Os Que Se Salvam
Conta-se que um certo religioso sonhou que estava nas portas do Céu. Interrogou, então, sofregamente, o anjo que ali se encontrava de guarda:
- Estão aí os protestantes?
- Não, aqui não se encontra um protestante sequer.
Surpreso, o religioso insistiu:
- Estão aqui, então, os católicos-romanos?
- Tão pouco conhecemos aqui os filhos da igreja; não existem aqui romanos - respondeu o guardião.
- Estarão, quem sabe, os partidários de Maomé ou de Buda?
- Não estão, nem uns nem outros.
- E os espíritas?
- Igualmente não estão aqui.
Intrigado, indagou, então:
- Dar-se-á, acaso, que o Céu se encontre desabitado?
- Isso não acontece - explicou o anjo, acrescentando: incontáveis são os habitantes da casa do Pai, ocupando todas as suas múltiplas moradas.
- Dize-me, então, depressa: quem são os que se salvam, e a que igreja pertencem na Terra?
- A todas e a nenhuma - informou, por fim, o vigilante da entrada das Celestes Moradas.
E continuou:
- Aqui não se cogita de denominações, nem de dogmas. Os que se salvam são os que visitam as viúvas e os órfãos em suas aflições, não se deixando corromper. Os que se redimem são os que procuram aperfeiçoar-se, corrigindo-se dos seus defeitos, renascendo todos os dias para uma vida melhor. Os que conquistam o Reino dos Céus são os que amam o próximo e renunciam às fascinações do mundo. São os que perseveram caminhando pelas estradas difíceis do dever, apesar dos obstáculos. Os que se purificam são os que obedecem à voz da consciência, e não os reclamos do interesse. Os que merecem a Divina Graça são os que trabalham pela causa da justiça e da Verdade, que é a Causa Universal, e não pelo engrandecimento de causas regionais, de certas agremiações, com títulos e rótulos religiosos. Os que aspiram á glória de Deus, ao bem comum, à felicidade coletiva, enfim, os que se salvam, são aqueles que fazem a vontade do Pai.
- Basta! - disse o religioso - já compreendo tudo.
E acordou pensando em como estava vivendo os ensinamentos de sua religião.
Essa lição nos parece bastante importante. Todas as religiões sinceras contêm em seus ensinamentos as bases morais transformadoras da alma, ajudando-nos a conquistar as virtudes que nos farão melhores, mais sábios e generosos.
Mas ninguém ganhará o paraíso simplesmente porque adota uma religião. Deus, na Sua Justiça, não faz qualquer diferença entre os Seus filhos. Não lhe importa a cor, a raça, o sexo, a idade e nem tampouco a religião.
O que vale mesmo são os bons sentimentos que carregamos no coração e as nossas obras no bem. Então, quando nos preocupamos com o nosso destino depois da morte, devemos repensar o que temos feito na Terra para minorar o sofrimento do nosso próximo, se temos ajudado alguém que nos possa retribuir o favor, se o nosso tempo tem sido aproveitado de forma útil para o bem da humanidade. Isso é o que vale perante Deus.
A nossa salvação, portanto, é a prática incessante da caridade.
(Donizete Pinheiro-Contos Modernos em Tempo de Paz)
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