quarta-feira, 27 de maio de 2020

Enganar a Si Próprio

- Certa feita - prosseguia Gerônimo - ao visitar alguns amigos na zona rural e que viviam ainda presos às lendas e ao folclore de seus antepassados, ouvi:
- Mas, padre - falava senhor Ovídio - o bicho existe mesmo, eu já vi três vezes. Ele é preto igual ao carvão com uma touca vermelha na cabeça e solta fogo pelos olhos!
- Eu posso benzer suas terras - disse o padre - mas, tirar daqui o Saci que não existe não tem jeito. Isto é crendice, meu filho. Superstição!
- Mas, padre, pelo menos duas vezes na semana ele aparece bem ali na boca da mata gritando qual comida quer comer, um dia é galinha, outro é broa com queijo e toda vez temos que deixar fumo para ele.
- Olha, meu filho, você reúne sua família e faz uma novena com jejum de três dias, enquanto isso vou conversar com o bispo para ver como proceder.
- Está bem, seu padre, Deus lhe pague. 
- Ó Zé Bento, atrele o Faísca na charrete e leve seu padre de volta para a cidade.
- Como está engordando este menino! - afirmou o padre, fazendo ares de assustado ao ver Zé Bento.
- É, seu padre, achamos até que era lombriga, mas já demos "lombrigueiro" e não funcionou. De uns meses para cá é isso o que o senhor está vendo. Quanto mais tosse, mais engorda. Parece que "engole vento".
- Você fez uma boa obra, meu filho, recolhendo este menino em sua casa. Deus, tenho certeza, está muito agradecido.
- Vamos, seu padre, a charrete está pronta.
Zé Bento, que tinha uma fome do tamanho dos seus 15 anos, não gostou nada daquela história de jejum de três dias e pensava baixinho: "Se não acenderem o fogão nestes dias, o Saci vai sair da mata e vai assombrar aqui perto de casa".
De manhãzinha, como de costume, Zé Bento sentou-se na varanda para esperar o café e ouviu de seu Ovídio:
- Levante daí, moleque, pode ir para a labuta, que estamos todos de jejum! Hoje nem gritando o Saci vai ter comida. São ordens do seu padre.
Quem estivesse a vigiar, veria o moleque sair às escondidas com uma trouxa na mão rumo à matinha dos fundos, resmungando:
- Hoje o Saci não vai gritar não, ele vai aparecer ali no quintal, na frente da casa e escolher a melhor galinha para o almoço. Quero ver quem vai negar!
Touca vermelha na cabeça cobrindo bem a testa para não ser reconhecido, Zé Bento passava pó de carvão no corpo para ficar mais preto, enquanto pensava em como fazer para ficar parecendo ter só uma perna. Depois de muito esforço, conseguiu enfiar as duas pernas numa só perna da calça e lá se foi, trotando rumo à fazenda e pensando no susto que iam ter o seu Ovídio e esposa. Já no quintal, começou a saltar, ao mesmo tempo que gritava e apontava a galinha escolhida diante do casal que olhava pelas frestas da porta e das janelas.
- Eu quero aquela ali, ensope a carijó que eu volto na hora do almoço. 
E lá se foi saltando pelo mato aquela figura estranha que, dando risadas, dizia:
- Escolhi a mais gorda, vai dar um bom prato.
De repente, o moleque parou e começou a ficar branco:
- Nossa mãe, é uma "pintada"! E parece que está com fome, do jeito que me olha. Sebo nas canelas, Zé Bento, senão ela te come!
Mas se esqueceu ele de que Saci não corre, pula, pois só tem uma perna. E era uma vez um Saci. Virou comida de onça e nem a toca sobrou. Seu Ovídio, já cansado de esperar o Saci, falou com a esposa:
- É mulher, o Saci não veio buscar a galinha, é melhor a gente mesmo comer a bichinha e fazer jejum noutro dia...
- E comeram a galinha? - perguntou o irmão Simplício.
- Isso é apenas um caso, meu irmão! - respondeu Gerônimo.
- Então não é verdade?! Eu conheci um homem que já viu Saci e com a licença de vocês, vou contar uma história do apelido dele. - atalhou Vô Simplício. Mas, antes, o que o senhor achou do caso, seu Cornélio, e qual o ensinamento dele?
- Que ninguém consegue enganar a todos, todo o tempo, que devemos ser transparentes em nossas atitudes e que o nosso dizer seja sempre "sim sim, não não". Se somos os únicos com direito à colheita das sementes que lançamos à terra, é preciso cuidarmos para que sejam elas de boa qualidade! Quem planta solidariedade colhe fraternidade, quem planta amor colhe o perdão e, cultivando a fé, colheremos a esperança. Aos olhos da justiça divina, nada fica encoberto e o amanhã é sempre o credor de nosso hoje. No mais, ninguém engana a seu próximo sem enganar a si mesmo.
(Espírito Cornélio Pires-Histórias Divertidas do Vô Simplício-Alceu C. Filho)

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