O Caminho Estreito
Pela lei natural, o meio de alcançar independência econômica se encontra nos seguintes requisitos: trabalho, economia, perseverança, esforço e inteligência.
Os homens do século, porém, acham que não é assim. Aquele programa se lhes afigura moroso e áspero. Procuram, por isso, os processos artificiais e falazes. Querem enricar de momento. Atiram-se aos expedientes, dão tacadas visando a carambolar por tabela. Todas as farsas, então, lhes parecem aconselháveis. Olham o fim sem se preocuparem com os meios. É preciso gozar, é mister saciar a fome e a sede de prazeres, de qualquer maneira. Para isso, aventuram-se em negócios arriscados, jogam cartadas decisivas. Tudo é lícito desde que colime aquele alvo, mesmo o emprego de métodos inconfessáveis.
Trabalho, economia, esforço, perseverança, restrição às expansões do egoísmo - são velharias, doutrinas caducas e passadismo que de há muito foram abolidas. Agora está em vigor a lei do menor esforço. Busca-se obter o mais com o mínimo dispêndio de energias, sem dispêndio algum, se possível. O jogo campeia infrene, da alta à baixa sociedade. Nunca se viu tantos antros engalanados, onde, sob denominações aristocratas, se explora aquele vício. O jogo acena com milhões para o dia seguinte, sem o concurso dos fatores - tempo, economia e trabalho. O ambiente torna-se cada vez mais favorável à corrupção. O dolo, a fraude, a mentira, o suborno e a opressão são manejados como elementos naturalíssimos na conquista dos ouropéis e das benesses indispensáveis aos prazeres sensuais. O cambista promete fortuna. Os corsários da política asseguram sinecuras. O sacerdote garante o céu. Tudo isso, já se vê, sem porfias, sem maçadas.
Pelo caminho estreito, apontado pelo Cristo de Deus, ninguém quer andar. Todas as vistas convergem para a estrada larga e cômoda. “Vida fácil” - eis o ideal dos homens e das mulheres da época. Lutar, renunciar, sofrer? Insânias de cérebros dementados. Brio, vergonha, dignidade? Parlapatices de moralistas de fancaria. Responsabilidades, escrúpulo, consciência? Essas coisas se resolvem de acordo com a polícia e as autoridades constituídas que, em geral, são boas camaradas.
Entretanto, quanta ilusão! O que se mostrou fácil e cômodo, é difícil e penoso. Não há caminho mais longo do que esse que parece mais curto. Não há estrada mais árdua e pedregosa que aquela que, aos olhos do mundo, se afigura suave e tapetada de macias relvas. Só o dever vence. O lutador afeito às refregas duras é quem triunfa na vida: ninguém mais. O trabalho foi, é e continuará sendo a “abençoada” maldição divina. De Deus, que é amor, até o anátema é bom, é cheio de santidade e de sabedoria. O homem, pretendendo fugir à ação desse anátema, perambula, debate-se loucamente fascinado pelo sibilo da serpente enganadora, sem encontrar o porto desejado. O que lhe parece pouco, é muito. O que lhe ofertam gratuitamente, vai custar-lhe que ele possui de mais valioso e de mais caro: vai custar-lhe o brio, a honra e a liberdade! Vai custar-lhe, finalmente, lágrimas, vexames, tribulações e humilhação.
Só o caminho estreito soluciona os problemas da Vida em todos os sentidos.
(Vinicius-Em Torno do Mestre)
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