Criogenia - A Técnica de Congelar Cadáveres
A nós, espíritas, se afigura perfeitamente legítimo o esforço despendido pela ciência em prorrogar o quanto se possa a vida humana. Segundo ensinam os doutos, o homem ainda é dos animais que vivem menos em relação aos seus companheiros chamados irracionais, pois que estes duram cerca de sete vezes o tempo que levam para chegar à fase adulta. Esta fórmula daria para o homem cerca de 140 anos. A experiência do Espírito na carne é valiosa, insubstituível mesmo, porque aqui funcionam cursos importantes dessa imensa escola da vida. Confesso, porém, que, particularmente, ainda não vi muito sentido nessas experiências de congelamento de cadáveres, de que jornais e revistas vêm cuidando ultimamente. Aliás, não dizem congelamento de cadáveres ou de corpos e sim de "pessoas", o que me parece uma expressão inadequada. A ideia consiste em conservar o corpo da pessoa que morreu em consequência de causas naturais, até que a ciência consiga recursos técnicos suficientes para curar as doenças de que vieram a falecer. Até aí, muito bem. Cada um de nós pode lembrar-se de um parente ou um amigo que morreu de tuberculose - hoje perfeitamente curável - ou em decorrência de uma infecção que algumas doses de antibiótico poderiam debelar. Não deve tardar muito a descoberta do mecanismo patológico do câncer e sua consequente cura. Daí a ideia de guardar os que morreram, a fim de que, futuramente, possam ser descongelados e tratados. Informa a imprensa que nos Estados Unidos já há cadáveres congelados, e dá até os preços. Custa cerca de 4.200 dólares a cápsula onde se guarda o corpo e sua manutenção é da ordem de 100 dólares por ano. No Brasil já se cuida de organizar uma sociedade de Criogenia (Do grego, crios, gelo).
Uma pergunta, porém: E o Espírito? Alguém está pensando nele, nas suas condições "post mortem"? Claro que não, porque todo o esquema do congelamento de corpos está sendo montado, evidentemente em bases materialistas. Para a ciência moderna oficial, o homem é um conglomerado celular mais ou menos engenhoso, provido de mecanismos de controle automático, acionados pelo sistema cérebro-espinhal. Dentro dessa concepção, a morte se dá quando se rompe o equilíbrio orgânico, em decorrência de um acidente ou de uma doença mais séria. Essa estória de Espírito é problema especulativo, reservado àqueles que se interessam pela metafísica. O pensamento? Mera segregação funcional do cérebro; morto o homem, morre também o pensamento e tudo vira um montão desordenado de células em decomposição. O pêndulo da ciência oscila, agora, na área negativista do materialismo.
A questão, porém, é que, ligado ao corpo físico, desde a concepção ou pouco depois dela, há um Espírito que traz uma experiência de muitas vidas. Foi sob a direção desse Espírito que se formou o organismo, foi dentro do campo magnético do seu períspirito que manteve a estrutura orgânica como um todo funcional, ao mesmo tempo em que as células se renovam pela eliminação das desgastadas e pela absorção das novas, supridas através da nutrição.
Há uma série enorme de perguntas a serem respondidas antes de se tentar resolver o problema da prorrogação da vida humana, nas condições em que está sendo proposta. Certo que a este vislumbre de esperança se atirarão, sôfregos, muitos seres envolvidos na densa aura do materialismo, do imediatismo da vida, em busca da imortalidade física. Acontece que a imortalidade física não é de interesse do Espírito. O corpo é simples instrumento de trabalho de que se utiliza ele por algumas décadas e o abandona por inservível. Daí em diante, o Espírito segue vivendo numa nova dimensão, onde não necessita de corpo físico; mais ainda: onde o corpo material seria um estorvo inconcebível. Mesmo admitindo-se possível - e disso não duvido - que o processo de degelo consiga restituir o organismo ao estado em que se encontrava exatamente após a morte, somente seria viável reanimá-lo se o Espírito ainda estivesse ligado ao corpo e a ele voltasse. (Não esquecer que a palavra reanimar tem a sua origem em "anima" que, no velho latim, significa "alma") Vamos admitir mais: que o Espírito tenha realmente ficado preso ao seu corpo físico por não ter ocorrido a morte real e sim um estado catalético. Como se portaria ele, sentindo-se preso indefinidamente a um bloco de gelo? Às vezes assistimos nas nossas sessões mediúnicas ao desespero do suicida que permanece atado psiquicamente ao seu corpo destroçado, e só consegue, com muita ajuda e ao cabo de muita angústia, libertar-se daquela opressora sensação.
Uma vez liberado da sua prisão carnal, o Espírito vai cuidar de outros aspectos de sua existência, de reexaminar as suas concepções, de rever o que fez, de reencontrar velhos queridos amigos, de planejar nova existência na carne, através do renascimento. Mesmo que "em vida" tenha pedido para ser congelado, ao chegar ao mundo espiritual compreenderá a infantilidade de sua pretensão, quando julgava que somente se vive preso a um corpo de carne.
(Hermínio Miranda-Crônicas de Um e de Outro)
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