O Cálice de Chumbo
Às vezes me pergunto a mim mesmo: “Como seria a casa onde Jesus morava em Nazaré? Se, naquela época, vivêssemos em tal lugarejo, que pensaríamos de Maria? Seríamos capazes de ligá-la a um contexto de tão alta transcendência, como a de ser mãe do Emissário Divino?”
Estou certo que não.
A moradia de Maria devia ser uma deselegante casa de pedra, como aquelas tantas outras que existiam naquele povoado que, por sua vez, não passava de pequena mancha cinzenta na paisagem multicolorida da Galiléia. Acredito mesmo que não julgaríamos Maria merecedora da nossa visita, amizade, muito menos de qualquer cumprimento mais entusiástico, pela ausência de garbo e trajar-se vulgarmente. José, então, parecer-nos-ia um carpinteiro como outro qualquer e tudo por ali nos diria que aquela Nazaré jamais poderia produzir um profeta, nem mesmo de terceira classe.
Se devêssemos andar na companhia de Jesus e das santas mulheres, acolitados por aqueles homens rudes, não nos orgulharíamos disto. Acharíamo-los uns pirados e vadios.
É a distância no tempo que permite à nossa imaginação emoldurar o evento sagrado, singelo e prosaico, com filigranas de beleza ímpar, inspirando a Murilo, as suas Madonas e enchendo as naves dos templos de inigualável tesouro artístico. Isto foi bom, porque nos trouxe beleza, mas, por outro lado, esse contínuo recondicionamento deturpou a realidade; perdemos o interesse pela simplicidade e pela humildade.
Se fôssemos transportados para Jerusalém de dois mil anos atrás, nenhum de nós aceitaria o convite de Pedro para sentar-se no tosco banco da “Casa do Caminho”, onde os apóstolos, depois da morte de Jesus, pensavam as feridas, alimentavam os párias e pregavam o Evangelho, possivelmente em linguagem rude de pescadores, sem qualquer burilamento.
Tive esta impressão, dias atrás, quando visitei um arrabalde de São Paulo, procurando certa médium que me diziam possuir excelentes faculdades mediúnicas. Fui encontrá-la cozinhando debaixo de um telheiro. Trazia a pele ressequida, cabelos em desalinho, cheirando picumã, mãos calejadas, e envergava um avental puído e desbotado. Enquanto servia o trivial ao marido e filhos, que estavam voltando do trabalho, suarentos e resfolegantes, no galpão aos fundos do quintal, iam se reunindo pobres, ricos e remediados, mas, todos portadores de semblantes amargurados, revelando sofrimento e cansaço. No horário assinalado, ela deixou os cuidados domésticos e a própria louça, para lavá-la depois e, auxiliada por uma equipe, se entregou ao trabalho mediúnico. Até altas horas da noite, aquela humilde senhora, exerceu o seu ministério sagrado de curar, aconselhar e consolar. No dia seguinte, levantar-se-ia de madrugada para despachar novamente o marido e os filhos, preparando-lhes a marmita. Nenhuma paga, nem mesmo o padronizado muito obrigado.
Quantas destas criaturas abnegadas, vultos expressivos da cristandade, mas anônimos, não existem por aí! Ninguém lhes registrará o nome no papiro. Se daqui a milênios vierem os doutores cronistas e historiógrafos discorrer sobre os mesmos, imaginem com quantas fantasias emoldurarão aquela cozinha, transformando-a em santuário feito de pedrarias cintilantes.
Wallace Leal Rodrigues, em “Remotos Cânticos de Belém”, relata que o nobre Sir Launfal deixou a sua família e o conforto do lar abastado, para andejar em busca da taça de ouro, da qual Jesus teria se servido na Santa Ceia, conhecida pelo nome de Santo Graal. Debalde aquele nobre palmilhou todo o mundo conhecido de então. Quando regressou, estava velho, alquebrado, muito doente e descrente. Não acreditava mais naquela preciosa relíquia. Todavia, sofrendo fome, sede e privação na companhia dos deserdados pequeninos, descobrira o sentido da caridade cristã que, por sinal, nunca havia praticado com ardor.
Sir Launfal chega de volta ao seu castelo, justamente na noite de Natal. A sua vivenda estava ricamente iluminada, cheia de convivas que se banqueteavam. “Como adentrarei nesse ambiente, em estado de deplorável miserabilidade e esquelético? Por certo não me reconhecerão. Ainda pensam em mim como um cavaleiro da mais alta linhagem, montando um ginete ricamente ajaezado, quando na verdade tenho andado como andarilho!”
No que titubeava, aproximou-se dele um mendigo e lhe pediu uma esmola. Olhou com atenção e reconheceu-o: “Já sei. Você é aquele mendigo a quem, ao sair de casa, em busca do Santo Graal, dei uma moeda de ouro!” O pedinte julgou-o um marginal qualquer, de miolo mole, mas Sir Launfal foi tomado por uma onda de profundo afeto por aquele homem que, afinal, era-lhe o irmão mais próximo. Abraçou-o e o levou até a fonte, onde repartiu o único pão que possuía. O mendigo trazia uma velha caneca de chumbo, com a qual apanhou a água cristalina e deu-lhe de beber. Ambos comeram o pão e beberam a água. E, no dia seguinte, os serviçais do castelo encontraram morto Sir Launfal, cujas forças combalidas não foram suficientes para levá-lo mais adiante, um passo sequer, ficando enregelado, no pórtico da sua vivenda senhorial.
Enterraram aquele miserável desconhecido e assinalaram o lugar com aquela caneca de chumbo, por lhe desconhecerem o nome. Estranho quadro! Uma cova e em cima dela uma caneca de chumbo!
Seria de ouro ou de chumbo o cálice utilizado na Santa Ceia?
(Mário B. Tamassia-A Mãe Que Desistiu do Céu)
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