terça-feira, 21 de abril de 2020

A Oração Milagrosa

Quando morava com a minha sogra, que a bem da verdade, era uma segunda mãe para mim, voltei certa tarde da Faculdade de Engenharia, onde era estudante, e a encontrei radiosa com um escapulário nas mãos.
- Olhe, Luiz, disse-me ela, neste escapulário tem uma oração milagrosa que vai ajudar você a arranjar um bom emprego. O homem que vendeu disse-me que ele veio do Maranhão, terra de orações fortes.
Olhei minha sogra com aquele olhar de desaprovação, pois éramos espíritas há muito tempo; havíamos lido dezenas de vezes em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" sobre as condições e o valor da prece, não comportando, portanto, atitudes ingênuas como aquela, acerca de tão apreciado tema.
Não sabia como fazer para não usar o tal escapulário, o que certamente melindraria a minha sogra, que de boa vontade e pensando no meu sucesso profissional adquirira tão "preciosa raridade".
Disse-lhe então: Façamos o seguinte, dona Geórgia. Vamos abrir o escapulário e, se a oração for forte mesmo, eu o usarei. Caso contrário, a senhora o dará de presente para outra pessoa.
Aceita a sugestão, embora com uma certa reserva por rasgar uma "relíquia sagrada", dona Geórgia cortou os pontos do saquinho com uma tesoura e retirou de lá um pequeno pedaço de papel, lendo-o meio trêmula, pois suas mãos já não eram tão firmes como antes.
O que estava escrito provoca risos até hoje, quando em cada Natal que nos reunimos, contamos essa mesma história.
Eis a "oração milagrosa": "Estando eu e o meu cavalo de barriga cheia, o resto que se lasque".
Na verdade, o dinheiro que ela pagou pelo escapulário foi bem empregado, pelas tantas risadas que ele tem provocado em nossas reuniões de família. E, segundo consta no manual dos tristes, não há dinheiro que pague uma boa gargalhada.
(Luiz Gonzaga Pinheiro-Histórias Deste e do Outro Mundo)

Nenhum comentário:

Postar um comentário