quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

 Conto de Natal


Nos céus, milhares de estrelas estavam semeadas, cintilantes, enquanto nas ruas o trânsito se mostrava irritante, congestionado e muitas pessoas apressadas seguiam com muita ansiedade de volta aos seus lares. Todos desejavam chegar às suas casas para comemorar a grandiosa data no aconchego dos entes queridos.

Havia, por isso mesmo, barulho nos bares, onde vozes ruidosas se ouviam em meio às fumaças dos cigarros e o forte cheiro das cervejas. Havia barulho também em determinadas lojas comercializando brinquedos e, como forma de chamar a atenção da clientela mirim, seus gerentes colocavam em alto volume músicas de Natal, na voz de um conjunto que cantava o ano inteiro musiquinhas para a raia miúda daquela cidade, situada à beira do mar, mas castigada pelo verão, que se mostrava já abrasador.

Natal - eis a data que a Humanidade mais uma vez se punha a comemorar, daí o trânsito difícil, o vaivém dos transeuntes, o alvoroço nos botecos, as cantigas de fim-de-ano em alto som no comércio varejista.

O Dr. Gustavo encerrava o expediente de sua firma industrial muito contente. O saldo de seus negócios fora altamente favorável de sorte que poderia fazer enormes investimentos no ano seguinte na área têxtil, para tanto entrando em contato com empresários de outras cidades. E, como fosse homem de coração bem formado, mais alegre ficava o magnata porque havia dado um bom acréscimo salarial a todos os seus empregados, uma quantia muito maior do que aquela estipulada pela legislação trabalhista. 

Então, ele também regressava a seu suntuoso apartamento, localizado em bairro de alto luxo, com o coração opresso. Ia pensando no que há muito tempo o atormentava muito: ali havia fartura na mesa e havia requinte no mobiliário; havia beleza nos quadros artísticos pendurados pelas paredes e bom gosto  na decoração dos cômodos. Mas ali ele via a tristeza  no semblante de seu único filho dado aos tóxicos. Tudo fizera Dr. Gustavo e sua esposa Dona Esmeralda para desvencilhar o Gustavinho das drogas, sem nada conseguirem de concreto. 

Por isto, já sabia ele que, naquela noite, embora em seu lar também comemorassem o Natal, ele haveria de tragar o sabor amargo deste licor terrível: todos alegres, felizes, a festejar o natalício de Jesus com saborosas iguarias, porém o moço às voltas com os venenos circulando em suas próprias veias!

Uma surpresa, porém, o aguarda. De fato, a família estava com diversos amigos, em virtude daquela grandiosa noite. Todos alegres, felizes, sorridentes. Entra na sala Dr. Gustavo e, com comedida ansiedade, procura divisar a presença de seu pupilo. Este, com enorme sorriso na face de seus 21 anos de idade, alegre vem abraçá-lo e beijá-lo. Cochicha-lhe algo ao pé do ouvido. O empresário, como que num superlativo encantamento, abraça-o mais fortemente contra o peito, cobre-lhe o rosto para espanto de todos. Delicadamente pede desculpas porque terá de ausentar-se por alguns minutos, prometendo voltar tão logo possa. E sai acompanhado do moço.

Dispensando o motorista, espantado, tomando a direção do carro do pai, o rapaz o conduz até um bairro pobre, sem dizer-lhe palavra durante o trajeto.

  • Pai, aqui mora quem me libertou dos tóxicos. E apontou para uma casa modesta, no meio de terreno proletário.

  • Que é isto, meu filho? Uma casa de gente pobre! Não estou entendendo nada. Pensei que você estivesse falando sério. Vejo que quis pregar-me uma peça!

  • Não, pai. Você entenderá.

Nos céus, milhares de estrelas salpicadas pelo negrume da noite eram testemunhas. Em derredor, o silêncio a todos envolvendo pesadamente naquele verão que se anunciava intenso. 

Tendo batido palmas, o dono daquela casa humilde aparece à porta da frente. Calmamente dirigi-se ao portão, seguido da mulher e de uma penca de crianças, todas elas espantadas com aquele carrão estacionado naquela rua de pessoas pobres na linda noite de Natal.

O Dr. Gustavo se vê diante de um humilde serviçal de uma de suas muitas fábricas. Ele, patrão, não o conhecia. Pudera! Tinha mais de três mil empregados… Mas o operário o reconheceu, estendendo a mão calosa para cumprimentá-lo:

  • Boas festas, Dr. Gustavo. Sou da fábrica do Andaraí.

  • Oh, bom Natal, meu filho. Bom Natal para você e sua família. Mas não estou entendendo nada. O que é que há entre você e o meu herdeiro?

O moço rico toma a palavra e explica tudo ao pai, que ficou boquiaberto ante o que ia ouvindo: o rapaz deixara os tóxicos depois de ter, por sua iniciativa própria, sem que a família desconfiasse, frequentado com afinco umas reuniões doutrinárias e outras mediúnicas que aquele singelo tecelão realizava numa Casa Espírita, cujos médiuns e assistentes espirituais desenvolviam, com extrema abnegação, um trabalho beneficiando os drogados da agitada cidade do Rio de Janeiro.

(Celso Martins-Pelos Caminhos da Vida)


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