sexta-feira, 4 de outubro de 2019

                                     O Suicídio

A Doutrina Espírita nos ensina que, na morte, morre primeiro o corpo físico; morto este, o Espírito se desliga. O corpo humano, como qualquer corpo orgânico, é dotado de vitalidade; é impregnado, pode-se assim dizer, do chamado fluído vital que lhe dá a vida orgânica.
Quando se inicia a fecundação do óvulo, o corpo que ali começa a se formar (e ao qual já está ligado o Espírito reencarnante) recebe uma determinada quantidade de fluído vital, suficiente para que o indivíduo viva em sua nova existência carnal o tempo necessário para que o Espírito expie erros do passado e se aprimore evoluindo.
Enquanto o corpo tiver vitalidade, o Espírito (que é a sede da inteligência e percepções) estará a ele ligado. Quando o corpo perde toda a vitalidade – pelo envelhecimento ou pela doença – o Espírito não mais tem condições de continuar encarnado. Isto é, a vitalidade é uma espécie de ímã que atrai o Espírito para o respectivo corpo carnal.
Logo, pode-se perceber o grande sofrimento do Espírito de um suicida, principalmente daquele que põe fim à vida física em plena juventude, em plena vitalidade. O corpo ao qual deu um fim deliberado está ainda impregnado de fluído vital; logo, o Espírito, como que imantado por esse fluído, permanece ligado aos despojos muitas vezes por anos seguidos. Assim, pensando em libertar-se daquilo que julgava um fardo superior às suas forças, o suicida fica preso a um fardo muitas vezes maior: o da frustração de não ter encontrado o fim almejado e do sofrimento inominável de sentir-se vivo ligado a um corpo morto.
Pode seu Espírito permanecer ligado aos despojos putrefatos até a extinção total do fluído vital, principalmente se entre seus amigos e familiares ninguém orar por ele pedindo a intercessão dos Espíritos amigos. Pode acontecer, também, que o suicida tenha amigos ou parentes já desencarnados, os quais, dependendo de seus méritos, possam vir em socorro do desventurado.
É claro que não existe uma forma rígida através da qual, invariavelmente, o suicida sofrerá as consequências de seu gesto. Temos de considerar os valores individuais, que variam de pessoa para pessoa, e que, em última análise, determinarão a duração e a profundidade do sofrimento. Entretanto, todos sofrerão as consequências de seu gesto, tanto o materialista como o espiritualista.
O materialista, que julga tudo acabar com o corpo físico, ficará atônito por sentir-se vivo, mesmo depois do suicídio. E, sentindo-se vivo, mas não acreditando na sobrevivência do Espírito, julgar-se-á ainda de posse do corpo físico; contudo, perceberá que seu corpo não mais existe e, para desespero seu, não consegue mais comunicar-se com ninguém, apesar de todos ver. O espiritualista, por sua vez, sentirá um remorso tremendo e chorará amargamente diante da inutilidade do gesto suicida para libertação dos próprios sofrimentos. 
(Valentim Lorenzetti-Caminhos de Libertação)

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