Partida Necessária
Anos setenta. A turma de jovens preparava-se para encarar o futuro. No final do próximo ano, fariam o vestibular. Cada um iria à procura do seu destino. Sabiam que não restava muito para estarem assim juntos, planejando, prevendo, sonhando.
Dentre os seis jovens, destacava-se Francisco. Tinha forte personalidade, era possuidor de uma inteligência vivaz, gostava de ler e escrever; a comunicação era o seu objetivo, pois queria ser diplomata. Há muito vinha se preparando. Falava fluentemente o inglês, o que o habilitou a uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Contava com dezessete anos, uma namorada charmosa e uns amigos metidos a poetas.
Francisco andava aborrecido. Não via a hora de botar os pés no chão norte americano. Mas para seu desencanto, houve um corte de verbas e a bolsa não vinha, não vinha...
E o rapaz sofria intensa ansiedade, que era compartilhada por todos que conviviam com ele.
Condoído por essa situação, seu pai resolveu presenteá-lo com uma viagem para a Alemanha. Custearia as despesas de um ano de estudos no país predileto de seu filho. A notícia trouxe um sopro renovador. O sonho se concretizaria no início do próximo ano.
Mas Francisco não queria esperar. Findava o primeiro semestre e ele queria estar em solo alemão no segundo. Havia um impedimento: ele ainda não completara dezoito anos. Por isso, moveu mundos e fundos para conseguir a emancipação. Restava ainda a necessidade de trocar a passagem. Contatou todas as agência de viagem e até conseguiu trocá-la com uma desistente de última hora.
Assim, apressadamente, fez as malas, despediu-se e embarcou naquele início do mês de julho.
A família e os amigos experimentaram um misto de saudade precoce, alegria e preocupação relacionadas ao jovem viajante. Ainda envoltos no calor da esperança, foram colhidos de chofre, pela dolorosa notícia: o avião pegara fogo, fazendo uma aterrissagem forçada na França. Os bombeiros entraram em ação imediata, porém os gases tóxicos ceifaram a vida dos passageiros. Houve mais de uma centena de mortos.
Foi um transtorno geral. Cada um daqueles, que conviviam com Francisco, teve que se arranjar com a dor da perda. Nesse despreparo para enfrentar a morte, alguns chegaram a blasfemar.
O tempo foi passando. Os jovens seguiram novos rumos, distraídos com as próprias experiências, ficando aquela ponta de saudade.
Já a família, fundamente ferida, não conseguia se recuperar. A ferida fora por demais profunda.
Então, intuídos pela misericórdia divina, resolveram visitar o médium Chico Xavier em Uberaba.
Encontraram casais que passaram por experiência análoga. A dor compartilhada parecia doer menos.
Centenas de pessoas, sofredoras de alguma forma, buscavam ali o conforto espiritual, a palavra mansa e esclarecedora do médium. Muitos embalavam consigo a esperança de receber alguma mensagem pela pena do Chico. E voltavam sempre. Em cada vez, traziam consigo a esperança, que se renovava ao contato com o ambiente salutar. Vinham uma, duas, três, quantas vezes fosse possível.
Um ano e nove meses. A família de Francisco estava mais conformada. Agora já tinha conhecimento da continuidade da vida após a morte. Sabia que somos todos viajores e que, em determinado tempo, temos que retornar à pátria espiritual. Que tudo obedece a um plano perfeito e que Deus, em sua justiça infinita, não colhe frutos verdes. Mas a saudade era tanta...
Mais uma longa viagem à Uberaba. Desta vez mais serena. Os trabalhos transcorrem, o lápis de Chico grafa celeremente mensagens de desencarnados. Bendito seja pelas lágrimas que secou, pelas esperanças que acendeu, pelos livros, que anos a fio, foram delineando o mundo espiritual. Já é madrugada. Há mensagem de um jovem. A expectativa faz muitos corações baterem forte.
Não era ele... Mas havia um texto repleto de dados precisos, de informações que eram de conhecimento muito restrito, o que endoçava a veracidade da comunicação. Eis que, em determinado trecho, o Espírito se faz portador de notícias de Francisco. Fala a respeito das condições de sua desencarnação, já prevista em sua trajetória evolutiva. Fala das providências socorristas em seu favor. Sossega, reconforta, alivia. A vida se expande aquém e além da experiência material. O ser humano eterniza-se. Tudo passa a ter novo sentido.
(Isabel Scoqui-A Cada Conto Um Ponto)
Centenas de pessoas, sofredoras de alguma forma, buscavam ali o conforto espiritual, a palavra mansa e esclarecedora do médium. Muitos embalavam consigo a esperança de receber alguma mensagem pela pena do Chico. E voltavam sempre. Em cada vez, traziam consigo a esperança, que se renovava ao contato com o ambiente salutar. Vinham uma, duas, três, quantas vezes fosse possível.
Um ano e nove meses. A família de Francisco estava mais conformada. Agora já tinha conhecimento da continuidade da vida após a morte. Sabia que somos todos viajores e que, em determinado tempo, temos que retornar à pátria espiritual. Que tudo obedece a um plano perfeito e que Deus, em sua justiça infinita, não colhe frutos verdes. Mas a saudade era tanta...
Mais uma longa viagem à Uberaba. Desta vez mais serena. Os trabalhos transcorrem, o lápis de Chico grafa celeremente mensagens de desencarnados. Bendito seja pelas lágrimas que secou, pelas esperanças que acendeu, pelos livros, que anos a fio, foram delineando o mundo espiritual. Já é madrugada. Há mensagem de um jovem. A expectativa faz muitos corações baterem forte.
Não era ele... Mas havia um texto repleto de dados precisos, de informações que eram de conhecimento muito restrito, o que endoçava a veracidade da comunicação. Eis que, em determinado trecho, o Espírito se faz portador de notícias de Francisco. Fala a respeito das condições de sua desencarnação, já prevista em sua trajetória evolutiva. Fala das providências socorristas em seu favor. Sossega, reconforta, alivia. A vida se expande aquém e além da experiência material. O ser humano eterniza-se. Tudo passa a ter novo sentido.
(Isabel Scoqui-A Cada Conto Um Ponto)
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