O Natal Daí e Daqui
Vozes altissonantes anunciavam, nas esquinas, que o Natal havia chegado. Mercadores clandestinos ofereciam, em pregões, bugigangas a preços de liquidação.
Mais adiante, um vendedor de bilhetes de loteria, maltrapilho, gritava que a sorte grande estava ali, nas suas mãos, estampando na fisionomia uma esperança enganosa. Ele, que vivia na miséria, apregoava milhões no simples girar de uma esfera.
Perto dali, o jovem jornaleiro anunciava o crime do dia. Mais além, em torno de um tripé, no qual se dependurava uma panela, meninos uniformizados, ao som de uma sineta e ao toque de um pistão, executavam “Noite Feliz”, implorando ajuda para os pobres. O povo passava, alheio, apático, apressado, imerso em seus problemas.
Era véspera de Natal, dia festivo para muitos e de tristeza para outros. Raros eram aqueles que lembravam na proximidade dessa data a celebração do nascimento do Cristo entre os homens.
O enviado de Deus viera à Terra para ensinar o caminho da libertação, o roteiro da paz, a estrada da perfeição. Mas, naquela esquina, como em toda a parte, ninguém via no Natal a data máxima da cristandade, o marco de sua renovação moral e espiritual.
No coração dos homens, aquele era um dia comum.
Não havia paz nos espíritos.
À exceção da sineta que tilintava em frenesi, o que se ouvia era o mercadejar, as buzinas desordenadas, os gritos dos jornaleiros, a respiração ofegante dos que corriam na busca incessante de dinheiro.
Os espíritos conturbados, as mentes preocupadas, os corações vazios.
Em muitos, sentia-se o rancor, o ódio, a luxúria, a vingança, a inveja, o desejo. Era véspera de Natal na Terra.
No Mundo Espiritual se comemorava também a vinda do Cristo ao mundo dos homens.
Aqui, à semelhança da Terra, existem ruas, casas, praças, jardins, largas avenidas, por onde os Espíritos, de mãos dadas, transitam irmanados, em longos passeios ao pôr-do-sol.
A cidade em que me encontro é igual a tantas outras, distante da atmosfera terrestre, onde, em novos estágios depois da desencarnação, os Espíritos prosseguem no aprendizado necessário à sua evolução.
As ruas e jardins estão sempre floridos, em eterna primavera, deles exalando um doce e suave perfume que inebria as almas. Incontáveis matizes de luz colorem o céu.
O silêncio das ruas é entrecortado apenas pelo riso cristalino dos Espíritos felizes que se encontram e se cumprimentam.
Não se ouve burburinho de comerciantes, dos vendedores de loterias, o azucrinar incessante dos pregoeiros. Não se veem mendigos, nem mães aconchegando ao seio desnudo crianças famintas.
Homens, mulheres e crianças, olhos resplendendo de luz, em largos sorrisos, passam de um lado para o outro, cada qual com uma tarefa de amor fraterno a cumprir.
Na praça, um grupo de Espíritos, envergando alva túnica, entoa canções de Natal. Via-se, de longe, que de suas cabeças, nimbadas de luz, ascendiam reflexos dourados. De suas roupagens, cintilavam estrelas cravejadas, lembrando diamantes multicoloridos. A melodia, suave, quase em surdina, subia ao infinito, luminosa, em meios-tons, em espirais de luz.
Findo o cântico, juntaram-se a eles outros Espíritos, seguindo todos para um templo, cuja porta luminosa, ostentava um letreiro: Bem-aventurados os puros de coração.
Entraram, sentando-se em longos bancos, nos quais já se encontravam centenas de almas reunidas, em prece. Do alto da cúpula, penetrando o zimbório de cristal, parecendo escoar-se entre nuvens luminescentes, a luz opalina banhava-os, envolvendo-os num manto de luar.
Em alguns instantes, surgiu a figura de um venerando Mestre; ele tinha a barba prateada e os olhos resplandecentes, que irradiavam amor e bondade.
Com sua voz suave e melodiosa, ergueu os braços e pronunciou sentida prece. Ao final, dirigindo-se à assembleia, exortou:
Glória a Deus nas alturas e paz a toda a Humanidade!
Comemora-se aqui, meus irmãos, como na Terra, o surgimento do Cristo como o enviado do Pai. Cumpre, entretanto, a nós, que já deixamos o mundo da matéria, render a ele nossa homenagem em espírito e verdade.
Elevemos, pois, o nosso pensamento ao Mais Alto, para que se inundem nossos corações da luz divina que o Mestre prodigalizou aos que fazem do amor e da caridade o roteiro de suas ações. Cultivemos, meus irmãos, o espírito do Natal, acendendo em nossos corações a luz do Evangelho para que, um dia, possa reinar, entre os homens a paz que aperfeiçoa e que nos liberta.
(Espírito Humberto de Campos-Casos e Coisas, Daqui e Daí…-Heitor Luz Filho)
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