Canonização da Terra e Canonização do Céu
Certa vez os discípulos de Jesus vieram jubilosos ao seu encontro e lhe disseram: Senhor, os maus Espíritos se nos sujeitam. Vimos Satanás tombar do alto como um relâmpago. O Mestre retrucou: Não vos alegreis tanto por isso; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão escritos no Céu.
Eis aí o que todos devemos ambicionar de preferência a tudo mais: termos os nossos nomes escritos no Livro da Vida. Essa escrituração não é deste mundo. Os homens, falhos e apaixonados como são, não podem fazê-la.
No entanto, o que vemos neste século é o desusado afã com que todos procuram fama, glória e notoriedades mundanas. Até mesmo as religiões, ao invés de encaminharem a Humanidade à vida real, combatendo suas vaidades, acoroçoam e fomentam essas vaidades, distribuindo títulos honoríficos e comendas aos ricos, canonizando os que julgam bons, quando da sua grei, conferindo insígnias aos párias. E assim vão prendendo os homens às coisas da Terra, enquanto "falam" das coisas do Céu.
Por isso, todos preferem ver seus nomes aureolados nos século presente a tê-los gravados no Livro da Vida. Este está oculto aos olhos da sociedade, enquanto que a fama e a glória se ostentam na atualidade.
Representantes, ministros e adeptos do Cristo contam-se aos milhões; porém, homens de caráter reto, tolerantes, de consciência pura, animados do espírito de justiça, capazes de renunciarem a tudo, inclusive à própria vida, em prol de seus semelhantes como fez Jesus de Nazaré, existem, acaso, no cenário terreno?
Há santos cuja memória refulge na história da Humanidade, apesar de não merecerem as honras do altar. Foram santos que se mantiveram fora das esferas ortodoxas de todos os tempos. As igrejas da Terra canonizam os seus santos, não tanto por serem santos, mas por serem "seus". Daí porque jamais se viu uma igreja santificar alguém de outra igreja. Se assim não fora, haveria altares para Marco Aurélio e para Sócrates.
Fechemos este artiguinho transladando para estas colunas a autodefesa que Sócrates pronunciou perante o tribunal que o condenou à morte:
"Jamais poderei ser acusado de faltar o respeito às leis religiosas, uma vez que assisto aos santos sacrifícios nos templos. Também não podeis classificar de crime a minha fé num Espírito familiar, num país como este onde todos creem em muitas superstições, auspícios e agouros.
"Acusam-me de corromper os costumes da juventude; e, não obstante, Atenas inteira é testemunha de que meus ensinamentos se baseiam numa única máxima: Preferi a alma ao corpo e a virtude às riquezas. Acusam-me de faltar com meus deveres de bom cidadão, por não tomar parte nas assembleias do povo. Perguntai aos que combateram em Potideia, Anfípolis e Délios, se servi à minha Pátria.
"Interrogai os senadores e eles que vos digam se não me opus energicamente á execução dos dez capitães vencedores de Argino, vítimas da vossa injusta punição.
"Se me acusam de impiedoso, bom será que examineis a minha vida, as minhas ações e palavras, e assim vos convencereis de que creio na Divindade muito mais do que os meus acusadores. Porventura julgais orgulho o não implorar clemência aos que me julgam?
"Não é por vaidade que assim procedo, é apenas para manter os meus princípios, pois entendo que a justiça deve obedecer às leis e não às súplicas.
"De resto, a morte não é para mim um pesadelo; e na minha idade não pretendo evitá-la para não desmentir as lições que dei, a fim de a saberdes desprezar.
"Antes que me tivésseis condenado à morte, já a Natureza o tinha feito; a verdade, porém, condenará os meus acusadores a grandes e profundos remorsos."
Por bem menos do que foi Sócrates muitos estão no altar. Sócrates é daqueles cujo nome está escrito no Céu, porque, como disse judiciosamente o Mestre - muitos virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão à mesa dos profetas; e muitos filhos do reino serão expulsos.
Os verdadeiros crentes, como os legítimos santificados, estão arrolados no Livro da Vida e não nos in-fólios dos templos de pedra.
(Vinicius-Em Torno do Mestre)
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