sexta-feira, 29 de novembro de 2019

                                                      Pequenas Lâmpadas Humanas

Fascinante é o serviço espiritual a se desdobrar no Além. Da infância à velhice e desta à desencarnação de toda ordem, notamos complexo plano de assistência, cuja elaboração e execução guardam sua origem nos Altos Cimos da Vida Infinita.
Estas reflexões são constantes em nossa mente, favorecidas pelas experiências que nos enriquecem o coração devedor e ainda impuro.
Adentrava eu, ao lado de meiga servidora da Evangelização Infantil entre as faixas superiores e os núcleos de atividade espiritista na Terra, vastos jardins que compunham determinada zona de Nosso Lar. Sorrisos iluminados, gargalhadas sonoras, muito brilho nos olhinhos e o corre-corre por entre relva e flores é o que víamos ali, compondo um hino de exaltação à candura, à ingenuidade descuidosa da meninada.
Sentia-me desmanchar, tal a vibração de sonho e ternura que nos dominava.
- Ah!... - dizia a mim mesmo - que bênção, que descanso, que suavidade!..., quando a doce Raquel salientou:
- Por aqui é invariavelmente assim, mas a realidade na Terra é bem diferente para a maioria das crianças!...
Identificando meus pensamentos, a irmã da infância interrompida no mundo me fez recordar o número incontável de meninos e meninas que sofrem, sem pão, sem teto, sem agasalho, sem afeto dos próprios pais - tantas vezes envolvidos com suas paixões nas valas tristes e destruidoras do egoísmo.
- São lâmpadas singelas que nós, os adultos, devemos acender com a energia do afeto! - considerou, feliz, a encantadora seareira.
Retomando novamente a palavra, asseverou, grave e segura:
- Sim, meu irmão; a infância, como promessa divina, não logra o serviço iluminativo sem a cooperação das bases humanas que a recebem por floração abençoada de esperança e renovação.
Atento à conceituação justa da companheira, recordei-me de humilde tarefa que, ao lado da esposa querida e de amigos valiosos, desenvolvera em região de muita miséria e de muita dor, quando, se revelando consciente do que eu pensava em silêncio, me esclareceu:
- Não ignoramos a tarefa dos evangelizadores no planeta; em verdade, todos eles, do mais acanhado em domínio didático ao mais aquinhoado no domínio da ciência da educação, recebem, invariavelmente, assistência do Alto, pois o serviço de amor a que se dão é, por si, poderoso apelo ao coração do Céu.
E provando-me conhecer os detalhes de nosso apagado esforço de outrora, na região já citada, explicitou, nobre e carinhosa:
- Para que você considere, palidamente, o valor do serviço iluminativo da Evangelização na mente infantil, convido-lhe a rememorar um petiz de seis anos incompletos que naquela Casa de Assistência chegou ao lado da mãe embriagada e grávida, pedindo recursos alimentícios...
Por um mecanismo próprio da Vida Espiritual, vi, na tela mental, com prodigiosa clareza de detalhes, o episódio narrado por Raquel.
Após sucinto relato da benfeitora sobre as circunstâncias em que a diminuta e infeliz família citada vivia, a partir daquele dia rememorado, assistida de nosso Núcleo de amor e caridade, continuou:
- Veja bem, Almir: no oitavo sábado de convívio de Evangelizadores da casa, o pobre menino recebeu a lição da Parábola do Bom Samaritano, que foi explorada pelos instrutores em seu aspecto de caridade e amor aos semelhantes. Neste mesmo dia, à noite, a mãe do garoto conseguiu trocar parte dos alimentos recebidos do grupo por um garrafão de aguardente, embriagando-se até quase à exaustão. Alta noite, uma saraivada de batidas na porta do casebre fez despertar o garoto, que a abriu e se deparou com o homem amasiado com sua desequilibrada mãe e pai do bebê que ela ainda gerava. Cumprimentou-o friamente o homem e se dirigiu, sombrio, até a cama da mulher esbravejando:
- Como é, mulher, onde está a cachaça?
Ao que ela, atormentada pelo álcool, respondeu:
- Você não merece nada; não me dá nada; não é homem para mim... Vá pro inferno!...
Quando o parceiro irresponsável, ferido e desprezado em seus desejos, levou a mão à faca enferrujada disposta em pequeno cômodo que servia de cozinha, sala e quarto, para irrefletidamente desferir um golpe sobre a mulher, a assustada criança olhou firme para os olhos injetados do padrasto e cantou, como pássaro desesperado e sem ninho de amor:
- Ó Jesus, nosso Senhor!... ensina pra ele que a caridade é nosso dever, em nome de Deus!... não deixa ele matar a minha mãe!...
Ao influxo das palavras sinceras e inspiradas do petiz, que mal sabia da vida, o agressor sentiu um golpe no peito, rodopiou sobre os pés e, de olhos arregalados, saiu para a rua, sem dizer palavra.
Esta, Almir - concluiu a experiente orientadora da infância - é uma história das muitas que existem por aí, sem desfecho trágico, graças à claridade de uma pequena lâmpada humana, acesa pela boa vontade dos que procuram seguir Jesus!
(Espírito Almir Fontoura-Notícias do Bem-Wagner G. Paixão)

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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Ante o Mundo e Jesus

O mundo pede socorro a Jesus.
Ele atende, porém, espera por nós.
O mundo apresenta a larga faixa dos necessitados de pão.
Jesus, entretanto, não se esquecendo destes, socorre também os que têm necessidade de luz.
O mundo roga paz, nos estertores de violência em que se debate.
Jesus transmite tranquilidade, todavia, emula todos a que nos auxiliemos na fraternidade.
O mundo suplica apoio, a fim de liberar-se das constrições do ódio e da loucura.
Jesus, no entanto, é recurso libertador, que propõe a paciência fraternal e o trabalho solidário entre as criaturas.
O mundo promove desespero e algaravia.
Jesus doa silêncio e fé.

Compara as incertezas no mundo e a segurança com Jesus.
Considera os impositivos de fora, no mundo, e as forças interiores que se haurem em Jesus.
Vive, no mundo; no entanto, nunca te apartes de Jesus.
Tua vida física, mesmo que se alargue por dezenas de anos-a-fio, defronta um momento em que cessa, conquanto a tua realidade espiritual com Jesus jamais terminará.
O mundo te leva a conquistas, mas, Jesus, quando conquista, faz que o homem se vença por dentro.
As vitórias externas esmaecem e passam, as íntimas se fortalecem e ficam.

Aprende com a luz. Após realizar o seu périplo, no Universo, depois de contornar a nossa hiperesfera, volve à fonte geradora, seu ponto de partida...
Ninguém, mesmo que o deseje, jamais fugirá da sua nascente divina...
Aproveita, portanto, hoje.
No duelo, mundo e Jesus, a tua será a opção da permanente angústia ou da promissora ventura.

Diante da moeda que trazia a efígie de César, respondendo à colocação maliciosa e venal do adversário gratuito, Jesus definiu a situação do contributo que cada um deve dar: "a César, o que lhe pertence e a Deus o que é dEle".
DEle, é a vida, e Jesus é o caminho único, mediante o qual lograrás alcançá-LO.
(Espírito Joanna de Ângelis-Alerta-Divaldo Franco)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

                                                  Avisos do Além

O Doutor Flávio Pinheiro, dedicado médico espírita de Ibitinga, procurou-me.
- Richard, vim convidá-lo para um "ofício fúnebre".
- ?!
- Quero que "encomende minha alma", pronunciando oração antes do sepultamento. E peça ao pessoal para não me perturbar com lamentações e tristezas.
- Que é isso, Doutor! O senhor não morrerá tão cedo! Tem muitas dívidas a resgatar!...
- Sim, meu caro amigo, sou um grande pecador. Só que vou desencarnar assim mesmo. Devo submeter-me a delicada e inadiável cirurgia cardíaca, em São Paulo, e tenho certeza de que estou de partida para a Espiritualidade.
Embora censurando seu pessimismo, concordei em atender à insistente solicitação.
Alguns dias depois fui convocado ao cumprimento da promessa. O Doutor Flávio Pinheiro falecera em plena cirurgia.

O casamento seria simples, sem festa. Apenas a presença de familiares e poucos amigos. Dentre estes a jovem noiva fazia questão de um muito querido: Caetano Aielo, velho lidador espírita de Bauru.
- Quanto tempo falta? - indagou o convidado.
- Três meses.
- Ah! Então não será possível...
- Vai fazer desfeita?! Brigo com o senhor! Sua presença é indispensável! Cancele outros compromissos!
- Este compromisso não posso cancelar, minha filha. O "pessoal lá de cima" vem me intuindo que em breve partirei...
Dois meses depois Caetano Aielo, que não tinha nenhum problema de saúde, adoeceu e, em poucos dias, faleceu.

Temos aqui as famosas premonições. O indivíduo experimenta forte impressão quanto à iminência de um acontecimento (primeiro caso), ou sente-se informado a respeito dele (segundo caso).

Assim como muitos animais possuem determinados mecanismos que lhes permitem captar a proximidade de uma tempestade ou de um tremor de terra, antes que se manifeste, há pessoas dotadas de sensibilidade especial para prever ocorrências futuras. Isso é instintivo nelas.
Em relação à morte, a premonição é frequentemente disparada a partir da interferência de benfeitores espirituais, objetivando ajudar o candidato  ao desencarne e seus familiares. Embora possa ser assustadora, prepara psicologicamente as pessoas envolvidas em relação ao acontecimentos que não as colherão desprevenidas, nem se constituirão em surpresa chocante. 
Principalmente quando envolve desencarne trágico, como num acidente de trânsito, a informação premonitória é profundamente consoladora, permitindo à família compreender que não houve nada de fortuito, ocasional e, muito menos, indevido. Simplesmente cumpriram-se desígnios divinos, no instituto das provações humanas.
(Richard Simonetti-Quem Tem Medo da Morte?)

terça-feira, 26 de novembro de 2019

A Morte e o Espanto Geral

Sempre que uma pessoa famosa morre, ou desencarna, como diz a Doutrina Espírita, a grande maioria fica estarrecida. E os meios de comunicações são especialistas em fazer drama, em colocar lenha na fogueira, chocando seus espectadores.
Há poucos dias a dama da foice ceifou mais um famoso, gerando comentários de alguns colunistas do tipo "aproveitar" a vida, principalmente porque ele era rico e tinha 60 anos.
Na verdade, os desavisados lamentam a morte em qualquer idade. Para eles, um jovem não pode morrer, porque teria "um futuro pela frente", e as pessoas em geral nunca estão suficientemente velhas e prontas para o desencarne, deixando sempre seus familiares "órfãos" e seus amigos abandonados. "Ah! Ele deixou esposa e tantos filhos", mesmo tendo 80 ou 90 anos.
Lamentavelmente, assistimos neste planeta a ignorância suplantando a inteligência no que concerne ao fenômeno morte.
Temos a impressão que, embora tenham decorridos milênios com manifestações constantes e marcantes sobre a continuidade da vida, descrevendo milhares de fatos sobre manifestações dos ditos "mortos", entre todos os povos e em todos os continentes, uma grande parte da humanidade terrestre ainda insiste em colocar a morte física como o fim de tudo.
Ao que parece, existiu e ainda existe um complô contra o esclarecimento da criatura terrestre, para mantê-la deliberadamente na ignorância acerca do que ela é e do seu futuro.
Sabemos, através da Doutrina Espírita que inteligências perversas dominam o Umbral, a região trevosa do Mundo Espiritual, que influencia sobremaneira a vida dos encarnados.
E por que exercem tal influência? Porque simplesmente os habitantes deste orbe sintonizam com estes seres.
Entre a superfície da Terra, onde reencarnamos, e a dimensão espiritual, existe afinidade de gostos, de ideias. Por isso quando Allan Kardec perguntou aos Espíritos Superiores se os Espíritos influenciavam sobre nossos pensamentos e nossas ações, eles responderam, na Questão 459 de "O Livro dos Espíritos", que os Espíritos exercem uma influência muito maior do que imaginamos, chegando ao ponto de nos dirigir.
Não vamos aprofundar aqui a questão da evolução da criatura humana, contudo, é sempre bom lembrar que a Terra é um planeta de provas e expiações, onde estão criaturas que vêm evoluindo, cometendo inúmeros desatinos ao longo dos milênios, convivendo com outras criaturas desencarnadas em número quatro vezes maior do que os cerca de 8 bilhões de encarnados. Sim, são cerca de 30 bilhões de Espíritos que vivem no mundo espiritual, na atmosfera da Terra. 
No âmbito dos encarnados, todos os dias nos deparamos com pessoas de diferentes graus de entendimento, com diferentes gostos, com bizarrices, com sábios e com quasímodos, com pessoas boas e pessoas más, com posições políticas, com criminosos, etc., e por aí vai.
Estamos evoluindo mais materialmente, intelectualmente, do que moralmente. Por isso, tanta discrepância. Na própria Terra, temos pessoas mais e menos evoluídas, em contraste bem grande. Tudo para propiciar o progresso dos mais atrasados.
E a sabedoria divina onde entra?
As pessoas não acreditam em Deus? Não confiam no Criador?
Quantos exemplos de intercâmbio entre os seres de cá e de lá no Antigo Testamento!
E a mensagem do Cristo?
O maior representante de Deus aqui na Terra tratou destas questões e ainda retornou após ser morto no Calvário. E conviveu com várias pessoas. Lógico que com o corpo espiritual ou perispírito, como explica Allan Kardec.
Quantas pessoas "mortas", que chamam de fantasmas, já foram vistas em todos os cantos do mundo?
E ninguém acredita que a vida continua?
Sua mensagem, chamada de Evangelho, não está sendo levada a sério? Distorceram suas ideias?
Tudo indica que sim.
Temos a impressão de que as religiões seguiram por caminhos diferentes, bem distantes dos ensinos e exemplos do Cristo.
Depois de dois mil anos, é de se lamentar quanta ignorância a respeito do que somos, de onde viemos e para onde iremos.
Jesus falou que pediria ao Pai para enviar o Consolador, porque sabia que sua mensagem teria dificuldades de ser entendida.
Passados dezoito séculos, várias manifestações tidas como sobrenaturais, chamaram a atenção de muitas pessoas, em vários países. E o Professor Rivail foi chamado a estudá-las, na Europa. Assim nasceu a Doutrina Espírita, depois de muitas observações e informações obtidas junto aos que se comunicaram com inúmeros médiuns, e que o Professor Rivail, mais tarde, Allan Kardec, compilou e organizou em livros, criando, assim, uma doutrina codificada.
Desse modo, a partir de 1857, com a publicação de "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, tivemos acesso a inúmeras informações sobre a realidade do Espírito e as suas relações com o mundo material.
Na forma de perguntas e respostas, os Espíritos explicaram tudo o que a Humanidade estava preparada para receber e compreender, esclarecendo-a quanto  aos eternos enigmas de sabermos de onde viemos, por que estamos aqui, e para onde vamos, facilitando, assim, ao homem a compreensão dos mais difíceis problemas que o envolvem.
Luiz Alberto Cunha da Silva

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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A Morte Não Existe

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (Paulo, I Corintios, 15:55)
Vivemos a vida toda iludidos com nosso corpo, com nossas coisas, sempre lutando para não perdê-las, com medo de sermos roubados, com medo da morte. Há milhares de anos que vivemos do mesmo modo, sendo mal orientados por  religiosos e até por desinteresse nosso mesmo, sempre querendo viver eternamente na carne e, pior, sem nada saber do outro mundo onde iremos morar. Com certeza, ninguém irá morar no cemitério, onde os micróbios desmancham os corpos de carne. Deus, que é Espírito, reservou para seus filhos, Espíritos, algo bem melhor.  Em geral, corremos da morte, achando que ela representa o fim de tudo. Na verdade, o fenômeno que aniquila o corpo físico, ao mesmo tempo libera o nosso Espírito que estava preso, como se estivesse numa gaiola, permitindo-nos retomar a liberdade a que faz jus todo o filho de Deus. A morte é chamada pelo Espiritismo de “desencarnação”, voltando a ter a liberdade de seres espirituais.

Sim, como somos filhos do Criador, não temos nada a temer, pois ele nos empresta tudo para vivermos aqui na Terra por alguns anos, retornando ao Mundo dos Espíritos assim que terminar o nosso prazo de experiências aqui no planeta. Como o Senhor da Vida nos empresta o corpo e tudo que possuímos, temos que devolver algum dia, deixando aqui mesmo tudo o que pertence a este mundo. É importantíssimo que tenhamos esta visão sobre a vida temporária na Terra e a vida eterna, infinita, no Mundo Espiritual. É crucial para nossa saúde que estudemos a Doutrina Espírita, para que obtenhamos as respostas sobre tudo o que diz respeito à reencarnação, sobre a vida no outro mundo e sobre o que Deus espera de nós aqui na Terra, quando, por algum tempo vivemos por aqui. 
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, recebeu dos Espíritos Superiores a informação de que Jesus é o modelo e guia da Humanidade. Assim, ao estudarmos o Espiritismo, aprendemos claramente as lições de Jesus, que veio a este planeta para clarear o nosso caminho, ensinando que “toda lei e os profetas estão contidos no amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. 
Jesus deu a maior demonstração de que a vida continua, sendo morto e retornando com o Corpo Espiritual, isto é, com o Perispírito, materializando-se três dias depois de ter sido morto o seu corpo. Ele viveu materializado entre os seus discípulos por cerca de quarenta dias, provando que a morte não existe. 
Agora, nestes últimos séculos, mais desenvolvidos, podemos compreender o significado de que "há muitas moradas na Casa de meu Pai" e o diálogo com Nicodemos, quando Ele disse que “é necessário nascer de novo para conhecer o reino de Deus”, ou seja, que a reencarnação é Lei Divina, onde todos os Espíritos têm oportunidade de evoluir na matéria, sempre retornando à Pátria Espiritual.

sábado, 23 de novembro de 2019

                                             Mediunidade Gratuita

Os médiuns atuais – pois que também os apóstolos tinham mediunidade – igualmente receberam de Deus um dom gratuito: o de serem intérpretes dos Espíritos, para instrução dos homens, para lhes mostrar o caminho do bem  e conduzi-los à fé, não para lhes vender palavras que não lhes pertencem, a eles médiuns, visto que não são fruto de suas concepções, nem de suas pesquisas, nem de seus trabalhos pessoais. Deus quer que a luz chegue a todos; não quer que o mais pobre fique dela privado e possa dizer: não tenho fé, porque não a pude pagar; não tive o consolo de receber os encorajamentos e os testemunhos de afeição dos que pranteio, porque sou pobre. Tal a razão por que a mediunidade não constitui privilégio e se encontra por toda parte. Fazê-la paga seria, pois, desviá-la do seu providencial objetivo. Quem conhece as condições em que os bons Espíritos se comunicam, a repulsão que sentem por tudo o que é de interesse egoístico, e sabe quão pouca coisa se faz mister pra que eles se afastem, jamais poderá admitir que os Espíritos Superiores estejam à disposição do primeiro que apareça e os convoque a tanto por sessão. O simples bom-senso repele semelhante ideia. Não seria também uma profanação evocarmos, por dinheiro, os seres que respeitamos, ou que nos são caros? É fora de dúvida que se podem assim obter manifestações; mas, quem lhes poderia garantir a sinceridade? Os Espíritos levianos, mentirosos, brincalhões e toda a caterva dos Espíritos inferiores, nada escrupulosos, sempre acorrem, prontos para responder ao que se lhes pergunte, sem se preocuparem com a verdade. Quem, pois, deseje comunicações sérias deve, antes de tudo, pedi-las seriamente e, em seguida, inteirar-se da natureza das simpatias do médium com os seres do mundo espiritual. Ora, a primeira condição pra se granjear a benevolência dos bons Espíritos é a humildade, o devotamento, a abnegação, o mais absoluto desinteresse moral e material. 
A par da questão moral, apresenta-se uma consideração efetiva não menos importante, que entende com a natureza mesma da faculdade. A mediunidade séria não pode ser e não o será nunca uma profissão, não só porque se desacreditaria moralmente, identificada para logo com a dos ledores da boa sorte, como também porque um obstáculo a isso se opõe. É que se trata de uma faculdade essencialmente móvel, fugidia e mutável, com cuja perenidade, pois, ninguém pode contar. Constituiria, portanto, para o explorador, uma fonte absolutamente  incerta de receitas, de natureza a poder  faltar-lhe no momento exato em que mais necessária lhe fosse. Coisa diversa é o talento adquirido pelo estudo, pelo trabalho e, que, por essa razão mesma, representa uma propriedade da qual naturalmente lícito é, ao seu possuidor, tirar partido. A mediunidade, porém, não é uma arte, nem um talento, pelo que não pode tornar-se uma profissão. Ela não existe sem o concurso dos Espíritos; faltando estes, já não há mediunidade. Pode subsistir a aptidão, mas o seu exercício se anula. Daí vem não haver no mundo um único médium capaz de garantir a obtenção de qualquer fenômeno espírita em dado instante. Explorar alguém a mediunidade é, conseguintemente dispor de uma coisa da qual não é realmente dono. Afirmar o contrário é enganar a quem paga. Há mais: não é de si próprio que o explorador dispõe; é do concurso dos Espíritos, das almas dos mortos, que põe a preço de moeda. Essa ideia causa instintiva repugnância. Foi esse  tráfico, degenerado em abuso, explorado pelo charlatanismo, pela ignorância, pela credulidade e pela superstição que motivou a proibição de Moisés. O moderno Espiritismo, compreendendo o lado sério da questão, pelo descrédito a que lançou essa exploração, elevou  a mediunidade à categoria de missão.
A mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente. Se há um gênero de mediunidade que requeira essa condição de modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora. O médico dá o fruto  de seus estudos, feitos, muita vez, à custa de sacrifícios penosos. O magnetizador dá o seu próprio fluído, por vezes até a sua saúde. Podem por-lhes preço. O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos; não tem o direito de vendê-lo. Jesus e os apóstolos, ainda que pobres, nada cobravam pelas curas que operavam.
Procure, pois, aquele que carece do que viver, recursos em qualquer parte, menos na mediunidade; não lhe consagre, se assim for preciso, senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os Espíritos lhe levarão em conta o devotamento e os sacrifícios, ao passo que se afastam dos que esperam fazer deles uma escada por onde subam. 
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVI)

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Reciclagem

- Morreu, acabou!...
Era assim que João Montenegro resumia sua opinião, negando a vida espiritual. Homem forte. Saúde em dia. Conversa agradável.
Trabalhava com reciclagem de materiais. Era seu assunto preferido. Dizia com entusiasmo:
- É magnífico ver o papel imprestável desaparecer e ressurgir novo, para continuar útil. É magnífico!
Contudo, se o assunto era encaminhado para considerações sobre a vida após a morte, ficava aborrecido e falava firme:
- Não aceito. Vida é uma só. Nem antes, nem depois.
O tempo passou, e João, em plena atividade, foi surpreendido por doença grave. Trabalho interrompido. Repouso em casa. Tratamento rigoroso. O resultado, porém, não se mostrava satisfatório.
Em certa visita dos amigos, confessou com amargura:
- Sinto que minhas forças se esgotam. A hora final está próxima.
Célio, espírita, procurava confortá-lo:
- Deus é misericordioso. Tem planos para você em existências futuras. A reencarnação é uma realidade. 
João, amadurecido pela dor, comentou com interesse:
- Tenho pensado nisso. Mas como?
E o companheiro, descontraindo o ambiente, respondeu sob gargalhada geral:
- Vai reciclar você.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)

terça-feira, 19 de novembro de 2019

                                                           Candeias na Noite Escura

Venho dum tempo em que doces babás, culturalmente despreparadas mas espiritualmente graduadas nas divinas universidades do amor fraterno, nos contavam histórias - ainda eram histórias e não estórias - singelas, nas quais o bem recebia sempre o seu prêmio e o mal o seu castigo. 
Em muitas dessas histórias, os heróis anônimos se perdiam pelos caminhos e a noite chegava cheia de terrores, mas tudo acabava bem quando, a distância, o viajante perdido descobria na escuridão um tímido ponto de luz em torno do qual viviam  aqueles que o socorreriam.
Buscamos todos a luz. Mais que uma realidade energética no campo da física, a luz é o símbolo multimilenar do desenvolvimento espiritual. Dela dependemos para ver o mundo que nos cerca e o caminho que pisamos. Em espírito, buscamos as vibrações superiores do amor - esse grande gerador de luzes fascinantes. E, à medida que a luz se realiza em nós, desaparecem as sombras que nos envolvem e se iluminam não apenas as nossas veredas, mas também os caminhos dos que seguem ao nosso lado. Ainda que o desejássemos, não poderíamos guardá-la somente para nós, egoisticamente: ela se irradia por onde andamos e alcança os outros. Tudo no Universo é solidário, porque vivemos e nos movemos em Deus, como dizia Paulo. 
"Ninguém acende a luz e a coloca debaixo do alqueire", ensinava o Mestre. Quanta sabedoria profunda e intemporal nos seus mais singelos pronunciamentos! Que maravilhoso poder de comunicação na sua capacidade de traduzir em imagens tão nítidas o pensamento mais transcendental...
Vejo ainda, com os olhos da saudade, a lamparina humilde da fazenda, colocada no lugar mais alto para que todos a vissem e nunca debaixo do alqueire. Pelas paredes dançavam sombras grotescas, mas nenhuma das sombras chegava perto da luz.
Lembro disso agora, ao verificar que, mesmo a nossa luzinha humílima de principiantes, quanta gente atrai! São os que vêm buscar consolo, principalmente os que "perderam" entes queridos, os que sofrem provações incompreensíveis, os que consomem no remorso. Mas vêm também os que, sem grandes dores, os que desejam compreender melhor a vida; que não têm remorsos, mas estão vazios de esperança. Quase todos, senão todos, atrasaram-se pelos caminhos e a noite chegou e se fechou sobre eles. De repente, encontram aqueles que, sem muito brilho, dispõem, no entanto, de uma candeia modesta. São estes os que se iniciaram nas primeiras tarefas do amor, são os que, tendo ainda tão pouco, possuem já o suficiente para dar, tem em si bastante amor para distribuir em nome do Cristo.
É certo que neste crepúsculo dos tempos muitos continuarão extraviados por largo espaço de tempo e, infelizmente, não está em nosso poder sacudi-los de sua inconsciência, mas estamos igualmente certos de que não ficarão abandonados à própria sorte, porque Deus vela por todos nós indistintamente. Também a chuva e o sol caem sobre o justo e o pecador, sobre a boa semente e a outra. Que orem por eles os que aprenderam a falar com Deus, mas aqueles que disponham de uma pequena chama espiritual, ainda que humilde, que cuidem de colocar a candeia sobre o alqueire e não debaixo dele. Não para exibir conhecimentos e alardear virtudes que ainda não temos, mas quem sabe se lá ao longe, na escuridão da noite que nos envolve, algum irmão extraviado não vai enxergar a luzinha e chegar-se exausto e faminto, pedindo pousada, ajuda e carinho. Isso mesmo, daremos nas medidas das nossas forças e limitações, porque é bom repartirmos o pouco que temos, "para que a felicidade se multiplique entre nós", como diz Agar na sua linda prece. A felicidade aumenta quando repartida, ao passo que a dor partilhada diminui. Vamos, pois, distribuir a nossa alegria consciente de viver em Deus. Nós sabemos o que somos - Espíritos imortais - temporariamente encarcerados num corpo físico. Sabemos de onde viemos - de um longo rosário de vidas que aprofundam suas raízes na escuridão de remotas idades. Sabemos para onde vamos - para os mundos cada vez mais perfeitos que luzem adiante de nós, nas muitas moradas do nosso Pai.
A mensagem que temos a transmitir é, pois, extremamente simples e fácil de entender. Para muitos é ainda difícil aceitá-la, porque se habituaram  demais à opressiva aridez da descrença; lembremo-nos, entretanto, daqueles mais desgraçados para os quais não é apenas difícil aceitar a realidade do Espírito, mas ainda é impossível.
Que brilhe, então, a nossa luz humilde, alimentada pelo combustível do conhecimento e da caridade que começa a arder em nós. A hora é de dores, muitas e grandes; de desorientação e desespero; de ódios e crueldades. Hora de ajustes aflitivos e desenganos dolorosos. Mas é também uma hora de revelações maravilhosas, de descobertas memoráveis, de conquistas deslumbrantes, de oportunidades raras se, com muito amor e humildade, procurarmos em nosso próprio território íntimo o rastro luminoso que o Mestre de todos nós deixou em nós. Há séculos que ouvimos a sua palavra, repetida insistentemente. Há séculos que muitos de nós a pregamos à nossa maneira, obscurecida pelas paixões e incompreensões que nos toldam a visão. É chegado o tempo de fazê-la florescer e frutificar. É, assim, muito bela a tarefa que temos diante de nós, os que começamos a soletrar o bê-a-bá do conhecimento espiritual: incumbe-nos a responsabilidade e a alegria de transmiti-lo, proclamando aos quatro cantos da Terra que somos Espíritos sobreviventes a caminho de Deus. E que, por estranho que pareça, Deus está também em nós. "Vós sois deuses!", dizia Jesus. Que brilhe a nossa candeiazinha humilde que não ilumina mais do que uns poucos palmos à volta. Há irmãos tão desesperados que anseiam até mesmo por essas migalhas de luz.
Um dia seremos um clarão de amor fraterno, tal como nos quer o Príncipe da Paz.
(Hermínio C. Miranda-Candeias na Noite Escura)

domingo, 17 de novembro de 2019

Reencarnação e Lei do Amor

Quando esteve aqui na Terra, Jesus, além de divulgar as suas ideias que estão nos Evangelhos, agora explicados racionalmente pela Doutrina Espírita, em vários momentos aprofundou os seus ensinos com seus seguidores e muitas pessoas em particular. 
É por este motivo que o apóstolo João escreveu que tudo o que Ele fez “não caberia no mundo”. 
Na noite em que o senador fariseu Nicodemos o procurou, conforme consta do Evangelho de João, cap. III, v. de 1 a 12, a Humanidade recebeu dele a grandiosa lição de que “é necessário nascer de novo para conhecer o reino de Deus”, isto é, Jesus havia proclamado para sempre a Lei da Reencarnação, como nos diz o Espírito Humberto de Campos, no livro “Boa Nova”.
Após Nicodemos retirar-se, profundamente surpreendido, Jesus explicou a André e a Tiago, que também ficaram perplexos, dizendo-lhes: 
- Por que tamanha admiração, em face destas verdades? As árvores não renascem depois de podadas? Com respeito aos homens, o processo é diferente, mas o espírito de renovação é  sempre o mesmo. O corpo é uma veste. O homem é seu dono. Toda roupagem material acaba rota, porém, o homem, que é filho de Deus, encontra sempre em seu amor os elementos necessários à mudança do vestuário. A morte do corpo é essa mudança indispensável, porque a alma caminhará sempre, através de outras experiências até que consiga a imprescindível provisão de luz para a estrada definitiva  no Reino de Deus, com toda a perfeição conquistada ao longo dos rudes caminhos. 
Então, André perguntou-lhe: - Mestre, já que o corpo é como que a roupa material das almas, por que não somos todos iguais no mundo? Vejo belos jovens, junto a aleijados e paralíticos...
- Acaso não tenho ensinado, disse Jesus, que tem de chorar todo aquele que se transforma em instrumento de escândalo? Cada alma conduz consigo mesma o inferno ou o céu que edificou no âmago da consciência. Seria justo conceder-se uma segunda veste mais perfeita e mais bela ao Espírito rebelde que estragou a primeira? Que diríamos da sabedoria de Nosso Pai, se facultasse as possibilidades mais preciosas aos que as utilizaram na véspera para o roubo, o assassínio, a destruição? Os que abusaram da túnica da riqueza vestirão depois as dos fâmulos e escravos mais humildes, como as mãos que feriram podem vir a ser cortadas.
- Senhor, compreendo agora o mecanismo do resgate, murmurou Tiago. Mas, observo que, desse modo, o mundo precisará sempre do clima do escândalo e do sofrimento, desde que o devedor, para saldar seu débito, não poderá fazê-lo sem que outro lhe tome o lugar com a mesma dívida.
Jesus, então, perguntou:
- Dentro da lei de Moisés, como se verifica o processo da redenção?
Tiago respondeu: - Também está escrito que o homem pagará “olho por olho, dente por dente”.
- Também tu, Tiago estás procedendo como Nicodemos, replicou Jesus. Como todos os homens, aliás, tens raciocinado, mas não tens sentido. Ainda não ponderaste, talvez, que o primeiro mandamento da lei é uma determinação de amor. Acima do “não adulterarás”, do “não cobiçarás”, está o “amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração e de todo o entendimento”. Como poderá alguém amar o Pai, aborrecendo-lhe a obra? Contudo, não estranho a exiguidade de visão espiritual com que examinaste o texto dos profetas. Todas as criaturas hão feito o mesmo. Investigando as revelações do céu com o egoísmo que lhes é próprio, organizaram a justiça como o edifício mais alto do idealismo humano. E, entretanto, coloco o amor acima da justiça do mundo e tenho ensinado que só ele cobre a multidão dos pecados.  Se nos prendemos à lei de talião, somos obrigados a reconhecer que onde existe um assassino haverá, mais tarde, um homem que necessita ser assassinado; com a lei do amor, porém, compreendemos que o verdugo e a vítima são dois irmãos, filhos de um mesmo Pai. Basta que ambos sintam isso para que a fraternidade divina afaste os fantasmas do escândalo e do sofrimento.
(Espírito Humberto de Campos-Boa Nova-Chico Xavier)

sábado, 16 de novembro de 2019

                                                 Justiça Divina - Abelhas

O Espírito Hilário Silva relata que, no ano de 1769, Maria Amélia, planejando eliminar sua prima Tereza Cristina para que ela não roubasse o seu noivo, levou-a para um passeio a cavalo às margens do rio, onde se encontravam abelhas mortíferas. Ao chegar ao local, disparou a arma em direção às patas do cavalo da prima e, em razão disso, o animal empinou, fazendo Tereza cair no chão com um grito de dor. Ao ouvir o zumbido das abelhas, Maria Amélia afugentou o cavalo de Tereza Cristina, afastando-se rapidamente, pois sua intenção era que as abelhas atacassem a prima.
Quando o cadáver de Tereza Cristina foi encontrado quase disforme, pareceu um acidente, pois o tiro não fora ouvido e todos acreditavam que Maria Amélia havia escapado “por milagre”. 
Porém, duzentos anos depois, o Espírito Maria Amélia, em uma nova reencarnação, teve morte idêntica à de sua prima Tereza Cristina. 
Isso você fica sabendo através das notícias dos jornais da cidade mineira de Uberlândia, em 1969. Com a manchete: “Abelhas voltam a atacar – moça morta em piquenique”, eles informam que abelhas atacaram um grupo de moças reunidas quando lanchavam às margens de um riacho, e que uma delas, a mais atingida pelas abelhas mortíferas, faleceu em um dos hospitais da cidade.
É claro que a jovem que morreu era a reencarnação do Espírito Maria Amélia, assassina da prima. 
Embora ela não tivesse acertado contas com a justiça humana naquela encarnação de 1769, acertou com a Justiça Divina em 1969, duzentos anos depois, sem que fosse preciso outra pessoa matá-la. 
Conforme Jesus: “A cada um será dado segundo suas obras”. 
(Histórias da Vida, Espírito Hilário Silva-Antonio B. Filho)

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

                                                                O Merecimento

Conta-nos o Espírito Hilário Silva que Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. Amoroso mordomo familiar. Companheiro dos humildes. A caridade em pessoa. Onde houvesse dor a consolar, aí estava de plantão. Não só isso. No trabalho, era o amigo fiel do horário e do otimismo. Nas maiores dificuldades, era um sorriso generoso, parecendo raio de sol dissipando as sombras. Por isso mesmo, quando foi visto de mão a sangrar, junto à máquina de que era condutor, todas as atenções se voltaram para ele, entre o pasmo e a amargura. Saturnino ferido! Logo Saturnino, o amigo de todos... Suas colegas de fábrica rasgaram peças de roupa, a fim de estancar o sangue a correr em bica. O chefe da tecelagem, solícito, conduziu-o ao automóvel, internando-o de pronto em magnífico hospital. Operação feliz. O cirurgião informou, sorrindo: - Felizmente, nosso amigo perderá simplesmente o polegar. Todo o braço direito está ferido, traumatizado, mas será reconstituído em tempo breve. Longe desse quadro, porém, o caso merecia apontamentos diversos: - Por que um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira.
- Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas, até mesmo de aviões projetados no solo, e justamente o Saturnino, que nos ajuda a todos, vem de ser a vítima! – comentava um amigo.
- Devemos ajudar Saturnino. – Cotizemo-nos todos para ajudá-lo. Mas também não faltou quem dissesse: - Que adianta a religião, tão bem observada? Saturnino é Espírita convicto e leva a sério o seu ideal. Vive para os outros. Na caridade é um herói anônimo. Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista.
E à tarde, quando o acidentado apareceu muito pálido, com o braço direito em tipoia, carinho e respeito rodearam-no por todos os lados. Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. Sorriu, resignado. Proferiu palavras de agradecimento a Deus. Contudo, estava triste.
À noite, em companhia da esposa, compareceu à reunião habitual do templo Espírita que frequentava. Sessão íntima. Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores. Consagrado ao serviço da prece, o operário, em sua cadeira humilde, esperava o encerramento, quando Macário, o orientador espiritual das tarefas, após traçar diretrizes, dirigiu-se a ele, bondoso: - Saturnino, meu filho, não se creia desamparado, nem se entregue a tristeza inútil. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia, toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. Entretanto, não tem motivo. Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre, programou a excursão presente. Excursão de trabalho, de reajuste. Acontece, porém, que formulou uma sentença contra você mesmo... Fez uma pausa e prosseguiu: - Há oitenta anos, era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e, certo dia, porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações, você, com as próprias mãos, obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico. Por muito tempo, no Plano Espiritual, você andou perturbado, contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima, cujos gritos lhe ecoavam no coração. Por muito tempo, por muito tempo... E continuou:
- E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. Mas, você, Saturnino, desde a primeira mocidade, ao conhecer a Doutrina Espírita, tem os pés no caminho do bem aos outros. Você tem trabalhado, esmerando-se no dever... Não estamos aqui para elogiar, porque você continua lutando, lutando... e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. Sei, porém, que hoje, por débito legítimo, alijaria você todo o braço, mas perdeu só um dedo... Regozije-se, meu amigo! Você está pagando, em amor, seu empenho à Justiça... De cabeça baixa, Saturnino derramava grossas lágrimas. Lágrimas de conforto, de apaziguamento e alegria...

Na manhã seguinte, mostrando no rosto amorável sorriso, compareceu, pontual, ao serviço. E porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento, quando o médico o licenciara por trinta dias, respondeu simplesmente: - O senhor está enganado. Não estou doente. Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa. E caminhando, fábrica a dentro, falou alto, como se todos devessem ouví-lo: - Graças à Deus! (A Vida Escreve, Espírito Hilário Silva-Chico e Waldo) 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Aperfeiçoamento do Espírito

Segundo o Espírito Públio, Jesus se vale do imperativo 'Sede Perfeitos' "para que entendamos que a busca da perfeição é uma ordem, um ordenamento inadiável, uma meta insubstituível para todos. Dela não há como fugir. Na longa luta da vida, importa que entendamos a ordem dada pelo Cristo a toda a posteridade. A perfeição é a meta, mas aquela que, efetivamente, seja a que transforme a essência, não se limitando às formalidades sociais. 
Exercitai o que existe de melhor dentro de vós - afirma Jesus quando ordena a todos que sejamos perfeitos. Oriundos do foco da perfeição, não nos aceitemos como um rascunho do caos. como uma forma monstruosa que combina a origem divina com a perversão da ignorância. Não aceitemos para nossa vida a conduta indigna que é tolerada com naturalidade pelo grande cortejo das pessoas medíocres que vivem a mesmice apoiadas umas na fraqueza das outras, como uma grande coluna de cupins que tudo corroem até derrubarem a árvore de que se alimentaram e que, agora, deixará de existir e matará toda a colônia de fome. Desculparmo-nos com a célebre afirmativa de que: todo mundo faz, todo mundo se comporta assim, todo mundo anda desse jeito... é continuar corroendo o ambiente que ruirá e levará todos os que lhe sejam participantes para o abismo. A perfeição é um convite ao esforço diário, à dedicação que pede trabalho, ao caminho que nos espera o sacrifício de caprichos, de desejos, de nossa imperfeição. A existência dos genes divinos em nosso Espírito nos impõe o dever de fazê-los ativos em nós, sob pena de aniquilarmos, com nossos desejos torpes, as gloriosas destinações que poderiam nos fazer Espíritos a caminho do Pai, espelhando-lhe as virtudes excelsas. E só nos tornamos verdadeiramente positivados em nós através do exercício constante e diário, vencendo o entulho inferior dos nossos modos de ser, das formas mesquinhas de nos relacionarmos com os outros, dos padrões da maioria, acostumada sempre ao caminho mais fácil da descida. O caminho para o fundo do abismo pede apenas falta de freio. Subir exige suor, coragem e determinação. A ordem do Cristo é, ao mesmo tempo, estímulo e advertência: Estimula-nos sobre nossas possibilidades de melhoria, na condição de filhos da perfeição e nos adverte de que se não nos preocuparmos em suar, necessariamente teremos que chorar. Lágrima ou suor serão as gotas santas que nos aproximarão da perfeição. (Espírito Públio-Da Terra para o Céu-André L. Ruiz)
Públio diz que "os materialistas temem a Verdade do Espírito porque ela vem tirar deles os prazeres mentirosos nos quais se deleitam ou nos quais fazem incidir seus semelhantes de cuja invigilância ou inocência se valem para ficar mais ricos. Inoculam o medo e o desespero para, criando mais enfermidades, movimentarem a indústria dos medicamentos e exames. Propiciam a fome ou os conflitos sociais para que suas estruturas comerciais estejam em plena atividade de fornecimento. Os materialistas se opõem a uma ordem mundial onde o Espírito prevaleça sobre os interesses da matéria porque isso os tiraria do trono dourado onde se acostumaram a sentar, pachorrentos e preguiçosos e de onde, com o esforço apenas de um dedo, pensam poder controlar o destino do mundo e das nações. 
A busca da perfeição, no entanto, continua sendo o nosso dever porque, tendo sido criados pela Perfeição Absoluta, dela recebemos todos os estímulos para que lográssemos a vitória e a conquista dos objetivos elevados que um Espírito criado pela mais poderosa força do Universo pode imaginar para si mesmo. Se disseram que fomos feitos à imagem e semelhança do Pai, tenhamos o cuidado de nos esmerar na imagem real que espelhemos, a fim de que, por ver-Se refletido apenas em nossos defeitos e misérias, Deus não se veja colocado na galeria dos horrores, como mais uma das assombrações horripilantes que os homens são tão talentosos para inventar.
A capacidade de realizar o Bem é o fator distintivo da condição de espírito humano, já que, com liberdade ampla para agir, está em condições de conhecer o Mal e o Bem, escolhendo o seu caminho. Por isso o esforço do Mundo Espiritual para que não nos permitamos cair nas mesmas práticas que se acham tão arraigadas em nosso ser, herança ancestral de nosso estágio no mundo dos irracionais. Descobrindo-se, acima de tudo, HERDEIRO DE DEUS, mais do que herdeiro dos primatas, o Homem entende que o que lhe compete fazer para o prosseguimento de sua trajetória ascendente é vivenciar as lições que enaltecem a conduta moral, a elevação de sentimentos, a capacidade de compreender o seu estágio evolutivo ao lado dos outros, igualmente filhos do mesmo Pai e detentores dos mesmos direitos. O homem percebe que, enquanto preferir ser o Homem de Si Mesmo, o Homem do Mundo, estará impedido de ser o Homem de Bem, único estágio que o prepara para os vôos do espírito que o aguardam quando tiver que deixar a carcaça de cal a caminho do ser angelical.
O próprio Embaixador Celestial por Excelência, veio ao mundo para dizer que todos somos filhos da Perfeição. Não nos contentemos com menos, já que, dentro de nós, carregamos os cromossomos Divinos. Sejamos dignos deles, no esforço do Bem acima de todos os nossos interesses e desejos mundanos, sob pena de demonstrarmos que, em realidade, apesar de termos sido criados por Deus com a destinação gloriosa das estrelas, nos interessamos mais em recusar-lhe a paternidade e voltar para o ambiente primitivo da floresta.
 (Espírito Públio-Relembrando a Verdade-André L. Ruiz)

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Espiritismo, Umbanda e Médiuns

Dizem por aí que existe muito preconceito contra a Umbanda dentro do Espiritismo. Quem faz tal afirmação, desconhece fundamentalmente o que é a Doutrina Espírita.
A Umbanda é um culto de origem africana, trazido pelos escravos negros no tempo do Brasil Colônia. O Espiritismo é uma doutrina que partiu da observação de fenômenos em várias partes do mundo, tendo o Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais tarde conhecido como Allan Kardec, sido convidado para examiná-los na Europa, levando-o a concluir e a escrever vários livros sobre tais fenômenos que, inicialmente, atraíam a atenção das pessoas, mas que, analisados com cuidado e parcimônia, demonstraram que por trás deles estavam seres espirituais de grande saber, que passaram a orientá-lo no que denominaram de Terceira Revelação para a Humanidade.
A diferença começa pelo próprio nome. A palavra Espiritismo foi inventada por Allan Kardec. Não existe, portanto, “kardecismo”, tendo em vista que a palavra Espiritismo, Espírita e Espiritista referem-se à doutrina que Kardec organizou, não existindo outras doutrinas com o mesmo nome, uma vez que o autor dos termos é o próprio Kardec. Também não existe “baixo” nem “alto” Espiritismo ou “mesa branca”, como dizem os que ignoram o trabalho da Codificação feito por Allan Kardec.
O Espiritismo caracteriza-se por um conjunto de princípios de ordem científica, filosófica e religiosa, que objetiva o progresso espiritual do homem, com a implantação da fraternidade entre todas as criaturas da Terra.
Já a Umbanda se deriva, precipuamente, do culto religioso da raça negra africana. Os seus princípios doutrinários são realmente frutos do folclore, dos provérbios, lendas, crenças populares, canções e tradições de povos africanos.
Embora os adeptos da Umbanda acreditem na reencarnação, na imortalidade da alma, na lei de causa e efeito, como os Espíritas, a Umbanda não tem doutrina codificada como o Espiritismo, que se baseia em postulados científicos, filosóficos e éticos.
Existe uma diferença muito marcante no que concerne à prática ritual de ambas. 
A Umbanda atua no plano da natureza e O Espiritismo atua no plano do pensamento.
O Espiritismo não tem ritual de nenhuma espécie, não admitindo corpo sacerdotal hierarquizado de qualquer tipo. Não existem cerimônias, como batizados e casamentos; não tem fórmulas ou promessas de qualquer natureza; não tem e não adora imagens, símbolos ou amuletos; rejeita crendices e superstições e não admite pagamento pela prestação de assistência espiritual aos necessitados.
Em qualquer centro ou casa que houver qualquer manifestação de culto exterior, não existirá a Doutrina Espírita. A missão do Espiritismo é libertar o homem e não mantê-lo preso às fórmulas e superstições do mundo carnal transitório.

Médiuns

Também existem médiuns em qualquer parte do mundo, e em qualquer religião, portanto. Normalmente, muitos se dizem "espíritas", mas não têm nada a ver com o Espiritismo, pelo que foi observado mais acima. 
Infelizmente, a imensa maioria quase nada sabem sobre a Doutrina Espírita, e divulgam fatos criminosos atribuindo-os a ela, como no caso do médium aquele de Abadiânia, que ainda está preso e, agora, aqui no Rio Grande do Sul, um outro infeliz, acusados, ambos, de abusarem de mulheres.
Por ignorância, também os meios de comunicação, como rádio e TV, chamam estas casas de atendimento ao público de "casas espíritas". Não sabem fazer a diferença, principalmente porque o Espiritismo é mal divulgado por entidades chamadas de federação e pelos próprios Centros Espíritas, cujos dirigentes e trabalhadores, em grande parte, não estudam as obras básicas escritas por Allan Kardec.
Aqui no  Rio Grande do Sul chega a ser deprimente a falta de programas espíritas em rádios AM e FM. Há uma década criamos a Rádio Mundo Espírita, uma webradio para divulgarmos o Espiritismo. Lamentavelmente, as rádios via Internet ainda são pouco ouvidas. Falta uma união dos espíritas gaúchos para reunir recursos e divulgar a Doutrina por todos os meios de comunicação existentes. 

O Espírito Emmanuel diz-nos que "... Porque a Doutrina Espírita é em si a liberdade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula. Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liberta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento. (Religião dos Espíritos-Emmanuel e C. Xavier)

Luiz Alberto Cunha da Silva

Conheça o Espiritismo ouvindo a www.radiomundoespirita.com 


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Reencarnação - A Sutil Sabedoria das Leis Divinas

"Há muito mais sabedoria nas Leis Divinas do que pode apreender a nossa limitada inteligência. E não apenas nas leis que regulam o comportamento da matéria, na sua imensa cadeia estrutural desde o átomo até as grandes famílias de galáxias que se perdem pelo espaço, muito além do que pode alcançar a nossa imaginação. Há também uma sabedoria imanente nas leis da moral, essas que governam os mecanismos muito mais complexos das questões espirituais. Todo esse sistema cósmico, essa tremenda equação espírito-matéria, funciona num regime de perfeito equilíbrio e integração, sem uma falha, sem um recuo, sem um desvio. Aos pouquinhos vamos compreendendo que, em nosso próprio interesse, precisamos viver em sintonia com elas, porque, sendo imutáveis e inflexíveis, qualquer ajuste, porventura necessário em nossas relações com elas, deve ser feito à nossa própria custa; não é a lei que se vai modificar para atender ao nosso caso particular. Veja o leitor a doutrina da reencarnação, que corresponde ao funcionamento prático da Lei de Causa e Efeito. Somos responsáveis por todos os atos que praticamos e até pelos mais escondidos pensamentos temos que responder cedo ou tarde. Não que haja um tribunal externo, montado alhures no espaço para fiscalizar e espionar cada gesto, cada palavra e cada intenção; nem para registá-los num livro de contabilidade celeste onde se daria, ao fim da existência física, um balanço frio e impessoal para que nos fossem cobradas as contas que fizemos ou nos fossem atribuídos os prêmios  que ganhamos. Não há esse tribunal inquisitorial no espaço; o que existe é um dispositivo automático de registro dentro de nós mesmos, onde fica tudo documentado para revisão posterior. Há um caderno secreto nos refolhos do nosso perispírito, onde inconscientemente, mas infalivelmente, vamos tomando nota de cada impulso do nosso Espírito livre, como um aluno diligente tomaria notas de cada palavra que se lhe dissesse em aula. Mais tarde, quando se levantar  o pesado véu da matéria que nos obscurece o entendimento integral de seres encarnados, vamos rever essas notas, estudar as lições que elas contêm, e começar o penoso trabalho de correção do que nelas  existe de errado. Para isso precisamos reencarnar: há uma simetria perfeita em tudo quanto fazemos. Se aqui erramos, aqui mesmo deveremos trabalhar para retificar a falha. Nenhuma passagem é mais reveladora dessa lei natural inflexível, mas justa, como todas as leis cósmicas, que aquele ensino de Jesus ao recomendar que primeiro se reconciliasse o homem com seu inimigo e depois fizesse a sua oferenda, e mais: que o fizesse enquanto juntos caminhassem pelas estradas e não depois  que suas rotas se tivessem afastado uma da outra. 
São palavras de profunda sabedoria, porque nelas se contém um conselho verdadeiramente científico, cuja prática nos poupará tanta angústia e aflição mais tarde. É que, perdida a oportunidade da reconciliação enquanto estamos lado a lado com o irmão de quem divergimos, não sabemos quando  poderemos reencontrá-lo para estender-lhe a mão, andar a metade do caminho em sua direção ou todo o caminho, se for preciso. Quanto arrependimento amargo e perfeitamente evitável não há, por aí, na carne e no mundo espiritual (principalmente neste), em pessoas que não tiveram um pouco mais de paciência e compreensão ou humildade e sabedoria! Coisas simples, como aceitar um pai que nos parecia ranzinza demais, um irmão de sangue e de espírito que se nos afigurava intolerante, um marido ou uma esposa a quem julgamos cruéis, indiferentes, maldosos. O simples fato de termos o que se chama usualmente "uma diferença" com certa pessoa com quem convivemos ou com a qual nos encontramos com frequência, já é um sinal muito forte a evidenciar que aquele é um dos Espíritos com o qual precisamos aplicar o sábio princípio de reconciliação, ensinado pelo Cristo. Vamos aproveitar enquanto caminhamos lado a lado e que, pelo menos de nossa parte, todos os esforços sejam feitos para restabelecer a paz que se quebrou nesta ou em outras vidas que se foram. Sabemos lá as razões que levaram aquele Espírito a nos detestar ou a desconfiar de nós?

Mas aqui entram os que, não aceitando a reencarnação, objetam enfáticos: Como é que eu não me lembro de nada das minhas vidas anteriores? Não seria preferível que eu soubesse de tudo para compreender melhor as coisas que me acontecem  e corrigir o que fiz de errado?
À primeira vista parece que a objeção é procedente, mas, se começamos a estudá-la melhor vemos logo que não poderia funcionar assim o mecanismo da reencarnação. Os argumentos são muitos e têm sido repetidos com bastante frequência, de modo que qualquer leitor de obras espíritas saberá defender seu ponto de vista reencarnacionista com relativa facilidade. O esquecimento é necessário ao progresso do Espírito, que só evolui quando caminha por suas próprias forças, escolhendo livremente entre o bem e o mal. De que lhe serviria o conhecimento de uma existência anterior, dos crimes que praticou, dos ódios que se abrigaram em seu coração, dos inimigos que teve, das riquezas ou poderes que possuiu, ou das misérias e angústias por que passou? Para que trazer, para uma existência que começa de novo, as aflições e preocupações de uma que se foi e já mergulhou no passado? Não é mais fácil nos reconciliarmos com uma criatura que não mais desperta em nós a lembrança do dano que nos causou? As vidas que se entrelaçam estão cheias de exemplos dessa natureza. Numa existência, matamos um desafeto e lhe roubamos a esposa e os bens, encharcando de ódio a nossa vida e a dele. Os nossos caminhos se separaram antes que pudéssemos refazer a amizade, mais ainda não é tarde. É bem provável que ele nos volte, numa vida subsequente, como filho de nossa própria carne, para que lhe possamos restituir o bem da vida que lhe tiramos da outra vez e os bens materiais que dele subtraímos impiedosamente. É um processo inteligente e suave, pois que aquilo que lhe arrebatamos num instante, assumindo uma dívida enorme, agora lhe pagamos aos pouquinhos, sem grandes sacrifícios, amparando-o, educando-o à nossa custa, orientando-o para o bem. Quando, depois do desenlace de mais uma existência, nos reencontrarmos no Além, em plena consciência do passado, já estaremos reconciliados e mais amigos do que nunca, pois nada é mais forte para cimentar uma ligação fraterna que a lembrança de antiga e superada inimizade.
Se, porém, no decorrer da existência corpórea, identificássemos o antigo desafeto de passadas eras, não teríamos a mesma serenidade para concertar com ele um pacto de paz e harmonia, porque as antigas feridas voltariam a sangrar e os sepultados ódios subiriam à tona, toldando-nos o entendimento e os bons propósitos.
Além de tudo isso, há também razões de ordem prática e menos transcendentais. Não podemos trazer para uma nova existência antigos preconceitos, impertinências, intolerâncias, nem sequer o mesmo conservadorismo estreito que impediria o nosso progresso e nos tornaria velhos rabugentos desde a primeira infância. É que tudo evolui e progride, e, ao cabo de alguns decênios, precisamos mesmo ceder lugar aos Espíritos que vão chegando, para que, com a nossa caturrice muito natural da velhice, não comecemos a servir de estorvo a novas ideias e novas conquistas. Os próprios costumes sociais e políticos também mudam com os tempos, enquanto que nós, presos aos limitados horizontes de uma existência carnal, não podemos alcançar muito longe nem acompanhar a marcha das modificações históricas e sociais. Com todos os seus erros, desvios e desvirtuamentos, temos que reconhecer que vive hoje no mundo uma população materialmente mais sadia e mais ciosa da sua liberdade. Rapazes e moças de boa formação encaram com simplicidade e ausência de malícia o fato de brincarem, passearem e se divertirem juntos jovens de ambos os sexos. Usamos roupas mais saudáveis, ainda que mais sumárias. Peças que fariam verdadeiro escândalo entre nossos avós, são hoje aceitas com naturalidade, não porque os costumes degeneraram, mas porque não há maldade nem deformação moral alguma no simples fato de irmos à praia expor nosso corpo à luz tonificante do So e aos benefícios saudáveis da água do mar. Mas como poderíamos aceitar as novas condições de liberdade, mesmo que sadia e controlada, se ainda trouxéssemos em nossa lembrança a memória das exageradas e muitas vezes insinceras restrições medievais? Será que teríamos bastante serenidade para aceitar todos esses "modernismos" e essas "loucuras"?
Com o avançar da idade vamo-nos concentrando no passado, nos "bons tempos"; não nos abandona a memória de parentes e amigos que morreram. E o pior é que muitos se amarguram mais por julgarem que os "perderam" irremediavelmente, que nunca mais os verão, que desapareceram para sempre, na misteriosa escuridão da morte. Mesmo com o conhecimento espiritual, sentimos a necessidade de partir para voltar, depois de uma permanência mais ou menos longa no espaço, onde fazemos um extenso e profundo exame de consciência, onde tomamos alento para um novo mergulho na carne e onde planejamos, com auxílio de mais experimentados irmãos, a nova existência, em suas linhas gerais, não presos a um determinismo fatalista, mas dentro de alguns limites que nós próprios nos impomos no interesse do nosso processo evolutivo.
Só depois de tudo assentado é que voltamos para renascer. Não trazemos na memória o conhecimento de tudo, mas no silêncio do nosso quarto, podemos às vezes ouvir os ecos e os lampejos da intuição a nos segredar docemente, através da voz da consciência, o que melhor nos convém fazer, quais as regras morais que devemos seguir, quais os exemplos que devemos dar e as atitudes que devemos tomar.
E renascemos com uma nova folha imaculada diante dos olhos, para que dela façamos o uso que melhor nos convier. Assim, aos poucos nos vamos adaptando às novas condições de vida, aceitando os progressos e conquistas da nova era e até mesmo contribuindo para que se processem rapidamente. Foram-se as impertinências  e o exagerado conservadorismo obstrutivo que nos pesou tanto nos últimos anos da existência anterior. Já começamos a aprender por métodos mais avançados; recursos modernos, como televisão, rádio, práticos e velozes meios de comunicação, passam a ser coisas naturais, que aceitamos sem resistência e que facilmente  e sem atritos se incorporam ao cotidiano. Nossa própria filosofia se altera profundamente, muito embora os princípios morais norteadores sejam fundamentalmente os mesmos, porque, no que diz respeito à moral, só podemos andar para frente e nunca involuir. Se dantes pertencíamos a uma organização religiosa intransigente e intolerante, dogmática e obscura, na nova existência podemos abraçar uma doutrina mais liberal, mais pura, que nos ajude decididamente a caminhar, mostrando-nos melhores roteiros. Há ou não há uma sabedoria muito sutil e profunda no mecanismo da reencarnação?

(Hermínio C. Miranda-Candeias na Noite Escura)

domingo, 10 de novembro de 2019

                                    Reencarnação – Transmigração Progressiva

Sendo o Espírito criado simples e ignorante, aos poucos vai percorrendo os caminhos de sua evolução. Pouco a pouco  desenvolve sua inteligência. Ninguém pode tornar-se Espírito puro em apenas algumas  encarnações. Necessitamos de milhares de encarnações para atingirmos a perfeição. Somente após várias encarnações ou depurações sucessivas, num tempo mais ou menos longo, e de acordo com seus esforços, que os Espíritos atingem o objetivo a que estão destinados. Mas, a perfeição da Terra, por exemplo, é relativa, não é a perfeição absoluta. Em cada planeta atingimos a perfeição que o mesmo comporta. Como disseram os Espíritos Superiores a Kardec, “o Espírito deve avançar em ciência e em moralidade”.




Explica Kardec que “a marcha dos Espíritos é progressiva, jamais retrógrada. Eles se elevam gradualmente na hierarquia e não descem da categoria que já alcançaram. Nas diferentes existências corporais podem descer como homens, mas não como Espíritos. Assim, a alma de um potentado da Terra pode, mais tarde, animar o mais modesto artesão e vice-versa, porque as posições entre os homens, frequentemente, estão na razão inversa da elevação dos sentimentos morais. Herodes era rei, Jesus, carpinteiro”.

Diz-nos Kardec que “o princípio da reencarnação é uma consequência necessária da lei de progresso. Sem a reencarnação, como se explicaria a diferença que existe entre o presente estado social e o dos tempos de barbárie? Se as almas são criadas ao mesmo tempo que os corpos, as que nascem hoje são tão novas, tão primitivas, quanto as que viviam há mil anos; acrescentemos que nenhuma conexão haveria entre elas, nenhuma relação necessária; seriam de todo estranhas umas às outras. Por que, então, as de hoje haviam de ser melhor dotadas por Deus, do que as que as precederam? Por que têm aquelas melhor compreensão? Por que possuem instintos mais apurados, costumes mais brandos? Por que têm a intuição de certas coisas, sem as haverem aprendido? Duvidamos de que alguém saia desses dilemas, a menos que admita que Deus cria almas de diversas qualidades, de acordo com os tempos e lugares, proposição inconciliável com a ideia de uma justiça soberana. Admiti, ao contrário, que as almas de agora já viveram, em tempos distantes; que possivelmente foram bárbaras como os séculos em que estiveram no mundo, mas que progrediram; que para cada nova existência trazem o que adquiriram nas existências precedentes; que, por conseguinte, as dos tempos civilizados não são almas criadas mais perfeitas, porém, que se aperfeiçoaram por si mesmas com o tempo, e tereis a única explicação plausível da causa do progresso social. Tudo na criação tem uma finalidade, sem o que Deus não seria nem prudente, nem sábio. Ora, se a Terra se destinasse a ser uma única etapa do progresso para cada indivíduo, que utilidade haveria, para os Espíritos das crianças que morrem em tenra idade, vir passar aí  alguns anos, alguns meses, algumas horas, durante as quais nada podem haurir dele? O mesmo ocorre se pondere com referência aos idiotas e aos cretinos. Uma teoria somente é boa sob a condição de resolver todas as questões a que diz respeito. A questão das mortes prematuras há sido uma pedra de tropeço para todas as doutrinas, exceto para a Doutrina Espírita, que a resolveu de maneira racional e completa. Para o progresso daqueles que cumprem na Terra uma missão normal, há vantagem real em volverem ao mesmo meio para aí continuarem o que deixaram inacabado, muitas vezes na mesma família ou em contato com as mesmas pessoas, a fim de repararem o mal que tenham feito, ou de sofrerem a pena de talião”.  (Questões 189 a 196 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec; Cap. XI, 33 A 49, de A Gênese, de Allan Kardec; Cap. IV, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec)

No encontro de Jesus com o senador Nicodemos, há dois mil anos, quando este o procurou certa noite para dizer-lhe que ele, o Cristo, só poderia vir da parte de Deus para fazer aquelas coisas extraordinárias, tendo recebido como resposta que “é necessário nascer de novo para conhecer o Reino de Deus”, ao que Nicodemos teve dificuldades de entender, obrigando Jesus a dizer-lhe que ele era mestre em Israel e não sabia daquelas coisas, que são terrestres, imagina se ele falasse das coisas do céu... Mais claro é impossível. Jesus explica-lhe que o corpo nasce do corpo, mas o Espírito  vem do Espaço, ou seja, do Mundo Espiritual. O ensino de Jesus é muito claro, porém, clérigos e teólogos conseguiram deturpá-lo ao longo dos séculos, atribuindo ao batismo o poder mágico de transformar as pessoas, além de outras invencionices que a razão não admite, como a bobagem de que todos nascem com pecado... É uma longa estória, com tanta fantasia, que nem as crianças de hoje acreditam.

sábado, 9 de novembro de 2019

                                                               Pureza de Coração

         "Bem-aventurados os que têm puro o coração, porquanto verão a Deus" (Mateus, 5-8)

O Espírito Públio, ao comentar o capítulo VIII de "O Evangelho  Segundo o Espiritismo", assim se expressa: 
“Estrutura cruel porque baseada na insinceridade, as igrejas de todos os credos estão cheias de bandidos fantasiados de adeptos fiéis, à espera da absolvição ou da bênção para que sigam furtando o semelhante, roubando o povo, comprometendo o progresso das comunidades no rumo da própria elevação. Longe de ser o tribunal puro da consciência, os diversos altares do mundo da crença se transformaram em balcões onde negociatas se realizam entre os representantes da fé e os interessados em seu financiamento, pagando, a peso de ouro, a absolvição da própria consciência, como se isso pudesse vir de fora para dentro. Daí porque Jesus combate tanto as noções de um mundo mentiroso, perante o qual as convenções e os interesses são capazes de modificar os princípios milenares de Justiça e Honradez. E, dessa maneira, alertou para a ocorrência daquilo que se convencionara chamar de “escândalo”, como sendo a conduta incompatível com os princípios elevados e que, acomodada sob o tapete das convenções e dos interesses, vez por outra aflora com seu fétido odor e suas características purulentas, causando espanto, nojo, repulsa, pessimismo e descrença na maioria ingênua das pessoas. Afirmara que o escândalo haveria de vir, na noção lúcida daquele que afirma que, um dia, todas as ilusões deixarão cair o seu véu e a verdade virá brotar ante os olhos atônitos daqueles que se imaginavam inatingíveis. No entanto, solicita aos que o escutavam que não fossem eles os que causassem os escândalos, já que todo aquele que se conduzisse dessa maneira haveria de estar na rota do desastre, exposto a ele por si próprio. Daí seria preferível privar-se daquilo que põe em risco ou serve de tropeço para a queda dos outros do que manter-se na defesa de tais situações e terminar consumido nas suas dores e frustrações. No entanto, advertia que os escândalos não se verificavam segundo os critérios humanos, sempre recheados de preconceitos e interesses, que hoje condenam aquilo que a conveniência e a cobiça permitem amanhã como coisa natural e vice-versa. Jesus assevera que muitas coisas que os homens perdoam, Deus condena, e que muitas coisas que os homens condenam, Deus releva. Mais ainda, afirma que os puritanos, os moralistas de plantão seriam preteridos, se não fossem sinceros, em face dos pecadores sinceramente arrependidos que, tendo escutado o chamamento mesmo tardiamente, nele acreditaram.  A grande peça teatral que o homem está encenando terá o seu fim e, diante de toda a plateia, serão cerradas as cortinas para reconduzir cada ator à realidade de sua própria nudez moral, motivo pelo qual Jesus advertia para que cada um fosse como uma criança, sem malícia, sem fingimentos, sem ideias preconcebidas, única forma de se protegerem dos efeitos negativos oriundos de uma conduta mentirosa e insincera diante das leis do Universo.

O pecado não está apenas no gesto que prejudica alguém no exterior. O pecado está no sentimento que o alimenta, tenha ele sido exteriorizado ou não, tenha ou não produzido efeitos nocivos a alguém. 

Aquele que fez o exterior também fez o interior e nos conhece perfeita e profundamente. Daí a necessidade de estar puro o coração, como única defesa do ser humano diante do peso de suas culpas e da inferioridade de suas condutas.

A pureza de coração se constrói um pouco a cada dia. Disciplina de alma, disciplina de vontade, disciplina de conduta representam o trilho firme que mantém o trem na direção de seu destino seguro. Qualquer desvio significa novo acidente, nova interrupção e maiores esforços para o recomeço. A pureza que se aconselha no Evangelho é o caminho mais curto entre o coração e a felicidade que se busca. Aos espertalhões que dela fazem mofa e a ridicularizam vivendo à sombra da velha concepção de que o mundo é dos espertos, o tempo se incumbirá de reconduzi-los à lucidez através dos cânceres de todos os tipos, das dores de todos os matizes e das decepções de todas as naturezas”. 

(Espírito Públio-Relembrando a Verdade-André Luiz Ruiz)