sexta-feira, 17 de julho de 2020

Os Que Se Salvam

Conta-se que um certo religioso sonhou que estava nas portas do Céu. Interrogou, então, sofregamente, o anjo que ali se encontrava de guarda:
- Estão aí os protestantes?
- Não, aqui não se encontra um protestante sequer.
Surpreso, o religioso insistiu:
- Estão aqui, então, os católicos-romanos?
- Tão pouco conhecemos aqui os filhos da igreja; não existem aqui romanos - respondeu o guardião.
- Estarão, quem sabe, os partidários de Maomé ou de Buda?
- Não estão, nem uns nem outros.
- E os espíritas?
- Igualmente não estão aqui.
Intrigado, indagou, então:
- Dar-se-á, acaso, que o Céu se encontre desabitado?
- Isso não acontece - explicou o anjo, acrescentando: incontáveis são os habitantes da casa do Pai, ocupando todas as suas múltiplas moradas.
- Dize-me, então, depressa: quem são os que se salvam, e a que igreja pertencem na Terra?
- A todas e a nenhuma - informou, por fim, o vigilante da entrada das Celestes Moradas.
E continuou:
- Aqui não se cogita de denominações, nem de dogmas. Os que se salvam são os que visitam as viúvas e os órfãos em suas aflições, não se deixando corromper. Os que se redimem são os que procuram aperfeiçoar-se, corrigindo-se dos seus defeitos, renascendo todos os dias para uma vida melhor. Os que conquistam o Reino dos Céus são os que amam o próximo e renunciam às fascinações do mundo. São os que perseveram caminhando pelas estradas difíceis do dever, apesar dos obstáculos. Os que se purificam são os que obedecem à voz da consciência, e não os reclamos do interesse. Os que merecem a Divina Graça são os que trabalham pela causa da justiça e da Verdade, que é a Causa Universal, e não pelo engrandecimento de causas regionais, de certas agremiações, com títulos e rótulos religiosos. Os que aspiram á glória de Deus, ao bem comum, à felicidade coletiva, enfim, os que se salvam, são aqueles que fazem a vontade do Pai.
- Basta! - disse o religioso - já compreendo tudo.
E acordou pensando em como estava vivendo os ensinamentos de sua religião.

Essa lição nos parece bastante importante. Todas as religiões sinceras contêm em seus ensinamentos as bases morais transformadoras da alma, ajudando-nos a conquistar as virtudes que nos farão melhores, mais sábios e generosos.
Mas ninguém ganhará o paraíso simplesmente porque adota uma religião. Deus, na Sua Justiça, não faz qualquer diferença entre os Seus filhos. Não lhe importa a cor, a raça, o sexo, a idade e nem tampouco a religião.
O que vale mesmo são os bons sentimentos que carregamos no coração e as nossas obras no bem. Então, quando nos preocupamos com o nosso destino depois da morte, devemos repensar o que temos feito na Terra para minorar o sofrimento do nosso próximo, se temos ajudado alguém que nos possa retribuir o favor, se o nosso tempo tem sido aproveitado de forma útil para o bem da humanidade. Isso é o que vale perante Deus.
A nossa salvação, portanto, é a prática incessante da caridade.
(Donizete Pinheiro-Contos Modernos em Tempo de Paz)

terça-feira, 14 de julho de 2020

Visão Pequena

Rafael Monteiro tinha muitas qualidades. Homem sincero, cumpridor das obrigações. Honestidade a toda prova. Contudo, era um poço de orgulho. 
Professor universitário, era respeitado na comunidade pela vasta cultura e como prestigiado especialista em matéria científica de alta relevância. Mergulhado em pesquisas, vivia no laboratório, estudando os seres microscópicos. Só acreditava nos próprios conhecimentos e tinha ojeriza às ideias religiosas. Por isso, ficou profundamente magoado ao saber que a esposa começara a frequentar uma instituição espírita e tivera acentuada melhora em seus problemas íntimos. 
- É coisa de ignorante. Não serve - dizia ele, irritado.
Entretanto, como a esposa insistia em continuar os estudos doutrinários, Rafael proibiu-lhe a saída de casa. Quando o fato veio a público, o professor recebeu a visita de Filomena, diretora da instituição. Mulher simples. Gestos educados. Postura humilde.
A diretora começou a conversa, dizendo com respeito:
- Permita que sua esposa continue conosco.
O marido contestou com rispidez:
- Não admito intromissão em nossa vida.
A senhora baixou os olhos. Após alguns instantes de silêncio constrangedor, Filomena prosseguiu o diálogo:
- As reuniões lhe fizeram bem.
- Não é lugar para ela.
- Em nossa instituição, estudamos o Evangelho do Cristo e lá aprendemos as lições do bem. Procuramos enxergar a vida pela ótica da eternidade, reconhecendo que toda a grandeza do Universo é obra sublime de Deus.
- Não acredito nisso. É tudo superstição.
Ao perceber a dura resistência do dono da casa, a diretora levantou-se para as despedidas e comentou, enigmática:
- Que pena! O senhor se acostumou...
E diante do olhar de interrogação do cientista, Joana imitou com as mãos as lentes do microscópio e concluiu, bem-humorada:
- O senhor se acostumou a ver tudo pequeno.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)

domingo, 12 de julho de 2020

Criogenia - A Técnica de Congelar Cadáveres

A nós, espíritas, se afigura perfeitamente legítimo o esforço despendido pela ciência em prorrogar o quanto se possa a vida humana. Segundo ensinam os doutos, o homem ainda é dos animais que vivem menos em relação aos seus companheiros chamados irracionais, pois que estes duram cerca de sete vezes o tempo que levam para chegar à fase adulta. Esta fórmula daria para o homem cerca de 140 anos. A experiência do Espírito na carne é valiosa, insubstituível mesmo, porque aqui funcionam cursos importantes dessa imensa escola da vida. Confesso, porém, que, particularmente, ainda não vi muito sentido nessas experiências de congelamento de cadáveres, de que jornais e revistas vêm cuidando ultimamente. Aliás, não dizem congelamento de cadáveres ou de corpos e sim de "pessoas", o que me parece uma expressão inadequada. A ideia consiste em conservar o corpo da pessoa que morreu em consequência de causas naturais, até que a ciência  consiga recursos técnicos suficientes para curar as doenças de que vieram a falecer. Até aí, muito bem. Cada um de nós pode lembrar-se de um parente ou um amigo que morreu de tuberculose - hoje perfeitamente curável - ou em decorrência de uma infecção que algumas doses de antibiótico poderiam debelar. Não deve tardar muito a descoberta do mecanismo patológico do câncer e sua consequente cura. Daí a ideia de guardar os que morreram, a fim de que, futuramente, possam ser descongelados e tratados. Informa a imprensa que nos Estados Unidos já há cadáveres congelados, e dá até os preços. Custa cerca de 4.200 dólares a cápsula onde se guarda o corpo e sua manutenção é da ordem de 100 dólares por ano. No Brasil já se cuida de organizar uma sociedade de Criogenia (Do grego, crios, gelo).
Uma pergunta, porém: E o Espírito? Alguém está pensando nele, nas suas condições "post mortem"? Claro que não, porque todo o esquema do congelamento de corpos está sendo montado, evidentemente em bases materialistas. Para a ciência moderna oficial, o homem é um conglomerado celular mais ou menos engenhoso, provido de mecanismos de controle automático, acionados pelo sistema cérebro-espinhal. Dentro dessa concepção, a morte se dá quando se rompe o equilíbrio orgânico, em decorrência de um acidente ou de uma doença mais séria. Essa estória de Espírito é problema especulativo, reservado àqueles que se interessam pela metafísica. O pensamento? Mera segregação funcional do cérebro; morto o homem, morre também o pensamento e tudo vira um montão desordenado de células em decomposição. O pêndulo da ciência oscila, agora, na área negativista do materialismo.
A questão, porém, é que, ligado ao corpo físico, desde a concepção ou pouco depois dela, há um Espírito que traz uma experiência de muitas vidas. Foi sob a direção desse Espírito que se formou o organismo, foi dentro do campo magnético do seu períspirito que manteve a estrutura orgânica como um todo funcional, ao mesmo tempo em que as células se renovam pela eliminação das desgastadas e pela absorção das novas, supridas através da nutrição.
Há uma série enorme de perguntas a serem respondidas antes de se tentar resolver o problema da prorrogação da vida humana, nas condições em que está sendo proposta. Certo que a este vislumbre de esperança se atirarão, sôfregos, muitos seres envolvidos na densa aura do materialismo, do imediatismo da vida, em busca da imortalidade física. Acontece que a imortalidade física não é de interesse do Espírito. O corpo é simples instrumento de trabalho de que se utiliza ele por algumas décadas e o abandona por inservível. Daí em diante, o Espírito segue vivendo numa nova dimensão, onde não necessita de corpo físico; mais ainda: onde o corpo material seria um estorvo inconcebível. Mesmo admitindo-se possível - e disso não duvido - que o processo de degelo consiga restituir o organismo ao estado em que se encontrava exatamente após a morte, somente seria viável reanimá-lo se o Espírito ainda estivesse ligado ao corpo e a ele voltasse. (Não esquecer que a palavra reanimar tem a sua origem em "anima" que, no velho latim, significa "alma") Vamos admitir mais: que o Espírito tenha realmente ficado preso ao seu corpo físico por não ter ocorrido a morte real e sim um estado catalético. Como se portaria ele, sentindo-se preso indefinidamente a um bloco de gelo? Às vezes assistimos nas nossas sessões mediúnicas ao desespero do suicida que permanece atado psiquicamente ao seu corpo destroçado, e só consegue, com muita ajuda e ao cabo de muita angústia, libertar-se daquela opressora sensação.
Uma vez liberado da sua prisão carnal, o Espírito vai cuidar de outros aspectos de sua existência, de reexaminar as suas concepções, de rever o que fez, de reencontrar velhos queridos amigos, de planejar nova existência na carne, através do renascimento. Mesmo que "em vida" tenha pedido para ser congelado, ao chegar ao mundo espiritual compreenderá a infantilidade de sua pretensão, quando julgava que somente se vive preso a um corpo de carne.
(Hermínio Miranda-Crônicas de Um e de Outro)

terça-feira, 7 de julho de 2020

Expiações e Provações Como Instrumento de Evolução

A evolução humana vai acontecer através de mecanismos expiatórios e provacionais, no longo processo de despertamento da consciência. 
Vejamos o que "O Livro dos Espíritos" aborda sobre a questão da dor e evolução:
"Haverá Espíritos que, sem serem maus, se conservem indiferentes à sua sorte?"
"Há Espíritos que de coisa alguma útil se ocupam. Estão na expectativa. Mas, nesse caso, sofrem proporcionalmente. Devendo em tudo haver progresso, neles o progresso se manifesta pela dor".

Muitas pessoas acreditam que as expiações, pelo fato de serem dolorosas, são punições que Deus aplica às suas criaturas. Na verdade, Deus não pune nenhum de nós, pois, como disse Jesus, Ele é o Pai amoroso que está nos Céus. Como Pai amoroso Ele quer que todos os seus filhos evoluam. Por isso o amor é a primeira opção de evolução. Deus sempre nos convocará, primeiro, à educação pelo amor. No entanto, se nos rebelarmos e não quisermos nos educar pelo amor, seremos convidados a nos reeducar através da dor, em mecanismos expiatórios. 

Estudemos também o que Allan Kardec diz em "O Céu e o Inferno":
"O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só, são precisas a expiação e a reparação".
"Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança, o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito, destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação".

Portanto, após o arrependimento, surge a necessidade da expiação. O arrependimento é muito salutar. O arrependimento é o instante do reconhecimento dos erros praticados. A criatura reconhece que não agiu bem. Ao reconhecer que não agiu bem, arrepende-se e passa a buscar um modo de reparar as suas ações.
A expiação é uma responsabilização por aquilo que ela fez, para reparar posteriormente as ações. A expiação não significa, necessariamente, um sofrimento. É apenas um reconhecimento e um retorno ao caminho correto da vida, à essência do amor. Ela é sempre dolorosa, o grau de sofrimento vai depender do Espírito que está a expiar. 
Por isso é que a expiação não tem nada a ver com a concepção, imposta durante muito tempo pelas religiões cristãs, especialmente na Idade Média, devido à deturpação das palavras de Jesus.
Como vimos, muitos conceitos evangélicos foram distorcidos e "expiação" foi correlacionada ao "pecado" e à "culpa", passando a significar "autoflagício", no qual a pessoa buscava expiar as suas culpas, aplicando-se penitências, submetendo-se a um sofrimento - principalmente corporal - pretensamente purificador dos pecados.
Expiação, no entanto, até pela etimologia da palavra, é "tornar puro e sagrado". É "ex" (tornar) "piar" (puro). Trazer a pureza para fora, a pureza do Ser Essencial.
Enquanto não buscarmos o Essencial, estaremos sofrendo, porque ficamos mergulhados nas sombras do Ego, na ignorância, onde nos falta luz.
O objetivo da expiação é nos convidar, através da dor, a retornar ao amor essencial. 
Quando reencarnamos, escolhemos a generalidade das provas. Isto significa trabalhar um gênero que nos faculte um êxito na escola da vida. Durante toda a nossa vida, onde quer que nos coloquemos na condição de escolha como reencarnados, estaremos sendo convidados a agir, conforme o gênero de provas que escolhemos. 
Carregamos impresso dentro de nós o gênero da prova, que é o propósito da nossa existência. Somos senhores do nosso destino.
Suponhamos que alguém reencarne e peça o compromisso na área da Saúde, e nasça numa classe social menos favorecida, com condições de vida tais, que lhe dificultem o estudo. Esse alguém pode levar a vida como lixeiro, catando lixo pelas ruas, o que vai garantir a saúde, pois estará fazendo a higiene sanitária. 
Pode, no entanto, se esforçar e buscar estudar um pouco e se tornar um auxiliar de enfermagem. Pode esforçar-se ainda mais, de modo a vencer os obstáculos que a vida material lhe impõem, estudando a ponto de realizar um curso superior e tornar-se um médico. Continuará na área da saúde e, acima de tudo, vencendo obstáculos, aprimorando a sua inteligência e capacidade de superação das próprias limitações. Pode esforçar-se um tanto mais e tornar-se um cientista, e desenvolver vacinas, continuando a trabalhar na área da saúde, sendo ainda mais produtivo.
Aonde quer que ele vá, pelo seu próprio esforço, pelo esforço no trabalho que ele desempenhou, a Divindade vai lhe oportunizar formas de trabalhar na área da saúde, ampliando-lhe cada vez mais suas possibilidades. Tudo dependerá do esforço que fizer. O gênero de provas é "trabalhar com a saúde". A forma como ele desempenhará essa prova, dependerá de suas escolhas e do esforço que fizer para desempenhar o seu compromisso.
Na parábola do Semeador, Jesus nos oferece uma reflexão a cerca desse mecanismo da vida.
(Alírio C. Filho-Psicoterapia à Luz do Evangelho de Jesus) 
Nota: O autor desenvolve muito mais este tema na obra citada.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Golpe de Vento

Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrava a grande janela, à procura de ar fresco.
Repousara minutos breves.
Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim.
Julgara haver lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte.
Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico.
E, não obstante espírita convicto, deixava-se levar por impressões.
Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos.
A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro de bacilos de Koch.
Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas.
Entretanto, mal não acabara de se convencer do contrário, quando, numa noite, ao sentir-se trêmulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson, e foi nova luta para que lhe desanuviassem o crânio.
Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou-lhe a pele e ei-lo crente de que fora atacado pela púrpura hemorrágica, obrigando o médico e a família a difícil trabalho de exoneração mental.
Naquele instante, contudo, via-se derrotado.
Experimentando muita dor, buscara o consultório na antevéspera e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatoide, recomendando cuidados especiais.
No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampagueantes no ombro esquerdo, tomou o livro de anotações médicas e abriu no capítulo alusivo à moléstia que lhe fora diagnosticada.
Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole d'água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume.
Voltando, sobressaltado, leu nas primeiras linhas da página:
- "A moléstia assume a forma de dor pungente e agoniante. Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte. Sofrimento agudo e invencível. A dor começa no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios."
Joanino rendeu-se.
Quis gritar, pedir socorro, mas a "dor agoniante", ali referida, crescia, assustadora.
Pensou na mulher e nos quatro filhinhos.
Suava.
Afligia-se como que sufocado.
Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na ideia da desencarnação, rendeu-se à morte.
Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele.
O amigo abraçou-o emocionado, e falou:
- É lamentável que você tenha vindo antes do tempo...
- Como assim? - respondeu Garcia, arrasado. - Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade.
- Houve engano - explicou o instrutor - os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito e não à artrite reumatoide como a sua leitura fez supor. A corrente de ar virou a página do livro. Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com catorze anos de sobrevida... Entretanto, com o peso de sua tensão mental...
Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento.
(Espírito Hilário Silva-Ideias e Ilustrações-C. Xavier)


domingo, 5 de julho de 2020

Presença Invisível

"Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?"
"Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos dirigem". ("O Livro dos Espíritos", questão nº 459, Allan Kardec)

Um dos problemas mais sérios da existência humana é a influência exercida por Espíritos perturbados ou perturbadores.
Embora revestindo essa realidade com o manto da fantasia, o que deu origem à figura mitológica do demônio, todas as culturas religiosas, desde a mais remota antiguidade, reportam-se a ela.
A Doutrina Espírita, que tem o grande mérito de mostrar-nos como é o vasto continente espiritual, além-túmulo, oferece-nos informações preciosas, que nos ajudam a enfrentá-la com serenidade, sem maiores problemas.
Como ponto de partida ficamos sabendo que essa influência não é exercida por supostos seres infernais, devotados ao mal eterno. São apenas homens desencarnados, ou as almas dos mortos, agindo fora da carne de conformidade com as tendências que cultivaram enquanto encarnados, mas submetidos todos a leis inexoráveis de evolução, que mais cedo ou mais tarde os conduzirão aos roteiros do Bem, já que para isso fomos criados e Deus não falha jamais em seus objetivos. 
A presença desses Espíritos se faz sentir em nós na forma de sentimentos, ideias, sensações e desejos que nos envolvem sutilmente, sem que saibamos definir com exatidão sua origem.
Uma tristeza repentina, um inesperado envolvimento passional, intraduzível ansiedade, impulsos agressivos, ideias negativas, sensações desagradáveis, impertinentes males físicos - tudo isso pode estar associado à presença de Espíritos que se aproximam, atendendo a variadas motivações.
Pode tratar-se, como ocorre frequentemente, de simples náufrago do Além, que precisa de socorro. Raras pessoas têm um retorno tranquilo à Vida Espiritual. Falta-lhes conhecimento e, sobretudo, preparo. Ligam-se tão intensamente aos interesses materiais (como se fossem permanecer eternamente na carne), que ao desencarnar não apresentam a mínima condição para reconhecer onde estão e o que lhes compete fazer, como atordoado sobrevivente de um naufrágio em ilha desconhecida. 
Considere-se que o Plano Espiritual, a morada dos Espíritos, não é um compartimento estanque, a distância das cogitações humanas. Ele é tão somente uma projeção do plano físico. Começa exatamente aqui, onde estamos e aqui ficam aqueles que, libertando-se dos laços da matéria pelo fenômeno da morte, situam-se presos às ilusões humanas. 
Espíritos assim podem permanecer no próprio lar, ao lado dos familiares. Ignorando sua nova condição, solicitam ajuda e se exasperam ou desesperam ao sentir que não são atendidos.
Se na casa há alguém com razoável sensibilidade psíquica, passa a colher algo das angústias e perplexidades do desencarnado e, não raro, sensações relacionadas com os sintomas da doença que motivou o seu falecimento.
Dá-se o nome de obsessão ao domínio mental exercido por um Espírito desencarnado sobre alguém. Situações como a que descrevemos, configuram uma obsessão pacífica, já que o "morto" não pretende dominar ninguém e exerce sua influência sem noção do que faz, dos transtornos que ocasiona. 
O tratamento não é difícil. Normalmente a simples frequência daquele que sofre a influência ao Centro Espírita é suficiente, porquanto o desencarnado tenderá a acompanhá-lo, recebendo recursos de esclarecimento e ajuda mobilizados pelos benfeitores espirituais. 

Este tipo de envolvimento pode partir de um Espírito desconhecido que, em idêntica situação de perplexidade e sem ter a quem recorrer, aproxima-se de nós, como o acidentado que pede socorro à primeira pessoa que lhe surge à frente.
O empenho por compreendermos os mecanismos que envolvem as relações entre os Espíritos encarnados e desencarnados, habilita-nos a prestar ajuda a esses companheiros desajustados, sem nos deixarmos envolver por seus desajustes. 
(Richard Simonetti-Uma Razão Para Viver)