quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

                                                            O Horário da Macumba

- A que horas começa sua macumba?
Manoel ouviu sem alterar-se a indagação de Gervásio, irreverente colega de serviço, na repartição pública onde trabalhava. Todos conheciam sua condição de espírita, mas sempre encontrava pessoas que confundiam o Espiritismo com práticas ritualísticas africanas. 
Procurando ser bem explícito em sua resposta, abriu o dicionário e leu para o interlocutor:
"Macumba; cerimônia fetichista de fundo negro com influência cristã, acompanhada de danças e cantos ao som do tambor".
Concluindo, acrescentou:
- Pelo que me foi dado ver, meu caro, não tenho condições para responder à sua pergunta, porquanto, não conheço nenhum grupo dedicado à macumba. Se deseja conhecer o Centro Espírita do qual participo, terei prazer em recebê-lo. Dirijo uma reunião às terças-feiras, horário das dezenove e trinta.
Gervásio agradeceu sorridente e prometeu que compareceria oportunamente. No entanto, no dia seguinte, perguntou, maroto, na presença de vários colegas:
- A que horas começa sua macumba?
Manoel concluiu que já não se tratava de simples mal entendido. O companheiro estava mesmo com gozação, pretendendo rir às suas custas. Ainda assim, sem alterar-se, respondeu tranquilo:
- Às dezenove e trinta.
Gervário gostou da brincadeira. Diariamente, com a fidelidade dos que gostam de azucrinar o semelhante, trovejava para todos ouvirem:
- A que horas começa sua macumba?
Manoel começou a aborrecer-se. Afinal, a expressão "macumba" tinha conotação negativa, associada à magia negra, despachos e males encomendados. Referir-se assim ao Centro Espírita era, no mínimo, um desrespeito. Mas jamais revidava, limitando-se a responder:
- Às dezenove e trinta.
Passaram-se vários meses. O curto diálogo, repetido ao início do expediente, parecia refrão de música popular, com a precisão de notas musicais ordenadas em pauta:
- A que horas começa sua macumba?
- Às dezenove e trinta.
Até que, numa reunião de terça-feira, no Centro, Manoel surpreendeu-se com a presença de Gervásio.
- Prazer em vê-lo, meu amigo! Veio conferir o horário da nossa "macumba"?
- Não, Manoel. Vim mesmo para ver o que ensinam aqui. Deve ser algo muito bom, pois lhe deu paciência para resistir à minha gozação por tanto tempo! E se há algo de que preciso é de paciência! A vida não está fácil! Tenho muitos problemas!...

Na proporção em que, ajustando-nos aos postulados espíritas, formos capazes de exercitar a serenidade e o equilíbrio, em todas as situações, fatalmente, despertaremos interesse pela Doutrina naqueles que convivem conosco, porquanto, tais valores, que fazem parte das aspirações mais caras da criatura humana, são escassos no conturbado mundo atual. 
Por isso, hoje e sempre, o mais eficiente recurso para demonstrarmos a excelência do Espiritismo é o nosso próprio comportamento. 
(Richard Simonetti-Endereço Certo)


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

                                                      Velhice

Um velho sábio chinês estava caminhando por um campo de neve quando viu uma mulher chorando.
- Por que choras? - perguntou ele.
- Porque me lembro do passado, da minha juventude, da beleza que via no espelho, dos homens que amei... Deus foi extremamente cruel comigo, porque me deu memória. Ele sabia que eu ia recordar da primavera da minha vida e chorar.
O sábio ficou contemplando o campo de neve, com o olhar fixo em certo ponto.
Em dado momento, a mulher parou de chorar.
- O que você está vendo aí? - perguntou ao sábio.
- Um campo de rosas - disse ele, e continuou: - Deus foi generoso comigo porque me deu memória. Ele sabia que, no inverno, eu poderia sempre recordar a primavera e sorrir. 
A velhice na Terra não precisa ser triste, frágil e ociosa. O corpo, sem dúvida, não resiste ao peso dos anos e difícil é mantermos sua plena capacidade. É natural o enfraquecimento das forças, mas o Espírito pode conservar sua juvenilidade.
Quantos exemplos temos de pessoas com mais de 70 anos em plena atividade física e mental. E quantos jovens se mostram apáticos, sem ideais e sem ânimo para uma atividade produtiva, somente gozando os prazeres mundanos e perdendo seu tempo.
Muitos se entregam a uma efetiva aposentadoria, alegando que estão próximos da morte e que por isso de nada mais vale qualquer tipo de esforço. Esse é um pensamento materialista, que considera a morte o fim de tudo. Mas o espiritualista sabe que a vida continua e que toda conquista não se perde jamais.
É comum o idoso estar mergulhado no passado, recordando os momentos felizes, os sucessos e os amores. Isso pode ser bom, se estimula a vida e a alegria. Mas não se pode ficar aprisionado às lembranças e lamentar as dificuldades do presente, como se estas fossem castigos divinos.
Cada momento da vida traz suas próprias experiências. E esse período final de nossa passagem na Terra deve ser também de preparação para o retorno à Espiritualidade, com o aproveitamento do tempo para profundas reflexões, para melhorar os sentimentos e para se harmonizar consigo mesmo, com o próximo e com Deus.
Outras vezes, o idoso guarda triste lembrança de uma juventude irresponsável. Quantas bobagens se faz quando se é jovem; quantos erros se comete e quantas decepções se vive. Ainda assim, é preciso considerar que a consciência do erro soma para o acerto e que Deus nos concede novas oportunidades para o nosso crescimento.
Conservemos, pois, nossa juventude espiritual, considerando a seguinte reflexão de um desconhecido:
"Envelheço quando me fecho para as novas ideias e me torno radical...
Envelheço quando o novo me assusta e minha mente insiste no comodismo...
Envelheço quando meu pensamento abandona a casa e retorna sem nada...
Envelheço quando me torno impaciente, intransigente e não consigo dialogar...
Envelheço quando penso em mim mesmo e me esqueço dos outros...
Envelheço quando penso em ousar mas temo o preço da ousadia...
Envelheço quando permito que o cansaço e o desalento tomem conta da minha alma...
Envelheço quando tenho chance de amar, mas vence o medo de arriscar...
Envelheço quando paro de lutar..."
(Donizete Pinheiro-Contos Modernos em Tempo de Paz)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

                                                       O Outro Lado da Festa

Os preparativos para a grande festa estão sendo providenciados há meses.
As escolas de samba preparam, ao longo do ano, as fantasias com que os integrantes irão desfilar nas largas avenidas, em meio às arquibancadas abarrotadas de espectadores.
Os foliões surgem de diversos pontos do planeta, trazendo na bagagem um sonho em comum: “cair na folia”.
Pessoas respeitáveis, cidadãos dignos, pessoas famosas, se permitem “sair do sério”, nesses dias de carnaval.
Trabalhadores anônimos, que andam as voltas com dificuldades financeiras o ano todo, gastam o que não têm para sentir o prazer efêmero de curtir dias de completa insanidade.
Malfeitores comuns se aproveitam da confusão para realizar crimes nefastos, confundidos com a massa humana que pula freneticamente.
Jovens e adultos se deixam cair nas armadilhas viscosas das drogas alucinantes.
Esse é o lado da festa que podemos observar deste lado da vida. Mas há outro lado dessa festa tão disputada: o lado Espiritual.
Narram os Espíritos Superiores que a realidade do carnaval, observada do Além, é muito diferente e lamentavelmente mais triste. Multidões de Espíritos infelizes também invadem as avenidas num triste espetáculo de grandes proporções. Malfeitores das trevas se vinculam aos foliões pelos fios invisíveis do pensamento, em razão das preferências que trazem no mundo íntimo.
A sintonia, no Universo, como a gravitação, é lei da vida. Vive-se no lugar e com quem se deseja psiquicamente. Há um intercâmbio vibratório em todos e em tudo. E essa sintonia se dá pelos desejos e tendências acalentados na intimidade do ser e não de acordo com a embalagem exterior.
E é graças a essa lei de afinidade que os Espíritos das trevas se vinculam aos foliões descuidados, induzindo-os a orgias deprimentes e atitudes grotescas de lamentáveis consequências.
Espíritos infelizes se aproveitam da onda de loucura que toma conta das mentes, para concretizar vinganças cruéis planejadas há muito tempo.
Tramas macabras são arquitetadas no além túmulo e levadas a efeito nesses dias em que momo reina soberano sobre as criaturas que se permitem cair na folia.
Nem mesmo as crianças são poupadas ao triste espetáculo, quando esses foliões das sombras surgem para festejar momo.
Quantos crimes acontecem nesses dias...quantos acidentes, quanta loucura...
Enquanto nossos olhos percebem o brilho dos refletores e das lantejoulas nas avenidas iluminadas, a visão dos Espíritos contempla o ambiente espiritual envolto em densas e escuras nuvens criadas pelas vibrações de baixo teor.
E as consequências desse grotesco espetáculo se fazem sentir por longo prazo. Nos abortos realizados alguns meses depois, fruto de envolvimentos levianos, nas separações de casais que já não se suportam mais depois das sensações vividas sob o calor da festa, no desespero de muitos, depois que cai a máscara...
Por todas essas razões vale a pena pensar se tudo isso é válido. Se vale a pena pagar o alto preço exigido por alguns dias de loucura.
Os noticiários estarão divulgando, durante e após o carnaval, a triste estatística de horrores, e esperamos que você não faça parte dela.
Você sabia?
Você sabia que muitas das fantasias de expressões grotescas são inspiradas pelos Espíritos que vivem em regiões inferiores do Além?
É mais comum do que se pensa, que os homens visitem esses sítios de desespero e loucura durante o sono do corpo físico, através do que chamamos sonho.
Enquanto o corpo repousa o Espírito fica semi liberto e faz suas incursões no mundo espiritual, buscando sempre os seres com os quais se afina pelas vibrações que emite.
Assim, é importante que busquemos sintonizar com as esferas mais altas, onde vivem Espíritos benfeitores que têm por objetivo nos ajudar a vencer a difícil jornada no corpo físico.
Equipe de redação do Momento Espírita, baseado nos capítulos 6 e 23 do livro “Nas Fronteiras da Loucura”, Espírito Manoel Philomeno de Miranda, médium Divaldo Franco.
                                                  Alerta Sobre o Carnaval

A palavra Carnaval, segundo alguns linguistas, é composta da primeira sílaba de velho provérbio latino: Carne nada vale (carnis levale), também interpretado como “festa do adeus à carne”.
Equivale dizer que se deve aproveitar a vivência carnal para desfrutar-se até a exaustão os prazeres sensuais proporcionados pelos festejos.

A sua origem perde-se na poeira dos tempos, inicialmente entre os egípcios, em festa de homenagem a Ísis, mais tarde entre os judeus, os gregos, os romanos (as saturnais) até quando a Igreja o aceitou... Posteriormente, passou a ter aspectos mais amplos e Paris encarregou-se de divulgá-lo ao mundo. Na atualidade, o Brasil é o grande campeão do Carnaval, e, segundo o Guinness Book, o do Rio de Janeiro é o maior do planeta, com dois milhões e duzentos mil foliões, seguido pelo de Salvador, Recife, Olinda...

É a grande bacanal em que tudo é válido, desde que proporcione prazer.

À medida que os valores éticos foram perdendo a força do equilíbrio e da razão, tornou-se a grandiosa exposição de erotismo e de vulgaridade, a prejuízo da sensatez e da dignidade.
Realmente, não é o Carnaval o responsável pelos descalabros a que grande parte da sociedade se permite, mas, sim, a oportunidade para desvelar-se, cada qual, da persona que lhe oculta o ser profundo.
Objetivando ser uma catarse a muitos conflitos, momento de liberar-se da melancolia, de distrair-se, de sorrir e bailar, quase numa peculiar maneira de terapia do júbilo, os instintos primários assumem o comando do indivíduo, fazendo-o liberar-se das paixões inferiores, por intermédio do exibicionismo e do total abuso sexual. Ao mesmo tempo, a fim de contrabalançar os limites orgânicos, as libações alcoólicas, as drogas de estímulo com graves consequências, os relacionamentos apaixonados e perigosos, a violência que se faz liberada pelos transtornos da personalidade.

Considerando-se a falsa finalidade do Carnaval, a festa em si mesma proporciona alegria, liberação de pequenos traumas, diverte, desde que vivenciada com equilíbrio e moderação. Transformada, porém, em elemento de sensualidade e de exorbitância do prazer, produz mais danos que satisfações, porquanto, logo passa, mas os hábitos e licenças morais permanecem, transformando a existência em um carnaval sem sentido, mais animalizando os seus adeptos.

Nessa efusão de promiscuidade a que muitos se permitem, o contágio de enfermidade infectocontagiosas, de transtornos emocionais e sonhos que se tornam pesadelos são os frutos amargos da grande ilusão.

Se desejas alegrar-te e participar dos desfiles alegóricos, ricos de beleza e de nudez erótica, procura manter o equilíbrio, lembrando-te, porém, de que és imortal.

Divaldo Franco - Jornal A Tarde, 23/02/2017

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

                                                       A Realidade Ignorada

Insatisfeita com a própria vida, a jovem senhorita caminhava sem direção, ruminando pensamentos letais, blasfemando em silêncio contra Deus, em virtude de seu estado de solidão e sofrimento extremos.
Achava-se injustiçada por não encontrar alguém que lhe fizesse companhia e lhe compartilhasse os dissabores...
E pensava já não haver mais sentido para a sua existência, uma vez que tinha acumulado recursos financeiros, sendo dona de várias propriedades, no entanto, vazia de amor e da consideração de uma única criatura que fosse.
Achava as pessoas hipócritas, pois as que se lhe aproximavam, mantinham-lhe relações mais em virtude da sua posição social.
Despercebidamente, adentrou uma vila paupérrima do bairro onde morava, ouvindo o choro de uma criança ao longe. Sem saber por quê, caminhou em direção àquele pranto como se associasse de igual para igual o seu drama ao daquela desconhecida voz infantil.
Abeirou-se junto a uma porta semi-aberta, identificando ser aquele o local de origem dos vagidos melancólicos. E como não obtivesse resposta, entrou, surpreendendo-se diante de um casebre desconfortável, ambiente humílimo no qual se via apenas um pote com água... Assustou-se ao perceber, estirada em rústica cama de palha, uma senhora em estado cadavérico. Nos seus braços, a criança a chorar inconformada...
Naquele momento, a senhorita burguesa esqueceu de seus tormentos íntimos e, num ímpeto, tomou aquele corpinho infantil em seus braços constatando o desenlace da sua pobre mãe sofredora.
Dali em diante não estava mais solitária, uniu sua solidão ao daquele infeliz rebento abandonado, e encontrou o sentido que lhe faltava à existência...

Quando nos deixamos tomar pelo desespero, nos sentimos os únicos infelizes, ficando comumente cegos à dor alheia, que é a realidade ignorada por nós, assim como acreditamos, em nosso egoísmo, que o mundo nos ignora o sofrimento.
(Espírito Valérium-Contos do Invisível-Nilton Sousa)



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

                                       Acorda Enquanto é Hoje

Mostram-se revoltas as ondas da vida humana.
Encontram-se aturdidos cérebros e corações.
Em escalada de desajuste acha-se a sociedade.
Proliferam antros de loucura sem dimensão em toda parte.
Necessário escapar das vozes da rebeldia, secar as valas insalubres que geram doenças morais, drenar os enxurdeiros da sandice e altear a flama do incansável bem.
O médium espírita, genuíno, dispõe de elementos variados para instalar na sociedade terrena o sistema da vivência fraternal, o trabalho de expansão da verdade, o serviço do bom senso que esparge a lucidez, com Cristo.
Com Cristo, as vidas se transformam, gradualmente, deixando-se conduzir para os campos do equilíbrio, da harmonia, da seriedade. Sem Ele, espalham-se sombras densas, obnubiladoras, gastando longo tempo para que sejam desfeitas pelos ventos da coragem operosa.
Médium espírita, acorda, enquanto é hoje, e podes fazer brilhar a luz da tua intimidade renovada. Cristo aguarda pelo teu esforço no atendimento aos infelizes que deambulam de um para outro lado nas paragens da Terra, seja no corpo ou fora dele.
Não te canses de servir. Trabalha, devotado e feliz, até o dia em que, ultimada a tua missão no solo do mundo, o Senhor te convide ao grande voo, na rota luminosa que forjaste em serviço.
(Espírito Hans Swigg-Em Serviço Mediúnico-Raul Teixeira)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

                                                        O Conto da Mosca

- A impaciência é vício grave. Falta de caridade para consigo mesmo. Por isso, afirmava Jesus: "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a Terra". Isso quer dizer que o homem sereno desfruta o privilégio de mais extensa vida no corpo.
Jerônimo, o benfeitor espiritual, falava pelo médium com grande acerto.  E continuava:
- O suicídio indireto é, muitas vezes, praticado pelos cultores da intemperança mental. Em muitas ocasiões, basta um momento de indisciplina e a morte surge por nonadas.
A sessão terminou e todos exaltaram a excelência dos conceitos ouvidos. E Fraga, o contador de vários estabelecimentos comerciais, coçando nervosamente a cabeça, exclamou risonho:
- Tão bons conselhos! Tão bons conselhos!
No outro dia, porém, o mesmo Fraga, entre os livros do escritório, no calor da tarde, via-se atarantado. Leve mosca zombava dele, procurando-lhe a calva. O zeloso contador tentava alcançá-la com um tabefe, aqui e ali, mas nada... À maneira da personagem de Fedro, castigava improficuamente a si mesmo. Sentindo que ela se alojava, provavelmente pela vigésima vez, entre os seus raros cabelos, bateu fortemente no próprio crânio. A pancada, no entanto, fê-lo cair. Socorro. Aflição. Ocorrera a ruptura de vaso importante no cérebro, e Fraga, em poucas horas, se viu desencarnado.
Quando acordou, espantado, no regaço do piedoso Jerônimo, ao conhecer a própria situação, gritou afobado:
- E agora, meu Deus? Que fazer?
O amigo espiritual, todavia, informou calmamente:
- Você já se encontra fora do corpo de carne há dois meses, mas apenas agora toma acordo de si. Já estudamos seu caso. Você estava avisado quanto aos perigos da impaciência e caiu, mesmo assim, no "conto da mosca". Suicídio indireto, meu caro, suicídio sem nenhuma razão de ser. E você ainda dispunha de 11 anos pela frente para trabalhar junto aos homens.
- E agora? Que faço?
O benfeitor espraiou o olhar pela casa de socorro terrestre em que se achavam e esclareceu:
- Já expliquei o problema aos nossos Maiores. Pela vida correta que você levou, decerto não merece o pavor das regiões abismais. Mas, também, não está habilitado para subir. Ficará aqui mesmo.
- Aqui, onde? - indagou Fraga, assombrado.
- No hospital onde estamos.
- Com que fim?
- Ajudando aos enfermos...
- E fazendo o quê?
Sem sorrir, Jerônimo explicou simplesmente:
- Aprendendo a ter paciência, você ficará durante algum tempo a espantar moscas...
(Espírito Hilário Silva-A Vida Escreve-Waldo Vieira)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

                                                   Fofoca Histórica

Teodora (500-548), esposa de Justiniano (483-565), tinha birra da reencarnação.
Jovem da classe pobre, fora cortesã antes que o imperador se empolgasse por sua beleza. Paixão fulminante, que a promoveu à mulher mais poderosa do império.
Por isso mesmo, julgava absurdo sujeitar-se ao ciclo das vidas sucessivas, a fim de habilitar-se ao paraíso. Mais razoável uma transferência imediata, consideradas as prerrogativas de sua posição.
Assim, sob sua inspiração, Justiniano escreveu um tratado contra a reencarnação e determinou que o patriarca de Constantinopla reunisse um sínodo, em 543, para proscrevê-la.
Posteriormente, essa condenação foi apoiada pelo Papa Virgílio e demais patriarcas da igreja.
A influência de Teodora será, talvez, mera fofoca histórica, mas é significativo constatar que até o século VI a ideia de reencarnação era aceita por boa parte dos teólogos, destacando-se Orígenes (185-254) e Clemente de Alexandria (150-215).
A proscrição atendeu a motivo mais prosaico: a partir da institucionalização do cristianismo, atrelado ao carro do poder temporal, o Céu passou a ser uma concessão da fé. 
Em tal contexto, não havia lugar para a reencarnação, que substitui a salvação pela evolução, ensinando que todos temos uma meta a atingir - a perfeição, a partir do esforço pessoal, independente dos favores de uma religião.
Não obstante, qualquer leitor atento do Novo Testamento perceberá que Jesus e seus discípulos admitiam as vidas sucessivas.
A ideia está muito clara em várias passagens, dentre elas:
* Atendendo uma indagação de Jesus, os discípulos dizem que o povo julgava fosse ele Elias, Jeremias ou outro profeta (Mateus:16). Evidente que se aceitava a reencarnação na comunidade judaica. 
* Jesus se refere a João Batista como a reencarnação de Elias, (Mateus:11). Diziam as escrituras que o profeta voltaria para anunciar o Messias.
* Jesus diz a Nicodemos que é preciso nascer de novo para ganhar o Reino de Deus (João:3). E explica que é possível "entrar de novo na barriga da mãe", segundo a expressão de seu interlocutor.
* Os discípulos indagam, diante de um cego de nascença, quem pecou para que isso acontecesse (João:9). A pergunta não teria sentido se não admitissem a anterioridade da vida física. 
* Jesus refere-se aos que "não podem mais morrer (Lucas:20). Só é possível "remorrer" vivendo mais de uma vez.
* Jesus curou um homem paralítico há 38 anos e lhe recomendou que não pecasse mais para que não lhe sucedesse pior (João:5). Se a expectativa de vida não chegava a meio século, como justificar tão longo sofrimento por falta cometida em inimputável infância ou adolescência.
Se no passado aconteciam interpolações, supressões e adulterações nos textos evangélicos, precariamente preservados, por que os teólogos não eliminaram a ideia reencarnacionista, claramente enunciada no Novo Testamento?
É simples entender.
Até o século IV, havia uma quantidade imensa de textos apócrifos, legitimidade duvidosa - Evangelhos e Pedro, Maria, Paulo, Felipe, Bartolomeu, Tiago...
O papa Dâmaso (304-384) decidiu, então, convocar um monge de grande cultura, Euzébio Jerônimo (347-420), que deveria efetuar a tradução da Bíblia para o latim, selecionando, no Novo Testamento, os textos de autenticidade não questionada. Surgiria dali a Vulgata, a versão oficial da igreja católica.
Ocorre que Jerônimo, presumivelmente reencarnacionista, conservou as passagens que lhe faziam referência.
Perto de um século e meio depois, quando se pretendeu eliminar a reencarnação, estavam consolidados os textos da Vulgata e já não era possível mudar. 
Isso obrigou os teólogos a raciocínios tortuosos para explicar textos que ficam obscuros e sem sentido, se não admitirmos as vidas sucessivas.
Daí a contradição:
Nega-se a reencarnação, mas ela está presente no Evangelho.
Equivale a tapar o sol com a peneira.
De todas as distorções cometidas na Idade Média, a eliminação do princípio reencarnacionista foi, talvez, a mais grave.
Sem essa base fundamental para melhor compreensão da Justiça Divina, os teólogos perderam-se em fantasias escatológicas, que exigem boa dose de ingenuidade para serem aceitas.

A reencarnação é uma Lei Divina.
Consequentemente, mais cedo ou mais tarde todas as religiões acabarão por assimilá-la, assim como se viram forçadas a admitir que a Terra não é o centro do Universo, ante o avanço inexorável do conhecimento humano.
Se não o fizerem, serão atropeladas pelo desenvolvimento da cultura reencarnacionista, que tem no Espiritismo seu representante maior.
Não há como nos furtarmos ao óbvio:
O princípio das vidas sucessivas é a chave indispensável para equacionar os enigmas da Vida, sem fofocas!
(Richard Simonetti-Para Rir e Refletir)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

                                              Hora da Divulgação Espírita

Na gênese dos males que afligem o homem e a Humanidade, permanece a ignorância.
Seja por desconhecimento da verdade ou se expresse em forma de desprezo por ela, a ocorrência é a mesma. O único antídoto eficaz e mais imediato para esse mal é o ensino, que acende a luz do discernimento com que o homem descobre e adota os princípios hábeis para a felicidade, mediante os comportamentos coerentes em relação à vida.
A dor, irrompendo devastadora, no organismo individual ou social, é uma metodologia rápida para o despertamento da consciência, terapêutica promotora de revolução grave, que traduz a mudança de atitude, renovando as paisagens íntimas sob o clamor da afeição, linguagem de momentâneo efeito, que predispõe para o conhecimento libertador. 
O amor, em doação espontânea, promove os fatores que ensejam a abertura do sentimento e da razão para o saber, através do qual se logram os valiosos tesouros para a conduta equilibrada.
A fome, a enfermidade, a carência de recursos financeiros sensibilizam, convidando-nos ao auxílio.
Na matriz, porém, dessas afligentes conjunturas, jaz a ignorância das Divinas Leis desrespeitadas por precipitação ou má-fé, nos vários estados de rebeldia galvanizadora.
Na etiopatogenia das alienações de natureza psiquiátrica ou por obsessão, está viva e atuante a ignorância, que aguarda a terapia do esclarecimento, como medida de socorro imediato para posterior ou simultâneo atendimento que favoreça a libertação.
O conhecimento é luz acesa na noite da ignorância, clareando os rumos.
A Doutrina Espírita, porque representa a mais completa expressão do divino pensamento, que pode ser examinado e vivido pela razão, não deve enclausurar-se em chavões ultrapassados, aprisionando-se em limites que atendam a paixões e "pontos de vista", por mais respeitáveis se apresentem.
Doutrina de livre exame, também o é de livre ação, convidando cada consciência a assumir responsabilidades, após iluminada pelo ensino espírita, de cujos resultados responderá, hoje ou depois, sem mecanismos de evasão, nem justificações urdidas por meio do maquiavelismo de qualquer natureza.
Há muita angústia aguardando a contribuição espírita, e muita "loucura" necessitando de socorro espírita. 
Todos os nobres contributos lavrados na Codificação Kardequiana - viga mestra, inconfundível e indispensável, do edifício do Espiritismo - independentes da ação de grupos ou consensos humanos, são de valiosa e urgente necessidade de aplicação.
Obviamente, a ação em grupo, o trabalho em equipe, resultando da permuta de experiências como dos estudos bem dirigidos, torna-se de alto significado.
Todavia, não somente através de tal metodologia, senão, também, pela atividade individual, abnegada e rica de devotamento de cada espírita. 
O apóstolo Paulo encontrou Jesus, e, não obstante sofrendo as suspeitas da grei, doou-se à tarefa do esclarecimento e da iluminação de consciência até a morte, já então amado pelos companheiros, escrevendo com sabedoria e renúncia a história da doutrina cristã nas paisagens ermas dos corações e das terras que percorreu...
Pedro levantou-se do delíquio moral da negação, saindo a ensinar e a viver o Cristo, tornando-se o maior exemplo de fé viva do colégio galileu, que conheceu e viveu com o Mestre...
Allan Kardec, sofrendo calúnias e acusações indébitas, permaneceu fiel aos ditames das "Vozes dos Céus", trazendo à Terra o "Consolador", sem excogitar da conveniência de pessoas ou grupos que o apedrejaram e o feriram com todas as armas da covardia e da inveja, fazendo o legado do Pentateuco insuperável e sempre atual, porque elaborado com os metais da verdade, trabalhados no fogo da dedicação e do sacrifício integral.
Não há, portanto, por que malbaratar-se recursos nem desperdiçar tempo, enquanto os desafios permanecem vitimando e destruindo vidas.
Todos os espíritas sinceros, estudiosos e afeiçoados ao bem, encontram-se convocados para o ministério do auxílio, através da difusão dos postulados espíritas, que, propiciando perfeito entendimento das lições evangélicas, representam a medicação oportuna e urgente para a massa desesperada, o homem aturdido...
Sem complexidades nem estruturações estapafúrdias, trabalhemos na sã divulgação do Espiritismo.
Não basta apontar erros. Indispensável saná-los.
Muito cômodo é estabelecer e impor diretrizes para os outros. Urgente, no entanto, vivê-las.
Fácil é condenar e agredir. O desafio, porém, é mudar a situação.
O conhecimento espírita objetiva reformular as atuais conceituações e transformar as estruturas vigentes, facultando felicidade às criaturas, sem o que perde a finalidade.
Esta é, por consequência, hora de decisão espírita.
Uma página espírita breve é carta de alento ao homem em depressão.
Uma palestra espírita é classe de otimismo e ensino para a ignorância em predomínio.
Um livro espírita é curso de profundidade para despertamento e conduta dos que se atêm no desconhecimento dos valores e da oportunidade da vida.
Uma conferência espírita é fecundo veio aurífero de informação e roteiro, ao alcance de quem pensa.
Um debate espírita é intercâmbio de esclarecimentos com que se reformulam conceitos.
A ação espírita, em qualquer lugar,  é vida nova, atraente, chamando a atenção para a liberdade e a saúde.
Firmar-se no contexto da Revelação Espírita para ensinar e informar é fundamental, nos momentos que vivemos.
Na hora da informática com os seus valiosos recursos, o espírita não se pode marginalizar, sob pretextos pueris, em que disfarça a timidez, o desamor à causa ou a indiferença pela divulgação, porquanto o único antídoto à má imprensa, na sua vária expressão, é a aplicação dos postulados espíritas, hoje ainda ignorados e confundidos com as superstições, crendices, sofrendo as velhas conotações infelizes com que o caluniaram no passado, aguardando ser despojado das mazelas que lhe atiraram os frívolos e os déspotas, os fanáticos e os de má-fé, quanto os que se apoiavam nos interesses subalternos inconfessáveis...
Hora de mentalidades abertas às informações de toda ordem, este é o nosso momento de programar tarefas, fomentar a divulgação por todos os meios, tornando-se cada companheiro honesto e dedicado, nova "carta-viva", para a estruturação de um homem melhor, portanto, de uma sociedade mais justa, uma humanidade mais feliz.
Caridade para com o Espiritismo é dever de todos que nele haurem paz e vigor, sendo nossa maneira de exercê-la, divulgá-lo, levá-lo à ignorância e àqueles que sofrem a férrea pressão, sem desânimo nem tergiversação de nossa parte. 
(Espíritos Vianna de Carvalho e Hugo Reis-Reflexões Espíritas-Divaldo Franco)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

                                As Raças Adâmicas - O Sistema de Capela

Nos mapas zodiacais, que os astrônomos terrestres compulsam em seus estudos, observa-se desenhada uma grande estrela na Constelação do Cocheiro, que recebeu, na Terra, o nome de Cabra ou Capela. Magnífico sol entre os astros que nos são mais vizinhos, ela, na sua trajetória pelo Infinito, faz-se acompanhar, igualmente, da sua família de mundos, cantando as glórias divinas do Ilimitado. A sua luz gasta cerca de 42 anos para chegar à face da Terra, considerando-se, desse modo, a regular distância existente entre a Capela e o nosso planeta, já que a luz percorre o espaço com a velocidade aproximada de 300.000 quilômetros por segundo.
Quase todos os mundos que lhe são dependentes já se purificaram física e moralmente, examinadas as condições de atraso moral da Terra, onde o homem se reconforta com as vísceras dos seus irmãos inferiores, como nas eras pré-históricas de sua existência, marcham uns contra os outros ao som de hinos guerreiros, desconhecendo os mais comezinhos princípios de fraternidade e pouco realizando em favor da extinção do egoísmo, da vaidade, do seu infeliz orgulho.

Um Mundo em Transição

Há muitos milênios um dos orbes da Capela, que guarda muitas afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um de seus extraordinários ciclos evolutivos. As lutas finais de um longo aperfeiçoamento estavam delineadas, como ora acontece convosco, relativamente às transições esperadas no século XX, neste crepúsculo de civilização. Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e virtudes, mas uma ação de saneamento geral os alijaria daquela humanidade, que fizera jus à concórdia perpétua, para a edificação dos seus elevados trabalhos.
As grandes comunidades espirituais, diretoras do Cosmos, deliberam, então, localizar aquelas entidades pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua, onde aprenderiam a realizar, na dor e nos trabalhos  penosos do seu ambiente, as grandes conquistas do coração e impulsionando, juntamente, o progresso dos seus irmãos inferiores.

Espíritos Exilados na Terra

Foi assim que Jesus recebeu, à luz  do seu reino de amor e de justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes. Com a sua palavra sábia e compassiva, exortou essas almas desventuradas à edificação da consciência pelo cumprimento dos deveres de solidariedade e de amor, no esforço regenerador de si mesmas. Mostrou-lhes os campos imensos da luta que se desdobravam na Terra, envolvendo-as no halo bendito da sua misericórdia e da sua caridade sem limites. Abençoou-lhes as lágrimas santificadoras, fazendo-lhes sentir os sagrados triunfos do futuro e prometendo-lhes a sua colaboração cotidiana e a sua vinda no porvir. Aqueles seres angustiados e aflitos, que deixavam atrás de si todo um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade da amargura; reencarnariam no seio das raças ignorantes e primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos distantes. Por muitos séculos não veriam a suave luz da Capela, mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na sua imensa misericórdia. 

Fixação dos Caracteres Raciais

Com o auxílio desses Espíritos degredados, naquelas eras remotíssimas, as falanges do Cristo operavam ainda as últimas experiências sobre os fluidos renovadores da vida, aperfeiçoando os caracteres biológicos das raças humanas. A Natureza ainda era, para os trabalhadores da Espiritualidade um campo vasto de experiências infinitas; tanto assim que, se as observações do mendelismo fossem transferidas àqueles milênios distantes, não se encontraria nenhuma equação definitiva nos seus estudos de biologia. A moderna genética não poderia fixar, como hoje, as expressões dos "genes", porquanto, no laboratório das Forças Invisíveis, as células ainda sofriam longos processos  de acrisolamento, imprimindo-se-lhes elementos de astralidade, consolidando-se-lhes as expressões definitivas, com vistas às organizações do porvir. 
Se a gênese do planeta se processara com a cooperação dos milênios, a gênese das raças humanas requeria a contribuição do tempo, até que se abandonasse a penosa e longa tarefa da sua fixação.

Origem das Raças Brancas

Aquelas almas aflitas e atormentadas reencarnariam, proporcionalmente, nas regiões mais importantes, onde se haviam localizado as tribos e famílias primitivas,  descendentes dos "primatas", a que nos referimos ainda há pouco. Com a sua reencarnação no mundo terreno, estabeleciam-se fatores definitivos na história etnológica dos seres. 
Um grande acontecimento se verificara no planeta. É que, com essas entidades, nasceram no orbe os ascendentes das raças brancas.
Em sua maioria, estabeleceram-se na Ásia, África, na região do Egito, encaminhando-se igualmente para a longínqua Atlântida, de que várias regiões da América guardam assinalados vestígios.
Não obstante as lições recebidas da palavra sábia e mansa do Cristo, os homens brancos olvidaram os seus sagrados compromissos. 
Grande percentagem daqueles Espíritos rebeldes, com muitas exceções, só puderam voltar ao país da luz e da verdade depois de muitos séculos de sofrimentos expiatórios; outros, porém, infelizes e retrógados, permanecem ainda na Terra, nos dias que correm, contrariando a regra geral, em virtude do seu elevado passivo de débitos clamorosos.

Quatro Grandes Povos

As raças adâmicas guardavam vaga lembrança da sua situação pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências. As tradições do "paraíso perdido" passaram de gerações a gerações, até que ficassem arquivadas nas páginas da Bíblia.
Aqueles seres decaídos e degredados, à maneira de suas vidas passadas no mundo distante da Capela, com o transcurso dos anos reuniram-se em quatro grandes grupos que se fixaram depois nos povos mais antigos, obedecendo às afinidades sentimentais e linguísticas que os associavam na Constelação do Cocheiro. Unidos, novamente, na esteira do tempo, formaram desse modo o grupo dos Árias, a civilização do Egito, o povo de Israel e as castas da Índia.
Dos Árias descende a maioria dos povos brancos da família indo-europeia; nessa descendência, porém, é necessário incluir os latinos, os celtas e os gregos, além dos germanos e dos eslavos.
As quatro grandes massas massas de degredados formaram os pródromos de toda a organização das civilizações futuras, introduzindo os mais largos benefícios no seio da raça amarela e da raça negra, que já existiam. 
É de grande interesse o estudo de sua movimentação no curso da História. Através dessa análise, é possível examinarem-se os defeitos e virtudes que trouxeram do seu paraíso longínquo, bem como os antagonismos e idiossincrasias peculiares a cada qual.
(Espírito Emmanuel-A Caminho da Luz-Chico Xavier)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

                                                  As Construções Celulares

Sob orientação misericordiosa e sábia do Cristo, laboravam na Terra numerosas assembleias de operários espirituais. 
Como a engenharia moderna, que constrói um edifício prevendo os menores requisitos de sua finalidade, os artistas da Espiritualidade edificavam o mundo das células, iniciando, nos dias primevos, a construção das formas organizadas e inteligentes dos séculos porvindouros.
O ideal da beleza foi a sua preocupação dos primeiros momentos, no que se referia às edificações celulares das origens.
É por isso que, em todos os tempos, a beleza, junto à ordem, constituiu um dos traços indeléveis de toda a criação.
As formas de todos os reinos da Natureza terrestre foram estudadas e previstas. Os fluidos da vida foram manipulados de modo a se adaptarem às condições físicas do planeta, encenando-se as construções celulares segundo as possibilidades do ambiente terrestre, tudo obedecendo a um plano preestabelecido pela misericordiosa sabedoria do Cristo, consideradas as leis do princípio e do desenvolvimento geral. 

Os Primeiros Habitantes da Terra

Dizíamos que uma camada de matéria gelatinosa envolvera o orbe terreno em seus mais íntimos contornos. Essa matéria, amorfa e viscosa, era o celeiro sagrado das sementes da vida. O protoplasma foi o embrião de todas as organizações do globo terrestre, e, se essa matéria, sem forma definida, cobria a crosta solidificada do planeta, em breve a condensação da massa dava origem ao surgimento do núcleo, iniciando-se as primeiras manifestações dos seres vivos.
Os primeiros habitantes da Terra, no plano material, são as células albuminóides, as amebas e todas as organizações unicelulares, isoladas e livres, que se multiplicam prodigiosamente na temperatura tépida dos oceanos.
Com o escoar incessante do tempo, esses seres primordiais se movem ao longo das águas, onde encontram o oxigênio necessário ao entretenimento da vida, elemento que a terra firme não possuía ainda em proporções de manter a existência animal, antes das grandes vegetações; esses seres rudimentares somente revelam um sentido - o do tato, que deu origem a todos os outros, em função de aperfeiçoamento dos organismos superiores.

Os Antepassados do Homem

O reino animal experimenta as mais estranhas transições no Período Terciário, sob as influências do meio e em face dos imperativos da lei de seleção.
Mas, o nosso raciocínio ansioso procura os legítimos antepassados das criaturas humanas, nessa imensa vastidão do proscênio da evolução anímica.
Onde está Adão com a sua queda do paraíso? Debalde nossos olhos procuram, aflitos, essas figuras legendárias, com o propósito de localizá-las no Espaço e no Tempo. Compreendemos, afinal, que Adão e Eva constituem uma lembrança dos Espíritos degredados na paisagem obscura da Terra, como Caim e Abel são dois símbolos para a personalidade das criaturas.
Examinada, porém, a questão nos seus prismas reais, vamos encontrar os primeiros antepassados do homem sofrendo os processos de aperfeiçoamento da Natureza. No Período Terciário a que nos reportamos, sob a orientação das Esferas Espirituais notavam-se algumas raças de antropóides, no Plioceno Inferior. Esses antropóides, antepassados do homem terrestre, e os ascendentes dos símios que ainda existem no mundo, tiveram a sua evolução em pontos convergentes, e daí os parentescos sorológicos entre o organismo do homem moderno e do chimpanzé da atualidade.
Reportando-nos, todavia, aos eminentes naturalistas dos últimos tempos, que examinaram meticulosamente os transcendentes assuntos do evolucionismo, somos compelidos a esclarecer que não houve propriamente uma "descida da árvore", no início da evolução humana.
As forças espirituais que dirigem os fenômenos terrestres, sob a orientação do Cristo, estabeleceram, na época da grande maleabilidade dos elementos materiais, uma linhagem definitiva para todas as espécies, dentro das quais o Princípio Espiritual encontraria o processo de seu acrisolamento, em marcha para a racionalidade.
Os peixes, os répteis, os mamíferos, tiveram suas linhagens fixas de desenvolvimento e o homem não escaparia a essa regra geral.

A Grande Transição

Os antropóides das cavernas espalharam-se, então, aos grupos, pela superfície do globo, no curso vagaroso dos séculos, sofrendo as influências do meio e formando os pródromos das raças futuras em seus tipos diversificados; a realidade, porém, é que as Entidades Espirituais auxiliaram o Homem do Sílex, imprimindo-lhe novas expressões biológicas. Extraordinárias experiências foram realizadas pelos Mensageiros do Invisível. As pesquisas recentes da Ciência sobre o tipo de Neanderthal, reconhecendo nele uma espécie de homem bestializado, e outras descobertas interessantes da Paleontologia, quanto ao homem fóssil, são um atestado dos experimentos biológicos a que procederam os Prepostos de Jesus, até fixarem no "primata" os característicos aproximados do homem futuro.
Os séculos correram o seu velário de experiências penosas sobre a fronte dessas criaturas de braços alongados e de pelos densos, até que um dia as Hostes do Invisível operaram uma definitiva transição no Corpo Perispiritual preexistente, dos homens primitivos, nas Regiões Siderais e em certos intervalos de suas reencarnações.
Surgem os primeiros selvagens de compleição melhorada, tendendo à elegância dos tempos do porvir.
Uma transformação visceral verificara-se na estrutura dos antepassados das raças humanas.
Como poderia operar-se semelhante transição? - perguntará o vosso critério científico.
Muito naturalmente.
Também as crianças têm os defeitos da infância corrigidos pelos pais, que as preparam em face da vida, sem que, na maioridade, elas se lembrem disso.
(Espírito Emmanuel-A Caminho da Luz-Chico Xavier)