quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

É Natal. De Quem?

A cidade estava realmente linda. As árvores laureadas de luz, as casas, os edifícios, as lojas, tudo era só beleza e encantamento. As pessoas caminham agitadas, mas alegres, pelo menos na expressão exterior. Para alguns, a razão da alegria era o décimo terceiro, o sonho acalentado o ano inteiro que estava se realizando na compra da geladeira, do sofá ou até mesmo das roupas, afinal de contas as festas de fim de ano trazem um novo ânimo.
Como não falar dos shoppings na disputa pelos clientes. Não economizaram  nas ornamentações, uma verdadeira maravilha. Árvores de natal que nos fazem brilhar os olhos, cada uma com sua temática, a natureza tropical, os pinguins, e é claro, não pode faltar a neve de algodão ou isopor picotado.
E a grande figura: Papai Noel, que, de repente, ganhou até uma esposa, a Mamãe Noel.
Todos aguardando ansiosamente a ceia, o peru, o panetone, todas as iguarias, e, evidentemente, os presentes.
É realmente lindo! Não existe outra festa que se iguale ao Natal.
Estava eu mergulhado nestes pensamentos, diante de uma belíssima árvore de natal, num grande shopping, quando senti algo puxando a minha calça. Olhei para baixo, era uma menina com lindos olhos negros, deveria ter uns cinco anos de idade.
Muito sorridente, ela perguntou:
- Tio, o Natal é a festa mais linda do mundo, né?
- É claro - respondi retribuindo o sorriso.
- E Natal é o que mesmo tio?
- Natal significa nascimento - respondi um pouco sem jeito, sentindo qual seria a próxima pergunta que não tardou.
- Nascimento de quem?
- De Jesus.
- Mas, tio - continuou a criança, como muitos adultos não conseguiriam - eu sei que Papai Noel não existe. Minha irmã me disse. Mas aqui no shopping tem Papai Noel. Esse algodão é neve, mas eu nunca vi neve cair do céu aqui na cidade. Se Natal é o nascimento de Jesus, cadê ele?
Dessa vez não pude responder, pois as lágrimas não deixaram. E a danada da menina não desgrudava.
- Tio, por que você está chorando?
- É que eu lembrei, minha filha - disse enxugando as lágrimas - que na noite de Natal, em Belém, as portas não se abriram para que ele pudesse nascer dentro de uma casa, e, ainda hoje, ele continua batendo nas portas dos nossos corações.
- E ele nasceu onde?
- Nasceu num estábulo, numa manjedoura de palha, cercado pelos animais e pelos pastores humildes.
Um silêncio profundo, interrompido por mais uma pergunta desconcertante da menina:
- Tio, é Natal, mas esqueceram de cantar parabéns para Jesus, não foi?
Sentei no chão do shopping e fui imitado imediatamente pela menina-anjo, e falei baixinho para ela:
- Vamos cantar parabéns para ele?
- Parabéns pra vo-cê, nesta da-ta que-ri-da...

(Cláudio E. Abdala-Contos da Vida)

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