
Começando pela ridícula quarentena que confina pessoas em apartamentos mal ventilados e impede de ensolarar-se nos parques e nas praias, algo muito mais saudável. Nunca vi tanta imbecilidade, obrigam a usar ao ar livre máscaras de relativa eficácia, fazendo propaganda enganosa de que “quem usar não vai pegar”. Justificam-se em ambientes confinados.
O afastamento de dois metros e mãos limpas têm muito mais efeito anti-contágio.
Confinamento só estoca o vírus para ser solto depois e prolongar o problema, enquanto os gestores arranjam tempo para explicar a falência, por peculato ou desvios, de recursos para a saúde.
As neuroses de crianças e adultos geradas pela prisão arbitrária, a agressividade desenvolvida pelo não fazer nada, feminicídios e suicídios, assassinatos de vizinhos, desfechos reais, não são quantificados pelos isolacionistas.
É fácil noticiar mortes e o valor do confinamento sentado no púlpito televisivo. Doloroso é o que ouvi de um ambulante: “doutor, é melhor morrer do tal vírus que de fome”! Ou de outro periférico mais abrangente: “este discurso de que a vida está em risco não surte efeito na periferia, onde a vida é um risco permanente.” O pior é que já foi demonstrado que o índice de infectados é aproximadamente o mesmo com ou sem o tal isolamento social.
Países que enfrentaram a pandemia sem histerismo, com relativa abertura, demonstram resultados positivos.
Dizem: mas a Suécia teve mais mortes que alguns outros promotores do confinamento radical. Talvez seja o preço a pagar. Não entendem esses idiotas da objetividade que a atitude sueca abrandou os outros efeitos maléficos colaterais, já citados, do isolamento absoluto. Continuam não entendendo que focar só na doença, destruindo a economia, causa muito maior prejuízo em vidas e qualidade de vida, pois economia saudável propicia vida, e o contrário mata mais que o vírus.
A destruição da economia por medidas sem contestação, com suas terríveis consequências, constitui verdadeiro crime contra a humanidade e atende a propósitos hegemônicos, auxiliada por “líderes” incapazes de enxegar objetivos bem claros. Não se salvam alguns com o sacrifício de todos. Se não intencional, o prejuízo pelo descuido contaminante deve ser cobrado da China.
Quem tenta enxergar um pouco o futuro, desespera-se. Estamos vendo claro autoritarismo e controle social por governos inspirados em hegemonia chinesa, que não sabe o que é democracia, transformando pessoas em robôs.
Direitos consagrados são constantemente violados, como o de ir e vir e o de escolha, que ficam subordinados à licença de qualquer guarda munido de uma autoridade que não pode ter, abordando pessoas, caçando-as nas praias ou até nadando no mar. Uma estupidez sem nenhum sentido, que mata a alegria, o exercício e o lazer.
O que estão fazendo sugere terrível cenário não longe de implantar-se e destruir todas as conquistas humanas de direito e liberdade desde a Revolução Francesa. O que certa e poderosa mídia faz é um ensaio aterrorizante para transformar pessoas em robôs, sem face, sem vontade, sem crítica, autômatos obedientes a decisões estatais, bem ao gosto dos inspiradores asiáticos.
Todos os heróis que morreram no passado para termos liberdade estão sendo ressepultados pelos novos sicofantas e suas medidas esdrúxulas e mortais.
Outro aspecto a considerar: É preciso ter cuidado com a higienização, porque todo extremo é maléfico. Se pega a moda de esterilizar todos os objetos tocados, de não apertar mãos, impedir o ar ambiente natural com filtros e o contato com outros por paredes plásticas (cuidado com os interesses comerciais), a longo prazo o sistema imunológico atrofia-se e abre portas para futuras novas pandemias por falta de anticorpos desenvolvidos.
Assim dizimaram-se populações indígenas ao chegaram na América os primeiros europeus que, assintomáticos, trouxeram o vírus da gripe comum. Uma criança que engatinha e leva a mão à boca está desenvolvendo imunidade. Querem roubar até nossa imunidade.
Pessoas hígidas no pleno uso de seus direitos são discriminadas pelo simples fato de terem setenta, oitenta, noventa anos. De novo, os idiotas da objetividade desconhecem não ser o número de anos, mas o estado biológico que torna a pessoa mais ou menos suscetível ao vírus.
O idoso tem direito a viver, divertir-se, fazer escolhas. Afirma com propriedade Rosário Pinto Correia, da Escola Lisboeta de Trabalho e Economia: “Os ´idosos com mais de 70 anos`, como são agora chamados, primeiro não se veem como idosos, segundo, não são idiotas, terceiro, em muito sabem mais do que os mais novos, quarto, querem gozar a vida como todos e, sobretudo, têm, como todos, o direito de escolher”.
Desde a época hipocrática, em que o Código de Ética Médica previa apenas transferir beneficência ao paciente, a duras penas, depois da segunda Guerra Mundial, surgiu em Nuremberg, após julgamento de criminosos nazistas e suas horrendas experiências em humanos, o conceito de autonomia do paciente.
Em 1978, foi promulgado o Relatório Belmont pelo Congresso Americano, lançando a tríade bioética baseada em beneficência (transferida pelo médico), autonomia (direito do paciente de aceitar ou não tratamento) e justiça (dever de a sociedade fornecer meios para tratar). Assim, autonomia é pensar, decidir, agir. Qualquer adulto tem de ser respeitado na sua autonomia, inclusive de correr risco em função de uma escolha. O que estão fazendo é retirar opções de pessoas lúcidas e coerentes, apenas porque têm mais de sessenta anos, por meio de medidas constrangedoras, anticonstitucionais.
É incrível alguns aderirem a atitudes intimidadoras tão duvidosas, chegam a raspar barbas pensando proteger-se do vírus. Se tivesse sentido, por coerência deveriam depilar o corpo inteiro e as mulheres também livrar-se das lindas e longas cabeleiras. Combinando com uso de inúteis máscaras nas ruas, sem expressão anímica, todos iguais, anódinos e anônimos, incapazes de reagir, tristeza no caminhar, tendem a virar robôs manobrados por controladores sociais. Chegam ao objetivo: anular todas as conquistas de liberdade humana, para melhor mandar.
Medicamentos e vacinas eficazes estão próximos a aparecer. Necessita-se repudiar e evitar as consequências do ditatorial controle social. As pessoas, aterrorizadas, estão próximas a serem anuladas arbitrariamente em vontades ou atitudes, se a sociedade não exibir o direito de reagir, se o ensaio de totalitarismo midiático e governamental prosperar.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

O Carvoeiro

O carvoeiro era respeitado em seu meio.
Homem sério.
Conduta íntegra.
Trabalhador correto.
Conversa sincera.
Atitudes educadas.
Opiniões sensatas.
Bom chefe de família.
Companheiro leal.
Entretanto, o trabalho áspero e a vida sofrida alteraram-lhe as feições.
Queimaduras no rosto.
Olhos vermelhos.
Pele encardida.
Cicatrizes no corpo.
Mas, apesar de sua conduta responsável, o carvoeiro, quando esteve na cidade para as compras, foi barrado pelos seguranças na porta do estabelecimento comercial, sob a alegação de que sua aparência não recomendava a entrada no recinto.

Situação semelhante pode acontecer conosco.
É natural que, na convivência diária, o aspecto físico seja o primeiro contato com os outros. Contudo, diante do próximo, tenhamos o cuidado de não valorizar mais a forma com que se apresenta do que o bom conteúdo que ele guarda na própria intimidade.
(Espírito Valérium-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Fábrica de Remédios

Nunca se esqueça de que você pode ser remédio em todas as coisas que faça.
Remédio analgésico para a consciência culpada, servindo como fonte de consolação ou de apoio para o reerguimento, através da palavra amiga e carinhosa.
Medicação de fortalecimento para o que se sente fraco e sem ânimo, através do verbo otimista que pinta o quadro com as cores de um novo amanhã.
Você pode ser o estimulante que modifica o panorama daquele que se entregou ao abatimento ou à depressão, apresentando-lhe novos horizontes pela palavra generosa e incentivadora.
Seu verbo sincero e cordial pode corrigir o erro sem aumentar a ferida causada pelo mal.
Seu conselho fraterno pode iluminar os pensamentos conturbados e imaturos que levariam os passos trôpegos aos precipícios da sombra.
Até mesmo seu silêncio pode construir quando o serviço da necessidade de desabafo do outro, sem apresentar juízos negativos através da expressão de censura que você soube apagar de sua face.
Você é a mais poderosa indústria química que Deus criou na Natureza.
Sua vida é a expressão do mais rico laboratório de medicamentos que existe na superfície do mundo.
Apresente os produtos aos enfermos necessitados e deixe que eles mesmos ateste a sua eficiência. Somente exercitando-se como Laboratório de Deus na vida dos outros é que você entenderá qual é a tarefa mais nobre que pode ser realizada por suas mãos.
Para ser aquilo que o Pai programou em seu caminho, você já detém toda a matéria prima necessária e todo o maquinário indispensável para isso. 
Suas palavras exteriorizam o produto do Bem que a máquina do seu Afeto produz, radicada no coração espiritual que pulsa em sintonia com o coração de Deus.
Nunca se queixe de não ter o que fazer.
Se você aceitar ser aquilo que o Pai planejou para sua vida, jamais estará desempregado!
(Espírito Bezerra de Menezes-Saúde do Espírito-André L. Ruiz)

terça-feira, 16 de junho de 2020

A Mágica Opção

Apareceu num programa de televisão, onde eram entrevistadas pessoas idosas, convidadas a falar sobre a velhice. Tinha setenta e cinco anos, mas aparentava sessenta, espirituoso, bem disposto, dono de uma incrível jovialidade.
- Nunca me senti velho. O corpo já não tem a mesma vitalidade; não raro há "grilos" de saúde, o que é natural. Trata-se de uma máquina. Embora eu cuide dela, vai se desgastando... Mas o "motor" está ótimo, nos dois sentidos: bombeia, incansável e eficientemente o sangue, sem "ratear", e se mantém permanentemente enamorado de encantadora donzela - a Vida! Por isso, intimamente, sinto-me um eterno jovem. Nunca experimentei o "peso dos anos" ou a angústia de envelhecer. Cada dia é uma nova aventura e eu a aproveito integralmente...
- Qual a fórmula para essa perene juventude emocional, essa esfuziante alegria? - pergunta, admirado, o entrevistador.
- Elementar, meu filho. Toda manhã, quando desperto, digo para mim mesmo: "Você tem duas opções, neste dia: ser feliz ou infeliz." Como não sou tolo, escolho a primeira. Simples, não?

As pessoas felizes vivem neste mesmo mundo de expiações e provas. Sofrem, lutam, enfrentam problemas e dificuldades, dores e atribulações, enfermidades e desgastes, como toda gente. No entanto, optaram pela Felicidade, superando a velha tendência humana de autocomiseração; o masoquismo de autoflagelar-se com uma visão pessimista e desajustada da existência, o cultivo voluptuoso da mágoa...
Felicidade, como ensina a sabedoria popular, não é uma estação na jornada humana. Trata-se de uma maneira de viajar. Independente dos favores da existência, subordina-se, fundamentalmente, ao que fazemos dela.
(Richard Simonetti-Atravessando a Rua)

sábado, 13 de junho de 2020

A Brincadeira do Copo

Aquela senhora, de louvável boa vontade e minha companheira eventual em determinada sessão de materialização para a qual eu fora convidado, conta-me eufórica as suas incursões:
- Imagine o senhor que começamos a fazer a experiência do copo que anda sozinho. Há uma médium muito boa de efeitos físicos e as sessões, lá em casa, têm sido maravilhosas.
Não tenho o vezo de me maravilhar com os fenômenos supranormais, que, se não servissem apenas como motivo de um primeiro impacto junto aos excessivamente incrédulos, mais não serviriam senão para despertar deletéria curiosidade e perigoso divertimento. Por isso mesmo, ponderei ante a informação que me era dada naquele instante:
- Mas, a senhora tem procurado dirigir essas reuniões no sentido do aprendizado puro, do aproveitamento moral indispensável?
- Ah, sim, fazemos sempre uma prece antes, concentramo-nos com muita sinceridade e aí os Espíritos começam a manifestar-se. Tudo Espírito de muita luz, de muita elevação.
O arremate bastou para forjar a minha preocupação. Aquela notícia de que era Espírito de luz não chegou descansada em meu coração. O que se sabe, ao contrário, é que, com raríssimas exceções, os Espíritos que se apresentam nesse tipo de reunião são sempre bastante involuídos, de pouca elevação espiritual. Em alguns, com excesso de tolerância, podemos lobrigar, no máximo, o desejo que realmente possam revelar de não pretenderem ir além  do entretenimento, sem objetivarem especificamente o mal e a amoralidade.
Mas isto não é tudo num trabalho em que o perigo pode sobrevir até mesmo em clima de boa vontade. Ela adivinhou em meu olhar essa preocupação e afinal fez-me o convite:
- Venha na próxima semana. O senhor vai conversar com eles e verá que beleza!
Aceitei. Aceito sempre. Pelo menos os convites. Os resultados daquilo a que assisto é que nem sempre posso aceitar. No dia e hora aprazados, eu estava em sua casa. Ambiente em silêncio, respeitoso. Ela me pede para fazer a prece de abertura. Não me furto. Segue-se a concentração. Em dez minutos o copo estala, treme, bate e logo desliza sobre a mesa. O alfabeto está à volta, e sobre as letras o copo vai dando as suas paradas até ir formando frases inteiras. O método é primitivo, cansativo e completamente superado.
- Quem está aí? - perguntei a meio tom.
Respondeu o copo:
- Allan Kardec!...
E com aquela gelou-me a espinha. Quem era eu - pensei com meus botões - para confabular com o Codificador, o Missionário da Doutrina Espírita...? Medrou a minha intranquilidade. Daqui a pouco, naquele ritmo, ia descer o Cristo, e depois o próprio Deus, e eu, por certo, não teria condições sequer de estar presente para receber o Criador! Escusado dizer ao leitor que, de frase em frase, fui conduzindo a conversação até pedir ao "Allan Kardec" que não se preocupasse com a gente, que estávamos muito bem, estudando frequentemente a sua obra, e ele não precisaria retornar àquela casa para gastar o seu precioso tempo. Partiu, visivelmente jubiloso com o meu confete.
Brincadeira, má fé ou desequilíbrio? Não pude adentrar-me na análise, pois lá não voltei. Aconselhei a dona da casa, com muito cuidado, para não magoá-la, a suspender temporariamente as reuniões até que todos fizessem preliminarmente um estudo intensivo da Doutrina Espírita. A grande realidade é que as criaturas "descobrem" o fenômeno e se perdem no meio dele por absoluta carência da parte mais essencial: o estudo teórico das manifestações mediúnicas. Essa inópia, regra geral, leva a desastrosas consequências: Espíritos matreiros, ingênuos ou desabusados fazem-se passar por grandes personagens, deitam falação, pontificam lições esdrúxulas, transformam-se em pequenos semideuses e acabam fascinando ou até fanatizando completamente os que lhes rendem as homenagens da vaidade, da submissão, da subserviência e do endeusamento. Eis que Allan Kardec - o verdadeiro, não o do copo - com carradas de bom senso e de inquestionável autoridade, sentenciou os dois principais mandamentos do Espiritismo: 1º - Amai-vos; 2º - Instruí-vos.
(Luciano dos Anjos-Crônicas de Um e de Outro)

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Canonização da Terra e Canonização do Céu

Certa vez os discípulos de Jesus vieram jubilosos ao seu encontro e lhe disseram: Senhor, os maus Espíritos se nos sujeitam. Vimos Satanás tombar do alto  como um relâmpago. O Mestre retrucou: Não vos alegreis tanto por isso; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão escritos no Céu.
Eis aí o que todos devemos ambicionar de preferência a tudo mais: termos os nossos nomes escritos no Livro da Vida. Essa escrituração não é deste mundo. Os homens, falhos e apaixonados como são, não podem fazê-la.
No entanto, o que vemos neste século é o desusado afã com que todos procuram fama, glória e notoriedades mundanas. Até mesmo as religiões, ao invés de encaminharem a Humanidade à vida real, combatendo suas vaidades, acoroçoam e fomentam essas vaidades, distribuindo títulos honoríficos e comendas aos ricos, canonizando os que julgam bons, quando da sua grei, conferindo insígnias aos párias. E assim vão prendendo os homens às coisas da Terra, enquanto "falam" das coisas do Céu. 
Por isso, todos preferem ver seus nomes aureolados nos século presente a tê-los gravados no Livro da Vida. Este está oculto aos olhos da sociedade, enquanto que a fama e a glória se ostentam na atualidade. 
Representantes, ministros e adeptos do Cristo contam-se aos milhões; porém, homens de caráter reto, tolerantes, de consciência pura, animados do espírito de justiça, capazes de renunciarem a tudo, inclusive à própria vida, em prol de seus semelhantes como fez Jesus de Nazaré, existem, acaso, no cenário terreno?
Há santos cuja memória refulge na história da Humanidade, apesar de não merecerem as honras do altar. Foram santos que se mantiveram fora das esferas ortodoxas de todos os tempos. As igrejas da Terra canonizam os seus santos, não tanto por serem santos, mas por serem "seus". Daí porque jamais se viu uma igreja santificar alguém de outra igreja. Se assim não fora, haveria altares para Marco Aurélio e para Sócrates.
Fechemos este artiguinho transladando para estas colunas a autodefesa que Sócrates pronunciou perante o tribunal que o condenou à morte:
"Jamais poderei ser acusado de faltar o respeito às leis religiosas, uma vez que assisto aos santos sacrifícios nos templos. Também não podeis classificar de crime a minha fé num Espírito familiar, num país como este onde todos creem em muitas superstições, auspícios e agouros.
"Acusam-me de corromper os costumes da juventude; e, não obstante, Atenas inteira é testemunha de que meus ensinamentos se baseiam numa única máxima: Preferi a alma ao corpo e a virtude às riquezas. Acusam-me de faltar com meus deveres de bom cidadão, por não tomar parte nas assembleias do povo. Perguntai aos que combateram em Potideia, Anfípolis e Délios, se servi à minha Pátria.
"Interrogai os senadores e eles que vos digam se não me opus energicamente á execução dos dez capitães vencedores de Argino, vítimas da vossa injusta punição.
"Se me acusam de impiedoso, bom será que examineis a minha vida, as minhas ações e palavras, e assim vos convencereis de que creio na Divindade muito mais do que os meus acusadores. Porventura julgais orgulho o não implorar clemência aos que me julgam?
"Não é por vaidade que assim procedo, é apenas para manter os meus princípios, pois entendo que a justiça deve obedecer às leis e não às súplicas.
"De resto, a morte não é para mim um pesadelo; e na minha idade não pretendo evitá-la para não desmentir as lições que dei, a fim de a saberdes desprezar.
"Antes que me tivésseis condenado à morte, já a Natureza o tinha feito; a verdade, porém, condenará os meus acusadores a grandes e profundos remorsos."

Por bem menos do que foi Sócrates muitos estão no altar. Sócrates é daqueles cujo nome está escrito no Céu, porque, como disse judiciosamente o Mestre - muitos virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão à mesa dos profetas; e muitos filhos do reino serão expulsos.
Os verdadeiros crentes, como os legítimos santificados, estão arrolados no Livro da Vida e não nos in-fólios dos templos de pedra. 
(Vinicius-Em Torno do Mestre)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

William George, o Avô de Si Mesmo

Já dissemos que a doutrina da reencarnação não é uma revelação ou descoberta do Espiritismo, pois há muitos séculos era aceita no Oriente. É de justiça reconhecer que Allan Kardec e seus continuadores contribuíram de maneira sensível para divulgar a ideia no Ocidente, vencendo, aos poucos, uma forte resistência inicial.
A reação descabida é determinada principalmente pela incompreensão do real significado da reencarnação e suas consequências morais. Além do mais, a milenar "novidade" vinha contrariar conceitos e preconceitos muito arraigados.
Estamos agora observando, com alegria e esperança, interesses legítimos no estudo desapaixonado da reencarnação por parte de cientistas de renome.
O professor H. N. Banerjee, da Universidade de Rajstan, na Índia, já há vários anos pesquisa o assunto. Procurando uma terminologia nova para o fenômeno, propõe ele as iniciais ECM, da expressão "extra cerebral memory", ou seja, memória extra cerebral. Isto quer dizer que o ilustre professor está convencido de que a memória funciona também sem o apoio do cérebro físico e, portanto, tem condições de sobreviver à morte do corpo. Ideia semelhante, aliás, foi esposada pelo Dr. Andrija Puharich, que admite experimentalmente o que chama de "mobile center of consciouness" (MCC), isto é, "centro móvel da consciência".
Outro cientista eminente, o professor Ian Stevenson, da Universidade da Virginia, tem, nos seus arquivos, relatos de mais de 600 exemplos de reencarnação. O Dr. Stevenson especializou-se em casos de crianças de tenra idade que têm lembranças espontâneas de vidas anteriores.
Há algum tempo ele selecionou 20 desses casos e publicou, em 1966. um livro interessantíssimo intitulado "Twenty Cases Suggestive of Reincarnation", no qual são apresentados dois casos do Brasil, ocorridos ambos na família do saudoso professor Francisco Valdomiro Lorenz, no Rio Grande do Sul. 
Um desses casos é narrado pelo próprio professor Lorenz, no seu livro "A Voz do Antigo Egito". Uma jovem amiga de Lorenz adoeceu gravemente e, antes de morrer, anunciou que renasceria em breve na família do professor. Tanto este como sua esposa guardaram a informação para si mesmos, nada revelando aos demais membros da família, nem mesmo depois de nascida mais uma menina. Esta é que, logo que começou a falar, passou a referir-se espontaneamente à sua existência anterior, lembrando episódios então vividos.
Não é o caso único na literatura espírita, em que a pessoa anuncia seu renascimento e depois se lembra da personalidade anterior com bastante riqueza de informações. Num dos exemplos colhidos nos arquivos do professor Stevenson, um cidadão chamado William George, do Alaska, declarou que renasceria na família do seu próprio filho, com as mesmas maras que tinha no corpo. Isso realmente aconteceu e, com poucos anos de idade, a criança se lembrava perfeitamente da sua vida anterior, apanhando certa vez, entre diversas outras peças, um relógio que lhe pertencera no passado. Também reconhecia seus parentes que agora haviam trocado de posição, a começar pelo seu filho, que era então seu pai, pois o menino era avô de si mesmo!
Estes fatos, que ainda surpreendem tanta gente, serão mais tarde aceitos com naturalidade e interesse. A verdade é totalmente indiferente aos nossos preconceitos e caturrices e, graças a Deus, há muitos cientistas empenhados em descobrir a verdade, seja ela qual for.
(Hermínio C. Miranda-Crônicas de Um e de Outro)

sábado, 6 de junho de 2020

O Homem Flutuante

Daniel Dunglas Home nasceu numa pequena aldeia, próxima a Edinburgh, Escócia, no dia 20 de março de 1833. Em sua autobiografia pouco fala sobre seu pai, mas sobre sua mãe, relata o seguinte:
"Minha mãe foi uma vidente durante a sua vida. Tinha, o que se conhece na Escócia, como uma segunda visão. Em muitas ocasiões, viu coisas acontecidas a distância. Tinha também a premonição de muitos fatos que ocorreram na família e previa o falecimento de parentes. Por fim, previu a sua própria morte, quatro meses antes que ela se desse".
Daniel saiu da Escócia para a Nova Inglaterra (USA), aos nove anos de idade. Foi morar com uma tia que o havia adotado. Aos treze anos começou a mostrar as faculdades psíquicas. Sua tendência mística revelou-se num diálogo com seu amigo Edwin. Convencionaram, então, de um se mostrar para o outro logo após o decesso físico de um deles. Quem morresse primeiro voltaria para se revelar ao amigo remanescente. Um mês mais tarde, certa noite, assim que se deitou, Daniel teve a visão de Edwin. Comunicou este fato à sua tia e, um ou dois dias depois, chegou a confirmação da morte do seu amigo Edwin.
Em 1850, contando apenas 17 anos, teve a visão da morte de sua mãe. Uma noite, ele gritou por socorro e quando sua tia chegou, encontrou-o muito abatido. Disse que a mãe havia morrido naquele dia às doze horas; que ela lhe havia aparecido e dado o aviso.  Essa sua visão foi inteiramente confirmada, logo após, por um mensageiro. A partir dos 18 anos, a mediunidade de Daniel foi se ampliando cada vez mais. Os fenômenos de ordem física, ruídos, transportes, levitações, materializações e outros análogos, eram frequentes ao seu derredor.
O lar de sua tia, quieto e pacato, foi o palco de todas aquelas manifestações: batidas fortes nos móveis e paredes, e objetos sendo arrastados por forças invisíveis. Sua tia, criatura de estreita visão, não compreendendo aqueles fenômenos maravilhosos, comentava que o seu sobrinho havia trazido o diabo para a casa e jogou-o na rua. Daniel procurou os amigos e ora permanecia na casa de um, ora na casa de outro. Nas casas onde se hospedava realizava sessões que se repetiam várias vezes por dia. Nestas circunstâncias, tais trabalhos acarretaram-lhe grande perda de "forças". O seu esgotamento físico era visível. Multidões acorriam de todos os lados para presenciar as maravilhas que se produziam na presença de Daniel.
Sim, personalidades ilustres e ilustradas participaram dos trabalhos e todas, por unanimidade, proclamaram a autenticidade dos fenômenos. Aludidos fenômenos, por certo, levaram os investigadores à meridiana conclusão da evidência do Mundo Espiritual.
Em New York realizou sessões de materializações, delas participando eminentes  professores universitários, dentre eles os professores Hare, Mapes e o juiz  Edmonds, da Suprema Corte. Estas personalidades tornaram-se espíritas graças às revelações obtidas por Daniel.
A fama de Daniel D. Home projetou-se por todo o mundo. Nas capitais europeias tornou-se muito conhecido. Certa feita, em Londres, na mansão do jovem Lord Lindsay e na presença de outros investigadores, Daniel, librando-se no espaço, pelo lado de fora, passou de um compartimento para outro. Temos a foto deste fato notável em nossos arquivos. Eis aí um caso comprovado de levitação. Também no Brasil, o nosso médium Mirabelli levitava no espaço. Também temos a foto de Mirabelli flutuando no ar. 
Daniel percorreu  uma jornada cheia de espinhos. Foi ridicularizado pelos seus contemporâneos e tachado de charlatão. Mas o valoroso médium não se acovardou. Corajosamente, Daniel mostrou, como verdadeiro missionário, aos seus contemporâneos a exuberância do Espírito e a sua comunicabilidade com o plano mais denso. Não maculou o seu dom mediúnico, tampouco se deixou levar  pelo poder do dinheiro. Daniel confessava amplamente:
"Fui mandado em missão. Essa missão é demonstrar a imortalidade".
O saldo dos trabalhos do grande médium, felizmente, acabou por triunfar. As faculdades de Daniel foram confirmadas por uma plêiade de sábios e cientistas. O seu potencial anímico e mediúnico recebeu o pleno aval do cientista e sábio William Crookes.
Sobre Daniel D. Home assim se expressou Mrs. Webster:
"Ele é o mais maravilhoso missionário dos tempos modernos e da maior de todas as causas, e o bem que ele tem feito não pode ser avaliado. Quando Mr. Home passa, derrama em seu redor a maior de todas as bênçãos: a certeza da vida futura.
Daniel desencarnou em Paris no ano de 1886. Na sua trajetória deixou balizas de luz.
(Domério de Oliveira-Nos Rastros do Eterno)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

São Chegados os Tempos - Sinais dos Tempos

São chegados os tempos, dizem-nos de todas as partes, marcados por Deus, em que grandes acontecimentos se vão dar para a regeneração da Humanidade. Em que sentido se devem entender essas palavras proféticas? Para os incrédulos, nenhuma importância têm; aos seus olhos, nada mais exprimem que uma crença pueril, sem fundamento. Para a maioria dos crentes, elas apresentam qualquer coisa de místico e de sobrenatural, parecendo-lhes prenunciadoras da subversão das leis da Natureza. São igualmente errôneas ambas essas interpretações; a primeira, porque envolve uma negação da Providência; a segunda, porque tais palavras não anunciam a perturbação das leis da Natureza, mas o cumprimento dessas leis.
Tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que não se desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Temos, pois, que afastar, desde logo, toda ideia de capricho, por inconciliável com a sabedoria divina. Em segundo lugar, se a nossa época está designada para a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do conjunto.
Isto posto, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses progressos se realizam paralelamente, porquanto, o melhoramento da habitação guarda relação com o do habitante. Fisicamente, o globo terráqueo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados. Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e mais produtiva a terra.
O progresso da Humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma lei. Ora, como todas as leis da Natureza são obra eterna da sabedoria e da presciência divinas, tudo o que efeito dessas leis resulta da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. Quando, por conseguinte, a Humanidade está madura para subir um degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por Deus, como se pode dizer também que, em tal estação, eles chegam para a maturação dos frutos e sua colheita. 
O Universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurável, acionado por um número incontável de inteligências, e um imenso governo em o qual cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob as vistas do soberano Senhor, cuja vontade única mantém por toda a parte a unidade. Sob o império dessa vasta potência reguladora, tudo se move, tudo funciona em perfeita ordem. Onde nos parece haver perturbações, o que há são movimentos parciais e isolados, que se nos afiguram irregulares apenas porque circunscrita é a nossa visão. Se lhes pudéssemos abarcar o conjunto, veríamos que tais irregularidades são apenas aparentes e que se harmonizam com o todo.
A Humanidade tem realizado, até o presente, incontestáveis progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o de fazerem que entre si reinem a caridade, a fraternidade, a solidariedade, que lhes assegurem o bem-estar moral. Não poderiam consegui-lo nem com as suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas que, havendo dado tudo o que comportavam, seriam hoje um entrave. Já não é somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessitam, mas de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho.
Tal o período em que doravante vão entrar e que marcará uma das fases principais da vida da Humanidade. Essa fase, que neste momento se elabora, é o complemento indispensável do estado precedente, como a idade viril o é da juventude. Ela podia, pois, ser prevista e predita de antemão e é por isso que se diz que são chegados os tempos determinados por Deus.
Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do "progresso moral". Uma nova ordem de coisas tende a estabelecer-se, e os homens, que mais opostos lhe são, para ela trabalham a seu mau grado. A geração futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de elementos mais depurados, se achará possuída de ideias e sentimentos muito diversos dos da geração presente, que se vai a passo de gigante. O velho mundo estará morto e apenas viverá na História, como o estão hoje os tempos da Idade Média, com seus costumes bárbaros e suas crenças supersticiosas.
Aliás, todos sabem quanto ainda deixa a desejar a atual ordem de coisas. Depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar material, produto da inteligência, logra-se compreender que o complemento desse bem-estar somente pode achar-se no desenvolvimento moral. Quanto mais se avança, tanto mais se sente o que falta, sem que, entretanto, se possa ainda definir claramente o que seja: é isso efeito do trabalho íntimo que se opera em prol da regeneração. Surgem desejos, aspirações, que são como que o pressentimento de um estado melhor.
Mas, uma mudança tão radical como a que se está elaborando não pode realizar-se sem comoções. Há, inevitavelmente, luta de ideias. Desse conflito forçosamente se originarão passageiras perturbações, até que o terreno se ache aplanado e restabelecido o equilíbrio. É, pois, da luta de ideias que surgirão os graves acontecimentos preditos e não de cataclismos ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais foram  consequência do estado de formação da Terra. Hoje, não são mais as entranhas do planeta que se agitam: são as da Humanidade.
(Allan Kardec-A Gênese)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Restauração

Em plena tempestade, o homem buscou agasalho e proteção sob a árvore vetusta que a ventania desgalhava e sacudia, implacável.
Enquanto ziguezagueavam os relâmpagos, em balé mágico sob o estrugir do trovão, o homem, atemorizado, explodiu em imprecações:
- Forças desgovernadas e cruéis, titãs do pavor em desvario, eu amaldiçoo o temporal e a fúria!
"A tudo destroça, na sua passagem voluptuosa, deixando lama, destruição, infortúnio..."
Havia nele, também, o fragor da revolta que o estiolava por dentro.
A árvore veneranda que lhe ouviu a diatribe, desejando auxiliá-lo, esclareceu:
- A tormenta devasta e passa; os ventos destroçam e se vão adiante; a chuva encharca e cessa; os raios despedaçam e param; os trovões estrondam e se calam...
"Alguém, no entanto, com carinhosa dedicação substitui os danos, oferecendo vida nova; recompõe a paisagem com o calor do Sol, que enxuga o lamaçal; faz reverdecer os galhos partidos, que renascem revigorados; e, em breve, tudo são beleza, utilidade e harmonia..."
O homem ouviu, meditou e passou a considerar que a tempestade maléfica, realmente, não é aquela que estruge por fora, em alarmante, desarvorada passagem, mas a que espoca por dentro, no coração, dificultando a restauração do bem que pode realizar.
(Espírito Eros-No Longe do Jardim-Divaldo Franco)

segunda-feira, 1 de junho de 2020

No Milagre da Vida

Transposto o limite do tempo e vencida a dimensão da distância, mudam-se os conceitos sob a ação dinâmica da vontade.
Quem adquire o hábito de librar-se nas asas velozes do pensamento, alcança "os longes espaços" e trá-los para perto das emoções.
Quando se logra a empresa de compreender, decorrência natural do exercício mental de crer, o futuro chega agora, delineado e pronto pelas ações realizadas.
Não há, então, remotos lugares, não se medindo distâncias  com os instrumentos habituais, mas com as vibrações do sentimento.
Não existem ontens nem amanhãs, mergulhando-se em uma realidade que começou hoje, um longo hoje de momentos que foram e ficaram, que virão e já se encontram.
Se são examinados os anseios projetados para longe, descobre-se que está perto o começo do fim, da mesma forma que o esperado já chegou, desde o momento em que se pensou na sua realidade.
Do mesmo modo, o que aconteceu prossegue sucedendo, enquanto é trazido à atualidade da imaginação.
O que se pretende, já se possui.
O que se desconhece, passa a saber-se, a partir do instante em que a ignorância se apresenta e começa a desaparecer.
O quanto se dá, pertence ao doador, e tudo que se recebe deixa de ser posse, para converter-se em dívida. 
No longe-perto do amanhã-hoje, o pensamento cósmico do amor vê a eterna presença da vida, que se organiza em forma e se dilui em energia, sempre indestrutível e real.
Nenhum lugar está longe nem perto e coisa alguma se encontra distante ou próxima, no tempo, se o homem deseja a busca.
Longe-perto quando se sabe, e próximo-remoto quando o ser se aturde e se debate na ignorância.
Agora e aqui, tudo que se deve e se pode realizar no milagre da Vida.
Vive, portanto!
(Espírito Eros-No Longe do Jardim-Divaldo Franco)