terça-feira, 14 de julho de 2020

Visão Pequena

Rafael Monteiro tinha muitas qualidades. Homem sincero, cumpridor das obrigações. Honestidade a toda prova. Contudo, era um poço de orgulho. 
Professor universitário, era respeitado na comunidade pela vasta cultura e como prestigiado especialista em matéria científica de alta relevância. Mergulhado em pesquisas, vivia no laboratório, estudando os seres microscópicos. Só acreditava nos próprios conhecimentos e tinha ojeriza às ideias religiosas. Por isso, ficou profundamente magoado ao saber que a esposa começara a frequentar uma instituição espírita e tivera acentuada melhora em seus problemas íntimos. 
- É coisa de ignorante. Não serve - dizia ele, irritado.
Entretanto, como a esposa insistia em continuar os estudos doutrinários, Rafael proibiu-lhe a saída de casa. Quando o fato veio a público, o professor recebeu a visita de Filomena, diretora da instituição. Mulher simples. Gestos educados. Postura humilde.
A diretora começou a conversa, dizendo com respeito:
- Permita que sua esposa continue conosco.
O marido contestou com rispidez:
- Não admito intromissão em nossa vida.
A senhora baixou os olhos. Após alguns instantes de silêncio constrangedor, Filomena prosseguiu o diálogo:
- As reuniões lhe fizeram bem.
- Não é lugar para ela.
- Em nossa instituição, estudamos o Evangelho do Cristo e lá aprendemos as lições do bem. Procuramos enxergar a vida pela ótica da eternidade, reconhecendo que toda a grandeza do Universo é obra sublime de Deus.
- Não acredito nisso. É tudo superstição.
Ao perceber a dura resistência do dono da casa, a diretora levantou-se para as despedidas e comentou, enigmática:
- Que pena! O senhor se acostumou...
E diante do olhar de interrogação do cientista, Joana imitou com as mãos as lentes do microscópio e concluiu, bem-humorada:
- O senhor se acostumou a ver tudo pequeno.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)

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