quinta-feira, 21 de setembro de 2023

                                                                     ADÃO

- A espécie humana começou por um só homem? (Questão 50)

- Não; aquele a quem chamais Adão não foi o primeiro, nem o único que povoou a Terra.

Comentário de Allan Kardec: 

O homem, cuja tradição se conservou sob o nome de Adão, foi um dos que sobreviveram, em certo país, após um dos grandes cataclismos que, em épocas diversas, perturbaram a superfície do globo e veio a ser o tronco de uma das raças que hoje o povoam. Alguns consideram, e com muita razão, Adão como um mito ou uma alegoria, personificando as primeiras idades do mundo.

"O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

                                                                             DEUS

- Que é Deus? (Questão 1)

- Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.

- Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? (Questão 4)

- Num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos responderá.

"O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec.



terça-feira, 15 de fevereiro de 2022


“O Livro dos Espíritos”, um livro de 165 anos

Neste mês de abril de 2022, estamos a comemorar os 165 anos do lançamento, em Paris, de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, inaugurando no mundo a Era Espírita ou Era do Espírito. Nele se cumpria a promessa evangélica do Consolador, do Paracleto ou Espírito da Verdade. Sua primeira edição data de 18 de abril de 1857.

Segundo o Professor J. Herculano Pires, equivale a afirmar que “O Livro dos Espíritos” é o código de uma nova fase da evolução humana. E é exatamente essa a sua posição na história do pensamento. Este não é um livro comum, que se pode ler de um dia para o outro e depois esquecer num canto da estante. Nosso dever é estudá-lo e meditá-lo, lendo-o e relendo-o constantemente. Sobre este livro se ergue todo um edifício: o da Doutrina Espírita. Ele é a pedra fundamental do Espiritismo, o seu marco inicial. O Espiritismo surgiu com ele e com ele se propagou. Com ele se impôs e consolidou no mundo. Antes deste livro não havia Espiritismo, e nem mesmo esta palavra existia. Falava-se em Espiritualismo e Neo-espiritualismo, de maneira geral, vaga e nebulosa. Os fatos Espíritas, que sempre existiram, eram interpretados das mais diversas maneiras. Mas, depois que Kardec o lançou à publicidade, contendo os princípios da Doutrina Espírita, uma nova luz brilhou nos horizontes mentais do mundo.
Há uma sequência histórica que não podemos esquecer, ao tomarmos este livro nas mãos. Quando o mundo se preparava para sair do caos das civilizações primitivas, apareceu Moisés, como condutor de um povo destinado a traçar as linhas de um novo mundo. Ele não escreveu a Bíblia, mas foi ele o motivo central dessa primeira codificação do novo ciclo de revelações: o cristão. Mais tarde, quando a influência bíblica já havia modelado um povo, e quando esse povo já se dispersava por todo o mundo gentio, espalhando a nova lei, aparece Jesus; e das suas palavras, recolhidas pelos discípulos, surgiu o Evangelho.
A Bíblia é a codificação da Primeira Revelação Cristã, o código hebraico em que se fundiram os princípios sagrados e as grandes lendas religiosas dos povos antigos – a grande síntese dos esforços da antiguidade em direção ao espírito. Não é de se admirar que se apresente, muitas vezes, assustadora e contraditória para o homem moderno.
O Evangelho é a codificação da Segunda Revelação Cristã, a que brilha no centro da tríade dessas revelações, tendo na figura do Cristo o sol que ilumina as duas outras, que lança a sua luz sobre o passado e o futuro, estabelecendo entre ambos a conexão necessária.
Mas, assim como na Bíblia, já se anunciava o Evangelho, também aparecia a predição de um novo código, o do Espírito da Verdade, como se vê em João, XIV. E o novo código surgiu pelas mãos de Allan Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade, no momento exato em que o mundo se preparava para entrar numa fase superior de desenvolvimento.
Hegel, em suas lições de estética, mostra-nos as criações monstruosas da arte oriental, figuras gigantescas, de duas cabeças e muitos braços e pernas, e outras formas diversas, como a primeira tentativa do Belo para dominar a matéria e conseguir exprimir-se através dela. A matéria grosseira resiste à força do ideal, desfigurando-o nas suas interpretações. Mas, acaba sendo dominada, e, então, aparecem no mundo as formas equilibradas e harmoniosas da arte clássica. Atingido, porém, o máximo de equilíbrio possível, o Belo mesmo rompe esse equilíbrio, nas formas românticas modernas da arte, procurando superar o seu instrumento material, para melhor e mais livremente se exprimir. Essa grandiosa teoria hegeliana é perfeitamente aplicável ao processo das revelações cristãs: das formas incongruentes e aterradoras da Bíblia, passamos ao equilíbrio clássico do Evangelho, e deste à libertação espiritual de “O Livro dos Espíritos”.
Cada fase da evolução humana se encerra com uma síntese conceptual de todas as suas realizações. A Bíblia é a síntese da antiguidade, como o Evangelho é a síntese do mundo greco-romano-judaico, e O Livro dos Espíritos a do mundo moderno. Mas cada síntese não traz em si tão somente os resultados da evolução realizada, porque encerra também os germens do futuro. E na síntese evangélica temos de considerar, sobretudo, a presença do Messias, como uma intervenção direta do Alto para a reorientação do pensamento terreno. É graças a essa intervenção que os princípios evangélicos passam diretamente, sem necessidade de readaptações ou modificações, em sua pureza primitiva, para as páginas deste livro, como as vigas mestras da edificação da Nova Era.
O Livro dos Espíritos não é, porém, apenas a pedra fundamental ou o marco inicial da nova codificação. Porque é o seu próprio delineamento, o seu núcleo central e ao mesmo tempo o arcabouço geral da Doutrina. Examinando-o, em relação às demais obras de Kardec, que completam a codificação, verificamos que todas essas obras partem do seu conteúdo.
O Livro dos Espíritos contém, como declarou Allan Kardec, "Os princípios da Doutrina Espírita", sendo, portanto, o seu tratado filosófico. Mesmo que não tenha sido elaborado em linguagem técnica e não observe os rigores da minuciosa exposição filosófica, é todo um complexo e amplo sistema de filosofia que nele se expõe.
A natureza religiosa do Livro dos Espíritos ressalta desde as suas primeiras páginas. Kardec o inicia pela definição de Deus. Mas, o Deus Espírita não é antropomórfico. A definição Espírita é incisiva: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”.
Enganam-se aqueles que confundem a Inteligência Infinita com o homem finito, e a Religião Espírita com os formalismos religiosos.
Kardec emprega a linguagem que podemos empregar para tratar de Deus. Não O humaniza. Apenas O coloca ao alcance da compreensão humana. Kardec pergunta aos Espíritos Superiores  se existem dois elementos gerais, o Espírito e a matéria, e os Espíritos respondem:
“Sim e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Deus, Espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade Universal.”
Tudo avança para Deus, do átomo ao arcanjo.
Ensina o Professor Raul Teixeira que O Livro dos Espíritos é chamado assim porque ele é um trabalho fundamentalmente dos Espíritos, sim, das almas que viveram na Terra, ou não. De seres que, em determinado momento da História da sociedade humana, entenderam que precisava a Humanidade receber instruções para continuar seus passos adiante.
E, foi por isso que surgiu em Paris, no ano 1857, O Livro dos Espíritos, seu autor ou seus autores.
Allan Kardec era o pseudônimo do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, notabilíssimo mestre-escola em Paris, laureado pela Academia de Arras, uma cidade ao norte de Paris, numa época em que essa premiação correspondia, praticamente a um Prêmio Nobel, por seus trabalhos realizados,  na área da educação.
E o professor Rivail adotou o pseudônimo de Allan Kardec.
“O Livro dos Espíritos” nos traz verdadeiras maravilhas. Mas, lamentavelmente, no bojo da nossa sociedade contemporânea, em virtude de muitos malefícios que religiões institucionalizadas criaram na mente humana, malefícios que representam preconceitos, medos, pavores quando, ao invés de louvarem a Deus, ensinaram as pessoas a temer Satanás, O Livro dos Espíritos muitas vezes é malvisto. Há pessoas que têm verdadeiro horror do nome espíritos.
Mas, quando lemos a Bíblia, logo no seu primeiro versículo, lemos que: O Espírito de Deus flutuava sobre a face do abismo.   
Logo, o termo espírito não deveria oferecer amedrontamento às pessoas. Por causa disso, muita gente se impede de ler O Livro dos Espíritos. Como se ao tocá-lo, ao lê-lo, ao se situar em torno de suas páginas, fossem ficar marcadas, assinaladas por alguma negatividade. E perdem um excelente ensejo de desfazer muita ignorância em torno das questões espirituais, de encontrar roteiro para muitas de suas dúvidas e de ser feliz.
O Livro dos Espíritos é um dos trabalhos mais eloquentes, no mundo do Espiritualismo. Allan Kardec o abre, intitulando-o de Filosofia Espiritualista, no seu geral, porque atende a todas as questões do Espiritualismo Universal e no seu particular é a Doutrina Espírita.
Espírita que deu Espiritismo, exatamente porque é a doutrina, o ismo dos Espíritos. Como temos o materialismo, que é a doutrina, ismo, da matéria. Como temos o Budismo, é a doutrina, ismo, do Buda. Então, temos o Espiritismo querendo dizer que todo esse contexto e os textos de O Livro dos Espíritos vieram fundamentalmente do trabalho dos Imortais. Quem são esses Imortais?
Vultos da História passada, recente,  da Humanidade. Vultos que deram nome a muitos santos, que vibram nos altares da crença romana. Vultos que participaram das lutas da Europa, da filosofia e pessoas desconhecidas da grande massa humana.
Todos esses seres, vinculados profundamente à proposta que Jesus Cristo veio trazer a Terra. Fundamentalmente, O Livro dos Espíritos vem trazer-nos respostas a múltiplas questões relativas à: 
Quem somos? De onde viemos? O que nos cabe realizar aqui na Terra e para onde iremos?
O gênio pedagógico do professor Rivail, do nosso Allan Kardec, permitiu que ele dividisse, distribuísse esses temas em quatro partes.
O primeiro deles: Das causas primárias. Nessas causas primárias, O Livro dos Espíritos aborda a gênese, as origens, desde Deus ao bem, ao mal, à matéria, seu surgimento, sua realidade ou não sobre o mundo.
A segunda parte de O Livro dos Espíritos é Do mundo espírita ou dos Espíritos, que nós chamamos comodamente de mundo espiritual.
Ali, Allan Kardec estudará todas as nossas relações com os seres espirituais, com os chamados mortos, ao mesmo tempo que a maneira ou as formas como os mortos se relacionam conosco.
Encontraremos na terceira parte de O Livro dos Espíritos, Das Leis Morais, em dez Leis, começando pela Lei de adoração: relação do homem com o seu Criador, até a Lei de amor, justiça e caridade, perpassando por Lei de liberdade, Lei do progresso, Lei de destruição, Lei de sociedade e outras várias,  a fim de permitir que tenhamos uma elucidação sobre as coisas mais representativas da nossa vida na Terra.
E a quarta e última parte de O Livro dos Espíritos trata das consequências dos nossos atos, enquanto estamos na Terra. Trata de falar, de enfocar, como é que a Divindade analisa e reage diante de tudo que nós fazemos: Das esperanças e consolações é o título da quarta parte de O Livro dos Espíritos.
É importantíssimo pensar que essa obra, com seus esclarecimentos, com suas elucidações, vem atravessando os períodos mais densos da Humanidade, nesses cento e sessenta e cinco anos.
Não podemos esquecer que O Livro dos Espíritos nasce em 1857, século XIX. O século XIX foi chamado século das luzes, o século em que muitos ícones foram derrubados e outros pensamentos notáveis se ergueram.
O século XIX permitiu-nos conhecer saídas da filosofia natural, várias ciências, como a física, como a química, que saiu da alquimia, como a astronomia, que saiu da astrologia empírica e várias outras ciências que se conformaram no bojo do século XIX.
Audaciosamente, o Espiritismo nasce nesse século que estava demolindo  pensamentos, construindo outros. Percebemos que o Espiritismo tem o aval da Ciência e do pensamento do século XIX. O Espiritismo tem o aval dos pensamentos filosóficos de então.
Por isso vem resistindo até hoje, apesar daqueles que têm medo de tocá-lo, supondo que ao tocarmos O Livro dos Espíritos, teremos que nos tornar Espíritas, quando ninguém que toque um livro de matemática se torna matemático, ninguém que leia um livro de História se torna historiador, obrigatoriamente.
Mas, com toda certeza, ao estudarmos ou lermos O Livro dos Espíritos, cento e sessenta e cinco anos depois da sua publicação, diminuiremos fundamentalmente a nossa ignorância relativamente aos Seres Espirituais, que somos nós e à nossa realidade no mundo.  


segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

 Miragens


Eram encargos normais, saudáveis: cuidar dos filhos, dirigir o lar, instruir a doméstica, efetuar compras… Mas Zilda aborrecia-se. Sentia-se frustrada. Ninguém parecia reconhecer seu esforço. Além do mais, sonhava trabalhar fora, ter seu próprio dinheiro, frequentar uma faculdade, alargar horizontes…

Irritava-se com frases pomposas, tipo “rainha do lar” ou “doadora de Vida”, que lhe pareciam engodos masculinos para estimular a submissão das mulheres. 

Resolveu consultar um psicólogo, desses modernos, ideias arejadas, “pra-frente”... Expôs-lhe suas angústias.

  • Minha cara Zilda - orientou o profissional, enfático. - Seu problema fundamental é aprender a gostar um pouco de si mesma. Solte-se! Conquiste seu espaço!

  • O senhor tem razão! Anseio por voos mais altos, além da rotina… No entanto, estou amarrada. Os encargos domésticos são numerosos. A família precisa de mim. Alguém deve ficar na retaguarda…

  • Esqueça! No momento é preciso cuidar de seu bem-estar. Ninguém deve ser mais importante do que você mesma. Liberte-se! Seja autêntica! Exercite suas próprias asas…

Sob orientação do psicólogo Zilda começou a mudar. Encontrou tempo para o massagista, o tratamento de beleza, a ginástica. Importante afinar a silhueta, rejuvenescer… Em breve matriculou-se em curso de nível superior, conseguiu emprego de meio expediente, entrosou-se com novas amigas, igualmente “avançadas”...

Sem tempo para o lar, este começou a apresentar problemas. O desleixo tomou conta, os filhos foram descuidados. O esposo, perplexo, indagou-lhe o porquê de tantas mudanças…

  • É preciso cuidar de mim mesma. Tenho sido uma escrava. Chegou o tempo de minha libertação. Vocês “se virem”!...

Empolgada pela própria audácia, Zilda distanciou-se progressivamente da família até que, concluindo que precisava de mais espaço, partiu para cidade distante, integrada em serviço promissor. Aparecia apenas nos fins de semana, visita em sua própria casa. Era preciso cuidar de si mesma!

Todavia, não chegou a parte alguma, alienada das realidades mais simples, perdida em caminhos tortuosos. Embora livre para movimentar-se, jamais se libertou da angústia e da insatisfação, nem da impertinente sensação de que talvez fosse mais feliz como humilde “rainha do lar”...


No dicionário da Vida, felicidade é sinônimo de doação. Por mais sofisticadas e brilhantes sejam as ideias, não resolveremos o problema de nossa estabilidade íntima, nem nos realizaremos como filhos de Deus, enquanto pensarmos muito em nós mesmos. Quem se fecha em si, sufoca-se em estreitos limites, ainda que se julgue na amplidão.

Os movimentos feministas são respeitáveis quando reivindicam os direitos da mulher como ser humano, com aspirações inerentes à sua condição. Cometem, entretanto grave engano quando, pretextando sua libertação, a induzem a aborrecer-se com os encargos domésticos, negligenciando as sagradas tarefas da maternidade, em que a mais nobre, a mais sublime de todas as missões lhe é confiada: preparar os filhos para a Vida, tarefa que lhe confere o supremo encargo de colaboradora de Deus.

(Richard Simonetti-Endereço Certo)


domingo, 30 de janeiro de 2022

 A Assombração


  • Mas, vamos entrar seu Cornélio, há umas mandiocas cozinhando lá no fogão e é preciso ficar vigiando, pois estou com lenha boa e elas podem derreter! Como o senhor disse que não existe limite de tempo gasto para aprender, aproveito sua necessidade e gasto mais do seu tempo contando outra história.

Segui meu querido amigo até o interior da casa, mais precisamente até a cozinha e, enquanto alimentava seu gato e o cachorro, que amigavelmente dividiam o mesmo prato, ele falou:

  • Sabe seu Cornélio, há três dias, já na boca da noite, vi um cavaleiro subindo a serra e pelo bufar do animal reparei logo que a carga era pesada e Pai Juca foi logo falando:

  • Pelo tropel do animal só pode ser padre Venâncio! E se for, é problema…

  • Boa noite, Vô Simplício!

  • Boa noite, seu padre! O senhor perdeu o caminho da igreja? A noite está sem lua, é só o senhor soltar as rédeas do animal que ele leva o senhor de volta!

  • Ainda não, Vô Simplício! Primeiro quero ter uma conversa com o senhor. Sou padre desta paróquia há trinta anos e nunca fui tão desrespeitado como agora!

  • Mas o que houve, seu padre? E como este velho pode ajudar o senhor?

  • Olha aqui, Vô Simplício, não vou aturar mais que o senhor coloque aqueles despachos lá no coreto. Pode procurar outro lugar, pois daqui para a frente vai ter gente vigiando! Já não chega os meus fiéis estarem trazendo para cá as prendas da igreja? Fique sabendo que não tenho medo de suas mandingas e nem de assombrações. Vim aqui rezar um credo e uma salve rainha e o senhor não vai me impedir.

  • Mas, seu padre, este velho aqui não mexe com essas coisas não! O senhor não pode me acusar sem provar!

  • Não preciso provar nada! Eu sei em qual moita tem coelho!

O homem estava bufando mais do que o animal que o trouxe serra acima e o velho aqui não podia fazer nada, o padre não queria explicações. O Espírito do Pai Juca na hora sumiu e o velho aqui ficou sozinho.

  • O senhor está vendo aquela moita de cana ali, seu Cornélio?

  • Estou sim, irmão Simplício.

  • Pois é. Enquanto padre Venâncio rezava o credo e a salve rainha em voz alta, meu Bondade, aquele boi preto que é de estimação, estava ali comendo. O senhor está vendo um pé de araçá perto das canas?

  • Estou sim, meu amigo.

  • Pois é. Ali tem uma caixa de marimbondo que estou deixando para depois colher mel. Pois é, não é que meu Bondade esbarrou nela e levou ferroada? O berro do Bondade foi tão forte que até estev velho aqui se assustou. Padre Venâncio montou no cavalo mais depressa do que apeou e, quando meu Bondade saiu correndo daquela moita e passou que nem faísca perto de nós, seu padre cutucou a mula com as esporas e nem acabou de rezar, partiu serra abaixo que nem estrela caindo do céu! E depois fala que não tem medo de assombração! O senhor acredita que na pressa ele deixou outro terço aqui? Agora são dois! Será que é um aviso de Deus para eu rezar mais seu Cornélio?

  • Não sei não, irmão Simplício, cada um é que sabe de seus pecados, não é mesmo? “Atire a primeira pedra aquele que não for pecador”. Suposições nunca são fatos consumados e, mesmo que fossem, são de responsabilidade daqueles que lhe deram forma e vida. Criticar, julgar ou condenar nosso próximo quando supomos saber o que na realidade ignoramos, é compromisso de reparação para nosso amanhã.

  • (Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício)

sábado, 29 de janeiro de 2022

 Efeitos da Prece


Em Catanduva, SP, um pai tinha o hábito de chicotear o filho desde pequeno, então com 15 anos de idade. O chicote estava reduzido à metade. O filho vivia martirizado; imagine-se o martírio da mãe ante os sofrimentos do rapazinho.

O senhor X era um bom homem, trabalhador, e não havia explicação para a sua brutalidade.

Ao entardecer de certo dia, ele entra em casa possesso, gritando:

  • Onde está F?

  • Ainda não chegou…- disse a mãe aterrorizada ante as feições descompostas do esposo.

  • Hoje eu mato aquele bandido a pancadas! Imagine! Esteve jogando bilhar depois que saiu do serviço! Arrebento-lhe na cabeça a argola do chicote! E saiu como uma fera à procura do filho, deixando a esposa com os olhos rasos de água. Mal saiu o pai, o filho chegou cheio de alegria.

  • Mãe… estou com uma fome!

  • Meu filhinho…- soluçou a mãe. Você terminou o serviço e foi jogar bilhar… Seu pai vai bater tanto em você…

O menino entristeceu-se, não quis jantar, e foi deitar-se para esperar as pancadas. Imaginem a tortura deste rapaz na expectativa do brutal castigo.

Dali a pouco entrava o pai rubro de cólera.

  • Ele já chegou?

  • Já, mas o perdoe por esta vez…

  • Perdoar? Perdoar? Ele vai ver o que é perdão…E você já sabe, hein! Não se meta… Ele vai apanhar com a argola e na cabeça!

Dirigiu-se à cozinha, apanhou o chicote e rumou para o quarto do filho.

A mãe correu para o quarto e caiu de joelhos, pedindo:

  • Jesus! Tem piedade de meu filhinho!

Nesse momento produziu a prece o seu efeito maravilhoso!

Ouviu-se, no quarto do menino, o grito do pai se lamentando:

  • Estou desgraçado, meu Deus! Estou perdido! Como será a minha vida?

A esposa correu, em socorro, ao quarto do filho e viu seu esposo, com o braço erguido, empunhando o chicote, choramingando:

  • Estou paralítico! Estou desgraçado para o resto da vida! Não posso baixar o braço…

E a mãe, envolvida em fluidos de amor e gratidão, foi logo dizendo:

  • Esposo! Esta é a piedade de Deus e a misericórdia de Jesus Cristo! A caridade de Jesus é tão grande, que eu vou transmitir-te um passe e você vai baixar o braço, não mais para bater em meu filhinho, mas para acariciá-lo e protegê-lo!

Assim se deu. Dias depois, conseguimos apanhar o obsessor do pai do menino e doutriná-lo.

E a paz, graças a Deus, reinará naquele lar se o senhor X souber se defender.

(Cornélio Pires-Coisas do Outro Mundo)


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

 Carência de Estudo


O senhor Florentino Silveira era espírita há muitos anos. Dedicado amigo dos sofredores. Sincero. Grande disposição ao serviço do bem. Entretanto, nutria verdadeiro pavor pelas reuniões de estudos doutrinários. Não as frequentava sob pretexto algum.

Após os trabalhos práticos de quinta-feira, o amigo Borges ponderava a situação:

  • Silveira, compareça às reuniões de estudo. É preciso estudar para compreender a religião que abraçamos.

  • Deus me livre de letrados - respondia o outro - Nada de letras e livros. Fico cá com minhas ignorâncias!

  • Entretanto, Silveira - insistia o Borges - o Espiritismo é a Doutrina da fé raciocinada e convida-nos ao estudo e ao entendimento. Urge entendê-lo para não traí-lo nas atitudes. Pense bem.

Nesse momento, aproxima-se humilde senhora trazendo um vidro de remédio na mão. Fala aos dois. Estivera no ambulatório do Centro, pela manhã, e pegara o remédio. Contudo, ao tomá-lo, sentira-se muito mal. Pedia explicações. Ambos se prontificaram a ajudá-la e descobriram que se tratava de loção para usar na pele e a pobre senhora, por não entender, havia ingerido o líquido.

Borges, lampejado por súbita inspiração, aproveitou a hora e arrematou:

  • Aí está, Silveira, o que pode a ignorância. Quanta gente boa, por não estudar a Doutrina Espírita, tem-na colocado justamente onde não devia estar.

(Espírito Hilário Silva-Histórias da Vida-Antônio Baduy Filho)