O Estômago
Laerte Dantas era muito estimado. Presença simpática. Boa prosa. Pessoa agradável.
Único corretor na pequena comunidade, conhecia todo mundo. Festeiro de primeira, tornara-se convidado indispensável em qualquer evento. Era a alegria de toda festa.
Contudo, em passado recente e por motivos banais, recebera dolorosa ofensa. Parente, a quem dedicava sincera afeição, virara-lha as costas e cortara todas as possibilidades de convivência. Agora, porém, desejava a reconciliação.
Laerte, que havia sofrido muito com a atitude do familiar, não perdoava o acontecimento.
Ofendeu. Pisou. E agora quer um encontro. Depois de toda aquela maldade… - dizia com tristeza e, ao mesmo tempo, com irritação.
Martinho, velho amigo e experiente conhecedor do Evangelho, respondia com argumentos inspirados nos ensinamentos espíritas:
O perdão é bom para a saúde. Extingue as toxinas da mágoa e liberta as energias do bem. Além disso, é melhor reconciliar-se agora do que depois. É um problema a menos para as vidas futuras.
A conversa se dava no hospital da cidade, onde Laerte estava internado, em razão de distúrbio digestivo severo. Excessos durante uma festa. Abuso alimentar. O estômago não suportara a agressão.
O amigo explicava ainda as vantagens do perdão, quando o clínico apareceu para a visita diária. Fez perguntas. Examinou a região afetada. Depois, falou, sorridente:
Houve grande melhora. O estômago perdoou sua ofensa.
Logo que o médico saiu do aposento, Martinho aproximou-se do companheiro no leito e comentou, sério:
Se até o estômago perdoou…
Não completou a frase, mas o doente entendeu o que ele queria dizer.
Mais tarde, Laerte recebeu a visita do parente e entre pedidos de desculpas, abraços e sorrisos, aconteceu a reconciliação.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas 2-Antônio Baduy Filho)
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