sábado, 18 de dezembro de 2021

 Jesus e o Seu Natal 2


Nasceu em Belém de Judá o Redentor do mundo, há perto de vinte séculos. Tal acontecimento de maior relevância nos fastos da História humana. Tão importante que chegou a abalar as milícias celestiais cujo alvoroço se expandiu nesta álacre mensagem: Glória a Deus nas maiores alturas e paz na Terra aos homens a quem ele quer bem!

Nascer é iniciar, é dar começo a uma existência em determinado meio. Eis o fato histórico considerado em seu aspecto genérico. Particularizemos, agora, o advento do Messias. Que influência está exercendo em nós o seu nascimento? Que relação existe entre o natal de Jesus e a nossa vida no momento atual? Que veio Jesus fazer à Terra, na parte que nos toca? Eis a questão que nos interessa de perto e que vem determinar o grau de importância daquele natal. Se o nascimento do Redentor não é ainda uma realidade em nós mesmos, influindo positivamente em nosso caráter, que importância pode ter no que nos diz respeito?

As minas do Transvaal são as mais ricas do mundo; é um fato indiscutível, considerado em sua generalidade. Mas em que isso nos interessa? Que proveito tiramos? Se, porém, nos associarmos às empresas que exploram os filões de ouro e os diamantes, então o caso muda de figura, tornando-se para nós de importância capital. O Brasil é um país opulento pela uberdade de seu solo, pela sua flora, seus minérios e suas múltiplas fontes  de riqueza. Não obstante, há muita gente pobre e até miserável no Brasil. 

Para que as suas decantadas riquezas sejam uma realidade para cada brasileiro, é preciso que este se habilite, granjeando sua independência financeira pelo trabalho, pela inteligência, pela perseverança e pela economia. Caso contrário, todas as vantagens e prerrogativas de nossa terra serão como se não existissem.

Precisamente o mesmo fenômeno se dá com relação ao natal de Jesus. Nenhum proveito nos vem do fato histórico de seu nascimento. Todo o valor desse magno sucesso está nas suas relações conosco. Se existe essa relação, se aquele fato representa uma força viva atuando em nosso Espírito, então Jesus nasceu para nós e a nós se dirige a angélica mensagem: Glória a Deus nas alturas, paz na Terra aos homens a quem ele quer bem!

Se permanecermos alheios ao natal de Belém, quanto à eficiência em nossas almas, tudo o que fizermos para comemorar tão auspiciosa data histórica será vão e vazio, visto como Jesus nasceu para nos salvar do pecado, para nos remir da servidão, dos vícios e das paixões. Se nos conservamos na iniquidade do século e nos afazemos à escravidão, aquele natalício ainda não se realizou: nada temos, portanto, que comemorar.

Ao contrário das hospedarias de Belém, tratemos de arranjar lugar em nossos corações, para recebermos condignamente o divino hóspede que há dois mil anos bate às nossas portas. 

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

 Cristo Nasceu? Onde? Quando?

A salvação não está numa finalidade a que se convencionou denominar céu ou paraíso: está, sim, na perpétua renovação da vida para a frente e para o alto. Avançar, como disse Paulo, de glória em glória, tal é, em síntese, o trabalho e o plano da redenção. Jesus é a força viva que, uma vez encarnada no homem, determina a sua constante transformação.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e verdade, e vimos a sua glória como de unigênito do Pai. Mas a todos os que o receberam, aos que creem em seu nome, deu ele o direito de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus”.

A prerrogativa de unigênito do Pai, Jesus a torna extensiva a todos os que de boa vontade o receberem. E assim se opera o seu natalício no coração do pecador.

O menino que Maria enfaixou, deitando-o em seguida numa manjedoura, é a figura desse Jesus que é força, que é poder, que é vida e verdade, atuando no interior do homem.

Invoquemos, em abono de nossa asserção, o testemunho de algumas personagens que figuram na esfera cristã como astros de primeira grandeza.

Perguntemos a Paulo - onde e quando Jesus nasceu? Ele nos dirá: Foi na estrada de Damasco, quando eu, então intolerante e fanatizado por uma causa inglória, me vi envolvido na sua divina luz. Dali por diante - “já não sou eu mais quem vive, mas o Cristo é que vive em mim”.

Indaguemos de Madalena, onde e quando nasceu Jesus. Ela nos informará: Jesus nasceu em Betânia, certa vez em que sua voz, ungida de pureza e santidade, despertou em mim a sensação de uma vida nova, com a qual, até então, jamais sonhara.

Ouçamos o depoimento de Pedro, sobre a natividade do Senhor, e ele assim se pronunciará: Jesus nasceu no átrio do paço de Pilatos, no momento em que o galo, cantando pela terceira vez, acordou minha consciência para a verdadeira vida. Daí por diante, nunca mais vacilei diante dos potentados do século, quando me era dado defender a Justiça e proclamar a verdade, pois a força e o poder do Cristo constituíram elementos integrantes de meu próprio ser.

Chamemos à baila João Evangelista e peçamos nos diga o que sabe acerca do natal do Messias, e ele nos dirá: Jesus nasceu no dia em que meu entendimento, iluminado pela sua divina graça, me fez saber que Deus é amor.

Dirijamo-nos a Zaqueu, o publicano, e eis o seu testemunho: Jesus nasceu em Jericó, numa esplêndida manhã de sol, quando eu, ansioso por conhecê-lo, subi numa árvore à beira do caminho por onde ele passava, contentando-me com o ver de longe. Eis que ele, amorável e bom, acena-me, dizendo: Zaqueu, desce, importa que me hospede contigo. Naquele dia entrou a salvação no meu lar.

Interpelemos Tomé, o incrédulo: Quando e onde nasceu o Mestre? Ele, por certo, retrucará: Jesus nasceu em Jerusalém, naquele dia memorável e inesquecível em que me foi dado testificar que a morte não tinha poder sobre o Filho de Deus. Só então compreendi o sentido de suas palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

Apelemos, finalmente, para Dimas, o bom ladrão. Onde e quando Jesus nasceu? Ele nos informará: Jesus nasceu no topo do Calvário, precisamente quando a cegueira e a maldade humanas supunham aniquilá-lo para sempre; dali ele me dirigiu um olhar repassado de piedade e de ternura, que me fez esquecer todas as misérias deste mundo e antegozar as delícias do Paraíso. Desde logo, senti-o em mim e eu nele.

Tal foi o testemunho do passado - tal é o testemunho do presente, dado por todos os corações que, deixando de ser quais hospedarias de Belém, onde não havia lugar para o nascimento de Jesus, se transformaram, pela humildade, naquela manjedoura, que o amor engenhoso da mais pura e santa de todas as mães converteu no berço do Redentor do mundo. 

(Vinicius-Em Torno do Mestre-1939, FEB)


 Jesus e o Seu Natal


Os adeptos do Cristianismo, infelizmente, em sua maioria, são sectários. Este mal, porém, é dos homens, não é da doutrina. O Cristianismo é ainda falsamente interpretado e compreendido. Quando chegar a ser entendido e sentido tal como deve ser, todos - do Oriente como do Ocidente, do Norte como do Sul - confraternizarão em torno daquela cruz erguida há dois mil anos no topo do Calvário.

 Jesus é uma realidade e, ao mesmo tempo, um símbolo. Ele é a verdade, é a justiça, é o amor. Onde predominarem estes elementos, ele aí estará, embora não hajam invocado seu nome. De outra sorte, onde medra e impera a hipocrisia, a iniquidade e o egoísmo sob suas multiformes modalidades, ele em tal meio não se encontrará, ainda que solicitado, louvado e endeusado pela boca dos homens.

Jesus não é, como se imagina comumente, criador de determinada escola, nem fundador de certa religião. Ele é o revelador da Lei, o expoente máximo, neste mundo, da Vontade Divina. Sua missão não teve início em Belém e finalidade no Gólgota. Ele vem, desde que o mundo é mundo, inspirando a Humanidade, orientando e apascentando este rebanho, no desempenho do mandato que o Pai lhe confiara. Jesus é a luz do mundo. Assim como o Sol não ilumina só um hemisfério, mas distribui à Terra toda seus benefícios, assim o Pastor divino apascenta com igual carinho todas as ovelhas do seu redil.

Sobre as Índias, a China e o Japão; como sobre a Europa e a América, paira o Espírito de Jesus velando pela obra da redenção humana. Não importa que o desconheçam quanto à denominação. Ele inspirará, por intermédio deste ou daquele, a revelação divina, o Evangelho do amor. Assim tem feito, assim continuará fazendo até à consumação dos séculos. Aqui lhe darão este nome; ali, nome diverso, tomando muitas vezes o instrumento, de que ele se serve, como sendo o próprio autor das doutrinas ministradas. Que importa? É ele, sempre ele, o Mediador, o Ungido de Deus para intérprete de sua Lei e distribuidor de sua Graça.

Já o grande Paulo dizia: “Onde há o Espírito do Cristo, aí há liberdade”. Jesus jamais constrangeu alguém a crer deste ou daquele modo. Tocava o íntimo do homem, procurando despertar o que ali havia de bom. Salvava pela educação, porque educar é despertar os poderes latentes do Espírito, dirigindo-os à conquista desse ideal de perfeição que antevemos através do belo, do justo e do verdadeiro, e pelo qual tanto anseia nossa alma ainda cativa e obscura.

Jesus nasceu em Belém, há cerca de vinte séculos. Mas esse nascimento, como tudo o mais que com ele se relaciona, reveste-se de perpetuidade. O natal do Mestre é um fato que se repete todos os dias: foi de ontem, é de hoje, será de amanhã. Os que ainda não sentiram em seu íntimo a influência do Espírito do Cristo ignoram, em verdade, que ele nasceu. Só sabemos das coisas de Jesus por experiência própria. Só após ele haver nascido em nosso coração é que chegaremos a entendê-lo, já em seus ensinos, já no que respeita à sua missão neste orbe.

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

 Conto de Natal


Nos céus, milhares de estrelas estavam semeadas, cintilantes, enquanto nas ruas o trânsito se mostrava irritante, congestionado e muitas pessoas apressadas seguiam com muita ansiedade de volta aos seus lares. Todos desejavam chegar às suas casas para comemorar a grandiosa data no aconchego dos entes queridos.

Havia, por isso mesmo, barulho nos bares, onde vozes ruidosas se ouviam em meio às fumaças dos cigarros e o forte cheiro das cervejas. Havia barulho também em determinadas lojas comercializando brinquedos e, como forma de chamar a atenção da clientela mirim, seus gerentes colocavam em alto volume músicas de Natal, na voz de um conjunto que cantava o ano inteiro musiquinhas para a raia miúda daquela cidade, situada à beira do mar, mas castigada pelo verão, que se mostrava já abrasador.

Natal - eis a data que a Humanidade mais uma vez se punha a comemorar, daí o trânsito difícil, o vaivém dos transeuntes, o alvoroço nos botecos, as cantigas de fim-de-ano em alto som no comércio varejista.

O Dr. Gustavo encerrava o expediente de sua firma industrial muito contente. O saldo de seus negócios fora altamente favorável de sorte que poderia fazer enormes investimentos no ano seguinte na área têxtil, para tanto entrando em contato com empresários de outras cidades. E, como fosse homem de coração bem formado, mais alegre ficava o magnata porque havia dado um bom acréscimo salarial a todos os seus empregados, uma quantia muito maior do que aquela estipulada pela legislação trabalhista. 

Então, ele também regressava a seu suntuoso apartamento, localizado em bairro de alto luxo, com o coração opresso. Ia pensando no que há muito tempo o atormentava muito: ali havia fartura na mesa e havia requinte no mobiliário; havia beleza nos quadros artísticos pendurados pelas paredes e bom gosto  na decoração dos cômodos. Mas ali ele via a tristeza  no semblante de seu único filho dado aos tóxicos. Tudo fizera Dr. Gustavo e sua esposa Dona Esmeralda para desvencilhar o Gustavinho das drogas, sem nada conseguirem de concreto. 

Por isto, já sabia ele que, naquela noite, embora em seu lar também comemorassem o Natal, ele haveria de tragar o sabor amargo deste licor terrível: todos alegres, felizes, a festejar o natalício de Jesus com saborosas iguarias, porém o moço às voltas com os venenos circulando em suas próprias veias!

Uma surpresa, porém, o aguarda. De fato, a família estava com diversos amigos, em virtude daquela grandiosa noite. Todos alegres, felizes, sorridentes. Entra na sala Dr. Gustavo e, com comedida ansiedade, procura divisar a presença de seu pupilo. Este, com enorme sorriso na face de seus 21 anos de idade, alegre vem abraçá-lo e beijá-lo. Cochicha-lhe algo ao pé do ouvido. O empresário, como que num superlativo encantamento, abraça-o mais fortemente contra o peito, cobre-lhe o rosto para espanto de todos. Delicadamente pede desculpas porque terá de ausentar-se por alguns minutos, prometendo voltar tão logo possa. E sai acompanhado do moço.

Dispensando o motorista, espantado, tomando a direção do carro do pai, o rapaz o conduz até um bairro pobre, sem dizer-lhe palavra durante o trajeto.

  • Pai, aqui mora quem me libertou dos tóxicos. E apontou para uma casa modesta, no meio de terreno proletário.

  • Que é isto, meu filho? Uma casa de gente pobre! Não estou entendendo nada. Pensei que você estivesse falando sério. Vejo que quis pregar-me uma peça!

  • Não, pai. Você entenderá.

Nos céus, milhares de estrelas salpicadas pelo negrume da noite eram testemunhas. Em derredor, o silêncio a todos envolvendo pesadamente naquele verão que se anunciava intenso. 

Tendo batido palmas, o dono daquela casa humilde aparece à porta da frente. Calmamente dirigi-se ao portão, seguido da mulher e de uma penca de crianças, todas elas espantadas com aquele carrão estacionado naquela rua de pessoas pobres na linda noite de Natal.

O Dr. Gustavo se vê diante de um humilde serviçal de uma de suas muitas fábricas. Ele, patrão, não o conhecia. Pudera! Tinha mais de três mil empregados… Mas o operário o reconheceu, estendendo a mão calosa para cumprimentá-lo:

  • Boas festas, Dr. Gustavo. Sou da fábrica do Andaraí.

  • Oh, bom Natal, meu filho. Bom Natal para você e sua família. Mas não estou entendendo nada. O que é que há entre você e o meu herdeiro?

O moço rico toma a palavra e explica tudo ao pai, que ficou boquiaberto ante o que ia ouvindo: o rapaz deixara os tóxicos depois de ter, por sua iniciativa própria, sem que a família desconfiasse, frequentado com afinco umas reuniões doutrinárias e outras mediúnicas que aquele singelo tecelão realizava numa Casa Espírita, cujos médiuns e assistentes espirituais desenvolviam, com extrema abnegação, um trabalho beneficiando os drogados da agitada cidade do Rio de Janeiro.

(Celso Martins-Pelos Caminhos da Vida)


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

 Onde Mora Jesus

Quando a aflição, a angústia e a dor atormentaram o discípulo de Jesus, ele, folheando o seu Evangelho, encontrou sua sublime promessa: “Estarei com todos até o final dos tempos”.

Desesperadamente carente de amparo e resignação, saiu à procura do Senhor.

Adentrou catedrais faraônicas e templos suntuosos, com imagens cravejadas de pedras preciosas e altares decorados a ouro; sacerdotes ricamente paramentados oficiando cerimônias e liturgias em sua homenagem, mas, apesar de se referirem em seus sermões aos seus sublimes ensinamentos, não encontrou o Divino Mestre.

Penetrou em bibliotecas, conventos e seminários, onde teólogos, professores e doutores discutiam e explanavam suas Divinas Revelações, ensinando-as aos jovens, porém, ali também não encontrou o que procurava.

Prosseguindo na sua busca, atravessou pontes, arcadas, percorreu ruas, avenidas, praças e jardins. Visitou academias, onde pretensos sábios, ostentando títulos e vestindo fardões, sobraçando volumosos e pesados livros e compêndios, estudavam e discutiam sua vida, seus ensinos e seus exemplos, mas, apesar do ambiente de austeridade, de silêncio e respeito, não achou sua presença!

Era alta a noite e o discípulo, cansado e desanimado, ia desistir de sua busca e retornar ao seu lar, quando ouviu o débil choro de um bebê abandonado na rua. Ajoelhou-se, afagou carinhosamente aquele solitário ente pequenino, agasalhou-o amorosamente em seu colo e ia se retirar quando, num súbito e refulgente clarão, surgiu Jesus!

Emocionado, exclamou:

  • Mestre!... Mestre!...

Jesus, dirigindo-lhe a palavra, disse:

  • Eu prometi que estaria com todos até o final dos tempos. Porém, moro no coração da caridade.

(Espírito Anônimo-Belas e Comoventes Histórias-Oswaldo Iório)


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

 Uma Cena de Natal


Assentadas em confortável sofá, na luxuosa mansão, as duas senhoras conversavam distraidamente. Rememoravam os acontecimentos sociais do ano que se findava.

Relacionavam as festividades suntuosas a que compareceram.

Recordavam as recepções que elas próprias haviam oferecido.

Lembravam-se com saudade das viagens realizadas.

Por fim, queixaram-se dos presentes de Natal, ofertados pelos esposos.

  • Esperava uma estola de vison - disse uma.

  • Contava certo com um novo carro - aduziu a outra.

Nisso, batem à porta. Ambas atendem e encontram-se diante de humilde mulher, esquelética e maltrapilha, a rogar pequeno auxílio para a compra do necessário ao sustento de seus filhinhos. 


Amigos da romagem terrestre, saibamos contentar-nos com o que a vida nos oferta.

Abandonemos a posição de eternos insatisfeitos.

Aprendamos a olhar para trás, valorizando nossas oportunidades e situações, porque, se encerrados em nosso egoísmo, nos aborrecemos com os respingos do orvalho, lá fora, nos caminhos da provação, irmãos nossos padecem a tempestade das angústias.

(Espírito Valérium-Histórias da Vida-Antônio Baduy Filho)


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

 O Natal Daí e Daqui


Vozes altissonantes anunciavam, nas esquinas, que o Natal havia chegado. Mercadores clandestinos ofereciam, em pregões, bugigangas a preços de liquidação.

Mais adiante, um vendedor de bilhetes de loteria, maltrapilho, gritava que a sorte grande estava ali, nas suas mãos, estampando na fisionomia uma esperança enganosa. Ele, que vivia na miséria, apregoava milhões no simples girar de uma esfera.

Perto dali, o jovem jornaleiro anunciava o crime do dia. Mais além, em torno de um tripé, no qual se dependurava uma panela, meninos uniformizados, ao som de uma sineta e ao toque de um pistão, executavam “Noite Feliz”, implorando ajuda para os pobres. O povo passava, alheio, apático, apressado, imerso em seus problemas.

Era véspera de Natal, dia festivo para muitos e de tristeza para outros. Raros eram aqueles que lembravam na proximidade dessa data a celebração do nascimento do Cristo entre os homens.

O enviado de Deus viera à Terra para ensinar o caminho da libertação, o roteiro da paz, a estrada da perfeição. Mas, naquela esquina, como em toda a parte, ninguém via no Natal a data máxima da cristandade, o marco de sua renovação moral e espiritual.

No coração dos homens, aquele era um dia comum.

Não havia paz nos espíritos.

À exceção da sineta que tilintava em frenesi, o que se ouvia era o mercadejar, as buzinas desordenadas, os gritos dos jornaleiros, a respiração ofegante dos que corriam na busca incessante de dinheiro.

Os espíritos conturbados, as mentes preocupadas, os corações vazios.

Em muitos, sentia-se o rancor, o ódio, a luxúria, a vingança, a inveja, o desejo. Era véspera de Natal na Terra.

No Mundo Espiritual se comemorava também a vinda do Cristo ao mundo dos homens.

Aqui, à semelhança da Terra, existem ruas, casas, praças, jardins, largas avenidas, por onde os Espíritos, de mãos dadas, transitam irmanados, em longos passeios ao pôr-do-sol.

A cidade em que me encontro é igual a tantas outras, distante da atmosfera terrestre, onde, em novos estágios depois da desencarnação, os Espíritos prosseguem no aprendizado necessário à sua evolução.

As ruas e jardins estão sempre floridos, em eterna primavera, deles exalando um doce e suave perfume que inebria as almas. Incontáveis matizes de luz colorem o céu. 

O silêncio das ruas é entrecortado apenas pelo riso cristalino dos Espíritos felizes que se encontram e se cumprimentam.

Não se ouve burburinho de comerciantes, dos vendedores de loterias, o azucrinar incessante dos pregoeiros. Não se veem mendigos, nem mães aconchegando ao seio desnudo crianças famintas.

Homens, mulheres e crianças, olhos resplendendo de luz, em largos sorrisos, passam de um lado para o outro, cada qual com uma tarefa de amor fraterno a cumprir.

Na praça, um grupo de Espíritos, envergando alva túnica, entoa canções de Natal. Via-se, de longe, que de suas cabeças, nimbadas de luz, ascendiam reflexos dourados. De suas roupagens, cintilavam estrelas cravejadas, lembrando diamantes multicoloridos. A melodia, suave, quase em surdina, subia ao infinito, luminosa, em meios-tons, em espirais de luz.

Findo o cântico, juntaram-se a eles outros Espíritos, seguindo todos para um templo, cuja porta luminosa, ostentava um letreiro: Bem-aventurados os puros de coração.

Entraram, sentando-se em longos bancos, nos quais já se encontravam centenas de almas reunidas, em prece. Do alto da cúpula, penetrando o zimbório de cristal, parecendo escoar-se entre nuvens luminescentes, a luz opalina banhava-os, envolvendo-os num manto de luar.

Em alguns instantes, surgiu a figura de um venerando Mestre; ele tinha a barba prateada e os olhos resplandecentes, que irradiavam amor e bondade.

Com sua voz suave e melodiosa, ergueu os braços e pronunciou sentida prece. Ao final, dirigindo-se à assembleia, exortou:

  • Glória a Deus nas alturas e paz a toda a Humanidade!

Comemora-se aqui, meus irmãos, como na Terra, o surgimento do Cristo como o enviado do Pai. Cumpre, entretanto, a nós, que já deixamos o mundo da matéria, render a ele nossa homenagem em espírito e verdade.

Elevemos, pois, o nosso pensamento ao Mais Alto, para que se inundem nossos corações da luz divina que o Mestre prodigalizou aos que fazem do amor e da caridade o roteiro de suas ações. Cultivemos, meus irmãos, o espírito do Natal, acendendo em nossos corações a luz do Evangelho para que, um dia, possa reinar, entre os homens a paz que aperfeiçoa e que nos liberta. 

(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí…-Heitor Luz Filho)


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

 O Orgulho e a Humildade

Aos 17 anos, Arnaldo frequentava o Núcleo Espírita Irmã Scheilla, em Londrina, Paraná, onde era um aluno atento e participativo.

Empregou-se numa empresa de porte médio, como office-boy e, nos primeiros meses, revelou-se ótimo funcionário.

Gostava de aprender, principalmente computação. Sabia achar erros e tinha iniciativa. 

Um dia, o supervisor deu-lhe o cargo de auxiliar de manutenção dos computadores, para que visse os defeitos e o avisasse. Então começou o problema: ele encheu-se de vaidade e começou a relaxar em suas tarefas.

Havia um sistema de revezamento entre os funcionários da empresa para preparar o café, mas ele disse que não sabia fazer café e não queria aprender.

Numa ocasião, ele estava digitando um serviço no computador e não quis ir ao banco, que era a sua função principal. Um dos diretores surpreendeu-o fazendo uma careta e reclamando ao lhe pedir para fazer uma tarefa.

Arnaldo demonstrava um ar de superioridade em relação aos outros.

Diante de tantos erros, foi chamado e advertido pela diretoria da empresa, o que fez com que ele melhorasse. Infelizmente, essa melhora durou apenas quinze dias, voltando a ser como antes.

Chamado novamente, o diretor lhe disse:

  • Você não pode aprender computação se não fizer bem suas tarefas. Precisa aprender a pregar pregos, se quiser saber colocar parafusos.

Uma semana depois voltou a cometer os mesmos erros.

Na terceira vez em que o chamaram, foi aconselhado a procurar outro emprego, pois ali já não havia ambiente para ele trabalhar.


Esta história é um exemplo de pessoas que têm capacidade, mas não têm humildade.

Arnaldo havia aprendido muitas lições no Núcleo, como trabalho, vontade de aprender, etc., entretanto, não aprendeu a comportar-se com humildade e isto o levou ao fracasso.

Aliás, o orgulho e a vaidade têm prejudicado muitas pessoas, até famosos, como atletas e artistas.

Por outro lado, inúmeros são os casos em que a humildade tem ajudado a vida de muitos, até famosos como Chico Xavier e Francisco de Assis. 

(Ivan Dutra-Sementes Para Um Mundo Melhor)


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

 Jesus em Casa

O Espiritismo vem restaurando as luminosas tradições cristãs dos primeiros tempos.

O Culto do Evangelho no Lar, essa prática espírita que vem reunindo tantos corações humanos na mesma vibração doce e salutar de fé e caridade, se originou nos idos tempos em que a Mensagem Redentora, sem espaço garantido nos templos políticos e nas esferas de domínio temporal, era acolhida na simplicidade dos lares humildes e fervorosos, para as operações sublimadas de amor e consciência. Os episódios de sabedoria e caridade que surgiram da casa singela de Simão Pedro, com a presença e incentivo do Senhor, ganham força e beleza novamente, vinte séculos depois…

Dialogando com Clarêncio - o iluminado Ministro de Nosso Lar - numa atividade de esclarecimento e capacitação que tanto nos interessa à jornada do Além, colhia, agradecido e reverente, do Benfeitor:

  • A sistematização do estudo da Boa Nova em família - considerava, generoso, o notável velhinho - com interesse e respeito, espírito de fraternidade e confiança, representa o resgate das tradições cristãs mais genuínas. Isso porque as lições de amor puro de Jesus simbolizam o alimento precioso da alma, sem o qual a inanição é certa, a estabelecer depressões e angústias, incertezas e dores, que sempre inutilizam a vida e as possibilidades das pessoas.

Aproveitando o breve interregno em sua fala cheia de sabedoria, aventei, respeitoso:

  • Sabemos nós que o Cristo se encontra nas Lições que deixou e foram registradas por seus seguidores em momentos diferentes e segundo seus próprios critérios de apreciação, o que requer análise e pesquisa de nossa parte, a fim de que extraiamos o espírito da forma; contudo, muita gente na Terra se encontra submetida aos interesses materiais e não apresenta vontade ou crença no sentido da busca desse “pão do Céu”. O que fazer diante disso?

  • Almir, na trajetória sublime e imortal de Jesus no mundo, nenhum de nós encontrará qualquer atitude ou nota pessoal do Divino Mestre violentando consciências e corações. O Senhor estabeleceu o roteiro de libertação e da paz com o sacrifício de si mesmo, e jamais abusou de prerrogativas alheias, a fim de cumprir sua missão. E isso, meu filho, por um motivo muito simples e transparente: chega sempre o dia da exaustão, da saturação, quando a alma tem fome e sede por dentro, pede abrigo e conforto, anseia novidades consistentes e valor pessoal, sem que nada, absolutamente nada que é do mundo a atenda. É nesse instante, por vontade própria, que o indivíduo procura o Céu e encontra Jesus por fidedigno reflexo de Deus - nosso Criador e Pai. 

É nessa hora magnífica da evolução que nossa alma encontra o Cristo - o Senhor da vida e da misericórdia sem fim!


Três dias após o fecundo entendimento com Clarêncio, encontrava-me em tarefa de assistência na Crosta planetária, junto de José Grosso, que trazia incumbências de vulto do Mais Além.

No relógio humano soara vinte horas e dentre as tarefas que nos cabiam realizar, constava a visita a solitária mulher, vítima de depressão e que, segundo a ficha informativa que trazíamos, tentara suicídio por duas vezes, sem êxito.

Observando, já na rua onde morava a pobrezinha, o aspecto das residências enfileiradas, que apresentavam aos nossos olhos espirituais radiação diferenciada, desde as mais densas e suspeitas às mais leves e equilibradas, notei uma diferente, ante a qual estanquei, maravilhado, tal o esplendor de luz ajaezada que emitia. Esta residência nobre situava-se exatamente ao lado da casa de nossa assistida da noite. José Grosso, satisfeito, explicou-me:

  • Que beleza, não é, Almir?... Esta casa já abrigou Jesus pela fé ardente e sincera de seus moradores, comprovada nesta irradiação benfeitora. Pertence a um casal de nosso conhecimento, que encontrando, pela dor, a Doutrina Consoladora, soube trazer do Centro Espírita para o próprio lar, o fulgor da fé e da caridade, que cultivam, dedicados e perseverantes.

  • Mas toda essa claridade é constante em sua casa? - perguntei, sensibilizado.

  • Estão em prece; hoje é o dia do Evangelho em família. No entanto, a vibração da casa, embora não tão exuberante como agora, permanece quase que inalterável, na garantia de seus interesses comuns.

Calei-me e adentrando o portão da residência de nossa enferma, encontramo-la abatida, triste e mal acompanhada espiritualmente.

José Grosso requisitou atenção e prece. Sintonizou-se com as radiações do abençoado lar vizinho em estudo evangélico; arregimentou recursos que o nimbaram de claridade, além de outras substâncias de caráter humano, que imediatamente, pelo mecanismo de passes específicos, repassou à doente. O bem-estar da mulher foi imediato. Respirando aliviada, pensou em Deus, tomou a Bíblia, e de olhos fechados, abriu nas anotações de Mateus, capítulo 11, versículos de 28 a 30: “Vinde a mim todos vós que sofreis e que estais sobrecarregados e eu vos aliviarei…”

A pobre senhora chorou abraçada ao livro sagrado e como que tomando novas decisões para a sua vida, falou em voz alta, como a comunicar a si mesma:

  • Hoje mesmo vou conversar com Dona Margarida e esposo. Sei que são espíritas, caridosos, gente equilibrada e fraternal; sei que poderão me ajudar a enriquecer o próprio coração vazio…

Deixamo-la renovada e nos dirigimos à residência do casal citado por ela. O Culto do Evangelho estava em fase final. Convidada à oração, Dona Margarida a iniciou pedindo a Jesus pela vizinha solitária e doente.

José Grosso me olhou sorrindo e afirmou contente:

  • A presença do Evangelho é tão poderosa e benfeitora que o auxílio já chegou à vizinha, mesmo antes do pedido de nossa irmã. Agora, que ela quer, o “pão da luz” será multiplicado, alimentando para sempre o seu coração.

(Espírito Almir Fontoura-Notícias do Bem-Wagner G. Paixão)


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

 Natal


Em toda a comunidade cristã, o Natal tem a mesma significação. Noel, em francês. Christmas, no idioma de Shakespeare; Il Natale, em italiano; Pascuas de Navidad, para os povos de língua espanhola… 

Variando de grafia e de pronúncia, a palavra mágica encerra a permanente mensagem do Cristo à insensata Humanidade que ainda reluta em seguir os sábios ensinamentos dAquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

O mundo atual vive num desses estados de crise a que se refere Arnold Toynbee, autor de “Um Estudo de História”. As nações poderosas procuram a todo o transe manter sua hegemonia tradicional. Os países subdesenvolvidos lutam desesperadamente pela elevação de seus padrões de vida. Mas a disputa de poderio não é somente de ordem material. Trata-se também, e sobretudo, de um conflito ideológico. Digladiam-se as forças antagônicas. Materialismo versus Espiritualismo. Mefistófeles contra Deus, como no entrecho do Fausto, de Goethe.

Poderosa razão do fecundo historiador inglês - chegamos a um momento decisivo de “desafio-e-resposta”.

O homem, no torvelinho dos acontecimentos, sente-se atarantado, amofinado, incapaz de sentir as sublimes emoções da alma. Toda sua preocupação é safar-se airosamente do emaranhado em que se encontra. Não deixar sem resposta o desafio.

Devido a esse estado de angústia, os festejos natalinos estão perdendo muito do seu peculiar encanto, de sua pureza originária. A agravar a situação, o alto preço das utilidades e a escassez do dinheiro para adquiri-las.

Aqui e alhures, só os bem aquinhoados da fortuna podem celebrar a consoada farta de saborosas iguarias e regada a generoso vinho. Os que constituem a imensa maioria, coitados! Quase que se limitam a comemorar simbolicamente o glorioso evento. Todavia, comemoram-no. Frugalmente. Com a mais extrema parcimônia. Os mais pobres, paupérrimos de fato, levam ao estômago a ambrosia do Sonho e embriagam-se com o néctar da Esperança. Poetas à força, porém, poetas sublimes, porque resignados e confiantes num futuro de abundância e de paz. Que há de vir, com certeza, pois Deus é Amor e nossa destinação é a Felicidade. Ela vem em caminho, embora a passos tardos.

O sofrimento é passageiro. Ninguém sofre sem justa razão. Do contrário, a que se reduziria a Misericórdia Divina? Somos o metal impuro a depurarmo-nos no cadinho da dor. Essa dor tão malsinada que, no entanto, é o acicate sem o qual empacaríamos no meio da estrada, como o boi lerdo que não quer conduzir o carro.

Não obstante pareça um paradoxo, acreditamos estar Jesus melhor homenageado no Natal que os humildes festejam, retendo as lágrimas e suportando privações. De vez que, luminárias, rega-bofes, foguetórios, são exterioridades. Privados delas, os homens são levados a considerar os valores espirituais. Os pobres e os sofredores solidarizam-se na sua desventura. E volvem o olhar para o Alto. Em sintonia com as vibrações superiores, oram com sentimento, oram com verdadeira fé.

Que neste Natal, retiremos do escrínio do coração a cintilante gema de uma fervorosa oração e, numa oblata singela, dediquemo-la a Jesus.

E assim, prossigamos, esperançosos, a lutar por um mundo melhor. Para que no futuro, sem temores nem tropeços, possamos celebrar um Natal completamente feliz! Temos pela frente a Eternidade!

(Aureliano Alves Netto-Pelos Caminhos da Vida)


sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

 Esperança dos Céus


Há choro dentro da noite…

É o doloroso gemido

De pobre recém-nascido

Que não encontra lugar…

Mãos insensíveis sufocam

Pequenina flor humana…

É o aborto, em lide insana,

Ferindo a Lei sem pensar.


Ah! quantas almas formosas,

Nos planos em que me movo,

Sonhando nascer de novo,

No entanto, rogam em vão…

Agasalham-se no amor,

Mas, em lágrimas convulsas,

Ei-las batidas e expulsas 

A golpes de ingratidão.


Irmãos da Terra, escutai!

Detende a marcha do aborto,

Estendei vosso conforto

Aos companheiros do Além!

Cada criança que surge, 

Mesmo entre rudes labéus,

É uma esperança dos Céus

Para a vitória do Bem.

(Espírito Maria Dolores-Caridade-C. Xavier)


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

O Caminho Estreito

Pela lei natural, o meio de alcançar independência econômica se encontra nos seguintes requisitos: trabalho, economia, perseverança, esforço e inteligência.

Os homens do século, porém, acham que não é assim. Aquele programa se lhes afigura moroso e áspero. Procuram, por isso, os processos artificiais e falazes. Querem enricar de momento. Atiram-se aos expedientes, dão tacadas visando a carambolar por tabela. Todas as farsas, então, lhes parecem aconselháveis. Olham o fim sem se preocuparem com os meios. É preciso gozar, é mister saciar a fome e a sede de prazeres, de qualquer maneira. Para isso, aventuram-se em negócios arriscados, jogam cartadas decisivas. Tudo é lícito desde que colime aquele alvo, mesmo o emprego de métodos inconfessáveis.

Trabalho, economia, esforço, perseverança, restrição às expansões do egoísmo - são velharias, doutrinas caducas e passadismo que de há muito foram abolidas. Agora está em vigor a lei do menor esforço. Busca-se obter o mais com o mínimo dispêndio de energias, sem dispêndio algum, se possível. O jogo campeia infrene, da alta à baixa sociedade. Nunca se viu tantos antros engalanados, onde, sob denominações aristocratas, se explora aquele vício. O jogo acena com milhões para o dia seguinte, sem o concurso dos fatores - tempo, economia e trabalho. O ambiente torna-se cada vez mais favorável à corrupção. O dolo, a fraude, a mentira, o suborno e a opressão são manejados como elementos naturalíssimos na conquista dos ouropéis e das benesses indispensáveis aos prazeres sensuais. O cambista promete fortuna. Os corsários da política asseguram sinecuras. O sacerdote garante o céu. Tudo isso, já se vê, sem porfias, sem maçadas.

Pelo caminho estreito, apontado pelo Cristo de Deus, ninguém quer andar. Todas as vistas convergem para a estrada larga e cômoda. “Vida fácil” - eis o ideal dos homens e das mulheres da época. Lutar, renunciar, sofrer? Insânias de cérebros dementados. Brio, vergonha, dignidade? Parlapatices de moralistas de fancaria. Responsabilidades, escrúpulo, consciência? Essas coisas se resolvem de acordo com a polícia e as autoridades constituídas que, em geral, são boas camaradas.

Entretanto, quanta ilusão! O que se mostrou fácil e cômodo, é difícil e penoso. Não há caminho mais longo do que esse que parece mais curto. Não há estrada mais árdua e pedregosa que aquela que, aos olhos do mundo, se afigura suave e tapetada de macias relvas. Só o dever vence. O lutador afeito às refregas duras é quem triunfa na vida: ninguém mais. O trabalho foi, é e continuará sendo a “abençoada” maldição divina. De Deus, que é amor, até o anátema é bom, é cheio de santidade e de sabedoria. O homem, pretendendo fugir à ação desse anátema, perambula, debate-se loucamente fascinado pelo sibilo da serpente enganadora, sem encontrar o porto desejado. O que lhe parece pouco, é muito. O que lhe ofertam gratuitamente, vai custar-lhe que ele possui de mais valioso e de mais caro: vai custar-lhe o brio, a honra e a liberdade! Vai custar-lhe, finalmente, lágrimas, vexames, tribulações e humilhação.

Só o caminho estreito soluciona os problemas da Vida em todos os sentidos. 

(Vinicius-Em Torno do Mestre)


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

 Fé, Esperança e Caridade

A esperança está para a fé como o Sol está para a Lua. Esta não tem luz própria: reflete aquela que recebe do Sol. Daí porque a Lua difunde raios pálidos, merencórios e isentos de calor, enquanto o Sol esparge raios intensos e fúlgidos que, além de iluminar, aquecem e vivificam.

O Sol mesmo é luz; a Lua não é, reflete a luz recebida. Assim a fé: é força comunicativa que, do coração de outrem, gerando neste a esperança.

Jesus tinha fé. Seus apóstolos e discípulos tinham esperança gerada pela fé exemplificada de seu Mestre. Os corações que de Jesus se aproximam e estabelecem com ele certa comunhão iluminam-se com a luz patente do seu imaculado Espírito.

A Luz clareia os caminhos. O Sol alumia e fecunda a estrada da vida. A Lua é poética, faz cismar e sonhar. O Sol é energia: movimenta, vivifica, ativa e produz. A luz amortecida do satélite da Terra mostra os obstáculos; a luz brilhante e vívida do Sol distingue e remove os tropeços da senda do destino.

Assim, a esperança faz nascer no coração do homem as boas e nobres aspirações; só a fé, porém, as realiza. A esperança sugere, a fé concretiza. A esperança desperta nos corações o anseio de possuir luz própria; conduz, portanto, à fé. Quem alimenta esperança está, invariavelmente, sob o influxo da fé oriunda de alguém. A força da fé é eminentemente conquistadora. Quem admira os exemplos e os feitos edificantes põe-se desde logo em harmonia com o poder de quem os realizou. Este projeta naquele suas influências benfazejas: é o Sol fazendo a Lua refletir a sua luz, ou seja, a fé gerando a esperança.

Benvinda seja a esperança! Bendita seja a fé! Uma e outra espancam as trevas interiores. Que seria da alma encarcerada na carne se não houvesse fé, nem esperança?

Se é doce ter esperança, é valor e virilidade ter fé. Se a esperança gera o desejo, a fé gera o poder. Se a esperança suaviza o sofrimento, a fé neutraliza seus efeitos depressivos. Finalmente, se a esperança sustenta o homem nas lutas deste século, a fé assegura desde já a vitória da vida sobre a morte. 

E a caridade? Da caridade nada podemos dizer, porque - caridade é amor - e o amor é o indizível, o incomparável; sente-se como a mesma vida: não se define. 

(Vinicius-Em Torno do Mestre)