O Céu
Sou pobre, mas vou para o céu. Os ricos que sofram no inferno.
A raiva de Joaquim Feliciano não tinha limites. Experimentando necessidades materiais, aninhara a revolta no coração. Tornara-se amargo. Vingativo.
Desocupado, passava as horas espichado na rede, sonhando com o paraíso, além da morte. A esposa defendia o pão da casa. Costurava dia e noite. Preocupada, dizia a ele:
Não fale assim. A maior riqueza é o trabalho, e os tesouros da alma não convivem com o ódio.
Entretanto, o marido não lhe dava atenção às palavras e, entre um cochilo e outro, praguejava contra a vida.
Certo dia, seu repouso foi interrompido por uma visita. Era um fazendeiro da região. Soubera de sua habilidade profissional. Precisava de seus serviços por longo tempo em fazenda distante. Providenciar-lhe-ia condução. Passaria os fins de semana em casa. Seria bem pago.
Joaquim ficou tonto com a proposta. O dinheiro seria bem vindo. Contudo, pensou no trabalho árduo. Irritou-se. E, para surpresa do visitante, respondeu, exaltado:
Olha, sou pobre e vim ao mundo para sofrer. Só estou esperando o céu. O senhor que se vire com suas propriedades.
E, batendo com força a porta da casa, deitou-se de novo na rede.
(Espírito Hilário Silva-Outras Histórias-Antônio Baduy Filho)
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