quinta-feira, 23 de setembro de 2021

 O SUSTO


O marido dormia, tranquilo, no quarto. Na sala, Zélia, insone, divagava… No coração, uma saudade imensa; no cérebro, uma lembrança indelével: a irmã, que falecera há exatamente um ano.

Duquinha fora uma personalidade marcante, inesquecível. Bonachona, sorridente, conservava sinal aberto no trânsito da comunicação. Adorava conversar, cultivar amizades. A seu lado não havia espaço para mágoas.

  • Tristeza - dizia - é lâmpada desligada no coração. A gente fica sem luz e calor. Tudo escuro e frio!...

Enfrentava problemas, como toda a gente, mas, virtude rara, sabia rir das próprias mágoas, cerrando a porta aos sentimentos negativos e desajustantes.

Se fofocavam sugerindo que o esposo parecia não levar a sério a fidelidade conjugal, explicava:

  • Pois é, comadre, - assim chamava Zélia desde que fora madrinha de casamento de seu filho - o Olinto tem tanto amor  por mim que transborda, derramando-se em outras “searas”...

Se surgiam dificuldades financeiras:

  • Comadre, as crianças me santificam. Treino paciência o dia inteiro!

Nem mesmo quando acometida de progressiva insuficiência cardíaca, que provocou o seu falecimento, deu-se por vencida:

  • Comadre, estou em tratamento de beleza espiritual. O corpo está um trapo, mas a alma ficará “joia”!

  • Ah! Duquinha! - suspirou Zélia - adoraria vê-la agora. Deve estar uma “miss”, merecidamente. Pouca gente valorizou tanto a existência e enfrentou tão estoicamente o sofrimento. 

Despertando de suas divagações percebeu, em sobressalto, um vulto que se aproximava, vindo da cozinha.

  • Meu Deus, um ladrão!

Pensou em chamar o marido. Conteve-se. Certamente o intruso estava armado. Poderia reagir com violência…

Esforçando-se inutilmente por conservar a calma, fitou-o, aguardando o tradicional “é um assalto”, mas o que viu fez gelar o sangue em suas veias: ele parecia deslizar acima do chão!

Os cabelos eriçaram-se. Seu coração queria pular do peito! Não se tratava de um ladrão! Muito pior: Era… um FANTASMA!

  • Não se assuste, comadre. Sou eu, a Duquinha, em carne e osso, ou melhor, em fluido. Vivinha! E olhe como estou linda!

Zélia não estava para conversa. Apavorada, desejava gritar por socorro, a plenos pulmões, fugir em desabalada carreira… No entanto, sentia-se petrificada, a suplicar por dentro:

  • Valei-me Jesus! Meu anjo da guarda, protegei-me! Socorrei-me virgem Maria!...

  • Não seja boba, comadre! Não gosta mais de mim, só porque estou vestida de fumaça?!

Prestes a desmaiar, afogando-se no próprio medo, Zélia implorou em pensamento:

  • Eu a amo muito, Duquinha. Adoro você! Mas, pelo amor de Deus, comadre, vá embora. Só apareça em sonho! Morro de pavor!

Diante de seus olhos esbugalhados a aparição diluiu-se na penumbra, sorrindo sempre. Em breves momentos, extenuada e trêmula, Zélia viu-se novamente sozinha na sala.

O Amor é a ponte sublime que liga a Terra e o Céu.

Nossos amados nos visitam frequentemente, velam por nós, preocupam-se com nosso bem estar. 

No entanto, há muitas barreiras dificultando um contato mais estreito. Uma delas é a ignorância, que nos induz a associar a presença dos Espíritos a supostos horrores sobrenaturais.

A Doutrina Espírita desenvolve abençoado trabalho de esclarecimento nesse sentido, habilitando-nos a contatos mais proveitosos com a Espiritualidade, sem a barreira do medo.

(Richard Simonetti-Endereço Certo)


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