quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

                                                        Reencontro

Aristeu Valente tivera uma existência atribulada. Trabalho árduo. Família numerosa. Viuvez em três ocasiões. Era boa pessoa, mas exigente e de prosa repetitiva.
Tornara-se espírita com idade mais avançada e frequentava regularmente as reuniões de estudos. Aprendera muito com os novos conhecimentos espirituais. Entretanto, era sempre assaltado por dúvida atroz: como seria o reencontro com as esposas no além-túmulo? Fora marido ciumento. Autoritário. Impertinente. Era um tormento no lar, dramatizando situações menos importantes.
O assunto era sempre ventilado com os companheiros, que lhe conheciam o temperamento e falavam com franqueza:
- A convivência no Mundo Espiritual baseia-se na simpatia e afinidade. O sentimento é sempre elevado, livre das questiúnculas terrenas. Aquele que vive no bem não tem o que temer.
Aristeu, porém, insistia por outras respostas, até que, um dia, soube de experiente espírita, em localidade próxima. O diálogo foi nesses termos:
- Sou espírita, mas estou com dificuldades.
- Vamos conversar.
- Fiquei viúvo três vezes e tenho sérias dúvidas.
- Três vezes?
- Sim, com filhos pequenos, exceto na última, quando eram todos adultos.
- E a dúvida?
- Penso como será o encontro com as esposas, na vida espiritual.
- Por que a preocupação?
- Elas estão lá, juntas. Não saberei o que fazer. 
A conversa durou algum tempo, e o veterano doutrinador, sobrecarregado de compromissos, logo percebeu que nenhuma explicação satisfazia o viúvo. Fez uma pausa e disse, encerrando o assunto:
- Não haverá problema algum. Elas estão livres.
- Livres?
- Sim, livres de sua impertinência.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)

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