Fofoca Histórica
Teodora (500-548), esposa de Justiniano (483-565), tinha birra da reencarnação.
Jovem da classe pobre, fora cortesã antes que o imperador se empolgasse por sua beleza. Paixão fulminante, que a promoveu à mulher mais poderosa do império.
Por isso mesmo, julgava absurdo sujeitar-se ao ciclo das vidas sucessivas, a fim de habilitar-se ao paraíso. Mais razoável uma transferência imediata, consideradas as prerrogativas de sua posição.
Assim, sob sua inspiração, Justiniano escreveu um tratado contra a reencarnação e determinou que o patriarca de Constantinopla reunisse um sínodo, em 543, para proscrevê-la.
Posteriormente, essa condenação foi apoiada pelo Papa Virgílio e demais patriarcas da igreja.
A influência de Teodora será, talvez, mera fofoca histórica, mas é significativo constatar que até o século VI a ideia de reencarnação era aceita por boa parte dos teólogos, destacando-se Orígenes (185-254) e Clemente de Alexandria (150-215).
A proscrição atendeu a motivo mais prosaico: a partir da institucionalização do cristianismo, atrelado ao carro do poder temporal, o Céu passou a ser uma concessão da fé.
Em tal contexto, não havia lugar para a reencarnação, que substitui a salvação pela evolução, ensinando que todos temos uma meta a atingir - a perfeição, a partir do esforço pessoal, independente dos favores de uma religião.
Não obstante, qualquer leitor atento do Novo Testamento perceberá que Jesus e seus discípulos admitiam as vidas sucessivas.
A ideia está muito clara em várias passagens, dentre elas:
* Atendendo uma indagação de Jesus, os discípulos dizem que o povo julgava fosse ele Elias, Jeremias ou outro profeta (Mateus:16). Evidente que se aceitava a reencarnação na comunidade judaica.
* Jesus se refere a João Batista como a reencarnação de Elias, (Mateus:11). Diziam as escrituras que o profeta voltaria para anunciar o Messias.
* Jesus diz a Nicodemos que é preciso nascer de novo para ganhar o Reino de Deus (João:3). E explica que é possível "entrar de novo na barriga da mãe", segundo a expressão de seu interlocutor.
* Os discípulos indagam, diante de um cego de nascença, quem pecou para que isso acontecesse (João:9). A pergunta não teria sentido se não admitissem a anterioridade da vida física.
* Jesus refere-se aos que "não podem mais morrer (Lucas:20). Só é possível "remorrer" vivendo mais de uma vez.
* Jesus curou um homem paralítico há 38 anos e lhe recomendou que não pecasse mais para que não lhe sucedesse pior (João:5). Se a expectativa de vida não chegava a meio século, como justificar tão longo sofrimento por falta cometida em inimputável infância ou adolescência.
Se no passado aconteciam interpolações, supressões e adulterações nos textos evangélicos, precariamente preservados, por que os teólogos não eliminaram a ideia reencarnacionista, claramente enunciada no Novo Testamento?
É simples entender.
Até o século IV, havia uma quantidade imensa de textos apócrifos, legitimidade duvidosa - Evangelhos e Pedro, Maria, Paulo, Felipe, Bartolomeu, Tiago...
O papa Dâmaso (304-384) decidiu, então, convocar um monge de grande cultura, Euzébio Jerônimo (347-420), que deveria efetuar a tradução da Bíblia para o latim, selecionando, no Novo Testamento, os textos de autenticidade não questionada. Surgiria dali a Vulgata, a versão oficial da igreja católica.
Ocorre que Jerônimo, presumivelmente reencarnacionista, conservou as passagens que lhe faziam referência.
Perto de um século e meio depois, quando se pretendeu eliminar a reencarnação, estavam consolidados os textos da Vulgata e já não era possível mudar.
Isso obrigou os teólogos a raciocínios tortuosos para explicar textos que ficam obscuros e sem sentido, se não admitirmos as vidas sucessivas.
Daí a contradição:
Nega-se a reencarnação, mas ela está presente no Evangelho.
Equivale a tapar o sol com a peneira.
De todas as distorções cometidas na Idade Média, a eliminação do princípio reencarnacionista foi, talvez, a mais grave.
Sem essa base fundamental para melhor compreensão da Justiça Divina, os teólogos perderam-se em fantasias escatológicas, que exigem boa dose de ingenuidade para serem aceitas.
A reencarnação é uma Lei Divina.
Consequentemente, mais cedo ou mais tarde todas as religiões acabarão por assimilá-la, assim como se viram forçadas a admitir que a Terra não é o centro do Universo, ante o avanço inexorável do conhecimento humano.
Se não o fizerem, serão atropeladas pelo desenvolvimento da cultura reencarnacionista, que tem no Espiritismo seu representante maior.
Não há como nos furtarmos ao óbvio:
O princípio das vidas sucessivas é a chave indispensável para equacionar os enigmas da Vida, sem fofocas!
(Richard Simonetti-Para Rir e Refletir)
Nenhum comentário:
Postar um comentário