quarta-feira, 3 de junho de 2020

Restauração

Em plena tempestade, o homem buscou agasalho e proteção sob a árvore vetusta que a ventania desgalhava e sacudia, implacável.
Enquanto ziguezagueavam os relâmpagos, em balé mágico sob o estrugir do trovão, o homem, atemorizado, explodiu em imprecações:
- Forças desgovernadas e cruéis, titãs do pavor em desvario, eu amaldiçoo o temporal e a fúria!
"A tudo destroça, na sua passagem voluptuosa, deixando lama, destruição, infortúnio..."
Havia nele, também, o fragor da revolta que o estiolava por dentro.
A árvore veneranda que lhe ouviu a diatribe, desejando auxiliá-lo, esclareceu:
- A tormenta devasta e passa; os ventos destroçam e se vão adiante; a chuva encharca e cessa; os raios despedaçam e param; os trovões estrondam e se calam...
"Alguém, no entanto, com carinhosa dedicação substitui os danos, oferecendo vida nova; recompõe a paisagem com o calor do Sol, que enxuga o lamaçal; faz reverdecer os galhos partidos, que renascem revigorados; e, em breve, tudo são beleza, utilidade e harmonia..."
O homem ouviu, meditou e passou a considerar que a tempestade maléfica, realmente, não é aquela que estruge por fora, em alarmante, desarvorada passagem, mas a que espoca por dentro, no coração, dificultando a restauração do bem que pode realizar.
(Espírito Eros-No Longe do Jardim-Divaldo Franco)

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