quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 A Omissão dos Bons

“Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?”

“Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão”. (O Livro dos Espíritos-Allan Kardec)


Potencialmente todo o homem é bom.

Somos filhos de Deus, criados, segundo a expressão bíblica, “à Sua imagem e semelhança”. Se o Criador é a Bondade Suprema, essa mesma virtude existe embrionária em nós, razão pela qual, consciente ou inconscientemente, passamos a existência à procura de seus valores. Intuitivamente pressentimos que nossa realização como filhos de Deus, habilitando-nos à plena integração na harmonia universal, está condicionada a esse esforço. 

Aristóteles define com simplicidade o assunto:

“A felicidade consiste em fazer o bem”.


Não obstante, com frequência nos comprometemos com o Mal, envolvendo-nos em iniciativas que levam prejuízos ao semelhante.

Esta é, talvez, a maior contradição humana, inspirando a sábia observação do apóstolo Paulo, na Epístola aos Romanos (7:19):

“Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço”.

Tal tendência está tão entranhada na criatura humana que as pessoas parecem não perceber que agem com maldade. Os piores facínoras encontram amplas justificativas, perante si mesmos, para seus atos anti-sociais. Al Capone, considerado o inimigo número um, nos Estados Unidos, afirmava não saber porque era perseguido pelas autoridades, já que proporcionava prazeres ao povo, ajudando-o a divertir-se. Mafiosos sanguinários referem-se aos crimes que praticam como “circunstanciais”, próprios de seus “negócios”, sem nenhuma intenção maldosa. Tiranos cometem atrocidades proclamando defender o bem-estar social e o progresso da nação.

Semelhante desvio é típico de um planeta de expiação e provas como a Terra, habitada por Espíritos em estágios primitivos de evolução, tendo por móvel de suas ações o egoísmo, a preocupação egocêntrica com o próprio bem-estar, que sobrepuja em nosso universo íntimo a embrionária vocação para o bem. 

O egoísmo sempre encontra justificativa para toda a sorte de inconsequências, desenvolvidas e consumadas com a presteza de quem defende interesses pessoais, por mais escusos se apresentem.

Exemplo típico: o chamado “crime passional”, em que o indivíduo, a pretexto de “lavar a honra”, comete brutal assassinato, recusando-se a avaliar a enorme distância entre a natureza do mal que sofreu e o mal que está produzindo, algo como jogar uma bomba na casa do vizinho porque o carro esbarrou em nosso muro.

Mesmo os que gostariam  de cogitar apenas o bem, convivem pacificamente com o mal e até se envolvem com ele, por fraqueza e timidez, que se exprimem de múltiplas formas:

Há um acidente de trânsito. Prejuízos consideráveis são provocados por um motorista imprudente. Ele procura torcer os fatos, a fim de furtar-se às suas responsabilidades. As pessoas prejudicadas procuram testemunhas que, tendo presenciado o acontecimento, disponham-se a depor em juízo, a fim de que se faça justiça. No entanto, ninguém se habilita. Há o medo de envolver-se.


São frequentes os escândalos em empresas públicas. Funcionários desonestos apropriam-se de vultosos valores que não lhes pertencem, num comportamento que, não raro, estende-se ao longo de meses ou anos a fio, até que, por circunstâncias fortuitas o desfalque é descoberto. Constata-se, então, que tais irregularidades ocorreram por relaxamento das normas de segurança que, não observadas pelos demais servidores, favoreceram a ação dos desonestos. Aproveitam-se alguns da desídia de muitos.

A volúpia de ganhar dinheiro induz muitas indústrias ao desprezo por elementares medidas de preservação do meio ambiente, por dispendiosas. Poluem a atmosfera, destroem florestas, matam rios, intoxicam a população e semeiam enfermidades. O movimento ecológico vem se articulando com o propósito de defender a Natureza. Os progressos são lentos, porquanto pouca gente dá-se ao trabalho de participar, em absoluta indiferença.

As reuniões de cunho espiritualizante, sob inspiração de qualquer denominação religiosa, quando realizadas com seriedade e pureza, no propósito de buscar a comunhão com o Céu, favorecem a paz e o equilíbrio nos corações, repercutindo beneficamente nas sociedades humanas. No entanto, vasta parcela da população permanece alheia, não por descrença, mas simplesmente por comodismo.

A transição entre o Bem e o Mal, a vitória das potencialidades divinas sobre as tendências egoísticas da criatura humana opera-se a partir da eleição de um ideal superior, algo em que o indivíduo possa empenhar sua vida.

O idealista legítimo - capaz de esquecer de si mesmo em favor de uma causa nobre, está sempre desperto, ativo, consciente, disposto ao sacrifício, imune ao acomodamento, pronto a trilhar os mais difíceis caminhos. O ideal o conduz, aquece, ilumina, sustenta… As grandes vidas, inspiradoras e inesquecíveis, foram marcadas por grandes ideais. 

Os primeiros cristãos, Giordano Bruno, João Huss, Tiradentes, entre outros, enobreceram o gênero humano, ajudando a construir um mundo melhor. 

Seguindo esses vanguardeiros, há uma heróica retaguarda de servidores ativos e conscientes, gente que está lutando, que está enfrentando os problemas do mundo, procurando fazer o melhor, tentando realizar o Bem, trabalhando com denodo e perseverança. 

É preciso que suas fileiras se ampliem. Que esses milhares sejam milhões. Que o ideal do Bem conquiste os corações! Que se semeie tanta luz que as sombras se retraiam! Que se exemplifique tanto a fraternidade que o egoísmo não encontre onde se apoiar! Que se exercite tanto a bondade que não haja espaço para a maldade!

Então, sim, superando a omissão dos bons, o Bem preponderará.

(Richard Simonetti-Um Jeito de Ser Feliz)


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