Reparação Oportuna
João dos Santos, rapaz vistoso, galanteador e bem posto na administração pública, namorava somente para passar o tempo. Dizia ele que era preferível conversar com uma garota do que ficar nos botecos tomando cerveja e falando sobre coisas de somenos importância. Ele preferia conversar com as mocinhas, esses enfeites da natureza, mas sem assumir qualquer compromisso. Esse modo de proceder durou muitos anos, sem que se decidisse casar. Sua última namorada tinha 18 anos, enquanto ele já atingia os 36.
Porque já namorava há muito tempo, seus amigos pensavam que dessa vez ele se casaria, tendo em vista que ela era uma moça bonita e que muito o amava, apesar da diferença de idade. Qual foi a surpresa de todos, quando ele decidiu romper, dizendo que não poderia casar-se porque não a amava e, portanto, não iria tomar-lhe mais tempo. Diante dessa decepção, talvez para demonstrar que havia quem gostasse dela, casou-se com um moço dentro de pouco tempo.
Como esse casamento não estava baseado no amor, apesar dos filhos que iam chegando, o seu marido foi tornando-se cada vez mais intolerante e dedicado à bebida, ao ponto de após alguns anos, viver jogado nas ruas, onde morreu, deixando a esposa com cinco filhos menores, um dos quais doente de mal incurável, sendo internado devido às constantes crises que o dominava. Diante dessa situação de penúria, pois o marido esbanjara o pequeno patrimônio com o seu vício, ela, para sobreviver, teve que procurar emprego como doméstica, única coisa que sabia fazer.
Nessa procura de porta em porta, o "destino" colocou-a diante de seu ex-namorado de 16 anos atrás, pois esse foi o tempo transcorrido, sem que jamais se encontrassem.
Ao bater na porta de sua casa e ser atendida pelo mesmo, sentiu-se surpresa e envergonhada de apresentar-se daquela forma: pobremente vestida e envelhecida prematuramente em virtude da miséria em que vivia. Mesmo assim, criou coragem e disse-lhe do motivo de sua visita.
João dos Santos, embora fosse uma pessoa muito preocupada em viver da melhor forma possível, segundo o ponto de vista dos materialistas, sempre foi de bom coração. Assim sendo, entristeceu-se com a situação de sua antiga namorada e prometeu-lhe que lhe arrumaria uma boa colocação junto a algum de seus amigos casados. Para tanto, pediu-lhe que voltasse no dia seguinte para saber a resposta. Ainda constrangida, mas como necessitava urgentemente de trabalho para garantir o alimento dos filhos, prometeu que voltaria no dia seguinte.
Nessa noite ela nem dormiu, só em rememorar toda a sua vida e a emoção que vivera nesse dia. Nesse estado de espírito é que, na manhã seguinte, dirige-se à casa do galanteador de antanho, agora um senhor de 54 anos, mas bem conservado.
Ao ser atendida, ouviu o seguinte:
- Com a família numerosa que você tem, para viver razoavelmente, você necessita de um ordenado de $ 500,00 (Isso na década de 60), o que vai ser difícil conseguir. Assim sendo, resolvi fazer-lhe uma proposta: você quer casar comigo?
Se da primeira vez ela quase desmaiou, dessa não resistiu e caiu ao solo, causando grande susto ao seu atual benfeitor. Socorrida, reanimou-se.
Após os dias necessários exigidos pelas leis, casaram-se e viveram quase vinte anos juntos, sendo ele um ótimo marido, bem como um educador exemplar para os enteados. Agasalhou, inclusive, o doente irrecuperável, que estava internado, dando a ele o amparo amoroso de um dedicado pai, em cujos braços morreu em uma de suas crises, que se agravavam com o passar do tempo.
Ao morrer o nosso focalizado, seus enteados, alguns já casados, prestaram-lhe singela homenagem de gratidão, que partia de corações agradecidos, pois além do teto e alimentos, receberam a instrução necessária para as lutas da vida, além da educação que os tornaram bons cidadãos.
Esta história verídica, vem demonstrar que há muitas maneiras de se fazer a caridade. No caso presente, representou uma doação total, libertando uma família da fome; reparando um problema sentimental, casando-se; mas, principalmente, uma doação de si mesmo, educando crianças, consolando um doente incurável e tranquilizando uma mãe em situação desesperadora.
Tanto desprendimento e dedicação, são raros nos dias que passam, mormente nos casos de pessoas que dobram a casa dos cinquenta anos, pois alegam que já trabalharam muito e agora necessitam descansar, ficar de "papo para o ar", como na canção popular.
João dos Santos era um "bon vivant", que se regenerou, pondo em prática a caridade, embora não fosse religioso. Um autêntico samaritano.
(Antônio F. Rodrigues-Contando Histórias)
Nenhum comentário:
Postar um comentário