Saudade e Solução
Não se conformava.
Solidão é penitenciária, dizia.
Desde que o esposo desencarnara, trancara-se nas paredes da revolta.
O segundo ano de viuvez infelicitava-lhe a existência.
Orava entre desesperada e rebelde.
Desejava rever o companheiro, abraçá-lo outra vez.
E como não conseguisse, expulsara do coração, egoisticamente ferido, o anjo da caridade…
Uma pobre tuberculosa que lhe traz um recém-nascido para cuidar, recebe reprimenda e xingamentos…
Deseja morrer, isto sim! Morrer para reencontrar o amor.
Fixada na saudade injustificável, lentamente deixou-se enlear nas malhas de pertinaz obsessão suicida.
Numa noite de loucura, abraçada ao retrato do companheiro querido, ingeriu tóxico violento, deixando-se arrastar pelo caminho sem fim da morte…
Mas não morreu!
Adicionando às próprias angústias as novas dores, deambulou tresloucada, anos a fio até ser vencida pelo cansaço e o infortúnio.
Orou, então, como nunca o fizera antes.
Diáfana figura em forma de mulher socorreu-a.
Esclarecida quanto à própria desdita, indagou pelo esposo idolatrado.
Retornou à Terra - respondeu a interpelada - para atender-lhe a saudade, no corpo do pequenino que fora repudiado, quando a mãe infeliz lhe buscara o socorro providencial…
O verdadeiro amor vence a morte e se desdobra infatigável, confiante e resignado.
Saudade insubmissa é grade de presídio e corredor de loucura.
(Espírito Ignotus-Panoramas da Vida-Divaldo Franco)
Nenhum comentário:
Postar um comentário