Vovô Noel
Quantos anos ele tem? - pergunta o Espírito Antônio, em excursão de aprendizado.
Seu Mário já completou oitenta e dois anos - responde Paulo, Espírito Instrutor que, com Antônio, realiza visita instrutiva à crosta.
E a sua desencarnação é hoje?
Sim. A Espiritualidade tem novos compromissos para ele.
Nesse momento, Paulo e Antônio se aproximam de uma escola, naquela hora vazia. Entram no prédio e dirigem-se até os fundos de um grande pátio onde, numa pequenina casa, de apenas um quarto, uma cozinha e um banheiro, reside seu Mário que, por muitos anos, foi faxineiro daquela instituição de ensino particular. Hoje, aposentado, ali permanece morando por caridade do proprietário e também pelo trabalho que realiza em prol dos menores carentes do bairro.
Quanta luz, Paulo, e quantas entidades de sublime elevação estão aqui presentes!
Sim, seu Mário é muito querido por todos. Mas vamos pedir permissão ao Instrutor Alécio para entrarmos.
Permissão concedida, ambos entram no humilde lar, onde alguns outros Espíritos ali se encontram no intuito de preparar o ambiente para o processo desencarnatório. Seu Mário, de corpo recurvado, longas barbas brancas, porém, transparecendo possuir muita energia, está de pé defronte do fogão, mexendo um caldo. Ao seu lado, o Espírito de uma senhora aparentando cerca de cinquenta e poucos anos, observa-o, enternecida.
Quem é essa senhora? - pergunta Antonio.
É a esposa de seu Mário, desencarnou há algum tempo. Ele não a vê, mas, às vezes, parece sentir sua presença, chegando a conversar sozinho, como se estivesse falando com ela.
Nesse momento, como que inspirado pelas palavras do Espírito, seu Mário começa a falar:
Alzira, querida, esta sopa vai ficar uma delícia e nós vamos tomá-la assim que eu terminar o meu trabalho. Aí, sim, faremos a ceia de Natal. Veja: consegui comprar até um refrigerante, daqueles que você gosta. Será uma noite memorável.
Dizendo isso, seu Mário apanha uma toalha num pequeno armário e recobre a velha mesa redonda, por sobre a qual deposita dois pratos, dois copos e duas garrafas: uma de refrigerante e outra vazia, com um pequeno toco de vela enfiado em seu gargalo.
Vamos cear à luz de velas - comenta, contente, rindo alto da fantasia que estava criando, como fazia sempre nos dias de Natal, pois apesar de ser uma pessoa muito lúcida, sentia-se bem, imaginando a companhia da esposa - Mas já estou começando a ouvir o alarido das crianças chegando - comenta.
Crianças? - pergunta Antonio.
Venha ver - convida Paulo.
Ambos saem da casa e Antonio, boquiaberto, vê longa fila de crianças que se forma do lado de fora da escola, num grande burburinho.
O que é isso?
Vou lhe explicar - responde Paulo sorrindo e um pouco emocionado. Há muitos anos, na véspera de Natal, como hoje, as crianças pobres do bairro vêm aqui para receber brinquedos das mãos do seu Mário.
E qual a alma caridosa que doa tantos brinquedos neste dia?
Seu Mário.
Seu Mário?... Não entendo… ele me parece tão pobre.
E, realmente, ele é muito pobre. O que ganha com sua aposentadoria mal dá para viver, principalmente porque, sendo um homem muito bom, está sempre ajudando alguém mais necessitado do que ele.
E os brinquedos?
Para poder sobreviver e continuar auxiliando mensalmente algumas pessoas, com remédios, ele se levanta de madrugada todos os dias e sai pelas ruas com aquela carrocinha ali, que ele mesmo empurra com seu velho corpo.
Antonio olha para onde Paulo aponta e vê o pequeno veículo.
Ele empurra aquilo?!
Sim, ele é um catador de papel e, após encher todo o carrinho, vende o produto em alguns ferros-velhos da cidade.
E os brinquedos?
No meio do lixo que ele examina para retirar os materiais aproveitáveis, sempre encontra brinquedos quebrados que ele mesmo, à noite, durante todo o ano, conserta e recupera. É uma boneca sem braços aqui, um carrinho sem rodas ali, e, pode parecer incrível, mas ele sempre acaba encontrando, num outro dia, as partes que faltam. Muitas vezes, também, os próprios donos dos ferros-velhos acabam guardando brinquedos para ele.
E no dia de hoje, véspera de Natal, ele os entrega às crianças?
Sim. E sabe de uma coisa? Ele, conhecendo quase todas as crianças e suas idades, procura não decepcionar nenhuma delas.
Parece impossível!
Antonio, nada é impossível quando se quer fazer o Bem.
O portão agora é aberto e as crianças começam a entrar no pátio da Escola, em fila organizada por professores e, todas, com os olhos fixos na pobre casinha, começam a cantar o velho refrão: “Vovô Noel, onde está você? Vovô Noel, onde está você? Vovô Noel é um carinhoso apelido que as crianças utilizam para chamá-lo. Nesse momento, seu Mário sai de casa e, colocando-se à frente da fila, começa a caminhar, seguido por todos, até um galpão, onde estão guardados os brinquedos. Duas professoras abrem as portas do depósito e trazem uma cadeira para seu Mário sentar-se. A partir daí, tudo se transforma numa grande festa. Os pequeninos sentam-se em seu colo, outros acariciam suas barbas e os maiores beijam-lhe as mãos, agradecidos, enquanto ele vai distribuindo os presentes, sempre fazendo algum comentário sobre o brinquedo e não se esquecendo nunca de dar bons conselhos a cada uma das crianças. A distribuição leva algumas horas e o espetáculo emociona Antônio, pela luminosidade do ambiente, pela enorme quantidade de elevados Espíritos, ali presentes, e pela verdadeira chuva de luzes multicoloridas que cai do céu, ininterruptamente, numa verdadeira benção a todos. E, com a voz embargada pela emoção e o rosto banhado em lágrimas, comenta com o Instrutor Paulo:
Que coisa maravilhosa, Paulo! Quanta luz! Quanto amor! As crianças o adoram! Vovô Noel!
Paulo limita-se a sorrir e, enxugando furtiva lágrima, balbucia:
Sim… Vovô Noel.
Mais algumas horas se passam e o pátio está novamente deserto. Seu Mário já se encontra de volta ao lar onde, aos olhos de Antônio, tamanha a luminosidade, não se vê mais nenhuma parede, nem o pátio, nem a escola, mas apenas os Espíritos presentes, os poucos móveis e utensílios da pobre cozinha, como se todo aquele ambiente tivesse sido transportado para uma grande abóbada de luzes. Então, o velho senta-se à mesa e começa a falar:
Minha querida Alzira. Façamos uma prece antes da nossa ceia… Alzira?!
Esse espanto de seu Mário, entremeado de muita alegria, tem uma razão de ser: desprendido do corpo que, já sem vida, permanece sentado, o velho desencarna, encontrando-se, em Espírito, com a esposa e com todos os que estão ali. Abraça-a, muito emocionado, e ela o ampara.
Meu velho, agora ficaremos juntos.
Sim… mas que maravilha… nem imaginava… eu morri…?
Não, meu querido, você não morreu, pois a morte não existe.
Poderei ficar com você?
Sim, mas primeiro, teremos que cuidar desse seu corpo espiritual, num hospital deste plano.
Sim… sinto-me um pouco fraco… um pouco zonzo…
Isso logo passará.
E voltando-se para os amigos espirituais, Alzira lhes pergunta:
Virá algum veículo buscá-lo?
Um dos Espíritos, que parece ser o organizador da tarefa de auxílio, lhe sorri e responde:
Sim, minha irmã. Nós já preparamos o mais adequado para seu marido, numa grande homenagem que lhe dedicamos. Meus irmãos, providenciemos a vinda do veículo.
Dizendo isso, todos se concentram e um carro ali chega, fazendo seu Mário chorar copiosamente, de tanta emoção.
Eu vou aqui? - pergunta à esposa, apontando para o veículo.
Sim, meu bem. Esse é o carro que o levará. Acomode-se nele e prepare-se para partir. Nós todos o seguiremos.
E é, então, que, numa dádiva do Alto, seu Mário, o Vovô Noel, atravessa o portal da verdadeira vida, transportado por lindo e luminoso trenó. E no caminho, em direção ao Alto, ele ainda arrisca, obedecendo a um velho sonho de criança, uma rouca, tímida, mas feliz risada:
Ho! Ho! Ho!
(Wilson Frungilo Júnior-A Casa das Chaves)
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