Pimenta no Doce
Carlota Tobias era mãe extremosa. Expressão meiga. Voz dócil. Atitude delicada. Vendedora, trabalhava fora boa parte do dia. O restante do tempo dedicava às obrigações do lar. Conquistara conforto e facilidades.
Entretanto, tinha constantes aborrecimentos com o filho único. Intolerante e agressivo, o rapaz desperdiçara todas as oportunidades de estudo. Nenhum trabalho lhe servia e, desocupado, exigia mais e mais recursos para a vida fútil que levava.
Carlota cedia e contornava a situação. Espírita convicta, estava sempre nas reuniões de estudo e nas tarefas de assistência. Com frequência, os companheiros lhe notavam a fisionomia triste e uma lágrima furtiva que ela se apressava a enxugar.
Certo dia, resolveu se orientar com Celso, o dirigente das atividades. Quase em pranto, começou a conversar.
- Estou preocupada. A cada dia, meu filho está mais difícil. Não estuda, não trabalha e me cobra muito. Estou ciente de que se trata de reencarnação complicada. Reajuste familiar. Não sei, porém, o que mais fazer.
O dirigente, que lhe conhecia a história, ouviu com atenção e ponderou, firme:
- Realmente, seu filho é Espírito rebelde que veio para aprender em sua companhia. Mas você colocou pimenta no doce.
A vendedora surpreendeu-se com a fala do amigo, e observou:
- Não entendo o que quer dizer.
O companheiro retomou a palavra e explicou:
- Você deu amor e carinho ao seu filho. Ensinou a ele com o exemplo de trabalho e disciplina, conduta correta. Este é o doce.
Carlota não conteve a ansiedade e interrogou, intrigada:
- E a pimenta, o que é?
Celso olhou a amiga com bondade e completou, sereno:
- Mimou demais.
(Espírito Hilário Silva-Contos e Crônicas-Antônio Baduy Filho)
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