sexta-feira, 4 de outubro de 2019

                                    Pureza Doutrinária
Como existem práticas de mediunismo deformado e muitas delas bastante atraentes pela invocação aos sentidos, há sempre o risco de o iniciante, na doutrina, desviar-se do verdadeiro Espiritismo. A maioria dos que se aproximam dos Centros Espíritas vem em busca de um alívio imediato para seus sofrimentos ou de uma explicação simplista, que não exija estudos e meditação. Essas pessoas são presas fáceis dos ritualismos fantasiados de prática espírita, ou das explicações tolas dos que se intitulam orientadores.
Nas verdadeiras Casas Espíritas encontram carinho e orientação, mas as pessoas que as atendem sempre enfatizam a necessidade da colaboração do consulente, no sentido de sua reforma moral. Não sendo os resultados imediatos, como não poderiam ser, eles preferem os falsos médiuns e charlatães, que oferecem o Paraíso ao alcance das mãos.
No movimento espírita costuma haver uma certa condescendência para com as pequenas deturpações, condescendência essa rotulada como tolerância cristã. Estão errados. Tolerância deve haver para as falhas das pessoas, que devem ser esclarecidas e apoiadas, ajudando-as a saírem do ciclo erro-sofrimento. Tolerância com as pessoas, sim, mas conivência com as deturpações, jamais. As deturpações são como os cupins; vão sorrateiramente corroendo, destruindo. Quando se dá pela coisa, a madeira já está podre, desfazendo-se. As deturpações também agem assim. Num Centro A, por exemplo, alguns diretores propõem que se usem aventais brancos para os médiuns e amarelos para os esclarecedores. Que mal há nisso? Talvez seja até mais higiênico... Todos aprovam. Daí a algum tempo, alguém propõe que a prece seja feita em pé, pois é uma posição mais respeitosa. Ótimo. Aprovado. Tempos depois, alguns trazem a ideia de fazer uma solenidade para os jovens espíritas que se casarem, com flores, canção nupcial, preces em voz alta. Afinal, não estará de acordo com a alegria do ato? Será uma solenidade muito simples, para solicitar ao Alto o apoio aos jovens recém-casados. Boa ideia. Aprovamos, sim. E dessa forma, o centro A passou a adotar o “casamento espírita”. Logo mais, virão o batizado espírita, a solenidade das bodas de prata, etc.
Os Espíritos atrasados são muito influenciados pelas emanações alcoólicas e por odores especiais, dizem. Vamos, então, preparar o ambiente do Centro fazendo defumações especiais, para afastar os obsessores. As casas de vários frequentadores estão carregadas de fluidos maléficos. É preciso fazer uma limpeza nos seus lares. Um médium “forte” é incumbido de ir à casa deles para benzer os quartos e salas, recomendando que depois sejam acesas velas nos quatro cantos, enquanto os moradores farão certas orações.
Nos travesseiros das crianças há coisas malfeitas, encomendadas por inimigos, e essas coisas estão trazendo doenças para as crianças. Então, chama-se um benzedor que, após rezas e rituais, abre o travesseiro e de dentro tira o couro seco de um sapo ou um camundongo mumificado, responsável pelas desgraças que a família está sofrendo.
Poderíamos continuar a citação de ridículas crendices como essas, que chegam ao cúmulo de serem apresentadas como espíritas. As superstições, práticas fetichistas e rituais se mesclam com o folclore e são objeto de “modernos estudos sociológicos” e reportagens de revistas e televisões. Reportagens essas que, para efeito de venda, não apontam o erro, o atraso, a infantilidade de crendices que deveriam estar sepultadas há séculos. Pelo contrário, as enaltecem e justificam, documentam com belas fotografias coloridas, como se fossem a autêntica expressão da arte cabocla.
Isto tudo bate às portas dos nossos Centros Espíritas por esse Brasil afora, dirigidos, às vezes, por pessoas de ilibado caráter, mas desconhecedoras, por completo, da Doutrina Espírita e incapazes de discernir o certo do errado.
É urgente e fundamental que todos aqueles que tiverem a ventura de entender o Espiritismo lutem, dia-a-dia, pela manutenção da pureza doutrinária. Que não se omitam. Que não se escondam atrás de um comodismo preguiçoso, alegando que cada qual tem o direito de adotar a prática que quiser, e que cada qual vive a religião de acordo com seu grau de evolução intelectual. Realmente, não temos o direito de apontar o dedo ameaçador à face dos profitentes de outras religiões e cultos. Eles têm o direito de ter a religião que quiserem e adotar os cultos que bem entenderem. O que não se pode permitir é que, “em nome do Espiritismo”, se pratiquem atos totalmente condenados pela Doutrina.
Lembrem-se todos de que o indivíduo, ao se tornar espírita, não só descobriu uma verdade nova, mas assumiu o compromisso, perante Deus e os homens, de lutar pela melhoria da Humanidade. Essa luta não consiste, apenas, na frequência aos trabalhos e em fazer caridade. Abrange, também, a reforma moral. Entretanto, que reforma é essa, em que a pessoa procura tornar-se boa e pura, mas não se importando se, ao seu redor, os Espíritos humildes continuam abandonados, atrasados, dominados pelas normas erradas de proceder, adotando posturas religiosas fetichistas ou mágicas, substituindo a medicina e a higiene por práticas absurdas, de um passado remoto?
Nós só evoluiremos espiritualmente, na medida em que também ajudarmos o nosso semelhante a progredir. A Codificação nos ensina que o progresso do Espírito está intimamente ligado ao da coletividade, onde o homem está inserido.
(Ary Lex-Pureza Doutrinária)

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