segunda-feira, 10 de maio de 2021

Saudade e Solução

Não se conformava.

Solidão é penitenciária, dizia.

Desde que o esposo desencarnara, trancara-se nas paredes da revolta.

O segundo ano de viuvez infelicitava-lhe a existência.

Orava entre desesperada e rebelde.

Desejava rever o companheiro, abraçá-lo outra vez.

E como não conseguisse, expulsara do coração, egoisticamente ferido, o anjo da caridade…


Uma pobre tuberculosa que lhe traz um recém-nascido para cuidar, recebe reprimenda e xingamentos…

Deseja morrer, isto sim! Morrer para reencontrar o amor.

Fixada na saudade injustificável, lentamente deixou-se enlear nas malhas de pertinaz obsessão suicida.

Numa noite de loucura, abraçada ao retrato do companheiro querido, ingeriu tóxico violento, deixando-se arrastar pelo caminho sem fim da morte…

Mas não morreu!

Adicionando às próprias angústias as novas dores, deambulou tresloucada, anos a fio até ser vencida pelo cansaço e o infortúnio.

Orou, então, como nunca o fizera antes.

Diáfana figura em forma de mulher socorreu-a.

Esclarecida quanto à própria desdita, indagou pelo esposo idolatrado.

  • Retornou à Terra - respondeu a interpelada - para atender-lhe a saudade, no corpo do pequenino que fora repudiado, quando a mãe infeliz lhe buscara o socorro providencial…


O verdadeiro amor vence a morte e se desdobra infatigável, confiante e resignado.

Saudade insubmissa é grade de presídio e corredor de loucura.

(Espírito Ignotus-Panoramas da Vida-Divaldo Franco)


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