domingo, 2 de agosto de 2020

Obra do Acaso

Celso Belmonte tinha inteligência privilegiada. Menino precoce. Adulto brilhante. Professor laureado. Lecionava na Universidade e trabalhava em projetos científicos, cujas conclusões eram publicadas no mundo inteiro.
Contudo, era tão orgulhoso quanto inteligente. Durante as aulas e conferências, exibia enorme arrogância. Ridicularizava as crenças na vida futura e não admitia a existência do Criador, induzindo os ouvintes ao ateísmo. 
Essa postura era contestada pela maioria dos professores e alunos, mas o prestígio de Celso impedia qualquer atitude. Até o dia em que foi aparteado por um aluno, durante a aula magistral que abria os cursos do ano letivo.
Tiago, jovem espiritualista, ousou discordar do mestre. Após a escaramuça inicial com respeito às crenças religiosas e à vida além da morte, a discussão acabou com rápido diálogo, provocado pelo aluno:
- O senhor nega Deus, mas toda obra tem um autor. Como se explica o Universo?
- É obra do acaso.
- E a Natureza tão diversificada, a vida, os sentimentos, a própria inteligência?
- É o acaso.
- Por que devo acreditar no que diz?
- Porque tenho pesquisas que provam.
O silêncio era total. Tiago deu um suspiro e disparou, sério:
- Não tem nada. 
E para espanto de todos e sob intenso aplauso, concluiu depressa:
- É tudo obra do acaso.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)

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