terça-feira, 1 de junho de 2021

 O Bobo


No Grupo Espírita de estudos, era comum a troca de comentários a respeito das vidas passadas dos companheiros.

Contudo, Felisberto Antunes era contra. Homem sério. Professor culto. Leal aos ensinamentos doutrinários. Repreendia sempre os amigos que se entregavam ao exercício da imaginação. Falava com firmeza:

  • Deixemos o passado em paz. O esquecimento é importante aos novos rumos do Espírito que toma outro corpo material. Cuidemos do presente, que nos pede esforço e trabalho para a renovação íntima.

Dona Mariinha, porém, discordava. Costureira, costumava dizer que sabia também alinhavar o pretérito das pessoas. Afirmava que ela própria havia sido famosa dama, nos tempos áureos da corte francesa.

Certa noite, após a reunião, Dona Mariinha começou a fazer suposições sobre as existências anteriores dos companheiros. Estava mais expansiva do que era costumeiramente. Apontando cada um, desatou a revelar:

  • João foi general de talento; Eusébio, duque poderoso; Terezinha, formosa baronesa; Alfredo, influente nobre…

Quando já beirava uma dúzia de citações, um dos companheiros perguntou:

  • E o Felisberto, o que foi?

O professor atalhou a conversa e apressou-se a falar antes da costureira. Fixou os olhos em dona Mariinha e, medindo cada palavra, respondeu com ironia:

  • Já que não sobrou nenhum lugar na nobreza, devo ter sido o bobo da corte.

(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas Vol.1-Antonio Baduy Filho)


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