Velhice
Um velho sábio chinês estava caminhando por um campo de neve quando viu uma mulher chorando.
- Por que choras? - perguntou ele.
- Porque me lembro do passado, da minha juventude, da beleza que via no espelho, dos homens que amei... Deus foi extremamente cruel comigo, porque me deu memória. Ele sabia que eu ia recordar da primavera da minha vida e chorar.
O sábio ficou contemplando o campo de neve, com o olhar fixo em certo ponto.
Em dado momento, a mulher parou de chorar.
- O que você está vendo aí? - perguntou ao sábio.
- Um campo de rosas - disse ele, e continuou: - Deus foi generoso comigo porque me deu memória. Ele sabia que, no inverno, eu poderia sempre recordar a primavera e sorrir.
A velhice na Terra não precisa ser triste, frágil e ociosa. O corpo, sem dúvida, não resiste ao peso dos anos e difícil é mantermos sua plena capacidade. É natural o enfraquecimento das forças, mas o Espírito pode conservar sua juvenilidade.
Quantos exemplos temos de pessoas com mais de 70 anos em plena atividade física e mental. E quantos jovens se mostram apáticos, sem ideais e sem ânimo para uma atividade produtiva, somente gozando os prazeres mundanos e perdendo seu tempo.
Muitos se entregam a uma efetiva aposentadoria, alegando que estão próximos da morte e que por isso de nada mais vale qualquer tipo de esforço. Esse é um pensamento materialista, que considera a morte o fim de tudo. Mas o espiritualista sabe que a vida continua e que toda conquista não se perde jamais.
É comum o idoso estar mergulhado no passado, recordando os momentos felizes, os sucessos e os amores. Isso pode ser bom, se estimula a vida e a alegria. Mas não se pode ficar aprisionado às lembranças e lamentar as dificuldades do presente, como se estas fossem castigos divinos.
Cada momento da vida traz suas próprias experiências. E esse período final de nossa passagem na Terra deve ser também de preparação para o retorno à Espiritualidade, com o aproveitamento do tempo para profundas reflexões, para melhorar os sentimentos e para se harmonizar consigo mesmo, com o próximo e com Deus.
Outras vezes, o idoso guarda triste lembrança de uma juventude irresponsável. Quantas bobagens se faz quando se é jovem; quantos erros se comete e quantas decepções se vive. Ainda assim, é preciso considerar que a consciência do erro soma para o acerto e que Deus nos concede novas oportunidades para o nosso crescimento.
Conservemos, pois, nossa juventude espiritual, considerando a seguinte reflexão de um desconhecido:
"Envelheço quando me fecho para as novas ideias e me torno radical...
Envelheço quando o novo me assusta e minha mente insiste no comodismo...
Envelheço quando meu pensamento abandona a casa e retorna sem nada...
Envelheço quando me torno impaciente, intransigente e não consigo dialogar...
Envelheço quando penso em mim mesmo e me esqueço dos outros...
Envelheço quando penso em ousar mas temo o preço da ousadia...
Envelheço quando permito que o cansaço e o desalento tomem conta da minha alma...
Envelheço quando tenho chance de amar, mas vence o medo de arriscar...
Envelheço quando paro de lutar..."
(Donizete Pinheiro-Contos Modernos em Tempo de Paz)
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