Sinceridade
Certa feita, atendendo a pessoas que buscavam a interpretação espírita e a ajuda dos bons Espíritos para seus problemas, conversei com uma senhora que, constantemente, se desentendia com o marido.
Sempre que iniciamos uma conversa franca, findamos brigando. Aí, é preciso ir se aproximando devagar um do outro, até que fiquemos amigos novamente.
E o que fazem enquanto são inimigos?
Ficamos ressentidos um com o outro. Nós nos evitamos, mas acabamos voltando à paz doméstica.
E como administram o desgaste por conta de tais afastamentos?
Não pensei nisso. Tenho procurado conter o meu ciúme… Acho que nossas brigas são motivadas pela minha sinceridade. Sabe, eu sou muito sincera e digo logo na cara o que estou pensando.
A mulher, em nome da sinceridade, estava lançando sobre o marido a carga tóxica do ciúme, da agressividade, esquecida que ser sincera é ser franca, leal, verdadeira.
Alguém pode dizer o que pensa, sem acusações. Pode citar defeitos sem humilhar ou querer demonstrar uma superioridade que não possui. Pode-se traçar um perfil, um diagnóstico, sem utilizar o azedume neurótico da condenação.
A “sinceridade” que agride é grosseria.
Na conversa com o marido, a mulher não agia; reagia. E o marido fazia o mesmo, ofendido com as insinuações da esposa.
Aquela conversa me fez pensar na sinceridade. Muitas pessoas são agressivas e se dizem sinceras. A verdadeira sinceridade dispensa a agressão e alia-se à compreensão, formando um dueto que se deixa conduzir pela caridade. Ser sincero é ser generoso. A sinceridade aclara os caminhos e ajuda a conduzir os desnorteados para fora de suas ilusões. Se mostra o erro, aponta a saída. Se constata a ignorância, esclarece com a verdade. Se rejeitada, segue em frente em sua missão libertadora.
Quando alguém diz ofensas a um irmão, não é sincero, mas, agressivo, vingativo, cruel.
Não há encaixe entre a sinceridade e a agressividade, pois a primeira pertence à família da beneficência e a segunda à do orgulho.
Deus não esconde suas leis nem oculta o paraíso de ninguém. Há sinceridade em sua obra e amor em suas intenções.
O homem, quando procura amoldar a lei divina a seus propósitos mesquinhos, aliena-se, inverte as prioridades, embrutece…
E em sua ótica distorcida, confunde sinceridade com animosidade, troca a paz pela guerra, a brisa pelo tufão, até que o sofrimento, senso de orientação dos iludidos, dissipe a neblina que obscurece a razão.
Então ele vê…
O tempo perdido, o tempo de agora, o tempo depois.
É o encontro da verdade.
Está livre.
(Luiz G. Pinheiro-Histórias Deste e do Outro Mundo)
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