A Assombração
Mas, vamos entrar seu Cornélio, há umas mandiocas cozinhando lá no fogão e é preciso ficar vigiando, pois estou com lenha boa e elas podem derreter! Como o senhor disse que não existe limite de tempo gasto para aprender, aproveito sua necessidade e gasto mais do seu tempo contando outra história.
Segui meu querido amigo até o interior da casa, mais precisamente até a cozinha e, enquanto alimentava seu gato e o cachorro, que amigavelmente dividiam o mesmo prato, ele falou:
Sabe seu Cornélio, há três dias, já na boca da noite, vi um cavaleiro subindo a serra e pelo bufar do animal reparei logo que a carga era pesada e Pai Juca foi logo falando:
Pelo tropel do animal só pode ser padre Venâncio! E se for, é problema…
Boa noite, Vô Simplício!
Boa noite, seu padre! O senhor perdeu o caminho da igreja? A noite está sem lua, é só o senhor soltar as rédeas do animal que ele leva o senhor de volta!
Ainda não, Vô Simplício! Primeiro quero ter uma conversa com o senhor. Sou padre desta paróquia há trinta anos e nunca fui tão desrespeitado como agora!
Mas o que houve, seu padre? E como este velho pode ajudar o senhor?
Olha aqui, Vô Simplício, não vou aturar mais que o senhor coloque aqueles despachos lá no coreto. Pode procurar outro lugar, pois daqui para a frente vai ter gente vigiando! Já não chega os meus fiéis estarem trazendo para cá as prendas da igreja? Fique sabendo que não tenho medo de suas mandingas e nem de assombrações. Vim aqui rezar um credo e uma salve rainha e o senhor não vai me impedir.
Mas, seu padre, este velho aqui não mexe com essas coisas não! O senhor não pode me acusar sem provar!
Não preciso provar nada! Eu sei em qual moita tem coelho!
O homem estava bufando mais do que o animal que o trouxe serra acima e o velho aqui não podia fazer nada, o padre não queria explicações. O Espírito do Pai Juca na hora sumiu e o velho aqui ficou sozinho.
O senhor está vendo aquela moita de cana ali, seu Cornélio?
Estou sim, irmão Simplício.
Pois é. Enquanto padre Venâncio rezava o credo e a salve rainha em voz alta, meu Bondade, aquele boi preto que é de estimação, estava ali comendo. O senhor está vendo um pé de araçá perto das canas?
Estou sim, meu amigo.
Pois é. Ali tem uma caixa de marimbondo que estou deixando para depois colher mel. Pois é, não é que meu Bondade esbarrou nela e levou ferroada? O berro do Bondade foi tão forte que até estev velho aqui se assustou. Padre Venâncio montou no cavalo mais depressa do que apeou e, quando meu Bondade saiu correndo daquela moita e passou que nem faísca perto de nós, seu padre cutucou a mula com as esporas e nem acabou de rezar, partiu serra abaixo que nem estrela caindo do céu! E depois fala que não tem medo de assombração! O senhor acredita que na pressa ele deixou outro terço aqui? Agora são dois! Será que é um aviso de Deus para eu rezar mais seu Cornélio?
Não sei não, irmão Simplício, cada um é que sabe de seus pecados, não é mesmo? “Atire a primeira pedra aquele que não for pecador”. Suposições nunca são fatos consumados e, mesmo que fossem, são de responsabilidade daqueles que lhe deram forma e vida. Criticar, julgar ou condenar nosso próximo quando supomos saber o que na realidade ignoramos, é compromisso de reparação para nosso amanhã.
(Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício)
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