segunda-feira, 3 de maio de 2021

 Imprevistos

Vou lhes contar a história de Maria da Penha. Moça simples e pobre, nascida nos secos do Nordeste. Ainda muito jovem, arranjou um companheiro. Aos dezessete anos, já tinha o Claudecir, com dois anos, e estava grávida de Maridalva, quando o companheiro demandou para as bandas do Sul. Ele queria arranjar a vida e buscar a família. Foi e não voltou. Não se sabe que destino levou. Nenhuma carta, nenhuma notícia…

Cansada de esperar o marido, na penúria do Agreste, resolveu vir para o Rio de Janeiro. Seu irmão mais velho, operário da construção civil, recebeu-a em casa dele. Penha logo arranjou umas faxinas e, como a casa fosse muito apertada, quis ter um lugar para morar com os filhos. Ganhando pouco, sem marido, teve que se contentar com um barraco pendurado no morro. Mesmo assim, sentia-se feliz com a vida. As patroas lhe davam roupas, sapatos, e estavam decentemente vestidos. Não faltava o que comer nem beber.

Claudecir, a quem chamava Deci, foi para a pré-escola, pois já contava com seis anos. Maridalva, a Dalva, ficava na creche. Pouco se viam - um tantinho à noite e outro de manhã - mas muito se amavam.

Penha estava de folga naquela segunda-feira. Seus serviços foram dispensados porque a patroa fora viajar. Aproveitou o tempo livre, pegou as crianças e foi para a cidade. Na semana seguinte Dalva faria quatro anos e queria dar-lhe uma boneca de presente. Estava contente por poder fazer o agrado à filhinha, ela que só tivera sabugos como brinquedo de infância. Se Deus lhe desse força e saúde, daria aos filhos uma vida cheia de agrados…

Na verdade, Penha se assemelhava às crianças. Mal saída da adolescência, acalentava sonhos e fantasias. Apesar de ter amargado no Agreste, era nesses sonhos que encontrava forças para superar as adversidades e alimentar a esperança. Tinha fé humana na realização de uma vida mais amena, tinha fé divina a sustentá-la durante o caminho espinhoso dos dias difíceis. 

Andaram encantados pelas lojas de brinquedos. Perderam a noção do tempo, naquele mundo mágico de beleza e faz-de-conta. Porém, as crianças começaram a reclamar, estavam famintas. Foi quando Penha retornou à realidade. Olhou para o céu e viu as pesadas nuvens, que prenunciavam um forte temporal. Sentiu urgência em voltar para casa. Deixara o varal cheio de roupas, que não podiam molhar. Comprou sanduíches para os filhos e foram apressados para o ponto de ônibus.

Distraída, Penha distribuiu as balas que vieram de troco. De repente, Dalva começou a gritar, espernear, balançando a cabeça. A mãe não sabia o que estava acontecendo e, muito menos, o que fazer. Deci foi quem descobriu o motivo do desespero da irmãzinha, dizendo:

  • Mãe, ela enfiou a bala no nariz.

Penha tentou tudo para tirar a bala de lá. Nada. Quanto mais tentava, mais a menina se contorcia e a bala parecia penetrar mais e mais. 

Uma senhora, que presenciava a cena, sugeriu com voz de experiência:

  • Leva a menina para o Pronto Socorro… Desse jeito, só vai piorar, vai ferir essa narina tão pequenininha…

O serviço de urgência do Pronto Socorro estava atribulado. Houvera um acidente envolvendo um ônibus e três automóveis, e as vítimas iam chegando, chegando… Passaram duas horas e a menina não fora atendida. Dalva já tinha chorado o que podia. Estava exausta e ofegante. Maior foi a aflição que Penha experimentava, quando a chuva veio torrencial.

Meia hora depois, a criança sorveu grande quantidade de ar e espirrou. A bala foi arrojada com força, despedaçando-se no chão.

Assim que a chuva amainou, não havendo motivo para permanecer ali, a família foi para casa. Chegaram ao entardecer e Penha ficou estarrecida diante do que viu: um deslizamento de terra sepultara a sua casinha num monte de lama. Ali, sob o barro, estavam todos os seus pertences, adquiridos com tanta dificuldade. Mas a tragédia maior não era a sua. Outras casas estavam soterradas e os bombeiros se movimentavam procurando vítimas.

Penha perguntou a que horas acontecera o incidente e lhe informaram que há uma hora atrás. Então a moça sentiu um choque: se não fosse o incidente da bala, estariam debaixo daquela massa de pedra e lama! Olhou o céu cinzento e deu graças a Deus.

Os desabrigados foram recolhidos num colégio em reformas. Apesar de morar precariamente, Penha deu seguimento à sua vida, alimentada pela fé e movida pela coragem. 

Dona Eneida, a patroa da faxina de quinta-feira, muito sensibilizada com a situação da moça, conversou com conhecidos e amigos, procurando uma solução para tão angustiante problema. Procurou e achou: uma vizinha estava precisando de uma pessoa que fosse trabalhar para um primo seu. Sua tia morrera recentemente e o moço, solteirão passado dos cinquenta, precisava de alguém para cuidar dos serviços domésticos e permanecer na casa em sua ausência. 

Poucos dias depois, Penha se mudava com os filhos. Foram morar nos fundos da residência do novo patrão. Era uma edícula espaçosa e mobiliada. Tinham agora o que sonharam antes: sofá, geladeira e até televisor em cores!

Inicialmente, o patrão impôs condições. Quis que as crianças ficassem longe da casa, que não fizessem barulho, que não o importunassem de jeito nenhum. Hábitos adquiridos na solidão. Mas, com o tempo, foi se afeiçoando aos pequenos. Dava-lhes presentinhos e ria das pequenas travessuras. Não permitia que nada lhes faltasse.

Hoje, Penha sonha com os filhos já formados, encaminhados na vida. Sonha também quando descasca uma bala de hortelã: lembra do incidente que tirou tudo o que possuíam, para lhes dar muito mais depois…

(Isabel Scoqui-A Cada Conto um Ponto)


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