quarta-feira, 30 de outubro de 2019

                                                              Princesa

Não entendi direito quando um companheiro  me disse que iríamos, naquela noite, conhecer a princesa mais linda que já existiu! Porque meu amigo meu soubesse curioso, não quis adiantar mais nenhuma informação. Deixou-me na ansiedade até na hora do referido encontro.
Atividades intensas me ocuparam todos os minutos de um dia aqui na Espiritualidade. No entanto, eu não via chegar o momento daquele auspicioso contato.
A noite veio. Veio depois de um crepúsculo maravilhoso. Um sol muito avermelhado como que embrulhado num macio lençol de nuvens róseas nostálgicas foi substituído por um céu negro, salpicado de milhares de estrelas cintilantes. A Natureza estava soberbamente bela! Tão bela que chorei de emoção! Recordei o meu viver terreno aí no Brasil, quando também fitava o céu e nele via a grandeza da Obra Divina! Porque vivesse no campo, sempre me foi possível admirar a formosura do céu do sertão.
À hora aprazada, meu amigo me levou até um agradável recanto da Espiritualidade. Era uma espécie de horto com árvores frutíferas, cujas ramagens eram beijadas por suave vento. Além do arvoredo, reparei ainda na existência de um vasto jardim, com flores de perfume delicioso. Interessante! Embora a noite fosse de novilúnio, eu a tudo conseguia enxergar como se no céu esplendesse radiosa Lua Cheia! Como entender tal fato - enxergar tudo claramente, com nitidez, embora a noite fosse de trevas profundas?! Meu amigo explicou com profunda serenidade na voz:
- É porque estamos no sítio onde mora a princesa!
Diante desta informação, mais curioso fiquei! Quem seria esta princesa? Seria a Rainha de Sabá? Seria a Maria Antonieta? Seria a Hatasu, a única mulher que subiu ao trono faraônico, lá no velho Egito? Seria a Princesa Isabel Redentora, que libertou os escravos brasileiros em 1888? Quem seria esta princesa? Reinara onde? Quando? Como? Ou seria alguma poetisa? Alguma pintora? Alguma artista? Madame de Stael? Madame de Sevigné? Ou mesmo Madame Curie? Juro que pensei até em Maria, mãe de Jesus! Mas, se fosse ela, é claro que nem eu, nem meu amigo, a ela teríamos acesso. Assim, descartei esta hipótese. Seria muita honra para um pobre marquês! Quem seria esta princesa? Seria Helen Keller? Seria Joana D'Arc? Seria Florence Nightgale? Quem seria?
Levado pela mão, fui com ele até as margens de um regato que serpenteava entre as pedras cobertas de limo. Aí, notei a existência de rústica choupana. Estranhei. Casebre muito pobre. Meu companheiro bateu palmas. A porta de imediato se abriu e vi sair de dentro uma intensa luminosidade. Era como se os clarões intensos de um enorme sol de verão rasgassem as trevas mais profundas. E uma jovem de rara beleza apareceu como que flutuando no ar. Largo sorriso emoldurou a face e seus longos cabelos loiros eram agitados pelo vento da noite. 
Aturdido, realmente tremi de medo, embora a entidade me inspirasse simpatia e bem-estar. Passado o susto inicial, coração ainda aos saltos, desatei pranto convulso, tão emocionado estava. Ao que esclareceu meu colega, com muita bondade na voz:
- Vamos, tranquiliza-te. É a Cenira... Tu não a conheceste na Terra?
Forçando um pouco a memória, recordei-me dela, sim. De fato, eu conhecera Cenira em minha última vida no mundo. Era uma humilde lavadeira que viveu na cidade do interior onde também residi uma longa temporada. Só depois que me transferi para cá é que vim a saber que ela, sempre que possível, deixava os seus quefazeres de viúva, pejada de filhos menores, para cuidar de doentes das redondezas. E de tanta gente cuidou e cuidou com desvelo, que muitos a chegaram supor enfermeira. Muitas crianças vieram ao mundo sob os seus olhos de parteira atenta. Tanto como outros velhinhos carentes partiram para o Grande Além depositando a cabeça em seu regaço de mãe querida.
Só então é que entendi porque é que Cenira, aqui na Espiritualidade, é conhecida carinhosamente por - Princesa!
(Espírito Celso Martins-Contando Histórias)

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