Não Posso Morrer
Como sempre acontece na convivência social, também temos, em nosso círculo de amizade, aquelas criaturas engraçadas e bem humoradas que fazem da vida uma constante alegria de viver.
Uma dessas criaturas que conhecemos é um barbeiro profissional, espírita, e que se converteu ao Espiritismo em razão de uma cura física que mereceu do Alto, através de um médium da cidade.
Era ele, esse nosso amigo, portador da terrível e ainda incurável doença de Chagas. Como se agravava dia-a-dia o seu estado de saúde, sendo sempre desenganado pelos médicos e hospitais que procurava, inclusive institutos especializados, tratou ele de procurar o médium em causa, em razão das maravilhosas coisas que ouvia a seu respeito. Atendido algumas vezes, melhorou de tal modo que lhe foi garantido pelo Espírito que estava curado, podendo, em consequência, fazer novos exames para comprovar.
Como reação lógica de um crente ainda não muito firme em sua convicção, o barbeiro tratou de fazer todos os exames e consultar seus médicos. Como resultado obteve o diagnóstico de curado. Todos os exames foram negativos. Nada mais apareceu da doença. Nenhum sinal, para espanto dele e de todos.
Daí para a frente, e isso já faz uns quinze anos (1986, 1ª edição deste livro), periodicamente se submete aos exames de rotina que, como sempre, são negativos.
Como consequência, o barbeiro passou a ser pregador do fato, para tudo e para todos. Vive a encaminhar e doutrinar doentes, numa ânsia incrível de ver todos, como ele, curados. Por qualquer queixa de alguém, lá vai ele logo dizendo que deve procurar incontinenti o médium, pois ali está a solução.
Como é normal, infelizmente, muitas pessoas que o escutam na barbearia não acreditam na história e sempre o olham com certa reserva. No entanto, ele sabe, como todos sabemos, que está sendo observado, principalmente pelos inimigos gratuitos do Espiritismo e da mediunidade. Ainda mais que o médium reside na mesma cidade, e o ditado popular de que "santo da terra não faz milagres" continua sempre válido e em primeiro plano para muitos.
Assim, outro dia, em conversa que mantínhamos enquanto nos atendia, muito bem humorado como sempre, com o salão lotado de fregueses, saiu-se esse nosso amigo com esta:
- Pois é... Aqui nesta cidade o único "cara" que não pode morrer sou eu, isto porque tem muita gente de olho em mim... Quando isto acontecer, não importa o tempo, irão dizer que não obtive cura nenhuma e que o médium, essa boa alma, é um charlatão. Por isso já estou preparando "meus Guias" a fim de que, ao chegar a minha hora de morrer, eu esteja bem longe daqui. Se possível, morrer como indigente para ser enterrado como um desconhecido".
Realmente, a observação desse nosso amigo tem muito de verdade. Para nós, os reflexos do coração são sempre norteados de acordo com a nossa disposição de ver as coisas. Quando não olham como verdadeira uma cura de muitos anos atrás, é porque não querem mesmo aceitar. E como o homem dificilmente aceita e participa da dor e da felicidade alheias, o fato fica sempre sob suspeita.
Então, esse nosso amigo é um daqueles que realmente não pode morrer; caso contrário, morrerá com ele uma bênção de Deus.
É difícil aceitar as coisas simples, quando se alicerça a fé em preconceitos.
(Sérgio Lourenço-Em Busca do Homem Novo)
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